Pouca coisa tem me feito sentir vivo ultimamente, então, me apego ao pouco que ainda faz as minhas veias pulsarem.
No começo, as músicas tinham um forte poder sobre o meu dessentir, mas, com o tempo, o desgaste veio junto à falta de identificação. Eu não amava, logo, também não sofria pela falta de um amor — a maioria das músicas parece ser sobre ganhar, ou ter, ou perder um amor. Sobravam as canções sobre felicidade e tristeza, e para alguém que se sentia impassível eu estava muito distante de reconhecer a minha vida naquelas letras. Nenhuma música falava sobre ser alguém incapaz de sentir.
Então, pulei para as relações.
Busquei por amigos que fossem parecidos comigo, porém, essa filtragem não alcançava outras pessoas além de mim. Provavelmente, porque — se alguém assim existe — esta pessoa não está em busca de amizades. Optei por pessoas diferentes e, de início, aparentou ser uma ideia que funcionaria. Entretanto, quando a amizade chegava há um nível que exigia sentimentos de ambas as partes, eu já não me encaixava no quesito amigo. Ou eu era dispensado, ou decidia que era a minha hora de ir embora.
Passei, então, para os amores. Foi aí que encontrei o meu placebo entre o pensamento constante e irritante de um só nome — que não era o meu. Alguém capaz de retirar do meu coração as teias acumuladas pela falta de emoção. Eu não fazia ideia do quão poderoso um "eu te amo" é, e que ele podia me reviver cada vez que fosse pronunciado para mim. Voltei a me sentir vivo, era incrível. Mas, como alguém que desconheceu esse sabor por muito tempo, eu quis mais. Socialmente, é errado ser alguém que deseja por mais amor além do que o de uma única pessoa. Vivi muitos amores e nenhum deles me permitia querer mais, porém, em todo esse meu trajeto, o meu corpo é o que continuadamente me dá rumo por, essencialmente, querer alguma coisa — mesmo que fosse desconhecido para nós. E negar isso ao meu companheiro seria injusto, então, quando os amores não iam, eu partia.
Pelo fato da minha forma de amar continuar me sendo negada, o amor pelas pessoas foi perdendo o efeito sobre mim.
Descobri o que buscava e que, talvez, possa me curar. Mas, agora, procuro por amor desimpregnado da humanidade, nos animais, nas florestas, nas paisagens. Nesse pôr do sol. Tem funcionado, no entanto, a natureza é instável e, consequentemente, o amor que ela proporciona também. Os animais possuem as suas próprias vidas e vontades, a chuva acaba, a floresta fica sombria. Esse pôr do sol, se põe. E eu permaneço colhendo amor naquilo que me lembra a vida, para poder me sentir vivo.