“Deus da linguiça?” perguntou boquiaberta, como se realmente estivesse ofendida com o comentário do parente “Acha que a gente acorda bebendo cerveja também?” franziu o cenho “Falou então, americano que cultua hambúrguer e George Bush. Pelo menos eu tenho a Merkel como chanceler” mostrou a língua de volta, sentindo como se todos os anos longe de Tyler estivessem marcando presença e agora estavam na fase infância. “Eu não sei. Essa palavra é meio estranha, mas confio em você” disse sem ter muita certeza de nada mais naquela altura da conversa. Diversas palavras novas e que tentava associar ao assunto de alguma forma, mas se tivesse o direito de dizer, trêsglot ou triglota nem ao menos parecia uma palavra de verdade, só não tinha coragem de dizer isso a McCoy. “Ei, calma aí” comentou antes de ouvir todo desespero sobre ele ser ou não lerdo “É, é, carpe diem… acabou o show Tyler?” perguntou entre risadas “Eu disse que eu não entendo de astrologia. Sério. Quem entende é a minha mãe e eu só lembro das principais características de cada um, mas nem isso eu sei se tá certo” deu de ombros “Sou canceriana e nem por isso eu choro toda hora ou me apaixono por todo mundo” disse em plena convicção, mesmo que por um minuto se questionou sobre as duas alternativas, sendo uma realidade até que bem possíveis ao se tratar de Lina McCoy. Considerando ainda o combo de chorar por estar apaixonada. Bingo! “Ingleses comem batata, a gente come salsicha” o corrigiu “Ah e bebemos cerveja mesmo” comentou, concordando em partes com as características clichês que eram destinadas aos alemães. Talvez não ela e sua mãe, mas seus avós mantinham os estereótipos bem vividos, principalmente ao falar bravos, mesmo sem estar realmente numa discussão “Sinto muito, Ty” por mais que sua curiosidade implorasse para que ela perguntasse, sabia que não era bem uma questão boa a ser levantada. Não se recordava de antes já ter comentado sobre essa ex namorada e não sabia ao certo se ele tinha ou não superado a separação. “Que? Não” fez uma expressão de indignação. Tyler parecia sua mãe, já que a mulher sempre levantava a pergunta sobre qualquer pessoa ter potencial para namorar a filha. Lina já tinha aprendido a lição e não comentava mais sobre nada disso com a mãe. “Mikkel era fofo, mas nunca namoramos. Ew” se recordou das inúmeras vezes que o ás de xadrez sentava com Lina para conversarem e o assunto sempre era o mesmo, União Soviética. Não era possível que alguém tinha um fascínio ainda por aquele tema. “Cantora. Ela canta 99 Luftballons” respondeu com certa naturalidade “Acho que todo mundo já ouviu. Bom, não sei aqui, mas meu pai conhece” ouviu sobre Tyler praticamente agradecer pela vida. A mulher também não tinha o que reclamar, por mais confusa que algumas vezes sua família pudesse parecer, principalmente seus avós com relação a sua mãe e a escolha do pai de Lina. No entanto, nada com que fizesse a McCoy questionar sobre a vida. Nunca lhe proibido nada, seus pais sempre compreensivos e a apoiando. Aparentemente os McCoy, independente de qual continente, levavam uma boa vida “Temos sorte, Tyler” afirmou “Mas acho que você poderia ter pedido pra não ter nascido pisciano”
“Talvez na Alemanha as pessoas não acordem bebendo cerveja, mas eu já conheci muita gente lá na Alpha que sim.” O moreno não segurou uma risada tranquila, pensando que talvez não fosse nada saudável apresentar seus colegas de casa para a prima. Apesar de 70% deles serem provindos de famílias importantes tais quais as Zetas, Tyler não apostaria e nem poria a mão no fogo por ninguém alegando que nenhum deles roía a unha do pé quando ninguém estava vendo. Deus que o perdoasse, tinha amizade com a maioria, mas um ou dois não tinham limite lá dentro. Além da falta de higiene básica de alguns atletas, a casa era cheia de players baratos e irresponsáveis e esse era um motivo ainda mais importante. Tinha certeza de que provavelmente teria de fazer alguma coisa caso algum mexesse com Lina. “Eu? Cultuar hambúrguer? Garota, eu sou o cara do mac n’ cheese e do cereal de manhã! Hambúrguer tem muito colesterol e gordura, eu preciso viver bastante e ser bonito por muito tempo.” Toda a indignação da McCoy voltou em forma de réplica no tom raramente afetado que Tyler usava em momentos de brincadeira ou de real piti. Em meio à aura descontraída que rodeava ambos, o jogador constatara que aquele encontro entre eles não estava sendo tão tenso quanto pensou que seria. Ainda existia um pouco da Lina criança com quem brincava pra lá e pra cá, e que de certa forma sentira falta. Mais velha, mais inteligente, mais madura e mais bonita, mas ainda Lina. Formar laços emocionais e de confiança, para Tyler, era algo importante, dado ao fato de que não era bom em manter conversas acadêmicas ou econômicas ou qualquer coisa que prendesse a atenção de gente no mundo tão corporativo que queriam inseri-lo tão já (tão depressa para alguém que vive o momento e aproveita os louros da época mais feliz de um jovem atleta popular), e tê-la ali, como parte de seu passado seguro no qual se agarrava tanto assemelhava-se à relação que tinha com Tomás e Timoteo. Seguro, confortável e divertido. “Não se apaixone por californianos, Lina. Nenhum presta. Só o Tomás, provavelmente. Mas eu não apostaria.” Riu, comentando sobre o amigo. Provavelmente era o cara mais decente que conhecia, mas isso porque o rapaz não tinha tempo pra nada, estava sempre trabalhando em lugares que Tyler não fazia ideia. Um cara desses mal tem tempo de se apaixonar, mas mesmo assim, ele parecia obcecado o suficiente com a garota Ronaldo Fenômeno. “Acho que você tem muito o que apresentar pra mim. Eu sou um cara de gostos bem simples, então não é difícil me fazer gostar de algo.” Comentou, arqueando levemente ambas as sobrancelhas. Quem sabe, dessa forma, a ideia de curtirem coisas juntos os aproximaria um pouco mais. Tyler parou o carro em sua vaga reservada e privilegiada no estacionamento da universidade, encarando o mar de pessoas com seus livros, seus grupos e suas distinções extravagantes. Aquele momento era único para Lina, e ficava feliz de estar por perto. “Bem, prima, encare bem esse cenário, respira fundo e pensa que você vai ver isso todo dia nos seus próximos quatro ou seis anos aqui. Eu não vou estar o tempo todo perto, mas quando precisar, vou estar logo atrás de você.” Olhando nos olhos azuis da garota, Tyler sorriu. “Menos nas quintas, sextas e sábados. Dias de jogos e consequentemente, festas.” Piscando pra ela, saiu do carro, esperando que ela fizesse o mesmo para ligar o alarme e colocar os óculos escuros, afastando-se aos poucos de costas para a universidade e de frente para ela. “Te espero aqui às 17h. Bem vinda à USC!”