O rangido sutil de couro era a única coisa que se podia ouvir pelo eco do longo corredor. As vinte e três horas de um sábado, enquanto as crianças comuns dormem, um Jonathan Altman de dez anos aguardava apreensivo sua sentença, se movendo ansioso no sofá de couro de jacaré da recepção do consultório. Enquanto isso, sua mãe e o Dr. Billroth, renomado psiquiatra, conversavam dentro sobre o que vinha se passando com o jovem. As últimas competições de matemática haviam sido um verdadeiro fiasco, embora ele fosse bom com números e os processasse cálculos rapidamente, como fazia com a grande maioria das coisas, acabara esbarrando em uma necessidade extrema de fazê-los praticamente sapateando pelo palco, algo que - bem como estar as vinte e três horas de um sábado em uma consultório de psiquiatria - não era o normal de uma criança daquela idade.
Se Jonathan tivesse sido indagado sobre o que se passava, ele responderia com tranquilidade que responder equações parado era perda de tempo quando ele, habilidoso como o treinaram, poderia fazê-lo sem qualquer dificuldade enquanto sapateava, ainda que acabasse demorando dois milissegundos a mais até apertar o botão. Todavia, transtorno de hiperatividade parecera um diagnóstico mais prático e solucionável a ser dado, afinal, bastava que Amanda Prescott trocasse a receita amarela onde constavam as dez miligramas diárias de adderall pelos comprimidos, em qualquer farmácia local. Era um protocolo muito mais simples do que de fato, ter de conversar com o filho e entender o que se passava.
- Mãe? Ele disse o que há de errado comigo? - O tom baixo do jovem inglês, fez Amanda se compadecer por alguns segundos, embora estivesse discretamente enfurecida e envergonhada pela falha e por, ter de estar no consultório de um terapeuta aquela hora da noite. É claro que, a hora proposital havia sido escolhida visando diminuir o constrangimento de admitir que seu pequeno tesouro perfeito precisava de ajuda. - Nada, querido. Ele só disse que você tem energia demais para diversas coisas. Então, você vai tomar um remédio para conseguir se concentrar. - A resposta tranquila, enquanto a mulher prendia os fios ruivos em um rabo de cavalo alto, deixou a criança aliviada. E, embora houvesse uma parte importante de verdade naquela frase, ela esquecera de informar ao filho sobre as palpitações, sensação e ansiedade e distúrbios do sono que poderiam vir junto com a mediação.
(...)
Eram vinte três horas de um sábado e o rangido sutil do couro do coturno contra o piso de madeira era o único som que se podia ouvir no salão da delta. Todos os nerds daquela casa deveriam estar em seus quartos dormindo ou ouvindo alguma video-aula em seus novíssimos laptops. Enquanto isso, Jonathan Altman estava inquieto. O bater da porta coincidiu com o acender de cigarro e foi seguido pelo abrir e fechar e ranger do motor do porsche. O Casey Irish Pub, seu companheiro de noites de insônia como aquela, não chegava a ser o local mais popular entre a elite da USC mas, eles sempre tinham uma cerveja gelada pronta para fazer o jovem Altman diminuir os tremores e dormir sem os pesadelos frequentes que o perturbavam.
Havia estacionado dois blocos antes da entrada, e seguia para o local sem qualquer pressa, com as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta preta, brincado no canto dos lábios com o cigarro que havia aceso. A distração, todavia, não fora impeditivo para perceber x colega de universidade que se aproximava, talvez sem qualquer intenção de cumprimentá-lo. Tirando a mão direita do bolso para puxar o cigarro dos lábios, Altman soltou a fumaça para a esquerda, rumo a rua e então se voltou a figura conhecida, que agora estava mais perto. - Eu juro que poderia chutar que você perdeu uma aposta. Eu não lembro de ter visto ninguém da USC por aqui...Numa margem de...dois anos?











