Não havia lugar mais surpreende em climas gélidos do que uma sauna. Era realmente incrível o que uma saleta coberta de madeira poderia fazer além de sua finalidade primária, chegando ao absurdo de unir príncipes cujas divergências estavam se tornando amplamente conhecidas. Pior: ainda que as personalidades opostas normalmente fosse razão de confrontos, ali permaneciam tranquilamente juntos… Ou quase isso. Com tantos lugares disponíveis no Chalé Zermatt, era de se esperar que Lorcan não estivesse justamente no mesmo cômodo que Lorsan – principalmente quando as realezas vinham se evitando desde o fatídico jantar. No entanto, como se um ímã atraísse os herdeiros, ambos haviam decidido desfrutar da sauna naquela tarde em específico, diante da impossibilidade de sair para o vilarejo. Em meio ao vapor e toalhas que encobriam rostos, Lorsan ingressou no recinto, toalha por sobre o ombro, sem perceber que o príncipe irlandês já estava lá, pois, se soubesse, certamente não teria entrado, muito menos permanecido tão relaxado.
De regra, sessões como aquela levavam algum tempo, o suficiente para fazer com que o suor começasse a gotejar dos corpos, limpando-os de todas as toxinas. Envolvidos pela sensação relaxante que o ar abafado oferecia, os príncipes se perderam no passar dos minutos, permanecendo ali por pouco mais de hora antes de perceberem que a sala já começava a se esvaziar. Por sorte, foi somente ao final da sessão, quando não havia ninguém além deles e um duque norueguês, que Lorsan e Lorcan trombaram um com o outro.
Aparentemente, ironia regia o destino dos rapazes, que escolheram o mesmo instante para deixar o ambiente. Não é preciso dizer que, diante da presença um do outro, os corpos antes relaxados assumiram linhas mais tensas. Olhares foram travados e, por um segundo, quem desviaria primeiro parecia ser uma questão crucial. O desprezo mútuo estava longe de ser disfarçado — sendo esse ainda mais visível no que dizia respeito ao ranudense, que penosamente reprimiu sua vontade de agredir o Turlach diante da sua amostra de indiferença. Já haviam discutido o suficiente, uma palavra a mais poderia pôr em risco a frágil trégua imposta. Contudo, aquela não era uma tarde talhada para a paz.
“Perdoem-me, não me dei conta de que atrapalhava o encontro.” A frase chegou aos ouvidos de ambos, que estavam prestes a descobrir quem sairia primeiro — revelação que fora adiada, pois até mesmo Lorcan, acostumado a ignorar alfinetadas do tipo, virou-se ante o tom debochado do duque. “Não precisam sair, altezas, deixarei-lhes em paz.”, completou no típico tom arrogante dos nobres, fala que se seguiu de um risinho e de um caminhar orgulhoso para o exterior. Na sequência, um disparo do que reconheceram como arma de fogo, bem como o som de um corpo caindo ao chão: um Azul a menos. Não muito tempo depois, a porta da sauna se escancarou e colidiu com a parede. Numa sucessão de gritos, Vermelhos com metade do rosto encoberto por toucas de esqui e de posse de armas consideradas já ultrapassadas – porém ainda capazes de fazer algum estrago ---- invadiram aquele que seria o local menos provável para se esconder num ataque. Decerto estavam revistando todas as áreas do hotel, a fim de se certificarem de que teriam todos os hóspedes sob seu jugo.
Foi necessário somente um olhar --- pela primeira vez, em algo que se assemelhava a cumplicidade ---- para concluírem que os rebeldes eram muitos para que pudessem lidar sozinhos. Mesmo o treinamento militar de Lorsan e as técnicas de combate de Lorcan, não faziam diferença alguma quando não possuíam armas além de seus corpos, o que tornava a desvantagem significativa demais para que pudessem resistir, independente do que o instinto lhes gritasse.
Por um momento, cruzou pela cabeça dos herdeiros que estivessem prestes a serem mortos. Haviam, afinal, ouvido ( e no caso de Lorcan, experimentado ) sobre o quão impiedosos podiam ser rebeldes Vermelhos quando colocavam as mãos em Azuis, externando, com o ato violento, todas as insatisfações políticas e o sentimento de opressão. Vlahakis, inclusive, tomara conhecimento das técnicas de tortura por eles empregadas, muito semelhantes às que se via nos calabouços da RANU. Exibir o sangue de dois sucessores diretos ao trono de reinos poderosos passaria uma mensagem significativa --- conclusão lógica que qualquer deles podia fazer, mesmo sob pressão.
Ver aqueles homens acuá-los e não poder fazer nada, acabava com o ego de Lorsan e a sanidade de Lorcan. Para o herdeiro irlandês, em particular, a situação era profundamente desesperadora, por mais que tentasse não transparecer. Ver-se mais uma vez indefeso nas mãos dos vermelhos após dedicar-se tanto a aperfeiçoar suas habilidades de defesa, era como uma afirmação de que não era nada. A suposta superioridade concedida pela cor azul que corria em suas veias, não significava nada. Por outro lado, a revolta que o quadro geral incitava, era o suficiente para que não se quebrasse em lágrimas e se transformasse num inútil. Acharia alguma forma de sair dali --- e via em Lorsan a mesma determinação.
“Podem levar as mocinhas lá para o fundo” --- ordenou o da frente, num sotaque inglês carregado que indicava que não era ranudense. Para um líder, não parecia tão velho, embora tivesse a aparência de quem tinha enfrentado anos de trabalho braçal. “Vamos testar se são mesmo resistentes como dizem”, completou, com um risinho que podia ser encarado como sádico, e o homem devia, de fato, estar se deliciando com a situação. À contragosto, os príncipes foram empurrados na direção dos vestiários. As tentativas de resistência lhes rendendo apenas coronhadas na cabeça ou bofetadas no rosto ---- também pudera… apenas Lorsan era idiota o suficiente para desferir um soco no rebelde que o puxava naquelas condições. Se confiasse mais em Lorcan talvez pensasse em estabelecer algum plano, todavia, não havia diálogo entre os dois nem mesmo em situações normais, quanto mais nas extremas.
“Cortem os tubos”, ouviu-se, assim que os herdeiros foram lançados no piso do vestiário, e tão logo levantaram os olhos, Lorcan e Lorsan perceberam que os revoltosos falavam dos tubos de ventilação da câmara, responsáveis pelo aquecimento do local. Havia maneiras mais eficazes de matar um homem, mas estas levavam menos tempo e sofrimento do que o planejado por aqueles que deviam fazer parte de um grupo radical de rebeldes da RANU.
Um chiado alto e constante não demorou a preencher o cômodo, indicando a dispersão de monóxido de carbono no ar. Cobrindo os rostos, os atacantes começaram a deixar o vestiário, um atrás do outro, abandonando os príncipes à própria sorte. Quando inalado, o gás é preferencialmente absorvido pelas hemáceas do sangue dentro dos alvéolos pulmonares em relação ao oxigênio do ar, pois reage duzentas vezes mais rápido do que este com a hemoglobina. Dessa forma, as hemáceas, no lugar de transportarem oxigênio, convertendo sangue venoso em arterial, acabam transportando o monóxido em seu lugar. E, já que a natureza dos Azuis faz com que qualquer processo orgânico se dê de maneira aprimorada em relação aos Vermelhos, incluindo a incorporação de gases danosos, esse transporte acaba ocorrendo muito mais rápido.
Os rapazes eram inteligentes o suficiente para saberem o que ia acontecer no momento em que foram trancados no vestiário. “Não podem deixar nós dois aqui!” ---- rugiu o príncipe ranudense, socando e chutando a porta repetidas vezes, muito mais descontrolado e impulsivo em comparação ao irlandês. “Abre essa porra agora, filhos da puta! Eu vou caçar vocês e matar um por um. Eu juro por—”
“Será que você pode parar por um minuto? É claro que eles não vão voltar”, falou o loiro, tentando manter a calma e massageando a têmpora ao sentir os primeiros sintomas da inalação. Em um ambiente fechado como o que estavam, com oxigênio restrito --- consumido na combustão do gás e não suficientemente renovado ---- não demoraria para que começassem a sentir tonturas, dores de cabeça e perda dos sentidos; uma caminhada lenta em direção à morte, conforme previsto por seus algozes. A sensação de fraqueza que ameaçava abater Turlach, entretanto, certamente tinha mais a ver com as experiências vividas no passado ( de claustrofobia e sufocamento ) do que com a liberação do gás tóxico e a falta de oxigenação adequada às células do cérebro. “Que tipo de ameaça eles seriam se atendessem nossos pedidos?” disse Lorcan, pressionando os olhos com as palmas da mão, como se o peso pudesse afastar as lembranças e abrir caminho para as ideias. “Precisamos sair daqui logo, o mais rápido possível.”
