Vamos pensar criticamente: Uma introdução à magia do caos
O texto a seguir foi escrito por Adrian Savage e a versão que tenho foi publicada no antigo site do Chaosmatrix (não é o primeiro e nem último site a publicar esse texto - ou partes dele - que veio do livro An Introduction to Chaos Magick de 1989). Savage é claramente inteligente e traz alguns pontos interessantes — na verdade, minha intenção original era traduzir o livro como está. No entanto, ao lê-lo, notei erros horríveis com tanta frequência que não consigo publicá-lo apenas com notas de correção.
Senta que lá vem bobagem...
Caos — a ausência de forma e ordem — acima de todas as outras palavras, o caos assombra o homem ocidental. Ele preenche sua mente com visões de mares desaguando em rios, homens dando à luz sapos, peixes voando através de nuvens de grama. É o coração sem nome de toda história de terror — o inesperado, o imprevisível, o incontrolável, o sem lei — o caos.
Desde o início de sua história, o homem ocidental buscou derrotar o mais implacável dos inimigos — o caos. Ele buscou palavras e gestos para domar as vontades caóticas e arbitrárias de seus primeiros deuses. Ele criou a imagem de uma divindade todo-poderosa que não apenas trouxe ordem do nada, mas é a essência da lei. Ele escolheu inúmeras tiranias, preferindo a perda de sua própria alma à visão de cães correndo soltos em suas ruas. Ele examinou o mundo ao seu redor, na esperança de encontrar leis inflexíveis. Ele quase destruiu as condições originais de seu planeta — os próprios processos que tornam sua vida possível — para controlar cada faceta de sua existência, muitas vezes sacrificando seus instintos mais profundos em nome de sua necessidade de estabilidade. E onde não conseguia encontrar nem impor ordem, criou mitos, dogmas, especulações filosóficas intrincadas, fórmulas ocultas e teorias científicas estéreis, assassinando qualquer um que ousasse questionar essas fantasias — tudo para negar o terror que sente ao se deparar com o que não consegue compreender.
Do passado mais sombrio até este exato segundo, sua imagem do sábio tem sido a de alguém que conhecia a lei secreta oculta sob o mundo aparentemente arbitrário ao seu redor. Sua visão do mago tem sido a de alguém que poderia explorar essa lei para submeter à sua vontade os eventos em constante mudança da vida.
No entanto, a partir do final dos anos 1960 e continuando até o presente, vozes vindas da Inglaterra – o menos caótico dos países, lar de jardins bem cuidados, chá às quatro e um sistema de classes que fixa o lugar de cada pessoa desde o primeiro suspiro – proclamaram o caos como a única realidade, a verdadeira fonte de toda a Magia. Irritadas e, às vezes, estridentemente, elas gritam denúncias contra aqueles que proclamam a busca pela ordem divina. Elas veneram o inimigo mais antigo: o caos.
Para entender essa rebelião, precisamos primeiro explorar as tradições que a geraram. Como em uma obra deste escopo não podemos examinar todo o corpo do pensamento ocultista, teremos que nos limitar às correntes mais relevantes para a Magia do Caos.
Vamos começar pela Europa Medieval. Foi durante esse período que se desenvolveram três ramos do ocultismo que ainda influenciam o pensamento mágico ocidental até hoje: Wicca, Satanismo e Magia Cerimonial.
A wicca e o satanismo não se originaram na Idade Média, mas sim no século 20.
Dos três, o Satanismo é o mais fácil de discutir — e de descartar. Devido ao interesse contínuo da Igreja no assunto, o Satanismo é o mais cuidadosamente registrado e mais bem pesquisado dos três ramos. Seus conceitos básicos também são os mais simples: a reversão completa das crenças cristãs. O satanista celebra a Missa em Latim ao contrário, zombando dela.
