Talvez eu estivesse louca, mas eu conversava com aquelas pessoas, elas eram reais, mas o problema Ă© que ninguĂ©m conseguia vĂȘ-las.
Primeiro foi a menina no hospital, depois uma senhora no pequeno parque perto da minha casa e por Ășltimo, mas nĂŁo menos importante, o jovem Michael, que estava no meu quarto me observando enquanto preparava as malas para o acampamento de verĂŁo.
- EntĂŁo quer dizer que vocĂȘ ia para escola comigo todos os dias? â perguntei.
- NĂŁo todos os dias. â ele riu â sĂł nos dias em que vocĂȘ tinha as aulas legais.
- E por que comigo? Tipo, vocĂȘ poderia ir com Mathew â fechei minha grande mala com estampa de onça. Ă brega, eu sei, mas ela era linda.
- Mathew, aquele cara que vocĂȘ fica beijando? Ele Ă© nojento demais, e burro.
- NĂŁo fale assim do Math! â fui obrigada a rir â Ele sĂł Ă© um pouco lento, mas nĂŁo Ă© burro, okay?
Michael era aluno da BHS, mas foi dado como desaparecido um ano atrĂĄs, e nunca mais o encontraram, e isso era Ăłbvio jĂĄ que ele estava morto e enterrado prĂłximo ao lago da cidade.
Certo. Como eu poderia estar tĂŁo calma conversando com uma pessoa morta? A questĂŁo Ă© que pra mim ele nĂŁo parecia nem um pouco morto. Se nĂŁo fosse pelo pequeno buraco em seu peito e a camiseta azul bic manchada de sangue eu poderia muito bem sair com ele por aĂ e tentar apresenta-lo para Suzan e Julie.
- VocĂȘ vai ligar para a polĂcia e falar como me encontrar? â ele estava sentado ao meu lado na cama.
- Vou, Mike. Eles precisam encontrar seu corpo, e acredito que assim vocĂȘ finalmente vai poder passar para âo outro ladoâ, ou seilĂĄ.
- Pensei que vocĂȘ queria que eu ficasse â ele baixou a cabeça.
- Eu queria que vocĂȘ estivesse vivo. â me aproximei dele e levantei sua cabeça, fazendo com que ele olhasse pra mim â Mas quero te dar uma Ășltima coisa, pra que vocĂȘ tenha algo meu lĂĄ em cima.
- E o que Ă©? â sorri e entĂŁo dei um beijo nele. NĂŁo fui um beijo profundo e apaixonado, nĂŁo teve luta de lĂnguas nem nada disso. Nossos lĂĄbios se encostaram em um selinho doce de dez segundos â Isso definitivamente Ă© um Ăłtimo presente â ele riu.
- Agora vou procurar algum telefone pĂșblico e avisar sobre o seu paradeiro. â nos levantamos e ele me abraçou â VocĂȘ foi a melhor companhia que eu poderia ter.
Quando voltei para meu quarto cerca de meia hora depois, Mike ainda estava lå, sentado na janela e olhando para o céu.
- Vou cuidar de vocĂȘ lĂĄ de cima, Mel.
- Obrigada, Mike â sorri e fui tomar um banho. Quando saĂ do banheiro Michael jĂĄ nĂŁo estava mais lĂĄ. Liguei a TV e passava no noticiĂĄrio local que havia sido encontrado o corpo do jovem Michael OâConor, de 17 anos, desaparecido ano passado apĂłs sair com amigos para uma festa na cidade vizinha.
Acordei com o despertador do meu celular tocando insistente no criado-mudo ao lado da minha cama. Eram sete horas da manhĂŁ de sexta-feira. Dia de acampamento e eu nĂŁo poderia estar mais desanimada. Para mim toda essa histĂłria de acampamento era inĂștil. Se ao menos fosse uma coisa divertida, mas tudo o que se sabe desse acampamento Ă© o quĂŁo conservador e seguro ele Ă©.