“Que porra você está fazendo!? Acha que vai entrar em um dos armários e ir parar em Nárnia, caralho!?” exclamou Lorsan, sem entender por que o outro se apressara a abrir os armários. Quando a explicação não veio, a porta foi mais uma vez atingida por um chute. “Porra!” rugiu mais uma vez. Já havia considerado Lorcan um babaca arrogante, um fantoche nas mãos de Johanna, mas nunca imaginara que ele também fosse estúpido. Numa situação daquelas, seria muito melhor ter Aedan como companhia. A verdade era que o americano conhecia apenas o método violento, levando o pé, repetidas vezes, até o ponto abaixo da fechadura, imaginando que romperia com a porta. Quando não surtiu efeito, substituiu pelo ombro, rosnando e gritando palavrões a cada colidência. “Uma marreta… Eu preciso de uma marreta.”
“Se quiser sair daqui vivo e inteiro, recomendo que cale a boca e se afaste da porta”, avisou, impaciente. Já havia considerado Lorsan um babaca arrogante, um fantoche nas mãos de Johanna, mas nunca imaginara que ele também fosse estúpido. Finalmente, o irlandês acabou por encontrar uma caixa preta no fundo de um dos armários, o formato familiar trazendo certo alívio, agora que tinha um plano em mãos. “Você consegue escutar algo do lado de fora?” indagou, buscando os objetos que os tiraria dali e cessaria o latejar que começava a ficar cada vez mais forte em suas têmporas.
“Nada”, respondeu Lorsan, negando com a cabeça uma vez, após colar o ouvido à porta, buscando por ruídos.
“Ótimo.” Adiantando-se até parar ao lado do ranudense, o loiro não perdeu tempo, ajoelhando-se imediatamente em frente às dobradiças. Um arrombamento brusco como o que Lorsan pretendia, chamaria para eles uma atenção mais que indesejada, ainda que fosse uma solução mais rápida — caso feita corretamente. Contudo, o plano de agora serviria para eles. Surpreendentemente rápido ao manejar as chaves de porca e fenda para retirar as dobradiças de um lado das portas do vestiário, Lorcan logo ordenava. “Segure a porta, se não quiser que ela caia sobre você.”
[...] Respirar ar puro novamente quase provocava sensação de afogamento. Vestindo-se às pressas com as roupas que encontraram no vestiário --- algumas de tamanho menor que o que vestiam usualmente --- e que haviam pego na correria que antecedeu à saída de seu “cativeiro”, os herdeiros saíram com destino certo, não se preocupando, talvez pela primeira vez, com o fato de que estavam trabalhando juntos, ainda que não tivesse havido um acordo formal. “Você está pensando no mesmo que eu?”, disse Lorsan, por cima da respiração, já correndo em direção à área dos quartos, após um aceno cúmplice de cabeça do Turlach --- quem, não muito depois, caiu inconsciente no meio do corredor.
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❛ –––– ✘ Love is not a secret march. It's a cold and it's a broken hallelujah. ❜ ┊ 「 𝕱𝖊𝖑𝖎𝖈𝖎𝖊𝖑 」POV
@felicixfelicious
Mau presságio: Que está com más sensações, sentimentos ruins. Que pressente ou avisa que algo ruim está a caminho. Dizem que a calmaria é um presságio de que a tempestade está se aproximando, assim como a melhora eminente é apenas um aviso de que a morte o encontrou. Não importam os sinônimos à serem utilizados, o que importa é o seu simples significado: qualquer sequência de bons acontecimentos deve ser tratada como um alerta do infortúnio que está por vir. Ela aprendeu que quando a esmola é grande, o santo desconfia. Ele descobriu que tudo o que é bom não dura muito. E mesmo assim, já sendo possuidores de uma malícia necessária para sobreviver, deixaram-se levar pela ingenuidade da descoberta de um sentimento — nomeado por ambos como afinidade — acreditando que tudo continuaria bem. Independente se estivessem em Aspen ou Alcatraz, dentro ou fora do enorme chalé. Tudo ficaria bem.
Felícia não possuia qualquer poder sobrenatural que envolvesse a clarividência, nada além do seu sexto sentido, e por ele, sequer teria se levantado da cama naquele dia. Ishmael, por outro lado, sentia a ansiedade e o frio na barriga desde o primeiro dia, acreditando ser algo simplesmente motivado por estar em um local tão diferente do que estava acostumado. Juntos, pareciam ignorar qualquer tipo de teoria conspiratória e a sensação de serem observados também passava despercebida — algo que normalmente não ocorreria, visto que os nobres em questão estão sempre atentos à tudo a sua volta. Estavam se divertindo demais patinando sobre o lago congelado, ou importunando um ao outro com arremessos de bolas de neve, para se preocuparem com qualquer outro detalhe.
Mesmo que a diversão houvesse se iniciado no lado externo, contudo, a nevasca não impediu que ambos continuasse a se divertir juntos no interior de Zermatt. Divertimento à melhor moda Hybern-Vlahakis, diga-se de passagem. E se imagina que ambos decidiram apostar em algo mais carnal, estão enganados. Após a oração de um terço, e a exploração de diversas aventuras — em suas próprias mentes, conforme imaginavam o que poderiam fazer caso não estivessem trancafiados no chalé devido o clima — finalmente foram buscar por entretenimentos distintos. Separaram-se. Pobres garotinhos, nunca viram que isso jamais termina bem nas animações que tanto amamos?
Felícia buscava pela companhia saltitante de Verena, e pela responsável de Johanna, quando cruzou no corredor com uma dupla de criados — eles estavam uniformizador como tais, ao menos, mas não eram como eles. Algo em suas barbas à fazer, na postura extremamente relaxada e em como um deles segurou o pulso da herdeira com força exagerada os denunciavam. Mas um fato sobre Felícia que deve ser levado em conta é que aprendera à não pré julgar as pessoas, e fora com um sorriso gentil que a polonesa respondeu ao questionamento. Mas uma resposta não fora o suficiente, e logo o vermelho apertou mais o pulso da princesa, questionando-a sobre outra e outra coisa à medida que se aproximava. Soprava o aroma de álcool contra seus ouvidos, fazendo com que àquela altura Felícia já se encolhesse contra a parede, tentando soltar-se do homem enquanto o respondia. As palavras, no entanto, começavam a se enrolar, e mesmo que tivesse sido criada para não temer em uma situação como aquela, não conseguia controlar a própria respiração. E então tentou fugir, sua passagem sendo barrada pelo corpo robusto do outro servo. Sabia que não adiantaria gritar, notara inclusive que ruídos similares à gritos eram ouvidos ao seu redor, mas também só acompanhou os vermelhos após certa resistência.
Caos espalhava-se do outro lado de Zermatt, mas Ishmael tinha uma prioridade: reunir o máximo de membros de Alcatraz que poderia e mante-los seguros. Se jogar no meio do Eris que reinava no exterior seria suicídio, e Ishmael estava ciente de que, se decidisse bancar o herói, acabaria morto antes de ter a oportunidade de realmente salvar alguém; não, eles haviam de pensar. O ato era meramente difícil em situações que arrancavam dos demais quantidade de adrenalina, agonia e desespero quanto a presente, mas a quantidade de vermelhos rebeldes e violentos era absurda, sendo impossível deter a todos eles sem qualquer estratégia ––– mas primeiro, Ishmael havia de focar na segurança aos que já se encontrava dentro do hotel. Ao mesmo tempo que contava quantos haviam em cada cômodo, mantinha os ouvidos e olhos atentos a qualquer rebelde a espreita. Avistara rostos conhecidos de Alcatraz, talvez distorcidos por conta do frio e do medo, e contava um por um para garantir que todos estavam ali, quando inquietação substituiu a esmagadora maioria dos seus sentimentos. Em meio a tantas pessoas, Ishmael procurava desesperadamente pelos cabelos loiros mais do que conhecidos, mas não conseguia encontra-los. Onde estava Felicia?