Essa é uma representação sensacionalista de "missas negras" ou inversões ritualísticas, associada principalmente a relatos igualmente sensacionalistas dos anos 80-90 sobre satanismo. Obviamente não é uma prática observada entre aqueles que se identificam como satanistas, particularmente no satanismo filosófico moderno. Mais um relato de um autor ocultista contaminando um bom texto com afirmações sem base e sem pesquisa. Todo dia me faço a mesma pergunta: por que diabos tantos praticantes e autores de movimentos ou crenças religiosas contraculturais espalham propagandas (porque isso É propaganda) enraizadas em iniciativas cristãs anti-heresia? Isso nunca vai parar de me intrigar…
Ele exalta a ganância em vez da caridade, a vingança em vez do perdão. Assim como o cristão vê Cristo como um salvador pessoal que recompensará uma vida inteira de privação servil com uma eternidade de bem-aventurança após a morte, o satanista vê o Diabo — que, aliás, o cristão identifica como o inimigo da ordem divina, o Caos Encarnado — como um salvador pessoal que o recompensará com poder e riquezas terrenas por estuprar a esposa de seu vizinho. Em ambos os casos, o objeto de adoração é visto como um mestre externo cuja vontade deve ser obedecida.
Se você me dissesse que essa palhaçada foi escrita por um cristão americano do sul durante o auge do pânico satânico dos anos 80, eu acreditaria.
Ao contrário da Wicca e da Magia Cerimonial, o Satanismo parece ter mudado pouco desde o dia de seu nascimento. Desde o início até o presente, sua corrente mais forte tem sido um clamor contra a moralidade sexual antinatural defendida pelo cristianismo. Na Idade Média, pode ter sido uma forma extrema e bastante perigosa de terapia para problemas sexuais. Assim que a Igreja parou de queimar seus defensores, o satanismo passou a ser uma forma de chocar os mais socialmente convencionais.
O satanismo organizado é um fenômeno moderno e evoluiu significativamente, de formas reacionárias anteriores para diversas expressões filosóficas e ateístas atuais. Alguns "cismas" aconteceram, e muitas igrejas nasceram e se dissolveram — muitas devido a divergências de opinião. Então, sim, mudou bastante. Não vou continuar repetindo o fato de que o satanismo organizado não existia na Idade Média.
Ao contrário do Satanismo, até recentemente a Magia Cerimonial não se apresentou como uma rebelião contra o Cristianismo. Os cerimoniais, de fato, tinham o cuidado de evitar qualquer coisa que a Igreja considerasse herética. Frequentemente, eram homens devotos que sentiam estar explorando os mistérios mais profundos da fé cristã. Em seus rituais, ele invocava a proteção do Deus dos judeus e dos cristãos e a ajuda dos arcanjos e anjos do panteão judaico-cristão. Se tivesse que evocar demônios, o fazia em nome do Senhor e invocava apenas aqueles demônios que seu Deus havia ligado ao serviço da humanidade. Ele nunca foi perseguido pela Igreja.
Nah, só porque Dee não foi perseguido não significa que ninguém era. A linha entre magia aceitável e herética era fluida e frequentemente perigosa. Acusações de conjuração ou negociação com demônios, mesmo que feitas "em nome do Senhor", poderiam facilmente levar à perseguição. Aliás, pessoas já foram perseguidas por muito menos.
Havia e há um forte preconceito de classe e sexo dentro da Magia Cerimonial – seus praticantes tradicionalmente eram homens da aristocracia. Esse preconceito permeava todo o campo. Seus rituais eram dirigidos a entidades masculinas; eram longos, práticos apenas por aqueles com muito tempo livre; eram frequentemente em grego e latim e envolviam conhecimento de geometria e matemática, todas características da classe erudita, e exigia vestes e ferramentas suntuosas que só os ricos podiam pagar.
O mais indicativo de seu viés de classe era sua curiosa orientação científica. Como um cientista, o Cerimonialista acreditava que o efeito desejado só poderia ser alcançado usando as ferramentas adequadas no procedimento adequado – qualquer desvio trazia fracasso certo. Como o cientista – o que, aliás, ele frequentemente era – o Cerimonialista buscava conhecimento. Tendo pouca necessidade material, ele frequentemente buscava os segredos do universo visível e invisível puramente para o conhecimento. Embora o Cerimonialista trabalhasse sozinho na maioria das vezes, ele geralmente aprendia sua arte em uma loja – subindo na hierarquia, guardando os ensinamentos secretos de sua própria posição, enquanto obedecia servilmente a seus superiores na esperança de uma eventual promoção. A estrutura hierárquica da loja era paralela à visão do universo do Cerimonialista, cada nível representando um plano claramente definido que ele havia examinado e dominado minuciosamente.
