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— Você vai se perder. — John o provocou, não se importando que o outro homem andava a sua frente, mais fugindo do que com ele.
— Como se fizesse diferença. — Ronan não conseguia evitar grunhir entre uma palavra e outra. Ele estava particularmente irritado aquele dia. Não pretendia ser perturbado por ninguém, nem mesmo a pena dos amigos, e muito menos por um sorriso insistente e olhos estupidamente azuis.
— Ah sim, a pose de “garoto perdido” ainda se mantem, não é? — John acelerou o passo para que pudesse ver a reação do outro quando provocava, claramente se divertindo.
Eles desviaram juntos do ciclista que vinha na direção contrária, na calçada estreita, o que os fez esbarrar um no outro. Ronan levantou um braço cruzando o peito do outro e o empurrou para o lado, abrindo espaço para continuar sua missão sabe-deus-para-onde. John pulou um pouco quando a pele do braço descoberto do outro encostou na região das suas clavículas, o que não passou despercebido por Ronan. Nada passava.
— Caralho! Você ta frio para uma porra, meu irmão! — Ele encarou Ronan como se fosse um quebra cabeça interessante e mais do que um tanto bizarro. Ronan apenas mexeu os olhos em sua direção e deu de ombros, sustentando o olhar do outro pela primeira vez aquele dia.
Os dois não eram realmente grandes amigos na escola, longe disso, mas frequentemente esses encontros ocorriam e eles incomodavam um ao outro à loucura. O fato de Ronan tolerar John naquele dia mostrava que ele realmente apreciava a presença. Eles andaram alguns segundos sustentando o olhar um do outro até que Ronan o desviou, fingindo querer ler um menu de um restaurante qualquer.
— Não sabia que você era fã de... — o outro garoto não deixou passar despercebido o último movimento de Lynch, encarando a nuca descoberta de Ronan, por onde as pontas e curvas da tatuagem de suas costas se enrolavam e juntavam com a fina linha de seu cabelo que era sempre raspado quase a nulo. — Lagostas? — John exclamou, lendo o cardápio. — Para o café da manhã? Eu até sabia que você era burguês, mas a esse nível...?! — John deu uma risada alta.
Ronan simplesmente estalou a língua e continuou andando, sentindo o olhar que fitava suas costas causar um arrepio.
— Aquele seu irmão, Declan, ainda está metido com política? — John afirmou quando voltou a seguir o outro, quase esbarrando nele quando Ronan parou abruptamente e agarrou seu casaco de couro. Seu rosto, geralmente frio, mas calmo, como uma geleira, tinha assumido uma forma escura, como se a geleira tivesse criado rachaduras fundas o suficiente para soltar um iceberg que mataria a qualquer um que estivesse no meio. Esse definitivamente não era um assunto que o garoto queria ouvir falar.
— Não pronuncie o nome deste verme na minha presença.
John enrijeceu por um momento, mesmo Ronan não tendo levantado um punho. Sua voz era firme e áspera o suficiente. John sabia que ele era forte, mas também sabia que já haviam se ameaçado antes. Logo, relaxou os ombros e levantou as palmas das mãos. O rosto de Ronan em um relapso pareceu para John, mais angustiado do que bravo, por isso o garoto decidiu dar um desconto e parar de pentelhar por um tempo.
— Não está aqui quem disse. — Ele disse, sério pela primeira vez no dia. O que fez com que Lynch acreditasse após o encarar por alguns segundos mais.
Dessa vez, quando voltaram a andar, Ronan permitiu que John acompanhasse seu passo, sem trocar um olhar novamente com o outro garoto, que resolveu, como se estivesse acostumado a ser ameaçado, a cantar tranquilamente alguma música que estava na sua cabeça desde cedo.
Eles andaram por mais cinco minutos, o que era um bom exercício, visto que já haviam andado por no mínimo vinte e cinco. Ronan parou então, estreitando os olhos e entrando num estabelecimento sem pensar mais do que 4 segundos. John, por outro lado, parou e retrocedeu, tentando ver o que a placa dizia.
