msjazzy:
perambulando pelo jardim do prédio principal da universidade, jasmyne admirava o crepúsculo do enorme céu da califórnia enquanto assistia aos rostos conhecidos com certa melancolia, resguardando o impulso de soltar um suspiro de tristeza. na realidade não sabia bem como sentir-se, tampouco traduzir tamanha sensação em palavras, deus sabe como esse nunca fora um de seus talentos. sentia-se contente por suas amigas – o céu assumia o tom das primeiras tangerinas da primavera e a risada das crianças poderiam ser consideradas tão doces quanto os pêssegos de mesma cor, a atmosfera era quente e a lembrança de memórias construídas há dez anos atrás também. ainda assim, jazzy sentia como se todos aqueles ao seu redor pertencessem a uma linha temporal diferente da sua, não por conta das marcas do tempo cravadas na pele, mas pelos caminhos que a vida os guiara: vinham acompanhados de esposas e maridos, filhos e filhas, histórias e risadas, enquanto consigo restava apenas a companhia solitária da própria existência. havia dedicado os últimos anos à carreira no campo médico, como havia de se imaginar, coletando uma porção de diplomas, certificados e títulos que sabia nomear em um piscar de olhos, mas tão crua e ingênua às demais coisas da vida quanto a garota de dezenove anos que havia surgido na casa das zetas há mais de dez anos.
cansada de sentir pena de si mesma, o desejo de jasmyne era abandonar aquela celebração cafona e saudosista, mas sabia que callisto e april fariam de sua vida um inferno se fosse embora sem ao menos registrar uma fotografia com dorothy na frente da casa da antiga sororidade. ao invés disso, arrastou-se até o bar, onde ao menos poderia fornecer aos pés algum descanso dos sapatos altíssimos que usava. quando a garrafa de água fora colocada a sua frente, a mão destra da garota rapidamente apressou-se em agarra-la, sem notar a presença do sujeito há alguns centímetros de distância. — obrigada. — respondeu, com a voz apática e insincera de sempre. — sem álcool pra mim hoje. — o comentário ácido parecia servir mais como um consolo para si mesma do que uma explicação para o estranho, com jasmyne revirando os olhos em desgosto. —a troca de prótese valvar não vai acontecer sozinha, não é? — o som de sua voz saiu abafado como se buscasse convencer a si mesma, sendo este definitivamente não direcionado ao homem ao seu lado. — ah é, muito contente. — contendo o risco de soar uma velha amarga, jazzy afogou os lábios em um longo gole d’água, observando o sujeito através de sua visão periférica, buscando reconhece-lo.
— oh, eu sei quem você é! — os olhos da jovem se acenderam como dois vagalumes cintilantes. — você era o garoto da piscina, não é? — ela perguntou, enquanto sua mão chacoalhava a de robert em um movimento apressado. — sim, é você! — parecia haver alguma fascinação em descobrir que o homem era de fato um estudante da usc e não apenas um funcionário contratado para a manutenção da casa, como acreditava na época. — sim, jasmyne. — a mulher enfim se desfez do comprimento, apoiando ambos os cotovelos sob abancada, buscando organizar todas as peças em sua cabeça. — você era um conhecido da callisto, não? — perguntou, com a expressão inquisitória e um tanto desconfortável de quem o observava como uma espécie exótica, ou um paciente com alguma condição desconhecida. — quer dizer, ela trazia alguns rapazes para a zeta, mas nenhum deles era alto como você, então por isso me lembro. — de novo, nada sutil com as palavras. — que engraçado. — uma risada curta e satírica escapou de seus lábios, como se tivesse acabado de ouvir uma anedota.
