❛ –––– ✘ Love is not a secret march. It's a cold and it's a broken hallelujah. ❜ ┊ 「 𝕱𝖊𝖑𝖎𝖈𝖎𝖊𝖑 」POV
@felicixfelicious
Mau presságio: Que está com más sensações, sentimentos ruins. Que pressente ou avisa que algo ruim está a caminho. Dizem que a calmaria é um presságio de que a tempestade está se aproximando, assim como a melhora eminente é apenas um aviso de que a morte o encontrou. Não importam os sinônimos à serem utilizados, o que importa é o seu simples significado: qualquer sequência de bons acontecimentos deve ser tratada como um alerta do infortúnio que está por vir. Ela aprendeu que quando a esmola é grande, o santo desconfia. Ele descobriu que tudo o que é bom não dura muito. E mesmo assim, já sendo possuidores de uma malícia necessária para sobreviver, deixaram-se levar pela ingenuidade da descoberta de um sentimento — nomeado por ambos como afinidade — acreditando que tudo continuaria bem. Independente se estivessem em Aspen ou Alcatraz, dentro ou fora do enorme chalé. Tudo ficaria bem.
Felícia não possuia qualquer poder sobrenatural que envolvesse a clarividência, nada além do seu sexto sentido, e por ele, sequer teria se levantado da cama naquele dia. Ishmael, por outro lado, sentia a ansiedade e o frio na barriga desde o primeiro dia, acreditando ser algo simplesmente motivado por estar em um local tão diferente do que estava acostumado. Juntos, pareciam ignorar qualquer tipo de teoria conspiratória e a sensação de serem observados também passava despercebida — algo que normalmente não ocorreria, visto que os nobres em questão estão sempre atentos à tudo a sua volta. Estavam se divertindo demais patinando sobre o lago congelado, ou importunando um ao outro com arremessos de bolas de neve, para se preocuparem com qualquer outro detalhe.
Mesmo que a diversão houvesse se iniciado no lado externo, contudo, a nevasca não impediu que ambos continuasse a se divertir juntos no interior de Zermatt. Divertimento à melhor moda Hybern-Vlahakis, diga-se de passagem. E se imagina que ambos decidiram apostar em algo mais carnal, estão enganados. Após a oração de um terço, e a exploração de diversas aventuras — em suas próprias mentes, conforme imaginavam o que poderiam fazer caso não estivessem trancafiados no chalé devido o clima — finalmente foram buscar por entretenimentos distintos. Separaram-se. Pobres garotinhos, nunca viram que isso jamais termina bem nas animações que tanto amamos?
Felícia buscava pela companhia saltitante de Verena, e pela responsável de Johanna, quando cruzou no corredor com uma dupla de criados — eles estavam uniformizador como tais, ao menos, mas não eram como eles. Algo em suas barbas à fazer, na postura extremamente relaxada e em como um deles segurou o pulso da herdeira com força exagerada os denunciavam. Mas um fato sobre Felícia que deve ser levado em conta é que aprendera à não pré julgar as pessoas, e fora com um sorriso gentil que a polonesa respondeu ao questionamento. Mas uma resposta não fora o suficiente, e logo o vermelho apertou mais o pulso da princesa, questionando-a sobre outra e outra coisa à medida que se aproximava. Soprava o aroma de álcool contra seus ouvidos, fazendo com que àquela altura Felícia já se encolhesse contra a parede, tentando soltar-se do homem enquanto o respondia. As palavras, no entanto, começavam a se enrolar, e mesmo que tivesse sido criada para não temer em uma situação como aquela, não conseguia controlar a própria respiração. E então tentou fugir, sua passagem sendo barrada pelo corpo robusto do outro servo. Sabia que não adiantaria gritar, notara inclusive que ruídos similares à gritos eram ouvidos ao seu redor, mas também só acompanhou os vermelhos após certa resistência.