A transmissão de sistemas complexos (como a Kabbala ou o Hermetismo) frequentemente ocorria por meio de relações mestre-discípulo ou círculos intelectuais informais antes do surgimento de lojas formais nos séculos XVIII e XIX (como as Ordens Rosacruzes ou Maçônicas). Portanto, "geralmente aprendia sua arte em uma loja" se aplica mais ao final do século XIX/XX, particularmente a grupos como a Aurora Dourada, do que a toda a história da magia cerimonial.
Embora tenha mantido muito desse viés, a Magia Cerimonial evoluiu e mudou. Os agentes dessas mudanças foram a Ordem Hermética da Aurora Dourada e seu membro mais conhecido, Aleister Crowley. A primeira mudança ocorreu em relação aos seres aos quais se dirigiam. Embora mantivesse as hostes judaico-cristãs, a Aurora Dourada também se dirigia a deuses dos panteões egípcio e greco-romano, frequentemente vestindo túnicas e chapéus sugestivos das divindades invocadas. Depois que Crowley se separou, continuou a se dirigir aos deuses antigos. Além disso, negou a existência de uma divindade todo-poderosa no topo da hierarquia universal. Ele proclamou que o objetivo do Magista era "obter o conhecimento e a conversação do Sagrado Anjo Guardião", a realização de sua "verdadeira vontade" e a realização de sua própria divindade.
Embora alguns Magistas tenham sido influenciados pela obra de Carl Jung, que considerava todos os deuses imagens arquitípicas projetadas por um inconsciente coletivo, e por filosofias orientais, que abordaremos mais adiante, outros estavam começando a adotar uma abordagem mais psicologicamente orientada para seu trabalho. Não há dúvida de que Crowley acreditava que o Sagrado Anjo Guardião era uma entidade externa a si mesmo, uma das inúmeras inteligências que operavam em outras dimensões da existência. Para Crowley, a compreensão da divindade do Mago não significava sua absorção no absoluto; significava a realização de sua linha individual de evolução. Incansavelmente, Crowley trabalhou – escrevendo novos rituais em inglês, fundando o Astrum Argentum e reestruturando a Ordo Templis Orientalis, adaptando conceitos orientais, sintetizando as várias tradições mágicas – grega, egípcia, hermética, cabalística e maçônica – em um novo sistema, que ele divulgou em inúmeros livros.
Além de trazer a Magia de volta aos olhos do público, a maior contribuição de Crowley foi sua franca admissão da verdadeira fonte do Poder Mágico – a energia sexual. Tendo proclamado abertamente o segredo, ele se deleitou com a notoriedade que se seguiu – reconhecendo seu uso de drogas e indulgência orgiástica para facilitar a entrada em estados alterados de consciência, adotando Thelema, uma filosofia de liberdade pessoal absoluta (ou licenciosidade, como seus críticos a acusavam) e se autodenominando "A Besta 666", Crowley se esforçou para chocar. Ao fazê-lo, expôs-se a mal-entendidos desnecessários e, em muitos setores, foi rotulado como um praticante negro. Apesar de sua má reputação e da existência de ideias mais tradicionais de orientação judaico-cristã – notadamente as de Dion Fortune e Israel Regardie, ambos cabalistas – Crowley é amplamente considerado a fonte da qual flui toda a Magia Cerimonial moderna.
A Wicca, o terceiro ramo, é talvez o mais difícil de descrever. Sem dar crédito indevido aos seus perseguidores medievais, que a associavam ao satanismo, às obras de Margaret Murray, que considerava a religião do homem pré-histórico, e as "tradições" majoritariamente autoglorificantes de seus adeptos modernos, quase nada pode ser dito sobre seu passado.
Acho difícil alguém ter chamado wiccanos de satanistas na idade média considerando que a Wicca nem existia...
A "hipótese do culto bruxo" de Margaret Murray (início do século XX) teorizava que os julgamentos de bruxaria europeus eram perseguições a uma antiga religião pagã de fertilidade ainda existente. Essa teoria é hoje universalmente rejeitada por historiadores e estudiosos da bruxaria.
