talvez o amor dela só saiba amar se houver plateia.
talvez eu só saiba sangrar em silêncio.
ela me expôs.
como quem derrama um copo e diz foi sem querer.
mas não foi.
foi aquele tipo de crueldade suave, disfarçada de riso,
eu fiquei lá, sorrindo feito idiota,
enquanto por dentro eu mastigava vidro.
ninguém percebeu.
porque eu aprendi a sangrar bonito.
com postura.
com a porra de uma elegância quase amarga.
ela disse que me ama.
mas o amor dela tem cheiro de palco,
de aplauso, de luz quente queimando a pele.
ama como quem quer provar alguma coisa.
ama pra ser vista amando.
e eu?
eu amo como quem implora por silêncio.
como quem quer arrancar o próprio coração com as unhas,
só pra ver se ainda pulsa.
eu amo errado, sempre amei.
sou boa nisso
em fazer do amor um campo de batalha
e de mim mesma o alvo fácil.
depois todo mundo vai dormir,
a música acaba, a noite acontece,
e sobra só o eco das risadas dela na minha cabeça.
eu fumo mais um cigarro,
olho pro teto,
e penso que talvez ela nunca tenha me visto de verdade.
ou pior... tenha visto e mesmo assim escolhido rir.
o amor dela é um show.
o meu é um quarto escuro depois da festa.
e eu já tô cansada de ser a piada.
- Rebeca Barros