Inquietação se transformou em desespero enquanto as orbes azuladas esperançosas continuavam a mapear o ambiente, verificando cuidadosamente cada mulher de cabelos loiros, checando suas feições e trejeitos com atenção especial. Talvez tamanho nervosismo o estivesse impedindo de encontrar Hybern, e pouco tempo depois lá estaria ela, com o sorriso brincalhão dançando nos lábios e palavras de conforto acalmando o moreno… Mas a consciência de que a visão era pura utopia idealizada por Vlahakis ainda era mais forte do que qualquer otimismo, e ao confirmar que Felicia realmente não se encontrava dentro do Hotel, Ishmael disparou a sua procura.
O frio cortante machucava um Vlahakis que havia se livrado da maioria das roupas que outrora o vestiam, visando aumentar a mobilidade em situação que esta era mais do que necessária. A vastidão alva fazia-se difícil de enxergar, neve repousando nos cílios do moreno enquanto ele tentava localizar a noiva em meio ao caos púrpuro que reinava em Aspen; e por um momento, imaginou o quão efêmeros foram seus momentos com Felicia, e o quanto ele não aproveitara tamanha graça a qual lhe fora concedida ao meio de tantas reviravoltas; que ocupava o tempo que o moreno tinha para lembrar-se da liberdade que perdera ––– ou achava que tinha perdido. Sim, pois a cegueira de uma vida não perfeita, muito menos ideal, mas cômoda para alguém que não havia conhecido outra realidade se não através de páginas amareladas, o impedia de ver que o que lhe era considerado métodos de aprendizado e sobrevivência eram, na verdade, cruéis disfarçadas de necessárias. Por um lado, sentia-se aliviado em ter se livrado dos shows de horror na prancha; por outro, ainda não se sentia pertencente ao mundo anil entre tronos e hierarquia.
Demorou para encontrar Felicia ––– mas para sua felicidade, o havia feito. Entre o alvo da neve, a cabeleira loira de Hybern se destacara aos olhos de Ishmael, que teve um primeiro ímpeto de correr em sua direção sem pensar duas vezes; todavia, notou que ela estava acompanhada. Graças a visão turva pela nevasca, Ishmael primeiramente achara que estava sendo resgatada por outros alunos do instituto; todavia, não foi preciso muito mais atenção para notar que estava amargamente enganado, e nem para perceber qual era a verdadeira situação de Felicia. Raiva subiu instantaneamente no peito de Vlahakis, os olhos semicerrados para os vermelhos desconhecidos, e Ishmael não se demorou a se direcionar a passos rápidos e silenciosos em direção aos rebeldes até que considerasse a distância entre eles suficiente para que sua mira não falhasse. Sacou a primeira adaga e a arremessou em direção as costas do joelho de um dos homens, rompendo imediatamente um dos ligamentos e fazendo o homem cortas o ar gélido com um grito doloroso. A queda do companheiro fez o segundo homem olhar para trás com uma expressão de surpresa, e Ishmael não perdeu a oportunidade de arremessar a segunda faca em seu olho direito, matando-o rapidamente. Aprendera no navio que atingir pontos sensíveis do corpo era sempre mais eficiente do que se envolver em árdua batalha, na qual limitaria-se a tentar ferir órgãos geralmente protegidos por armadura ou coletes. “ ––– Se querem saber, queridos…” Sussurrou, não necessariamente para segundos ouvirem. “ ––– Ninguém mexe com a minha noiva.” E vendo a figura de Felicia a distância, se apressou em sua direção, levando ambas as mãos ao rosto da loira. “ ––– Licy! Licy, por Deus!” As orbes azuladas mapeavam Felicia, atentas a qualquer possível ferimento. “ ––– Você está bem? Ah, mas claro que não está. Vamos. Eu vou te tirar daqui.” Proferiu, e em seguida tomou Felicia nos braços, deixando as pernas da loira de apoiarem em seu braço direito, e seus ombros, no esquerdo, e seguiu em direção ao hotel. Olhe, a voz ecoou em sua mente, fazendo Ishmael morder o lábio inferior. O que Bartholomew lhe falava sempre, o que ele deveria fazer… mas se recusava com Felicia ao seu lado. Olhe as vidas que tirou; recorde seus rostos. Todos são iguais, independente dos pecados, ouviu novamente, e dessa vez sacudiu a cabeça para espantar o inferno que sempre era quando situação como aquela ocorria.
O pavor era eminente em cada movimento que a Hybern reproduzia conforme acompanhava seus malfeitores. Isso até assustar-se com o grito de um dos homens e dar um pulo para trás. Os olhos castanhos vasculharam o terreno ao seu redor, não tendo dificuldade em distinguir a figura de seu noivo. Ishmael! O que ele estava fazendo ali? Os olhos voltaram para o homem caído no chão, e então foram erguidos novamente na direção do ranuense antes de, novamente, voltar-se para o vermelho desfalecido. A cena parecia complicada demais para a compreensão da Hybern, que ostentava uma expressão de estranhamento enquanto via o outro criminoso cair ao seu lado. Filetes escarlate manchavam a paisagem alva, e tudo pareceu se manter em um silêncio ensurdecedor até o momento em que as mãos de Ishmael foram sentidas no rosto da herdeira. O mundo ganhou som. Os olhos, que ainda observavam o corpo inerte, desviaram-se para os azuis do noivo, o sorriso surgindo quase automaticamente nos lábios da polonesa, que não tinha ciência das poucas lágrimas manchando sua pele.
O caminho de volta ao Zermatt fora silencioso, quebrado somente pelos ruídos do caminhar de Ishmael, que carregou a loira totalmente aninhada à seu peito. Hybern não havia conseguido agradecer, e embora sentisse uma grande necessidade de falar diversas coisas à ele, não sabia por onde começar. As palavras surgiam desconexas em sua mente, e perdera todos os minutos do percurso tentando encontrar ordem nelas — desistindo antes da metade, para que gastasse sua concentração nele. Seu cheiro era bom, e o calor que irradiava do corpo de Vlahakis a fazia desejar não o soltar mais! Não eram aqueles pensamentos recorrentes da herdeira, mas tampouco surpreendeu-se com tais diretrizes. Poderia afirmar com toda a certeza de que haviam se aproximado, e diferente do que normalmente acontecia, não buscava empecilhos para o afastar. Com uma comunicação silenciosa, já na entrada do grandioso chalé, Felícia ignorou o incômodo que sentiu por voltar ali sem saber se era seguro, para confiar no moreno. Não a levaria ali, afinal, se não acreditasse que ela ficaria bem. A levaria?
“ ––– Muito obrigada!” A loira começou, assim que fora colocada no chão. Mas não queria afastar-se dele, e demonstrara o sentimento ao jogar-se contra o corpo do moreno, abraçando-o na cintura. A promessa de que ela ficaria bem, e ali era seguro, a fez somente apertar mais os dedos uns contra os outros, como se fosse capaz de prender Vlahakis perto de si. Mas não era, e todo aquele clima de despedida motivará Felícia para que se colocasse na ponta dos pés, não tendo muito tempo de pensar antes de avançar os lábios contra os dele. Era clichê demais que o primeiro beijo em seu noivo fosse em um momento de ameaça, mas a polonesa nunca havia sido do tipo que pensa demais antes de agir. Além disso, aquela sensação era boa. Não que esperasse algo diferente, mas beijar Ishmael era melhor do que poderia imaginar. Os lábios encaixavam-se perfeitamente, se movendo com calma para que ambos pudessem provar um ao outro. Era paciente e demorado, como se necessitassem gravar cada detalhe um do outro. “ ––– Um motivo para não demorar.” O sussurro da loira fora emitido com os lábios contra os dele, sorriso despontando nos femininos.