Algumas coisas, no entanto, parecem facilmente aparentes — a mais importante delas é que, em todos os aspectos, o Wiccano contrastava com o Mago Cerimonial. Em primeiro lugar, o Wiccano praticava uma religião oposta ao Cristianismo, sem dúvida uma continuação de antigas crenças locais, embora seja difícil afirmar com certeza quais eram essas crenças. Foi por causa da rejeição a Cristo que os wiccanos foram assassinados pela Igreja. É difícil dizer onde a Wicca moderna difere de suas raízes medievais - bruxas hereditárias, descendentes de wiccanos que sobreviveram aos "Tempos da Fogueira", são extremamente reservadas sobre as crenças e práticas que herdaram de seus ancestrais.
Isso reflete a hipótese desacreditada de Margaret Murray. A Wicca moderna é, de fato, uma religião geralmente oposta ou externa ao cristianismo, e se inspira no paganismo pré-cristão. No entanto, não é uma continuação direta e ininterrupta de antigas crenças locais; é uma religião sincrética moderna. Podemos afirmar com certeza que suas crenças não são "antigas" no sentido de terem sido transmitidas diretamente da pré-história.
Considerando que a Idade Média e a caça às bruxas já haviam terminado há séculos quando o criador da wicca (Gardner) nasceu, acho que não preciso mencionar nada sobre o resto do parágrafo.
Assim como a maior parte da Magia Cerimonial moderna flui de Crowley, a Wicca moderna deriva de Gardner. Embora o simbolismo agrícola abunde nos rituais de Gardner e, por extensão, nos da maioria dos wiccanos, muito dele se parece tanto com versões rimadas e simplificadas de ritos cerimoniais que rumores atribuem sua verdadeira autoria ao bom amigo de Gardner, Aleister Crowley.
Este é um rumor infeliz e recorrente. Crowley contribuiu com materiais para os primeiros rituais de Gardner, visto que Gardner era membro da O.T.O. de Crowley e buscou seu conselho. Crowley editou uma versão do "Livro das Sombras" de Gardner (o texto fundamental da Wicca), especificamente a "Carga da Deusa". Portanto, embora Crowley não tenha escrito toda a Wicca Gardneriana, ele teve influência em partes de seu texto ritual. Não se trata de autoria única.
Em contraste com o cerimonialismo, no entanto, o que distingue a Wicca moderna é seu feminismo implacável. Os wiccanos adoram uma divindade dupla - um Deus, frequentemente identificado com o Sol, Marte, Pã ou Hórus, e uma Deusa, frequentemente identificada com a Lua, a Terra, Vênus ou Ísis. Em todas as suas formas, a Deusa é considerada dominante. Ela dá à luz o Deus, que é filho e consorte. Ela é considerada eterna, enquanto o Deus sofre morte e renascimento contínuos, simbolizados pela procissão das estações. As fases da Deusa Lunar – crescente, plena e minguante – são identificadas com as três fases do ciclo de vida sexual da mulher – donzela, mãe e anciã. As ideias básicas são elaboradas de diversas maneiras. As mulheres são normalmente consideradas mais sábias, mais poderosas psiquicamente e espiritualmente desenvolvidas do que os homens e, embora os rituais wiccanos sejam realizados por um sacerdote e uma sacerdotisa, a sacerdotisa é sempre a autoridade absoluta. Um observador bem versado em psicologia pode detectar nos rituais Wiccanos uma forma sutil de sadismo feminino e masoquismo masculino.
Um observador bem versado em psicologia pode detectar uma projeção grosseira do autor sobre os papéis, de outra forma inócuos, dentro dos ritos wiccanos. Calma, Freud!
Ao contrário dos Cerimonialistas, que tendem a cronometrar seus rituais de acordo com cálculos astrológicos intrincados, o Wiccano realiza sua Magia de acordo com as fases da lua – trabalhos de expansão são iniciados durante a lua nova e culminam na lua cheia; trabalhos de constrição são realizados ao contrário. Identificando a Terra com a Deusa e buscando manter-se próxima de suas raízes agrícolas, a Wicca tem um profundo interesse pela Ecologia.
