Ronan, apesar de todas as desavenças do universo, tinha terminado a escola. Talvez James tenha tido que intervir algumas vezes, não que Ronan tivesse pedido. Mas o que importava era que finalmente ele estava em casa. Em casa com Milla, sua irmãzinha, e o mais importante: longe de Declan.
O irmão cumprira o acordo, não chegara perto da propriedade da família Lynch desde que Ronan finalmente assinara o contrato que dava permissão aos médicos para desligar o suporte da mãe deles.
Essa tinha sido a decisão mais difícil da vida de Ronan. Algo que ele nunca seria capaz de esquecer ou se perdoar por completo, e como um lembrete de sua decisão, ele carregava duas cicatrizes no tórax. Ronan tinha sido irresponsável, mas quem poderia julgá-lo quando ele buscava a sensação de adrenalina fria nas veias e o batimento nos ouvidos para calar as memórias de infância, com seu pai vivo e sua mãe sã e consciente. Uma época onde o maxilar de Ronan não tinha a curva dura que o acompanha atualmente. O momento em que o pneu do carro aquaplanou e o carro perdeu o controle pareceu durar minutos. Minutos de nada. De silêncio. Era como se tudo tivesse se calado e só o choque sobrasse. Era até mesmo tentador essa sensação, essa paz. Mas quando tudo voltou à tona, voltou em uma explosão, e o garoto sentiu uma bola de boliche fria de culpa caindo em seu estômago, ele sabia que o tiro tinha saído pela tangente. Agora ele carrega a cicatriz da ferragem que o acertou nas costelas e outra feita no hospital para reajustar o estrago.
Meses haviam se passado, e apesar de Ronan mandar James se foder todas as vezes que ele tentava falar sobre o assunto, o tempo realmente curava, e as semanas têm estado ligeiramente mais leves.
Ele podia acordar em sua vida pacata, seguir sua rotina de homem do campo, juntar ovos, buscar leite, preparar o café e o almoço de sua irmãzinha. Ele não precisava fazer nada disso, ele poderia pagar alguém para fazê-lo, mas o que merda ele faria o dia inteiro numa granja, sozinho, sem trabalho ou obrigações? Sem ao menos encher a cara até esquecer o nome? Pegar uma briga, alguns diriam. Apostar um racha, outros afirmariam. Mas nem só de encrenca vive um pseudo badboy caipira. Principalmente perto da irmã de oito anos.
Então ele se contentava em cuidar dela, cuidar dos animais, acompanhar James nos eventos menos enfadonhos, os quais o amigo insistia que seria “muito bom” para sua aparência na sociedade, mas que Ronan não poderia ligar menos. Esses eventos serviam para trazer a tona aqueles candidatos a vagas que estão em colocações de prioridades mais distantes da primeira escolha. Ronan, entretanto, nem na lista entrava.
Era começo de outono, e finalmente o tempo começava a esfriar. Não o suficiente para fazer Ronan vestir mais que uma regata, ele gostava de provar ao frio quem estava no comando. O que contrasta perfeitamente com o modo com qual o garoto vestia a irmã, que não botava o pé fora de casa até que o irmão estivesse certo de que ela estava levando casacos suficientes.
Esse era um desses dias nos quais a temperatura caía alguns graus, e Ronan não tinha nem discutido sobre agasalho, só enfiado a peça na mochila da criança e a acompanhado até metade do caminho. Milla insistia que sabia continuar só, e Ronan fingia acreditar que era capaz de deixá-la ir só, então se despedia apertando seu nariz até que ficasse vermelho e beijando sua testa em seguida. Só para virar, seguir por 10 metros na direção contrária, entrar numa rua perpendicular, tomar a paralela e acompanhar a garota nos cruzamentos até a escola. Se ela não o via, não sentia. E quando ela passava pelos portões da escola, Ronan podia seguir para casa sossegado. Hoje, entretanto, ele resolveu não voltar.
Ele sempre diz não perceber, ou ligar, para datas, porém se o observar bem de perto, é possível perceber como o próprio cérebro do jovem é um calendário onde ele marca cada dia com seus afazeres e marcos. Então se ele se atrasava ou não ia para alguma ocasião, tenha certeza que ele só não quis ir. O que não era incomum. Apenas o que é mais importante realmente ganhava atenção dele sem ser embebido de sarcasmo ou cinismo.