Dolorosa como era a situação, não surpreendia que tensão houvesse tomado conta dos músculos de Ishmael; todavia, de uma forma aparentemente divinamente inexplicável, a presença de Felicia sempre conseguia deixar tudo melhor, desde a uma simples chateação quanto a chacina que ocorrera em Aspen naquele dia. Não curava, mas melhorava de forma que, quando vislumbrou o sorriso de Hybern, seu coração imediatamente aqueceu, e o frio cortante das montanhas dera lugar a um segundo de calor e vida. Enquanto caminhava para seu destino, aproveitava ao máximo o contato do corpo de Felicia contra o seu, sendo a única sensação agradável das últimas horas. Genuinamente, o que Ishmael almejava era se esconder com a herdeira onde ninguém pudessem os encontrar e mergulhar nas sensações que ela lhe proporcionava há meses; mas sempre havia de acordar, e lembrar que a situação não os permitia ––– e novamente, vinha o sentimento do porquê não haviam provado um ao outro desde o primeiro dia em que se desejaram. “ ––– Não há o que agradecer.” Proferiu ao chegarem no recinto, sorriso de soslaio desenhando-se nos lábios azulados, tanto pela cor do sangue quanto pelo frio. Não, Ishmael não deixaria Felicia sem beija-la. Não ali, não agora; afinal, vidas andavam em corda bamba, e por mais que fosse insuportável pensar na ida da loira para um mundo melhor, Ishmael tinha consciência de que quem corria esse risco era ele ––– e algo, ou alguém, sussurrava em seu subconsciente algo sobre arrependimento amargo. E aparentemente, Felicia lera seus pensamentos; seus lábios avançaram um para o outro, afundando-se num beijo lento e absolutamente delicioso. As mãos de Vlahakis não tardaram a subir pra entrelaçar-se nas madeixas loiras da noiva, tentando aproveitar cada parte dela que poderia em momento ––– e por um momento, no mundo só havia duas pessoas. O toque de Felicia beirava a poesia, a um soneto, melódico e ritmado quanto os movimentos tão perfeitamente sincronizados dos corpos dos noivos. Mas uma hora tinham que se separar, e o movimento foi feito contra a vontade de Ishmael ––– afinal, por ele, manteria-se ali para sempre. “ ––– É um ótimo motivo.” Assentiu, permitindo suas mãos a descerem para tocarem o próprio peito; e dali, tirou o crucifixo que sempre carregava consigo, tirando-o de onde se encontrava e entregando-o a Felicia. “ ––– Um motivo para me esperar. Eu vou voltar para você, Licy. Eu prometo.” E com um último beijo, este mais rápido do que o anterior, Ishmael saiu do quarto. Ele queria, mas não olharia para trás; pois se o fizesse, fraquejaria. Não iria, não conseguiria. E se o momento com Felicia foi o melhor das últimas horas ––– ou melhor, dois últimos meses ––– deixa-la seria o mais doloroso.
Um amor improvável, um beijo de despedia e a inquietação que toma a conta de alguém vagarosamente. Esses fatores trazem uma atitude desesperada, um erro grave que só é notado quando o calor do momento passa. Eles confiaram na luz, deram as mãos ao Deus e se deixaram levar pelas promessas do destino. Foram estupidos, apertando as mãos com a sorte em um acordo sem garantias. Esqueceram-se que todo ápice de felicidade antecede um evento catastrófico. Mau presságio.
avec: @khyabusada, @gustosc, @bcstardprince et @lorcanturlach
Se não tivesse dado um passo para trás, Khya teria batido com a porta na sua cara após empurrá-la em direção ao corredor deserto. Verena estava muito tentada a espernear, espalmando as mãos na peça maciça de mogno, mas sabia que Step poderia escutá-la daquela distância, e era muito melhor remediar do que prevenir². “Eu não acredito que você fez isso... Vai ter volta! Você vai ver só, Kiki.” Murmurou, cruzando os braços em claro sinal de pirraça, certa de que o biquinho nos lábios já se fazia presente. Há muito, ela e Khya não se davam exatamente bem --- a bem da verdade, não esperava que o esconderijo fosse durar por muito tempo. Não bastasse a Lowbrace estar próxima a ele cerca de 24/7, ela também tinha que ter pego suas sobras ao começar a namorar logo com Shilloh --- não que houvesse algum senso de pertencimento; Verena simplesmente buscava motivos para detestá-la, o que não era muito difícil. “Stronza¹...” Mamãe teria ficado indignada de escutá-la falando palavras de tão baixo calão, mas não era como se estivesse ali, e Verena sabia que, caso soubesse, há muito já teria se esquecido disso, tendo em vista a cena que protagonizara com sua irmã, alguns dias atrás.
Já era de se esperar que Step viesse para puxar sua orelha, já que mamãe não podia... Suspirou, virando a cabeça de um lado para o outro para buscar algum novo esconderijo. Não podia voltar ao próprio quarto: óbvio demais para alguém que estava evitando outro alguém. Não, não, ela teria que ser criativa! A quem mais poderia recorrer em uma situação como aquela? Risque Joan e Fefe, é simplesmente too obvious. E nada de voltar para o quarto de... Já tinha achado seu novo esconderijo.
A medida em que se viu ignorando os estampidos do outro lado do corredor, a italiana podia sentir a espinha enregelar enquanto passava a andar na direção oposta, iluminada por luzes de emergência que não fariam nada bem à sua pele, se tivesse que tirar alguma foto naquele momento. Talvez o irmão não estivesse vindo dali, è vero³? O único barulho que Brunelleschi conseguia distinguir era o dos saltos da ankle boot no piso de madeira corrida, e aquilo passara a enervá-la. Onde estavam todos? Não era possível que Stephano tenha assustado a todos os seus amigos, funcionários e... Step simplesmente não era tão amedrontador assim, apesar da loira fazer questão de fugir de seus ataques. Verena só não queria ter seus ouvidos alugados por mais meia hora, e era exatamente por isso que fugia do irmão, alheia ao que se desenrolava no restante dos quartos --- dos gritos e de sangue nobre escorrendo sobre as paredes e piso.
Sabia que deveria passar a andar pelos cantos, atenta a qualquer tipo de barulho estranho, mas simplesmente não era típico de seu modus operandi. “Right, like I would hide myself away like that4.” Revirou os olhos ao soltar uma risada curta, falando consigo mesma à medida em que o frio se instalava. Sem calefação, o Chalé Zermatt era pouco menos do que um cubo de gelo, e Nena já conseguia ver sua respiração a cada exalar, incapaz de não bater os dentes em protesto contra o frio. “Claro, nós tínhamos que vir pra Aspen... Por que não podíamos ir para o Caribe? Meus biquínis ficam muito restritos à Piscina Aquecida, e essa maldita nevasca...” Viu-se reclamando baixo com um franzir de nariz, abraçando o próprio corpo enquanto tentava fazer com que o sobretudo cobrisse todos os pontos mais sensíveis --- não que adiantasse de muita coisa. Detestava tudo ligado ao frio; o sangue italiano simplesmente não combinava com temperaturas abaixo de zero, e ainda que soasse como uma pirralha mimada 90% do tempo, ela realmente podia sentir seu cabelo congelar a medida em que se afastava do quarto de Khya, rumo ao dele. Bene, pelo menos ali ela teria algum calor corporal sendo trocado, apesar de ter certeza do arrependimento após o ato.
A bem da verdade, não era como se pensasse: simplesmente fazia, e depois lidava com as consequências à sua maneira --- qual seja: cobrando favores, batendo as pestanas e acariciando o ego de seus algozes. Ela sabia que isso talvez não funcionasse com os erros que andava cometendo, mas não havia outro tipo de solução. Ele realmente era uma das últimas pessoas a quem recorreria em termos normais, e o irmão sabia disso. “Fratellino5”, levou o indicador aos lábios, cerrando os olhos com suavidade ao se lembrar do beijo, e apenas aquilo já tinha sido suficiente para sentir o corpo mais quente.
Mais alguns passos na direção do corredor leste, e estava próxima o suficiente do seu quarto para abrir um sorriso calculado. Ainda andava agarrada ao próprio corpo, mas só de pensar na lareira que ele certamente teria acendido... Ela ronronou em resposta ao pensamento, virando o corredor e provocando barulho grande demais para ser ignorado.