A Wicca hoje é altamente consciente da imagem, sempre minimizando sua associação popular com maldições e orgias. Muito trabalho é feito para a cura psíquica. Em relação ao Deus e à Deusa, a maioria dos wiccanos não tem clareza se eles devem ser considerados como os aspectos masculino e feminino de uma única divindade ou como duas entidades distintas. Embora a Graça Wiccana tenha uma linha afirmando que a Deusa deve ser encontrada dentro de cada um, a maioria dos wiccanos a trata como um ser externo. Começando com Alex Sanders, muitos se distanciaram do Gardnerianismo, formando inúmeras ramificações, quase todas mantendo a ênfase feminista.
As três correntes do Ocultismo Ocidental descritas acima podem ser consideradas a ortodoxia da qual a Magia do Caos deriva e contra a qual se rebela. Antes de explorarmos a Magia do Caos mais profundamente, precisamos fazer uma breve pausa para examinar quatro outras tendências que a influenciaram profundamente: Jungianismo, Parapsicologia, Física e Filosofia Oriental.
Sobre a obra de Carl Jung, pouco precisamos dizer, exceto que sua teoria dos arquétipos – imagens universais que simbolizam experiências humanas e aspectos da mente humana – determinou definitivamente a visão da Magia do Caos sobre todos os Deuses. Embora a maioria dos praticantes da Magia do Caos possa considerar a ciência apenas como mais um sistema, eles não podem deixar de ser influenciados pela pesquisa parapsicológica, que sugere que a capacidade psíquica pode ser uma função da mente humana – tornando possível a ideia de poder mágico sem assistência desencarnada. A Física Quântica, com suas partículas indeterminadas e frequentemente teóricas, precisa encontrar um cantinho aconchegante em seu coração. Mas a filosofia oriental é sua maior fonte, e não podemos compreender sua definição especial de Caos – a pedra angular de suas ideias – e como ela difere da visão tradicional ocidental sem compreender o pensamento asiático.
Independentemente de suas diferenças superficiais em terminologia e abordagem prática, as três grandes correntes da filosofia oriental – Hinduísmo, Budismo e Taoísmo – estão unidas na proclamação de que o Universo é um todo vasto e em constante mudança, além de todos os conceitos, categorias e definições. O hindu o chama de Brahman, e seus deuses, como as partículas teóricas da Física Quântica, são meros símbolos de seus aspectos cosmológicos. Para o budista, é o Vazio – aquilo que está além de toda designação e descrição – e seu panteão de Budas e Bodhisattvas são, como os arquétipos de Jung, símbolos de estados psicológicos. O taoísta simplesmente o chama de Tao, o Caminho.
Além disso, eles concordam que a natureza interior do homem – que o hindu chama de "Atman", o budista de "sem alma" e o taoísta de "Não-Eu" – é idêntica à do universo. Em todas as três religiões, conhecer existencialmente essas duas coisas é considerado Iluminação — libertação de visões e opiniões, todas as quais só podem ser falsidade, escravidão e ilusão.
POR QUE o autor está equiparando anatta (o conceito budista de não-eu) com atman (eu individual)? São conceitos fundamentalmente opostos. Anatta em sânscrito é anatman, an significa "não", ou seja, literalmente não-atman ou sem-atman. Sem atman, sem eu. Duh!!!!
Savage não apenas cometeu um erro óbvio que dois segundos de pesquisa poderiam ter evitado, como sua conclusão também não faz sentido lógico — pense comigo: não-eu, isso afirma explicitamente que não existe um eu ou alma inerente, permanente e imutável no indivíduo que corresponda ao atman do hinduísmo. Portanto, dizer que "a natureza interior do homem… é idêntica à do universo" no budismo é incorreto e contradiz a ideia de anatta. O "não-eu" significa que não existe um eu individual inerente que seja idêntico a qualquer coisa.
Embora o Taoísmo enfatize a harmonia com o tao e a transcendência do ego, o conceito de "não-eu" no Taoísmo não é tão precisamente definido ou tão central quanto anatta no Budismo. No entanto, ele enfatiza a dissolução do eu egoísta no fluxo do tao, o que quase de olhos fechados poderia ser vagamente interpretado como uma forma de não-eu.