Caos espalhava-se do outro lado de Zermatt, mas Ishmael tinha uma prioridade: reunir o máximo de membros de Alcatraz que poderia e mante-los seguros. Se jogar no meio do Eris que reinava no exterior seria suicídio, e Ishmael estava ciente de que, se decidisse bancar o herói, acabaria morto antes de ter a oportunidade de realmente salvar alguém; não, eles haviam de pensar. O ato era meramente difícil em situações que arrancavam dos demais quantidade de adrenalina, agonia e desespero quanto a presente, mas a quantidade de vermelhos rebeldes e violentos era absurda, sendo impossível deter a todos eles sem qualquer estratégia ––– mas primeiro, Ishmael havia de focar na segurança aos que já se encontrava dentro do hotel. Ao mesmo tempo que contava quantos haviam em cada cômodo, mantinha os ouvidos e olhos atentos a qualquer rebelde a espreita. Avistara rostos conhecidos de Alcatraz, talvez distorcidos por conta do frio e do medo, e contava um por um para garantir que todos estavam ali, quando inquietação substituiu a esmagadora maioria dos seus sentimentos. Em meio a tantas pessoas, Ishmael procurava desesperadamente pelos cabelos loiros mais do que conhecidos, mas não conseguia encontra-los. Onde estava Felicia?
Inquietação se transformou em desespero enquanto as orbes azuladas esperançosas continuavam a mapear o ambiente, verificando cuidadosamente cada mulher de cabelos loiros, checando suas feições e trejeitos com atenção especial. Talvez tamanho nervosismo o estivesse impedindo de encontrar Hybern, e pouco tempo depois lá estaria ela, com o sorriso brincalhão dançando nos lábios e palavras de conforto acalmando o moreno… Mas a consciência de que a visão era pura utopia idealizada por Vlahakis ainda era mais forte do que qualquer otimismo, e ao confirmar que Felicia realmente não se encontrava dentro do Hotel, Ishmael disparou a sua procura.
O frio cortante machucava um Vlahakis que havia se livrado da maioria das roupas que outrora o vestiam, visando aumentar a mobilidade em situação que esta era mais do que necessária. A vastidão alva fazia-se difícil de enxergar, neve repousando nos cílios do moreno enquanto ele tentava localizar a noiva em meio ao caos púrpuro que reinava em Aspen; e por um momento, imaginou o quão efêmeros foram seus momentos com Felicia, e o quanto ele não aproveitara tamanha graça a qual lhe fora concedida ao meio de tantas reviravoltas; que ocupava o tempo que o moreno tinha para lembrar-se da liberdade que perdera ––– ou achava que tinha perdido. Sim, pois a cegueira de uma vida não perfeita, muito menos ideal, mas cômoda para alguém que não havia conhecido outra realidade se não através de páginas amareladas, o impedia de ver que o que lhe era considerado métodos de aprendizado e sobrevivência eram, na verdade, cruéis disfarçadas de necessárias. Por um lado, sentia-se aliviado em ter se livrado dos shows de horror na prancha; por outro, ainda não se sentia pertencente ao mundo anil entre tronos e hierarquia.
Demorou para encontrar Felicia ––– mas para sua felicidade, o havia feito. Entre o alvo da neve, a cabeleira loira de Hybern se destacara aos olhos de Ishmael, que teve um primeiro ímpeto de correr em sua direção sem pensar duas vezes; todavia, notou que ela estava acompanhada. Graças a visão turva pela nevasca, Ishmael primeiramente achara que estava sendo resgatada por outros alunos do instituto; todavia, não foi preciso muito mais atenção para notar que estava amargamente enganado, e nem para perceber qual era a verdadeira situação de Felicia. Raiva subiu instantaneamente no peito de Vlahakis, os olhos semicerrados para os vermelhos desconhecidos, e Ishmael não se demorou a se direcionar a passos rápidos e silenciosos em direção aos rebeldes até que considerasse a distância entre eles suficiente para que sua mira não falhasse. Sacou a primeira adaga e a arremessou em direção as costas do joelho de um dos homens, rompendo imediatamente um dos ligamentos e fazendo o homem cortas o ar gélido com um grito doloroso. A queda do companheiro fez o segundo homem olhar para trás com uma expressão de surpresa, e Ishmael não perdeu a oportunidade de arremessar a segunda faca em seu olho direito, matando-o rapidamente. Aprendera no navio que atingir pontos sensíveis do corpo era sempre mais eficiente do que se envolver em árdua batalha, na qual limitaria-se a tentar ferir órgãos geralmente protegidos por armadura ou coletes. “ ––– Se querem saber, queridos…” Sussurrou, não necessariamente para segundos ouvirem. “ ––– Ninguém mexe com a minha noiva.” E vendo a figura de Felicia a distância, se apressou em sua direção, levando ambas as mãos ao rosto da loira. “ ––– Licy! Licy, por Deus!” As orbes azuladas mapeavam Felicia, atentas a qualquer possível ferimento. “ ––– Você está bem? Ah, mas claro que não está. Vamos. Eu vou te tirar daqui.” Proferiu, e em seguida tomou Felicia nos braços, deixando as pernas da loira de apoiarem em seu braço direito, e seus ombros, no esquerdo, e seguiu em direção ao hotel. Olhe, a voz ecoou em sua mente, fazendo Ishmael morder o lábio inferior. O que Bartholomew lhe falava sempre, o que ele deveria fazer… mas se recusava com Felicia ao seu lado. Olhe as vidas que tirou; recorde seus rostos. Todos são iguais, independente dos pecados, ouviu novamente, e dessa vez sacudiu a cabeça para espantar o inferno que sempre era quando situação como aquela ocorria.