- Isso vai ser bom pra colocar algum juĂzo nessa sua cabeça oca, Melanie. â minha mĂŁe sorria durante o cafĂ© da manhĂŁ â E Suzan e Julie vĂŁo estar lĂĄ com vocĂȘ. NĂŁo vai ser tĂŁo ruim!
- E o que eu ganho indo contra a minha vontade nesse acampamento? â sugeri e minha mĂŁe sorriu, sabendo que eu sempre peço algo em troca quando nĂŁo quero fazer alguma coisa.
- Seu carro quase novo na garagem quando vocĂȘ chegar em casa â ela piscou. Ok, aquilo poderia valer Ă pena.
- Com ar-condicionado? â insisti.
- Sim, senhorita â ela riu e entĂŁo me dei por satisfeita. Para alguma coisa esse acampamento iria servir, jĂĄ que antes ela havia me dito que eu nunca mais iria dirigir meu doce e amado carro.
Depois de termos tomado o café da manhã minha mãe me deu uma carona até à escola, que era onde estavam os Înibus que iriam levar as duas turmas do terceiro ano até o tal acampamento.
- Dizem que o acampamento Ă© mal-assombrado e que na segunda noite os fantasmas ficam arranhando as janelas das cabanas â Julie falava animada com tudo aquilo. Seu cabelo negro estava preso em um rabo.
- Dizem que quem vai nesse acampamento Ă© estuprado â cochichei e Julie me olhou assustada â pelos mosquitos que invadem as cabanas durante a noite â e entĂŁo caĂ na gargalhada, levando um tapa de Julie no ombro.
Depois de os supervisores que seriam responsĂĄveis por nĂłs no acampamento terminarem a chamada, garantindo que todos os alunos estavam no ĂŽnibus, partimos para o meio do mato. O acampamento ficava no interior de Brooks, mais ou menos uma hora e meia distante do âcentroâ da cidade.
Brooks nĂŁo era uma cidade muito grande como as capitais americanas. Era apenas um condado pequeno, com duas escolas, um supermercado e um pequeno centro de compras â era para ser um shopping, mas nada comparado.
Depois de eu ter dormido a viagem inteira finalmente chegamos ao Brooks Summer Camp. Sua entrada tinha um grande arco em madeira e no topo do mesmo uma placa tambĂ©m em madeira com o nome do acampamento. Tudo o que se podia ver era um extenso gramado e nada mais. Depois de dois minutos caminhando pude avistar as vĂĄrias casas de madeira uma ao lado da outra formando uma meia lua enorme e no centro da mesma havia uma fogueira jĂĄ montada. Deixamos nossas malas nos quartos â eu iria dormir com uma garota estranha da outra turma, a Kristen â e depois nos juntamos em grupos para explorar o acampamento. Um pouco afastado das casas estava um enorme refeitĂłrio e bem prĂłximo dele um lago lindo. O acampamento era rodeado por esse lago e uma enorme mata sem fim, a qual fomos alertados de manter distĂąncia, pois era muito fĂĄcil se perder no meio da mesma.
- Pena que nĂŁo conseguimos ficar no mesmo quarto â Suzan enganchou seu braço no meu.
- Mas vamos aproveitar muito a festa de boas vinda hoje, nĂŁo Ă©? â Julie logo nos alcançou, toda saltitante.
- Uhul, estou super animada â falei irĂŽnica.
- VocĂȘ estĂĄ tĂŁo pessimista, Mel. Nossa, nem estou te reconhecendo â Julie resmungou.
- Ă que vocĂȘs sabem o quanto eu queria ter vindo, nĂŁo Ă©? Sempre expressei minha vontade incontrolĂĄvel de ficar no meio do nada, sem celular e longe da minha famĂlia.
- Sua mĂŁe deu graças a Deus que se livrou das suas confusĂ”es â Suzan disse e aquilo me acertou em cheio.