Aqui reside a diferença entre a definição tradicional e a do praticante do Caos para essa palavra assustadora – Caos. Para o praticante do Caos, Caos não é a ausência de ordem, mas – parafraseando Henry Miller – uma ordem além da compreensão. É análogo ao Brahman hindu, ao Vazio budista, ao Tao taoísta e ao Wyrd anglo-saxão antigo. Está em constante mudança – pode ser experimentado, mas está além da categorização intelectual. Ordem é, na melhor das hipóteses, o aspecto da realidade indescritível que nosso equipamento sensorial nos permite perceber – a abelha vê a flor de forma diferente de um ser humano. Na pior das hipóteses, Ordem é simplesmente um padrão ilusório projetado por nossos preconceitos.
À afirmação de Albert Einstein de que Deus não joga dados com o Universo, o praticante do Caos poderia responder que o universo é deus – se é que se deve usar uma palavra tão carregada de emoção – e que Ele é a única coisa com a qual Ele pode brincar. Como acredita que a realidade é, em última análise, indescritível, ele renuncia a todos os dogmas, tomando ideias e práticas de todos os lugares, combinando-as conforme a situação e abandonando-as quando não se aplicam mais. Em um universo incognoscível, nenhuma crença é válida, mas toda crença é válida enquanto o crente a reconhece como uma ferramenta, uma ilusão necessária, e enquanto ela continua a funcionar para ele.
Todo o padrão da Magia do Caos pode ser facilmente percebido em uma rápida olhada nos pensamentos do homem que seus praticantes consideram seu pai: Austin Osman Spare. Outrora membro da Aurora Dourada e associado de Crowley até que um desentendimento rompeu seu relacionamento, Spare denunciou incessantemente a religião, a ciência e a Magia Cerimonial. Seus ataques às três baseavam-se na mesma premissa: em um universo que desafia qualquer descrição, todos os sistemas de crença só podem ser falsos. Como o homem é parte do universo e, portanto, já é Deus, tudo o que a religião pode lhe oferecer são falsos ídolos que o impedem de sentir sua verdadeira divindade.
Desde o início, Spare percebeu que a ciência é, em si mesma, uma forma de religião, uma tentativa de nomear o inominável, um sistema de categorias que descarta tudo o que não pode conter. Ele considerava a Magia Cerimonial uma perda de tempo excessivamente complexa – perpetrada contra os crédulos por charlatões gananciosos – que impede o homem de descobrir sua verdadeira fonte de poder, que está dentro de si mesmo. Spare pregava a necessidade de simplicidade absoluta em todos os trabalhos mágicos e, em vez de orações e rituais, considerava como técnica mágica suprema a criação e a meditação sobre o Sigilo, um desenho pessoal de letras estilizadas que expressam um desejo, mas o escondem da mente consciente.
Os Sigilos têm sido tradicionalmente o desenho dos talismãs mágicos, mas Spare afirmava que seu poder não era intrínseco às linhas e figuras do desenho – seu poder vinha de seu efeito sobre as camadas mais profundas da mente inconsciente. Portanto, era preciso criar seu próprio desenho, que deveria ser simples o suficiente para ser facilmente visualizado e complexo o suficiente para que a mente consciente esquecesse seu significado original.
Viu? Sem correções. Claramente o autor deveria focar em escrever sobre o que ele realmente entende. Para quotar Wittgenstein fora de contexto - 'sobre aquilo de que não se pode falar, deve-se calar.'
Em sua obra sobre Sigilização, vemos a influência oriental nas ideias de Spare. Embora o Sigilo deva ser criado sob a influência de um desejo desesperado, e deva ser visualizado e meditado enquanto a obsessão persistir, ele não pode ter efeito mágico até que a pessoa tenha esgotado o desejo, esquecido o significado do Sigilo e se tornado completamente diferente do desejo e do símbolo que o representa. Para Spare, meditação significava manter o Sigilo na mente até que ele gradualmente excluísse todos os outros pensamentos e então desaparecesse da consciência, deixando a mente vazia – o oposto de fixar a mente em um símbolo, ponderando seu significado, combatendo todas as outras ideias e concentrando toda a sua vontade em sua realização. Qualquer pessoa com um conhecimento, mesmo superficial, do tantra hindu ou budista reconhecerá isso como a prática do Tantrika, que realiza visualizações idênticas em Yantras – desenhos geométricos que representam forças cósmicas e psicológicas. Os Yantras são os padrões básicos por trás das Mandalas – e considera a realização de um desejo como um passo em direção ao desapego de todos os desejos.