“ ━━ bem, sem álcool pra nenhum de nós hoje, então. ━━ ” de um meio sorriso seguido de um riso breve e quase inaudível, enquanto apoiava os antebraços no balcão. não que não quisesse, mas estava dirigindo, afinal, e amanhã aconteceria sua integração na empresa nova, após um longo processo seletivo e o infinito período de contratação. agradeceu ao barman quando o mesmo lhe alcançou uma garrafa de água extra, ao que percebia que a mulher não parecia estar tendo o melhor momento da semana. bem, todos tinham seus dez sacos de farinha pra carregar nas costas todos os dias, então era necessário não absorver e tentar entender o melhor que os outros tinham pra oferecer. ela ainda parecia falar consigo mesma, então bobby apenas de um pequeno sorriso ao encará-la. “ ━━ semana corrida? não sei se com você é o mesmo, mas essa reunião chegou em um momento bem inoportuno quando tenho tanto a fazer. ━━ ” deu de ombros de forma breve, abrindo a garrafa para beber três goles longos de água. como se esperasse que, com a hidratação, milagrosamente se sentisse menos cansado. ou menos deslocado, em meio a tantos sucessos pessoais e realizações. não que achasse que uma das possíveis zetas mais bem sucedidas da USC não se sentisse bem em cima de seus saltos caríssimos, mas não era difícil deduzir que estava tão desconfortável quanto ele lá dentro. provavelmente não pelo mesmo motivo, inclusive, mas ainda assim, farta. “ ━━ quer dizer, as crianças correndo pelo espaço sem rumo algum parecem bem mais felizes em estarem aprontando por aí do que os pais tentando se gabar uns pros outros sobre quem tem a vida mais perfeita, mas acho que esse último também conta como contentamento. ━━ ”
a repentina animação da campbell sobre sua identidade fez com que robert arqueasse levemente as sobrancelhas, curvando os lábios em uma linha meio torta. não esperava que ela se lembrasse, de certa forma, participavam de círculos sociais diferentes quando ele próprio não era arrastado por callisto por aí – o que, de fato, raramente acontecera na época, dada sua utilização como troféuzinho de plástico da callaway (não que sentisse orgulho de ser reconhecido como tal, mas como poderia negar, se era um jovenzinho babão em seus tempos de faculdade?). isso não queria dizer que não notava a presença de jasmyne na época. ela era, totalmente, um prodígio. um orgulho com o qual as zetas foram presenteadas em seus anos de glória no final da década de 2000, no tempo em que ele entrara também. no tempo em que um mundo muito diferente do seu fora apresentado e no qual, aos trancos e barrancos, fora se inserindo e ganhando experiência social e de vida. não era como se robert tivesse memória de elefante; ainda assim, conseguia lembrar, porque fora importante. mesmo os mínimos detalhes. ao ponto em que a campbell ia figurando e traçando uma linha do tempo onde podia inseri-lo e reconhecê-lo, bobby concordava com ela. “ ━━ sim, eu sou o garoto da piscina. quando eu não tinha turnos na cafeteria onde vocês buscavam o latte de vocês, eu também aparecia na zeta pra fazer uns extras. ━━ ” confirmou, tranquilamente balançando a cabeça. não que jasmyne tivesse muito tempo na época, afinal, era uma de suas clientes mais apressadas. menos do que fazer questão de lembrar, ela nem deveria se importar na época. a menção ao nome de callisto o fez rir baixo. “ ━━ também. vamos dizer que ela nunca devia ter visto um caipira de ohio na vida, então achou que seria interessante tentar ter um de estimação. ━━ ” franziu o cenho de leve, ainda que estivesse brincando. não estava a ofendendo, pelo contrário, até mantivera certo contato com ela depois da faculdade por um tempo. não achava que era a pessoal horrível que muitos alegavam mas não tinham coragem de dizer na frente da callaway. “ ━━ o namorado dela era bem alto na época também, acho que encontramos um requisito pra sair com a queen b da zeta. ━━ ” comentou divertindo, encarando a campbell com certa cumplicidade e curiosidade sobre o comentário. “ ━━ o fato de você só lembrar de mim por causa da altura ou o fato da callisto brevemente se interessar por mim na época? ━━ ” riu baixo. ━━ “se foi o segundo, olha que eu não era de se jogar fora assim. falava estranho, mas pelo menos bom moço eu era. ━━ ” a brincadeira saíra fácil, enquanto o reagan balançava a cabeça em negação como se fosse muito modesto mas, ainda, esse fosse um ponto muito importante para que jazzy considerasse.