Em vez de seguir para a fazenda, Ronan desceu ainda mais a rua, sem rumo. Hoje era um dia no calendário da sua mente que ele não queria estar em casa. Fazia seis meses do dia em que ele foi, olhou diretamente no rosto inconsciente de sua mãe e permitiu que a separassem das máquinas que a mantinham viva. E como se a ironia da sua vida não fosse o suficiente, hoje completava 3 anos que seu pai havia sido “morto em um acidente sem explicações”, como a polícia havia chamado, mas que Ronan não gaguejava a refutar dizendo que ele fora assassinado.
Ronan grunhiu e enfiou as mãos nos bolsos, mas se alguém perguntasse, frio não seria o motivo disso, apesar das falanges dele estarem rosadas do frio. Ele caminhou e passou por um fliperama no qual ele costumava jogar com Declan quando os dois definitivamente não se odiavam. Ele não deixou que seu olhar fisgasse mais do que alguns segundos de memória do lugar e desviou os olhos. Hoje não era um dia de reviver o passado. Dobrou, então, na primeira rua a direita que viu, não realmente ligando para onde estava indo e só parando quando um gato de não mais que alguns meses veio miando agudamente aos seus pés. Ele fingiu desprezar o animal por um total de 3 segundos, até se abaixar e o acariciá-lo. O animalzinho conseguiu com que meio milímetro de fibras musculares na face dura dele se repuxassem no que um observador atento chamaria de sorriso, afinal, Ronan Lynch resistia a muitas coisas, mas não a animais.
— Eu não creio que o badboy da escola tem um coração mole! — Uma voz masculina rompeu o zumbido usual da cidade pela manhã. Ronan parou, apesar do miado de reclamação do gato roçando em suas pernas. Ele ergueu o queixo tão levemente, apenas o suficiente para ver quem o dirigia a palavra, quase como um felino selvagem, muito maior do que o que brincava em seus pés. — O gato comeu sua língua? — O homem o olhava, debruçado na cerca de lounge de uma academia, achando muita graça da própria piada. Quando seu sorriso dobrava os cantos de sua boca, fazia com que covinhas surgissem e o piercing no nariz brilhasse. Ronan rosnou de volta e endireitou a coluna.
Ele o conhecia. E a visão dos seus olhos azuis contrastando com o cabelo tão escuro, que Ronan suspeitava ser pintado, trazia um outro tipo de memória à tona na mente dele. Um tipo de memória tão imprópria para a hora da manhã quanto entrar num bar agora e pedir o whiskey mais forte.
— Sabe, você não é tão misterioso quanto acha que é. — O garoto, John, mordeu a ponta da língua e ergueu os olhos. Ele estava realmente o provocando? Ronan, deu um passo em sua direção.
— Isso não é roupa de ginástica. — Foi uma observação inesperada, como geralmente as observações de Ronan são, mas mais amigável do que 90% dos casos.
— Isto? — ele abriu um pouco a jaqueta de couro, mostrando o conjunto de roupas escuras com cintos e detalhes em metal. Um grande cliché de cara para outro. — É obviamente a minha primeira escolha. — John deu a volta pela cerca, se aproximando de Ronan.
— Elas caem por isso? — Ronan ergueu a sobrancelha, e rolou os olhos em seguida, enfiando as mãos nos bolsos. John por outro lado, sacou a mão e a estendeu em sua direção.
— Qual o cumprimento socialmente aceitável para “nos vimos algumas vezes,” porém “transamos algumas delas”, entretanto “não trocamos mais do que 3 frases”. — Ele manteve a mão erguida e o sorriso idiota insistente no rosto.
Ronan não o respondeu, mantendo o rosto duro.
— Seu maxilar um dia quebra. — Ele rendeu as mãos, fazendo sinal de armas com elas, e soprando, como se soubesse que eram intimidadoras.
Ronan, por outro lado, grunhiu e deu as costas, não expressando qualquer descontentamento. Ou contentamento. Ele apenas manteve o seu caminho.
E John, como esperado, o seguiu.