Poucos metros à frente, o grupo de rebeldes terminava de liberar o quarto do último dos Condes. Já haviam se livrado da maior parte dos príncipes herdeiros das mais diversas maneiras --- os que encontraram e que não estavam escondidos como os ratos assustados que realmente eram ---, de modo que grande parte das roupas camufladas em branco exibiam manchas azuis grotescas, que fariam com que qualquer um ficasse nauseado, mas esta não era a pior parte do trabalho. A bem da verdade, o cheiro metálico que parecia se entranhar por entre o uniforme era o verdadeiro motivo para que andassem franzindo o nariz de desgosto. Eram criativos o suficiente para não gastar balas necessárias com aqueles que se encontravam em situações propícias, e sádicos o suficiente para ignorar as súplicas e as ameaças vazias que os príncipes faziam questão em destilar.
Não havia resquício de remorso pelos atos, entretanto. Estavam meramente devolvendo a moeda aos inescrupulosos que os baniram para as camadas mais desprivilegiadas da sociedade. Mereciam a morte, e era este o destino da maior parte dos Azuis capturados. Alguns --- os que ofereciam menos risco e mais benefícios --- eram levados à força para o Posto Avançado que haviam montado nos últimos meses, apenas esperando pela visita anual deles. Estavam prontos, e fariam com que as bases da Economia e Política Mundiais tremessem ante o ataque. Guardas eram eliminados, independentemente da cor sanguínea. Fossem Azuis ou Vermelhos, traíam a causa reiteradamente, e não havia piedade aos traidores.
Continuaria caminhando em direção ao quarto, não fosse o puxão para o canto, longe dos olhares dos Vermelhos, ao qual a italiana respondeu com um gritinho afetado. Por alguns segundos, Verena meramente piscou os olhos, entreabrindo os lábios em claro sinal de surpresa. “Alteza, você não deveria estar aqui.” Santino esbravejou entredentes, tentando fazer o mínimo de barulho enquanto puxava a italiana para baixo. A loira arregalou os olhos, sentindo as bochechas adquirirem tom azulado ao negar, pronta para dizer que ela não ia para o quarto de August --- que tipo de louca você pensa que eu sou? “É claro que eu não estou indo para o quarto do meu fratellino5. Isso seria errado.” Franziu o nariz, sentindo as panturrilhas reclamarem ante a posição desconfortável enquanto o tom variava, indo de baixo para alto em questão de algumas palavras. “Mas veja, eu tenho que conversar com Gus sobre algumas coisas e...” Começou a se justificar, quase pintando uma declaração de culpa na própria testa, mas foi interrompida com um revirar de olhos pelo guarda no segundo seguinte.
“Porca miseria!6 Você sinceramente não sabe o que está acontecendo?” Verena deu de ombros, contraindo os lábios em uma linha para baixo. “Escute, voc---“ Em sua defesa, a princesa realmente ia escutar Santino --- ele era um dos guardas que a viram crescer, e um de seus infinitos crushes, quando mais novo ---, mas os dois foram surpreendidos por mãos que a puxaram do esconderijo rudemente. “OUCH!” Gritou ante o puxão, cerrando os olhos ao sentir a dor se instalar nos braços, que haviam sido imobilizados para trás.
“Olhe só o que temos aqui!” Escutou a voz masculina sussurrar ao pé do ouvido enquanto o outro braço a segurava estática pela barriga. “Eu não sei o que está acontecendo aqui... Mas não é assim que se trata uma dama! Get off of me! As if!” Gritou, esperneando ante o aperto, mas parou ante o a procissão de barulho um tanto quanto molhado, bem como um grito de choque. Não se sentiu corajosa o suficiente para abrir ambos os olhos de uma só vez, mas ao abrir um deles, Verena sentiu as pernas bambearem, suando frio o suficiente para ter certeza de que aquilo se tratava de uma crise de nervoso. O líquido quente que empapava a sola da bota e parte da calça de veludo branco pertencia à Santino, e a loira foi incapaz de ignorar o grito entalado na garganta, abrindo os lábios e gastando todo o ar de seus pulmões ao sentir as lágrimas escorrerem. “Tino!!” Choramingou ao soluçar, esperneando a medida em que as forças ficavam cada vez mais fracas, ainda sendo segurada duramente pelo desconhecido. O tapa do companheiro no rosto de quem lhe estava segurando veio forte demais, e Nena precisou de alguns segundos até que voltasse a escutá-lo. De alguma forma, ela sabia que haveria uma mancha roxa ali no dia seguinte. Podia praticamente ver a pele delicada pulsar, rasgando-se em algumas partes, ante a violência.
“Teve uma morte mais rápida do que merecia.” O Vermelho sussurrou em seu ouvido, referindo-se à garganta degolada do guarda que vira Nena crescer e mesmo a auxiliara algumas vezes, obrigando-a a abrir os olhos e encarar a imagem que, sabia, tomaria seus sonhos e os tornaria em um pesadelo. Santino não era velho --- tinha cerca de trinta e cinco anos, e vê-lo ali era desolador para Verena. Tentou cerrar os olhos, sentindo as lágrimas escorrerem por entre as bochechas e deixarem um rastro enregelado por elas, mas não era do desejo de quem a tinha pego. “Agora cale essa boca, Princesa. Não me faça matar meu prêmio de consolação.” Sentiu o cheiro cada vez mais forte assim que a mão enluvada dele tomou seus lábios enquanto o restante do grupo despia o falecido de suas armas e botinas. Empapadas de suor, dias sem banho e misturada ao sangue --- tanto nobre quanto vermelho ---, a mistura dos aromas era algo semelhante ao podre para o olfato delicado da Brunelleschi, e ela não conseguiu impedir os soluços de desespero passarem a se tornar em uma tremedeira generalizada. Onde estava Briana? Ela estava correndo perigo! Nena quis gritar, mas mesmo ela sabia que era inútil, de maneira que, silenciosamente, rezou para que a irmã estivesse bem. E Step...
As pernas não mais a sustentavam, mas o aperto indesejável do desconhecido, e Verena sentiu a consciência lhe falhar a medida em que o Vermelho rasgara o sobretudo e passara a faca pelo braço desnudo, fazendo com que uma linha fina azulada despontasse. “É ela mesma, Otto. Como se precisássemos de uma confirmação... Ela se exibe mais que a Rainha de Sabá --- qualquer um a reconheceria. O resgate vai ser nossa porta de entrada para o desespero deles.” Escutou ao fundo, mas as palavras não faziam sentido na mente da italiana. Quem era a Rainha de Sabá? Se ela se exibia tanto assim, por que Nena nunca tinha ouvido falar nela? Revirou os olhos, meio grogue, sentindo a boca seca na mesma medida em que o suor frio empapou a testa, ainda que não estivesse em condições de suar naquele inferno gelado. “Isso vai fortalecer muito a Resistência da Itália. Não faça besteiras. Tê-la como moeda de troca é uma das razões para a levarmos viva.”
Com a visão turva e os membros cada vez mais moles, ela sentiu o corpo ser jogado de um lado para o outro, e a ânsia de vômito a tomou por alguns segundos enquanto era carregada como um saco de batatas pelos agressores. “Chame o Grupo Delta. Nós vamos levar essa aqui para o Posto. E ela vai ficar muito quieta, não é mesmo, meu amor?” De olhos semicerrados, Verena não entendia muito do que falavam, abraçando cada vez mais a inconsciência, mas soltou um som baixo com a garganta, a bile invadindo a garganta tamanho o nojo pelo apelido dado. Ela só precisava fechar os olhos por alguns segundos... Embalada pelas passadas rápidas, Nena chegou a acordar algumas vezes durante o período de tempo em que Otto a carregou sem a mínima delicadeza.
Se dentro do Chalé, Verena estava se sentindo um picolé antes, ao ser recebida pela neve do lado de fora, todo o corpo se retesou, e a loira voltou à consciência a tempo suficiente apenas de escutar um grito distante. Ao reconhecer a voz, entretanto, a loira usou toda a força de vontade que ainda não tinha sido anulada pelo frio, medo e nervoso para gritar um: “LORCAN! DAARIO! AQUI!” baixo, entretanto, para que ele pudesse efetivamente escutá-la mediante o barulho do vento cortante e da neve, que parecia abafar qualquer resquício de sanidade que Verena ainda tinha no corpo. De olhos semicerrados, e escutando os xingamentos dos agressores, foi obrigada a ficar de pé, sob o jugo de Otto.
