The ghost of my memories — Keith + Alexis
-- Eu me conheço bem demais para acreditar que a curiosidade ficaria maior se nomeasse o áudio assim, então apenas se deixe guiar por sua voz. Primeiro, Keith Widmore, não acredite nas suas memórias antes de escutar esse áudio. Você tem uma vida melhor do que essa, mesmo que não se lembre agora. Segundo: a Divisão é uma fraude. Escute sua própria voz a partir de agora e só pare quando a verdade estiver intacta novamente. Bom, sem mais delongas, eles fizeram uma lavagem cerebral em você, tanto agora como em todas as outras malditas vezes, e a partir do momento em que comecei a lembrar de tudo, comecei a gravar esses áudios pré-wipers para que eu não perca meu foco. Te levam pra uma sala e lá implantam novas memórias, olhe só a ironia, mas você não se toca, e é por isso que resolvi fazer isso. Terceiro: seu pai está morto, provavelmente por causa desses agentes de merda dessa corporação ridícula. Alexis e Elliot são seus únicos aliados nesse inferno, no entanto, você já deve saber agora: recorreria primeiro à Alexis. Visando esse ponto, tem um papel no bolso de sua jaqueta, na parte de dentro. Nele vai conter uma mensagem que não precisaria de muito para decifrar, você vai saber quando começar a ler, mas apenas depois de ouvir todo o áudio. Não confie em ninguém da Divisão, eles não são amigos. Continue no seu foco de acabar com tudo aquilo, mas, pelo amor de Deus, não seja tão idiota à ponto de acreditar no que aquela vadia da Karen diz. No entanto, também não faça besteiras. Mantenha sua posição e identidade, você vai precisar. Se ainda não lembrou de nada do que eu disse, escute de novo, mas só saia deste quarto quando souber o que passou por todo esse tempo e sentir uma vontade imensa de derrubar o prédio da Divisão com as próprias mãos. De qualquer forma, descanse por uma hora e ligue para a pessoa que você mais quer conversar no momento, depois de deixar sua mente aberta. Não questione, apenas faça. -- E então apertou o botão de gravação do celular para parar. Imediatamente salvou o áudio e bloqueou o aparelho, largando em cima da cama mesmo. Já estava na hora.
Ajeitou-se em frente ao espelho, completamente trabalhado na falsidade, como era de costume por ali desde então, e saiu do quarto, certificando-se de que estava trancado com duas voltas. Não poderia arriscar que alguém entrasse ali e pegasse seu celular, apesar deste ter senha, mas ainda sim era um alvo fácil se ele fosse despreparado, coisa que não era. Se tinha uma coisa que Keith não era, era bobo. Há muito tempo fazia aquilo e estava pronto para o que quer que viesse a acontecer. Ele andava pelo corredor com toda sua marra, ignorando os que passavam para o lado contrário dele, e esperou na coluna de um corredor trancado. Ao longe uma agente vinha. Tudo o que ele podia fazer era agradecer por não ter que aguentar Karen àquela hora, seria uma tortura. -- Pronto? -- A mulher perguntou para ele com as rugas em sua testa. -- Vamos logo, eu tenho um jantar pra preparar. -- Ajeitou a jaqueta e se fixou na porta, ignorando a mulher, mas ninguém ali se surpreendia com a postura de Keith, ele tinha dado um jeito de não ligarem. Além de fingir bem, sabia também mentir quando precisava. Provavelmente deveriam pensar que o jantar era para ele e Karen, mas a verdade é que ela estaria ocupada se esfregando em qualquer imbecil de uma festa, como sempre, e ele reclamaria? Não, nunca. Não havia coisa melhor do que o sossego, e então tomou rumo pelo corredor quando a porta se abriu, seguindo a mulher bem atrás, até chegarem em uma sala. Keith se deitou na cadeira ajustável e fechou os olhos, se confortando ali enquanto eles faziam o de sempre.
Quando abriu os olhos, a luz atingiu sua visão o fez levantar uma mão para tampar. Se levantou imediatamente, após se adequar. -- A Karen já voltou? -- Perguntava meio zonzo, e a mulher que o acompanhou apenas negou com a cabeça. Deu uma risadinha para si, ao imaginar que a amiga estaria se divertindo, e só pensava em que horário ela voltaria e se estaria bem. -- Pode voltar para seu quarto, Keith, está tudo bem com você. -- Ele assentiu e passou pela porta, seguindo caminho até o próprio quarto, depois de cumprimentar alguns conhecidos no corredor. Ao destrancar a porta, ligou a luz do quarto e jogou as chaves no criado-mudo, após trancar-se ali dentro. Imediatamente tirou a jaqueta e se jogou na cama, mas algo o incomodou na aterrissagem. Era seu celular. Pegou-o rapidamente e desbloqueou, tocando em um jogo, e mesmo depois de alguns minutos, surpreendeu-se quando o mesmo apitou. Não se lembrava de ter botado pra alarmar nada, mas na anotação do alarme dizia "escute o áudio". Se fosse burro o bastante, não escutaria, mas ele era muito mais do que isso e se tinha alguém em quem confiava mais do que Karen (ou pelo menos era o que ele acreditava agora), era em si mesmo. Ao procurar na lista, encontrou um primeiro que tinha como título: "Gemido da Alicia" e não precisou de mais nada para rir alto. Alicia era uma das agentes da Divisão a qual sempre puxava suspiros de Keith, por mais que ele tentasse algo com ela e apenas recebesse patadas. Ao apertar o play, o que escutou, depois alguns minutos de gravação, o fizeram ter flashes aleatórios em sua cabeça. Era tudo incerto, mas ele entendia agora, ao final do áudio.
Assim que largou o celular de lado, sua memória agora quentinha de volta, ele pôs as mãos atrás da cabeça e relaxou, assobiando uma música qualquer de um tempo atrás, mexendo os pés e a cabeça no ato. Deixou que sua mente ficasse aberta, maquinando seus passos até a noite e o que faria até o dia terminar. No entanto, acabou pegando no sono, mas quando acordou, a primeira coisa que veio à mente foi pegar o celular e discar um número que ele agora lembrava. Tocou... Tocou... Tocou... E quando pensou em desligar, tentar outra hora, uma doce, amável e conhecida voz percorreu seus tímpanos. Ele teve de sorrir, mas acabou apertando o botão vermelho, finalizando a ligação e voltando a olhar para o teto, esperando a coragem invadir-lhe.