- Obrigada, meninas! â soltei meu braço e fui em direção ao meu quarto.
Eu iria na tal festa, mas porque Math havia me pedido para que eu fosse com ele, jĂĄ que ele parecia tĂŁo animado quanto eu com isso tudo.
Quando escureceu Kristen e eu começamos a nos arrumar para a tal festa. A garota era linda, pena que era estranha e um pouco antissocial, mas conversando com ela pude perceber que era uma pessoa muito legal.
- Estou bem assim? â ele deu um giro de 360 para que eu pudesse ver sua roupa.
- EstĂĄ linda! E eu? â repeti seu gesto, mostrando meu short e minha blusa soltinha.
- ImpossĂvel ficar mais linda, Mel.
- Ătimo! EntĂŁo vamos! â e saĂmos do quarto em direção ao lago, que era o local que a festa estava acontecendo. Fiquei surpresa ao avistar um enorme grupo de pessoas dançando animadas e com seus copos vermelhos nas mĂŁos, a festa toda sendo iluminada por uma fogueira central e tochas em toda a circunferĂȘncia. O lugar estava lindo e animado, o oposto do que eu esperava encontrar. Logo Kristen e eu nos misturamos com as pessoas e eu comecei a beber, enquanto minha colega de quarto dançava de uma forma tĂmida.
- Se solta, garota! â entreguei um copo para ela que bebeu tudo em um gole. Ela queria se soltar e se sentir livre. Boa menina.
Eu estava dançando sozinha quando senti braços envolverem minha cintura e me puxando. Seu cheiro logo invadiu minhas narinas e sorri.
- VocĂȘ estĂĄ linda â ele deu um beijo em meu pescoço e eu logo me virei, entrelaçando meus braços em seu pescoço.
- E vocĂȘ estĂĄ muito folgado â sorri e ele logo me beijou.
- Hey, vamos com calma, Mathew â me afastei um pouco de seu corpo e comecei a dançar. Ele acompanhava todos os meus movimentos sem nem piscar, as vezes levando o copo atĂ© a boca mas nunca desviando o olhar. Adorava o jeito que ele ficava hipnotizado por mim. Me sentia no poder.
Depois de dançarmos e bebermos muito arrastei Math para meu quarto, jå que Kristen estava aos beijos com algum garoto que eu nunca havia percebido na escola.
Entramos no meu quarto empurrando a porta com tudo, Math devorando meus lĂĄbios e me jogando com tudo na cama. Ele jĂĄ estava sem camisa e eu com a blusa toda torta.
- Ah, que Ăłtimo â escutei alguĂ©m resmungar perto da janela e quando olhei na direção da voz dei de cara com um garoto vestindo uma camiseta preta suja de terra, calça jeans rasgadas e pequenos cortes nos braços cobertos por tatuagens. Ele nos olhava com tĂ©dio.
- Mas o que... â eu falei alto, despertando a atenção de Math que olhou na direção do garoto e para meu desespero nĂŁo viu nada.
- O que vocĂȘ estĂĄ olhando? â ele saiu de cima de mim um pouco confuso.
Droga! Eu nĂŁo conseguia acreditar no que estava acontecendo, e pelo visto nem o garoto parado na janela.
- Math, serĂĄ que podemos deixar pra outra hora? â falei baixo â NĂŁo estou me sentindo bem.
Ele bufou, pegou sua camiseta e saiu do quarto batendo a porta com força. O garoto continuava olhando pra mim com um enorme ponto de interrogação no olhar.
- VocĂȘ consegue me ver? â ele sussurrou tĂŁo baixo que mal pude escutar.
- Eu consigo te ver sim, mas nem por isso tenho audição biĂŽnica â falei irĂŽnica.
- AlĂ©m de vadia Ă© abusada? â ele riu.
- E vocĂȘ Ă© o que alĂ©m de um cadĂĄver? â falei de uma forma cruel. Ele visivelmente nĂŁo esperava por essa.