Ela sentiu a lâmina em seu pescoço antes que pudesse processar o que havia acontecido. Os olhos não conseguiam ver nada muito nitidamente, mas ela sabia que haviam duas pessoas na frente de Otto e de seu grupo. O braço do Vermelho apertou o pescoço, e Verena tentou segurá-lo o mais longe possível dele, ainda que a força lhe faltasse no momento. “FUCK! Nós já não matamos vocês? Se vocês derem mais um passo, ela vai ter mais buracos do que uma peneira.” Ameaçou, afundando a faca no pescoço dela; sentiu a linha de sangue empapar a gola do sobretudo mas, por Dio, que bom que ela não conseguia ver nada a não ser os dois --- mesmo assim, tinha que forçar muito a vista. “E vocês vão morrer também. Dessa vez, de verdade” Continuou, e, à distância, ela simplesmente sabia que Otto não estava brincando. Eles não podiam mata-los! Não, não. Ela não aguentaria ver algo semelhante ao que acontecera com Tino. Não era assim que seu Conto de Fadas terminava. A cascata de lágrimas congeladas se sucedeu, e Verena negou, mordendo os lábios com genuíno terror ante a possibilidade.
“Não toca nele!” Viu-se implorando, os olhos cerrados antes que se arrependesse das próprias palavras, levando os lábios ao braço de Otto e o mordendo com alguma força. Não aguentaria vê-lo machucado --- mais do que já estava, após breve avaliação. Otto grunhiu, mas não fez nada além de imobilizá-la rusticamente. “Hora de pôr uma mordaça na boca dessa cadela.” A coronhada foi suficiente para desestabilizar alguém que já estava mais para lá do que para cá, e Verena voltou a ser abraçada pela inconsciência. Não sabia de fato o que acontecera após o desmaio --- mesmo na inconsciência, sentiu o corpo ser jogado em uma pilha de neve, tremendo ao bel prazer do vento cortante, e, à distância, os grunhidos e barulhos de algo semelhante a uma luta.
Acordar, entretanto, foi penoso, e nada do que esperava.
A situação iniciou-se de maneira insindiosa. Ninguém previra a cacofonia que viria a seguir. Alexei e Tatya, ambos dentro do quarto pensavam em uma maneira de verem-se fora do hotel em Aspen, para procurar algum tipo de ajuda. O russo recordava-se das instruções que lhe foram passadas, em caso de qualquer acidente no local, para onde deviam se dirigir. Primeiro, deveriam seguir um caminho estratégico até a floresta, e depois encaminhar-se até a cidade mais próxima para que conseguissem chegar até o auxílio. Uma discussão calorosa entre os gêmeos, porém, atrasou todos os planos no interior daquele quarto. Tatiana sentia-se desmerecida pela figura de Alexei, que impunha a ideia e estratégia que surgia em sua cabeça antes que pudessem realizá-la. Sempre fora assim, a vida toda. Tatya sempre acatava as ideias das mais ridículas até as mais espertas do irmão gêmeo, como também era colocada em segundo plano pela própria família. De fato, em um momento crítico não era a melhor hora para se discutir questões familiares, pois em um momento seguinte, alguém tentava forçar a porta trancada do quarto em que ambos se encontravam. Infelizmente, Alexei era desprovido de quaisquer habilidade física em situações que requeriam defesa pessoal, porque sempre fora proibido para poupar-se de qualquer hematoma que pudesse agravar a hemofilia, mesmo com a existência do soro para facilitar sua coagulação. Ambos herdeiros russos se sobressaltaram e se calaram no mesmo momento. Os olhos esverdeados de Alexei buscaram por Tatya, a única que de fato possuía algum conhecimento e treinamento em artes marciais. Os dois, eram duas caras da mesma moeda, se complementavam. Era claro que, o que faltava em um era suprido pelo outro apesar das mágoas e sentimentos que não foram bem elucidados diante da situação ali.
A primeira coisa que Alexei viu no quarto foi um pendurador de casacos, com pontas que poderiam ser usadas como arma se ele tivesse um mínimo conhecimento de como o fazer. A verdade é que, ele não sabia e se absteve, caminhando para trás, com Tatya ao seu lado. Com um “craaaaaaaack” bem alto, a porta era arrombada por um indivíduo trajando máscaras e um uniforme escarlate. Em sua mão havia uma faca, ainda limpa, o que significava que eles eram a primeira vítima daquele indivíduo. Não havia tempo para raciocionar o porque, quem era e o que fazia. Eles sabiam, porém, que precisavam neutralizar a ameaça e sair do quarto. O russo olhou para irmã, porém não precisou falar nada. Naquele momento, Tatiana já colocava-se à frente de Alexei enquanto o indivíduo dava o primeiro golpe que certamente teria atingido algum deles, não fosse um chute da russa no braço alheio para desestabilizá-lo. Romanov assistia lutas, gostava de perceber as estratégias, mas ali não havia nada ensaiado, nada lógico ou pensado. Era puramente cru e nu, enquanto o outro investia nas tentativas de tentar atacá-los. Ele não podia fazer muita coisa, era um peso morto naquela situação enquanto Tatiana fazia todo o trabalho. Contudo, sua mente trabalhava em pontos estratégicos para poder de uma vez por todas, derrubar a pessoa antes que alguma coisa pior acontecesse. Ele não era treinado, mas talvez sua falta de habilidades pudesse servir pra alguma coisa. O rapaz pegou o objeto que observara anteriormente, derrubando todos os casacos ali pendurado e mirou nas costas do atacante, o maior local em que podia mirar sem causar qualquer dano à Tatya. Com toda sua força canalizada, golpeou o indivíduo e Tatya conseguiu desvencilhá-lo da faca que carregava nas mãos, para finalizar com um golpe que deixaria o atacante desacordado. Felizmente, ele e a gêmea formavam um belo time, mesmo que Alexei fosse praticamente um inválido naquela situação.
Instintivamente, procurou pela mão da loira, segurando-a entre a sua enquanto se direcionavam para fora do quarto. O barulho parecia pior e os gritos eram audíveis. Alexei guiava, pois lembrava-se do caminho, mas Tatiana possuía a faca entre suas mãos, olhos afoitos e cobertos de um fogo que o irmão jamais vira na órbes da irmã gêmea, um contraste com o gelo que endurecia em seus próprios olhos. Os corredores estavam estranhamente vazios, mas haviam gostas de sangue anil no chão, chamando-lhes a atenção e embrulhando o estômago dos dois Romanov. Jaziam incólumes, até o momento, enquanto desciam as escadas. O elevador havia dado pane e acharam melhor não arriscar, pois qualquer um podia cortar os cabos de aço. No entanto, próximo do local onde Alexei lembrava-se de ser uma saída de emergência, eles puderam perceber um aglomerado de pessoas. Não sabiam se eram conhecidos ou se eram os atacantes, o escuro não lhes deixava perceber se estavam usado as máscaras e os capuzes. Contudo, conforme se aproximavam, percebiam o sangue vermelho escorrendo e as roupas utilizadas eram de funcionários e guardas. Eles engoliram em seco, a visão fechando-se para o único foco, que era sair dali o mais rápido possível sem olhar para trás. Não havia tempo de procurar Anya ou Maria, não conseguiriam atravessar todo aquele caos, mas possuíam fé o suficiente para crer que todos conseguiriam escapar com vida.
Próximo da porta, dois atacantes se aproximaram, um de cada lado. Alexei ainda segurava a mão de Tatya, ambos olhando para aqueles que estavam mais do que dispostos a tirar-lhes suas vidas. As palavras direcionadas para si eram carregadas de ódio, mágoas e palavras cheias de violência. Cada palavra atingia-o de uma maneira diferente, mas a cólera vinha com maior força quando se referiam à Tatya e ao que fariam com ela. Alexei precisou respirar fundo, para não perder-se para instintos que nem sabia que possuía, de fato, mantendo a lógica e racionalidae. O mesmo, porém, não aconteceu com a gêmea. Ela soltou sua mão e antes que ele pudesse prever a cena, os atacantes começavam a mover-se na direção deles. Sozinha, ela não daria conta dos dois, portanto, colocou-se à prova, ainda que não soubesse nem de perto como e o que fazer. Sabia, que deveria desviar da lâmina, obviamente, alguns de seus socos eram em vão, enquanto o atacante o atingia com a mão livre, a dor irrdiando por todo seu estômago, pelo seu rosto. Sua sorte era que havia mais cedo injetado fator de coagulação em si próprio. Cada golpe geraria um novo hematoma, controlado pela medicação. O problema, porém, era aquela faca, perigosa. Ele não possuía reflexos tão bem desenvolvidos quanto um lutador, dessa maneira, sentiu a faca cravando-se na região de seu ombro, cortando carne e pele, ficando presa no seu próprio corpo. Alexei urrou de dor, andando para trás enquanto Tatya aparecia para livrá-lo do atacante, após ter derrubado o segundo. Não ousou tocar na faca presa em seu ombro. Era de pequeno comprimento, dessa maneira, esperava veementemente que não houvesse atingindo nenhum vaso calibroso, pois hemofílico ou não, encontraria sua morte se fosse esse o caso.