Como se não bastasse, o conceito de universo de Spare parece uma reformulação das ideias asiáticas. O absoluto, ele chamou de Kia, uma palavra que não tem significado em nenhuma língua ocidental e se assemelha à palavra japonesa "ki", que significa o sopro vital por trás de toda a vida. Observe como as palavras de Spare ecoam as de Lao Tzu. Spare: "De nome, não há necessidade de designar, eu o chamo de Kia… o Kia que pode ser expresso em ideias concebíveis não é o Kia eterno." Lao Tzu: "O Tao que pode ser dito não é o Tao… Por si só, não tem nome… por falta de uma palavra melhor, eu o chamo de "O Tao".
O Kia — que poderia facilmente ser chamado de Caos — está além de qualquer descrição, um todo completo, sem partes divisíveis, um zero inconcebível. No entanto, ele se manifesta em dualidades aparentes — masculino e feminino, luz e escuridão, nascimento e morte. Na fórmula de Spare, do nada surge o dois. Mas os polos de cada dualidade não são absolutos em si mesmos; cada um é como um braço ligado por um torso, que neste caso não pode ser descrito. As dualidades sempre surgem juntas. A alegria emerge com a angústia, a fé com a dúvida. Portanto, a mente não pode evitar o conflito e a contradição. A solução de Spare não é escolher entre impulsos opostos, mas observá-los simultaneamente — um estado de espírito que fixa sua consciência, por exemplo, no amanhecer e no anoitecer, nas horas do crepúsculo que não são nem dia nem noite.
"Nem-Nem" evoca imediatamente o "Neti-Neti" hindu, não isto/não aquilo, as negações dialéticas de Nargajuna, segundo as quais nada pode ser dito existir ou não existir, a não escolha do eremita taoísta e a consciência não discriminatória do Mestre Zen. Ele também defende que o ego repousa em um estado de amor-próprio – que não deve ser confundido com narcisismo – um estado em que está felizmente absorto na alegria de sua própria existência e não tem a necessidade de se engrandecer continuamente por meio de conquistas e aquisições sem fim. Como dizem os Upanishads: "Que o Eu encontre refúgio no Eu".
Durante sua vida, Spare, um artista brilhante que produziu uma série de impressionantes desenhos automáticos, nunca recebeu a mesma atenção que seu antigo colega, Crowley. A pouca atenção que recebeu foi, em sua maioria, negativa. Críticos de arte odiavam seu trabalho e muitos ocultistas, incluindo Crowley, o consideravam um Mago Negro.
Embora alguns possam ter considerado seus métodos "sombrios" ou amorais devido à sua rejeição da moralidade convencional, não consegui encontrar evidências de que ocultistas o rotulassem como um "mago negro". Crowley, por sua vez, inicialmente respeitou a genialidade de Spare e chegou a publicar algumas de suas obras. Embora seus caminhos tenham divergido e Crowley posteriormente tenha expressado algumas reservas quanto à falta de sistematização de Spare, não é um caso claro de ele rotular Spare como um "mago negro" da forma como o próprio Crowley era frequentemente rotulado.
Suas ideias – que ele comunicava em livros curtos, escritos em um estilo exortativo, denunciatório e declamatório, reminiscente de "Assim Falou Zaratustra" – só recentemente receberam a consideração que merecem. Talvez seja o maior elogio a um homem que odiava a doutrina que os responsáveis pela redescoberta de sua obra não o considerem uma autoridade absoluta. Embora Ray Sherwin, Julian Wilde e "O Círculo do Caos" possam elogiar o trabalho de Spare, eles o consideram um ponto de partida, uma influência para um precursor de seus próprios empreendimentos. Ao contrário dos seguidores de Crowley, eles não transformaram Spare em um Asno de Ouro. Os discípulos de Spare, como provavelmente odiariam esse termo, diferem dele tanto quanto diferem entre si. A principal diferença é que os sucessores de Spare, embora críticos, não rejeitam o ritual de imediato.
