rompimento
Imagina só a cena.
Você termina um relacionamento de anos. Um baque que talvez você não esperasse. Ou talvez uma parte de você já esperasse. Existem tantas nuances que é difícil saber o que era intuição, paranóia e o que o seu coração já sabia.
Porque como pode um coração guardar tanto amor por alguém e, ao mesmo tempo, não conseguir decifrar se essa pessoa vai ou fica?
No dia seguinte, faz um calor absurdo. Um clima sufocante, úmido, desgastante. Você passa o dia inteiro deitada, tentando recuperar as energias. Tentando não pensar. Criando cenários imaginários. Se distraindo com leituras, vídeos engraçados, qualquer coisa que silencie a dor por alguns minutos.
Mas o corpo simplesmente não descansa.
No segundo dia, chega a hora de voltar para a rotina. É uma segunda-feira.
E, como se o roteirista da vida tivesse um senso de humor sarcástico, o dia amanhece tomado por um temporal. Chove sem parar. Trovões. Rajadas de vento. A água invade a sua casa, invade o seu trabalho.
Fisicamente.
E, de certa forma, metaforicamente também.
Você se vê dividida entre dar conta da rotina, conter a água que transborda para dentro, ao mesmo tempo, tenta conter a água que ameaça transbordar de você.
Então vêm as perguntas.
Será que eu vou dar conta?
Como será que a outra pessoa está?
Você revisita conversas. Volta no tempo. Procura uma explicação, um motivo, um detalhe que talvez tenha passado despercebido.
Será que ainda tem volta?
Será que vale a pena tentar?
Quando a noite chega, são os pequenos detalhes que começam a doer.
Para quem eu mando a minha corrida de Uber?
Para quem eu aviso que cheguei em casa?
Quem vai perguntar se eu cheguei bem?
De quem vai vir a mensagem de boa noite?
E para quem eu vou desejar uma boa noite?
É nesses pequenos espaços da rotina que a ausência ganha forma.
É quando você encontra um vídeo engraçado e percebe que não tem mais para quem enviar.
É quando a chuva cai lá fora e você não tem mais com quem comentar.
É quando um salgadinho entra em promoção e você lembra que era o preferido daquela pessoa, mas já não faz sentido mandar uma mensagem.
São detalhes tão pequenos que, antes, pareciam insignificantes.
Mas é justamente neles que a gente percebe o quanto alguém ocupava os nossos dias.
O quanto preenchia a rotina.
O quanto fazia parte da nossa vida.
E, por alguns instantes, tudo o que a gente queria era poder voltar no tempo.
Não para viver tudo de novo.
Mas para acreditar que, talvez, dessa vez pudesse dar certo.