Os olhos da irmã pareciam ter escurecido naquele momento. Quando o russo piscou, foi tempo suficiente para que Tatya procurasse outra arma e enterrasse entre os olhos do atacante. O sangue escarlate fluía como rubis de seu crânio, sujando as mãos pálidas da russa. Ele a encarou, dessa vez sem piscar, enquanto Tatya caminhava em sua direção. Sem por um único momento movimentar-se, ela tocou na faca delicadamente enterrada em seu ombro. Ele podia sentir a ponta do objeto raspando em seu osso enquanto o sangue fluía anil pelo ferimento, quase preto devido a disfunção das luzes. Não podemos retirar ela agora, ou você vai literalmente, morrer sangrando. A Romanova tinha preocupação em seus olhos, ao mesmo tempo, cobertos de choque. Tatya havia, pela primeira vez, retirado a vida de alguém. Fora uma situação completamente chocante para o próprio Alexei, que assistira a cena. Mas, não podiam processar tudo aquilo. Aconteciam as coisas em flashes, a memória parecia falhar em alguns momentos de dor enquanto o sangue azulado escorria por seu braço. Eles abriram a porta, sentindo o vento gelado castigar suas faces, trazendo flocos de neve com a força de seu movimento. Era melhor o frio do que a desgraça que ocorria no interior do hotel. E mais uma vez, Anya e Maria passavam por sua cabeça, desejava voltar, mas não podiam. Apenas em frente, sigam em frente.
E seguiram. Os coturnos pretos afundaram no branco da neve, deixando para trás grossas gotas anis que escorriam pelos seus dedos, através do machucado causado pela faca, que apesar de pequena, causara um grande estrago em Alexei, temeroso quanto a quantidade de sangue que perdia. Não removê-la era a melhor ideia, mas sentir o metal cada vez que movia seu braço era apavorante. A lâmina cortava ainda mais suas fibras musculares, portanto, cada movimento era feito com cautela, tornando seu braço esquerdo completamente inútil. Novamente, o frio era uma terapia em relação a dor. Parecia amenizar conforme o vento frio batia e fazia a ambos tremerem enquanto caminhavam em direção às árvores. Era fácil perder-se ali, pois a trilha estava levemente coberta com a leve e era praticamente impossível guiar-se só por um pequeno trajeto dela. Alexei, tem certeza de onde estamos indo? Perguntou Tatya. Dessa vez, as certezas haviam sumido. Existia apenas o desejo de retornar à Rússia, de ver-se dentro do interior do castelo da família real em silêncio. Ele engoliu em seco após segundos em silêncio. Não, eu não tenho certeza, Tatya. A trilha foi coberta pela neve, é bem provável que comecemos a andar em círculos logo, logo. Merda. Dessa vez, Tatya segurava o braço bom de Alexei, para que pudessem compartilhar calor enquanto caminhavam, tentando prosseguir e encontrar o rumo em direção à parte habitada de Aspen, descendo a montanha.
Não perceberam, porém, que se aproximavam de um acampamento rebelde. Foi tarde demais quando seus olhos captaram as silhuetas com tochas e armas nas mãos, encarando-os como se fossem a caça. Seus olhos captaram a figura franzina da irmã, que tremia enquanto segurava-o pelo braço, não de medo, nem de frio. Mas, Alexei conhecendo-a, temia que fosse justamente devido à algum jejum prolongado e o uso excessivo de suas energias, havia a exaurido. Ele respirou fundo, dessa vez tomando a frente e tentando utilizar-se da diplomacia. Havia um deles que também de pronunciou, mostrando-se um dos comandantes. Eram muitos, não conseguia contar quantos eram, mas havia mais de cinco indivíduos ali e Alexei com a faca cravada em seu braço e Tatya prestes a ter uma síncope, jamais seriam suficiente para ir contra eles. Como maneira de salvar as próprias vidas, o rapaz pensou em convencê-los, valiam mais como resgate em vida e mercadoria de troca como dois cadáveres amarrados nas árvores. Seria um ato burro e impensado matá-los, quando poderiam negociar com os czares russos alguma barganha em troca de suas vidas. E assim, deu voz à seus pensamentos, enquanto os outros começavam a cercá-los. Segurando-se em seu braço, Tatya perdia as forças e Alexei a segurou com a força que restava, cansado e completamente inapto a lutar. Sem habilidades e ferido, só os levaria a morte mais rápido. Sentou-se no meio da neve, deitando a cabeça de Tatiana em suas pernas, segurando-a firmemente, mesmo com o ardor em seu braço, que sujava-a com o próprio sangue, ainda molhado, pois a ferida ainda não havia coagulado por completo. Aparentemente, talvez, o escutaram e dessa maneira, Alexei esperou pelo o que viria à seguir, calmo demais para quem estava prestes a encarar uma situação de vida, ou mais provavelmente, de morte.
Seu único pensamento naquele momento era de deixar sua irmã segura em um local com pessoas que soubessem se defender e tivessem armadas para então ir saber o que estava ocorrendo de fato. Pelos burburinhos que escutara ao passar pelo corredor, vermelhos extremistas invadiram o local e estavam causando o terror fazendo vítimas e reféns, trancafiando as pessoas mais próximas e até mesmo ferindo outras. Aquilo a deixou enfurecida. Com sua faca em mãos (única coisa que guardava de presente de seu avô), Maria desceu os corredores dando graças a Deus por estar com sua legging e blusas pretas, assim como uma bota sem salto que guardou para um evento especial - nada nesse nível, é claro. Sua roupa, além de ajudá-la a se camuflar por corredores escuros, a deixava ainda mais ágil, permitindo que seus golpes fossem certeiros e mesmo somente com uma faca pôde causar belos estragos naqueles que faziam outros de vítimas.
Ao longe, viu uma menina e um menino, ambos pareciam não ter mais de seis anos, correndo desesperados e um homem logo atrás deles, indo na contramão de Lupe. A mexicana segurou os dois e os colocou atrás de si, escondendo a faca de modo estratégico na manga comprida de sua blusa preta. “Deixe eles, são apenas crianças.” Seu coração doía ao ouvir os choros desolados de ambos, mas precisou focar inteiramente no homem à sua frente que tinha mais ou menos sua mesma altura.
“O que vai fazer, princesinha?” Perguntou com um tom de deboche que quase fez Guadalupe rosnar. “Eu vou é matar os três, seria uma honra tirar três azuis desse mundo de uma vez só, vai ser muito fácil.” Nessa hora, era a vez de Maria sorrir. Ele não sabia com quem estava se metendo.
O ato durou menos de dois segundos, o suficiente para a mexicana empurrar as crianças para trás de modo que elas virassem de costas e ela pulou no guarda vermelho, sua chave de coxa era forte o suficiente para matá-lo asfixiado em poucos minutos, mas ela não tinha tempo para isso, então tudo o que se ouviu foi o barulho de osso quebrando e então um corpo caindo, Lupe de pé olhando para o homem desfalecido no chão e depois para as crianças, que por sorte permaneceram do mesmo jeito que ela os havia deixado. “Não olhem para trás, continuem por esse corredor e vocês encontrarão ajuda.” A mulher se agachou para falar baixinho perto das crianças, os olhos fixos nos deles. “Agora vão e não olhem para trás, eu vou atrás de mais pessoas, tudo bem? Não se preocupem, vai ficar tudo bem.” Um sorriso simpático e então as crianças se despediram com pressa, voltando a correr para onde Lupe havia indicado.