— Piscina? O que merda você quer numa piscina no meio do outono? Pirou de vez? — apesar dos protestos, ele o seguiu. Ronan já estava no balcão, empurrando uma nota que com certeza era alta o suficiente para admitir os dois. A mulher na recepção encarava ele como se estivesse louco. Em seguida olhou para o novo integrante da cena, buscando um pingo de sanidade em John, que apontou um dedo para a própria têmpora e girou “cou-cou”, indicando que Ronan era louco. A mulher deveria estar repensando toda a sua vida, por tê-la levado ali, mas com os dedos finos e magrelos, pegou a nota e devolveu o troco, que Ronan pegou apenas uma parte.
— O aquecimento está quebrado, nem mesmo as equipes de natação estão vindo. — Ela alertou, depois do pagamento, apontando para uma placa que tinha passado despercebido por John. Ronan não esboçou surpresa. Quando novamente nenhum dos dois garotos respondeu, ela apenas se levantou e se debruçou no balcão. — Passem pelos vestiários — Ela apontou para a sala com armários azuis enferrujados que circundavam a entrada da piscina coberta. — Troquem de roupa, não deve ter ninguém, podem pegar qualquer armário. — Sua voz era tediosa, e ela olhava os dois por cima dos óculos com um olhar desconfiado — A ducha é obrigatória antes de entrar na piscina. Roupas de banho são necessárias. Não é permitido brincadeiras perigosas. A sauna só deve ser ligada na presença de um funcionário e está superaquecendo. Alguma dúvida?
Antes dela ao menos terminar de falar, Ronan e sua mente conturbada já estavam passando para dentro da sala dos armários. John mostrou o polegar para a mulher e passou sorrindo, atrás dele.
— Você nos fez andar 30 minutos para nadar? No meio do inverno? Você deve ser completamente louco. — John fechou a cortina da sala, impedindo que a mulher continuasse a julgá-los. — Você tem pelo menos uma sunga? Você usa sungas? Ronan Lynch usa sungas?
Ignorando o questionamento de John, Ronan apenas arrancou a regata por cima da cabeça e a jogou num cubículo azul que rangeu quando ele o abriu.
— Você estava numa merda de uma academia e está reclamando de um pouco de exercício? — Ele respondeu, se virando para John. Seu corpo se arrepiou, como uma memória muscular da última vez que os dois estiveram juntos, mas se qualquer um perguntasse, ele diria que fora o vento.
— O frio deve ter comido seus miolos. — John não se moveu, apenas manteve-se parado observando se o outro realmente ia em frente com essa loucura. Seus olhos, estupidamente azuis, fitavam curiosamente as linhas escuras que saiam das costas do garoto e eram apenas um detalhe nos ombros. Ele parecia ansioso para lembrar do padrão complicado que cobria toda as costas do outro.
— O frio. — Ronan riu sarcástico — Quem me dera. — Ele então procedeu, chutando as botas e livrando os pés, desabotoando a calça em seguida, respondendo à pergunta do outro. Não, Ronan Lynch não usa sunga.
Muito menos aparentou ter vergonha enquanto deslizada a calça pelas pernas pálidas. Nem mesmo quando John claramente encarava o corpo nu só coberto por uma cueca.
— Vai tirar uma foto? — Ronan jogou a calça no armário e desceu o vestiário até os chuveiros, passando direto e ignorando as informações da recepcionista, indo direto para a porta lateral que levava à piscina.
John piscou duas vezes.
— Lunático filho da puta. — Ele xingou, antes de proceder a tirar as próprias roupas. Logo ele que tinha pensado hoje mesmo como o dia estava frio demais para ficar de cueca por aí. Mas ele não daria o braço a torcer. John riu ao olhar pra baixo e perceber que estava usando uma cueca tão preta quanto o resto das roupas que ele deixou amontoar no chão.