Tendo obtido uma visão geral da Magia do Caos, analisaremos agora, ponto por ponto, como seus praticantes diferem do ocultismo ortodoxo e entre si. Infelizmente, teremos que limitar a maior parte desta discussão às visões de Spare, Wilde e Sherwin.
Fonte de Poder: O que o Magista considera a fonte de seu poder determina o restante de sua prática. Obviamente, o Satanista acredita que seu poder é uma dádiva de seu mestre, o Diabo.
O Cerimonialista acredita que seu poder deriva, por meio de uma série de entidades astrais, em última análise, do Senhor dos Exércitos, o Deus Altíssimo – um Crowleyista diria que somente os seres astrais existem e conferem poder.
Esta é uma deturpação das visões de Crowley. Crowley trabalhou extensivamente com "seres astrais" (elementais, espíritos, divindades) e os via como entidades reais e objetivas por si mesmas, e veículos de poder. No entanto, seu sistema, Thelema, possui uma cosmologia que aponta para a interação dos princípios cósmicos (Nuit, Hadit) e a Verdadeira Vontade do indivíduo como a fonte de toda manifestação e poder mágico. Ele não negou um princípio divino mais supremo, ele só reinterpretou o conceito de "Deus" em um sentido imanente e não dual ("todo homem e toda mulher é uma estrela" literalmente uma das frases mais básicas que todo que se interessa por ocultismo sabe...).
E o Wiccano deposita sua confiança na Deusa, no Deus e nos elementais. Mas todos os praticantes do Caos concordam que as energias ainda não descobertas dentro do subconsciente humano são a verdadeira fonte da Magia. Eles compartilham essa visão com a filosofia oriental, a parapsicologia e teóricos modernos da Magia como Isaac Bonewits.
Os Deuses do Caos: Como os praticantes do Caos consideram seus deuses como projeções de suas próprias mentes, sua atitude em relação a eles é eclética e – diriam os Magos ortodoxos – irreverente. O Grimório de Wilde lista uma miscelânea de divindades de uma miscelânea de panteões. Ele afirma que os Deuses podem ser adaptados das palavras de escritores como Tolkien e afirma ainda que qualquer Deus que não ofereça um mínimo de serviço deve ser esquecido. Em geral, os praticantes do Caos preferem se concentrar em divindades recentemente redescobertas ou recém-criadas. Entre as redescobertas, alguns favoritos são Baphomet, um deus andrógino com chifres que, no século XII, os Cavaleiros Templários usaram como símbolo cabalístico, foi descrito no século XIX por Eliphas Levi e é considerado por Wilde como a soma total de todas as forças universais e a personificação do Caos ativo.
A acusação de que os Templários adoravam um ídolo chamado Baphomet foi parte fundamental das acusações contra eles durante sua supressão no início do século XIV (não do século XII). Historiadores consideram isso uma invenção usada para justificar sua perseguição, e não há evidências sólidas de que o utilizassem como um "símbolo cabalístico" ou o adorassem. O próprio termo "Baphomet" é cercado de mistério e de diversas teorias etimológicas.
Outra favorita é Éris, Deusa da Discórdia, uma divindade grega há muito esquecida que era considerada (na "Teogenia" [sic] de Hesíodo) como a metade feminina e mais selvagem de Eros, Deus do Amor.
A Teogonia de Hesíodo descreve duas figuras distintas de Éris: uma que é filha de Nix (Noite) e personifica a luta malévola, e outra, Éris mais velha (irmã de Zeus), que inspira a competição saudável. Nenhuma delas é descrita como uma "metade feminina e selvagem de Eros". Eros é um deus primordial do amor e do desejo, e embora ambas as figuras tratem de aspectos da interação humana, sua relação como "metades" não é encontrada em Hesíodo.
Para os gregos antigos, Eros e Éris juntos formavam uma Afrodite andrógina.
Não há base mitológica grega clássica para a combinação de Eros e Éris, formando uma "Afrodite andrógina". Afrodite é a deusa do amor, da beleza, do prazer e da procriação. Eros é seu filho ou companheiro em mitos posteriores.