Ela é uma mulher, mas ainda aprendendo sobre o que é isso. Ela também pensa, em muitos momentos, se mudaria algo de seu passado, se lhe fosse dada a permissão de voltar com a mesma “cabeça” que ela tem hoje. Mas, depois de alguns segundos, tal ideia lhe parece um tanto absurda, e mesmo com tal chance, pensa que não mudaria nada. Não que nunca tenha feito algo de que se arrependeu - aliás, seu caminho foi ladrilhado com muitos arrependimentos - mas porque não sabia muito bem quais seriam os resultados de toda essa mudança no seu “tempo”. Preferia não mexer com o que não conhecia tão bem.
Ela também tentava se desprender de seu passado. Mas, por outro lado, era ele quem lhe fornecia certa bagagem, algum aprendizado sobre o que se deve evitar e quais atitudes não tomar. Já havia passado por situações extremamente desagradáveis e, se por um lado, gostaria de esquecê-las, por outro, gostava da ideia de poder evitá-las. Gostava de seu amadurecimento, ainda que este ainda seja um tanto imaturo. Ela mesma, que já teve tantas certezas quando mais nova, hoje percebia que, na verdade, não sabia de tanta coisa. Mas fica satisfeita quando vê em quem ela está se transformando, esse processo de “vir a ser” em eterna metamorfose - mas que, de certa forma, preserva uma certa essência, que torna possível reconhecê-la.
Ela também tem testado novas cores. Novos estilos, comidas, hipóteses, ideias. Lembra de sua versão adolescente e pensa no quanto caminhou para chegar a ela mesma, adulta. E ainda, no quanto caminhará para conhecer sua “eu” senhora, que lhe olhará com certa ternura e, assim ela espera, com orgulho. Aliás, Ela espera por esses (re)encontros, e fica divagando sobre isso com o café esfriando na xícara. Ela, que por tanto tempo passou evitando espelhos, com medo do que veria em seu reflexo e dos sentimentos que isso lhe traz, passou a querer saber mais sobre aquela que a via do outro lado. Ela, que evitava falar de si, por julgar ser uma arrogância - oras, ninguém tem interesse pelo que penso ou pelo que faço - passou a ter mais interesse em si mesma, em saber sobre o que pensava, sobre seus gostos, ideias, paixões. Quase um estudo antropológico, ou talvez uma matéria jornalística, gostaria de saber mais sobre si, sobre suas “eus”, que também são suas amigas e irmãs. Sentia a necessidade de convocar uma reunião entre todas ali presentes, para fazer um balanço geral e colocar todos os pingos em seus respectivos “is”.
Mas, Ela também tem obrigações fora de si. Ela tem que trabalhar, Ela tem que estudar, Ela tem casa para cuidar, Ela tem talvez cachorros, gatos, passarinhos, ou até mesmo filhos, para olhar. Ela tem atividades para entregar, documentos para autenticar, roupas para vender, pacientes para atender, pesquisas para serem feitas. Ela também tem todo um mundo fora de si, mas que também está nela e a atravessa, com notícias - boas e ruins - decisões que a atravessam, conjuntura, economia, política, Ciência. Tem também os conflitos em casa, no trabalho, no condomínio, na família, com vizinhos ou mesmo com “colegas” dos mais variados, nos mais diversos espaços. Tudo isso, antes era julgado como distrações. Ela sempre pensava que tudo era tão banal e servia apenas para tirá-la dela mesma, para amargar seu café. Mas, aquilo era seu mundo, era ela, era o barro do qual foi construída.
Somado a tudo isso, estava o seu ser “mulher”. Era-lhe tão natural que fosse feminina, gostava de suas roupas acinturadas, de suas sandálias delicadas e de suas unhas carmim. Era-lhe tão comum a preocupação com seus cabelos, com sua pele com poros dilatados, com seu peso - que estava sempre “acima” de alguma coisa. Mas, conforme ela se via no espelho com um pouco mais de lucidez, com os olhos bem abertos, via mais nítida sua silhueta. Ela vê suas pernas, suas estrias e manchas, suas linhas de expressão - e que expressão viva! - que não lhe davam uma aparência cansada, mas sim um certo ar de força. Passou a sentir com calma cada parte de seu corpo, de seu cabelo, de tudo aquilo despido de seu uniforme diário de “mulher”, sem seus brincos, seus sapatos apertados, sem o sufoco de ter que ser algo ou alguém. Sua única preocupação, agora, é ser. Ser ela, ser uma personagem criada por ela mesma, ser sua própria história, de forma amorfa, mas ser.
Com toda essa matéria, maturada por seus poucos anos de mulher experiente, esculpiu a si mesma e tornou-se artista, pensando em suas atividades, suas obrigações, todos os fios que conduzem sua vida, além do bom papo de fim de tarde com suas outras “eus”, em lembranças do passado e projeções do futuro.