Ela não queria sangue em suas mãos, era algo que já havia prometido a si mesma quando conseguiu largar a máfia, mas como poderia imaginar uma situação dessas acontecendo em um lugar que julgava ser seguro? E vidas inocentes estavam em jogo, ia muito além de uma promessa que ela sabia que em algum momento seria quebrada por forças maiores. Ao seu lado passavam várias pessoas - nobres e trabalhadores - correndo e ela sempre indicava o caminho seguro que havia encontrado, mas será que aquilo seria suficiente?
A princesa parou ao ver uma poça de sangue no chão e gritos abafados vindos de dentro do que parecia ser um quarto. Espiou rapidamente e fez as contas, haviam três deles e apenas uma princesa tentando se defender da maneira que podia. Maria respirou fundo, segurou forte sua faca e adentrou silenciosamente, dessa vez não teve como escapar e sujou suas mãos de sangue escarlate, não de um, nem de dois, mas de três. Três homens mortos com a garganta aberta pela faca mais afiada que sua própria língua. Assegurou-se de que a princesa estava bem e a ajudou a se reerguer para descer o corredor junto com os outros, ignorando uma fisgada forte debaixo de suas costelas. Estava ocupada demais para lidar com um mero desconforto.
Chegou a um ponto, porém, que haviam muitos deles, uma horda de rebeldes e vários reféns, muitas crianças assustadas e pessoas que Lupe já chegou a conversar um dia, alguns que ela conhecia há muito tempo… Mais uma fisgada forte no mesmo local e dessa vez não conseguiu ignorar, colocou suas mãos no local e gelou ao notá-la fundir o escarlate já quase seco com o azul de seu ferimento que mal notara. “Mierda.” Xingou em um sussurro, sua cabeça estava latejando de tanto que ela pensava em uma maneira de resgatá-los, mas por mais que fosse treinada por mafiosos violentos, ela não era uma ninja nem mesmo uma super heroína para enfrentar o que ela contou como mais de dez homens. Nenhuma das vítimas parecia saber lutar e aquilo não a ajudava em nada. Cansada, a mexicana sentou de costas para a parede de modo que pudesse se defender caso alguém a visse, mas o sangue esvaindo-se de seu corpo não estava colaborando para tal.
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Dione traçava o caminho para o salão principal com passadas sonoras provenientes de sua Loretta 100 preta — Quem compraria uma bota de salto bege? Francamente, não deveria existir outra opção além da preta. — e mascando um chiclete que perdeu o gosto minutos atrás, a insatisfação por ter que recorrer às atividades grupais se fazia presente no semblante, mas preferia estar próxima da melhor amiga e até mesmo do meio-irmão dada a circunstância. Aproveitou para refletir sobre o cenário político e reclamar de Hyacinthum durante o percurso, estava impaciente para encontrar os funcionários e deixar claro como foram levianos. Cautelosa, encostava-se na parede e aguardava dez segundos para certificar que nenhum rebelde estava no corredor seguinte. De nada adiantou, a emboscada estava metros a frente.
Rainha Okoye nunca estava satisfeita e avisou que as falhas da primogênita resultariam em um método de aprendizado atroz, por isso as agressões físicas se tornaram pungentes e rotineiras. Seu coração conhecia bem o medo da dor, mas agora sentia o medo da morte.
Que demora, alteza! Não conseguiu fechar o zíper da calça? As duas vozes masculinas se uniram em uma gargalhada desdenhosa, respirou fundo e percebeu as pernas fraquejarem. O que uma garota pode fazer? Usufruiu do tempo que estavam entretidos nas próprias ameaças em tom de zombaria para arquitetar um plano de fuga. Dois homens mascarados, o da esquerda era corpulento, beirava os dois metros de altura enquanto o da direita se assemelhava à ela nas proporções. Bingo! Mandaram a dupla idiota para dar conta.
Um... Concentrada nos passos, observou a proximidade diminuir e tentou ignorar a contagem. Dois, três... As mãos trêmulas alcançaram os bolsos internos da jaqueta de couro e abriram os zíperes com gestos sutis, os dedos tateavam nervosamente à procura do que a salvaria. Debi e Loide deveriam estar pensando que desmaiaria a qualquer momento por causa da inquietação e desordem expressada, fazia parte do plano. Quatro... Ousou dois passos para trás e exibiu um olhar carregado de furor. “Cinco!” Bradou antes de arremessar um punhal na jugular do magricelo, certeira. Ao outro coube o katar apunhalado nos pulmões repetidamente e um chute nas partes. Tirou o excesso de sangue do rosto com a gola do suéter, o suspiro de alívio intercorreu o estalar de pescoço. “Guarà-mim-fô!” Agradeceu a Ogum com olhos fechados e palma da mão virada para cima. Assim como seu orixá de frente, era estrategista e não temia a luta. Quem os designou para a nigeriana ficaria profundamente arrependido por tê-la subestimado.
Faltava uma coisa para executar o plano com maestria. A estatura do menor a rendeu uma ideia arrepiante, mas cabível. Iria matá-lo de maneira lacônica para não rasgar ou sujar tanto o uniforme e depois o usaria. Sentou-se perto do corpo, ainda quente, o líquido escarlate escorria lentamente do pescoço ao chão, impregnando o piso e a camiseta verde musgo. Virou o rosto para desfincar o punhal e tirar a máscara, não queria olhá-lo nos olhos porque os seus já estavam marejados. Imaginou que seria menos difícil. Não hesitava perante adversidades, mas ansiava por encontrar alguém conhecido e não ser submetida a outras. “Não tenho escolha.” Ressaltou dando de ombros, mais uma vez rejeitava sensibilidade por encarar como fraqueza. Deixou as botas de lado a contragosto, começou a despi-lo e trajar o disfarce, apesar do tênis horrível. Levantou-se, foi até o maior e cuspiu o chiclete na direção dele. “É isso que uma garota pode fazer.” Entoou colocando a máscara, amenizando o cheiro de putrefação que pairava sobre o corredor estreito e se afastando do local.
Não tivesse Alexei decidido viajar para Aspen, permaneceria intacto, desprovido de hematomas que poderiam significar uma possível morte se não tivesse trazido consigo um ampola de sua medicação, o fator de coagulação. A pele na região do quadril de pálida tornava-se escura, arroxeada e quase preta, além de edemaciada devido ao extravasamento de sangue internamente. Felizmente, ele pensava que iria sobreviver ao acidente que sofrera fora do hotel por pura falta de atenção. No entanto, a problemática apenas começava. No interior do hotel, próximo ao quarto de sua irmã gêmea, o rapaz percebeu um alvoroço no corredor à frente, escutou gritos e de repente o tinir de uma lâmina raspando a parede de concreto atingiu seus ouvidos antes que pudesse de fato perceber que aquilo significava um motim. Um ataque aos herdeiros da realeza, algo que acontecia sem mais e nem menos. Por um milésimo de segundo, o choque foi mais forte, pois não era crível que tamanha ofensa pudesse ser feita às nações e especialmente, aos herdeiros que buscavam diversão foram de Hyacinthum. A educação fora deixada de lado, algo que ele, felizmente nunca possuíra ao se tratar de Tatya. Não bateu na porta, simplesmente abriu a maçaneta e por sorte ou não, a porta não estava trancada. O rapaz adentrou o quarto, esperando encontrar a gêmea nos aposentos, pois odiaria ter que buscá-la nos entremeios de Aspen. Ao perceber a figura da gêmea logo à frente, os olhos esverdeados que apresentavam temor, tranquilizaram-se levemente ao enxergá-la, apesar de sentir-se preocupado com suas outras irmãs também. — Eu preciso que você não se desespere. Ele pausou, encarandoa Romanova por alguns segundos. A cacofonia fora do quarto parecia aumentar. — Mas nós estamos sob ataque. E nós precisamos encontrar nossas irmãs e dar um jeito de sair desse lugar. Comunicação? Como iriam contatar alguma autoridade sobre a situação do local? Alexei possuía em sua mente um trajeto de fuga que foi lhes passado ao chegar no local, quando muitos pareciam não se importar com a situação. Talvez o local não tivesse sido invadido ainda.