O pavor era eminente em cada movimento que a Hybern reproduzia conforme acompanhava seus malfeitores. Isso até assustar-se com o grito de um dos homens e dar um pulo para trás. Os olhos castanhos vasculharam o terreno ao seu redor, não tendo dificuldade em distinguir a figura de seu noivo. Ishmael! O que ele estava fazendo ali? Os olhos voltaram para o homem caído no chão, e então foram erguidos novamente na direção do ranuense antes de, novamente, voltar-se para o vermelho desfalecido. A cena parecia complicada demais para a compreensão da Hybern, que ostentava uma expressão de estranhamento enquanto via o outro criminoso cair ao seu lado. Filetes escarlate manchavam a paisagem alva, e tudo pareceu se manter em um silêncio ensurdecedor até o momento em que as mãos de Ishmael foram sentidas no rosto da herdeira. O mundo ganhou som. Os olhos, que ainda observavam o corpo inerte, desviaram-se para os azuis do noivo, o sorriso surgindo quase automaticamente nos lábios da polonesa, que não tinha ciência das poucas lágrimas manchando sua pele.
O caminho de volta ao Zermatt fora silencioso, quebrado somente pelos ruídos do caminhar de Ishmael, que carregou a loira totalmente aninhada à seu peito. Hybern não havia conseguido agradecer, e embora sentisse uma grande necessidade de falar diversas coisas à ele, não sabia por onde começar. As palavras surgiam desconexas em sua mente, e perdera todos os minutos do percurso tentando encontrar ordem nelas — desistindo antes da metade, para que gastasse sua concentração nele. Seu cheiro era bom, e o calor que irradiava do corpo de Vlahakis a fazia desejar não o soltar mais! Não eram aqueles pensamentos recorrentes da herdeira, mas tampouco surpreendeu-se com tais diretrizes. Poderia afirmar com toda a certeza de que haviam se aproximado, e diferente do que normalmente acontecia, não buscava empecilhos para o afastar. Com uma comunicação silenciosa, já na entrada do grandioso chalé, Felícia ignorou o incômodo que sentiu por voltar ali sem saber se era seguro, para confiar no moreno. Não a levaria ali, afinal, se não acreditasse que ela ficaria bem. A levaria?
“ ––– Muito obrigada!” A loira começou, assim que fora colocada no chão. Mas não queria afastar-se dele, e demonstrara o sentimento ao jogar-se contra o corpo do moreno, abraçando-o na cintura. A promessa de que ela ficaria bem, e ali era seguro, a fez somente apertar mais os dedos uns contra os outros, como se fosse capaz de prender Vlahakis perto de si. Mas não era, e todo aquele clima de despedida motivará Felícia para que se colocasse na ponta dos pés, não tendo muito tempo de pensar antes de avançar os lábios contra os dele. Era clichê demais que o primeiro beijo em seu noivo fosse em um momento de ameaça, mas a polonesa nunca havia sido do tipo que pensa demais antes de agir. Além disso, aquela sensação era boa. Não que esperasse algo diferente, mas beijar Ishmael era melhor do que poderia imaginar. Os lábios encaixavam-se perfeitamente, se movendo com calma para que ambos pudessem provar um ao outro. Era paciente e demorado, como se necessitassem gravar cada detalhe um do outro. “ ––– Um motivo para não demorar.” O sussurro da loira fora emitido com os lábios contra os dele, sorriso despontando nos femininos.
Dolorosa como era a situação, não surpreendia que tensão houvesse tomado conta dos músculos de Ishmael; todavia, de uma forma aparentemente divinamente inexplicável, a presença de Felicia sempre conseguia deixar tudo melhor, desde a uma simples chateação quanto a chacina que ocorrera em Aspen naquele dia. Não curava, mas melhorava de forma que, quando vislumbrou o sorriso de Hybern, seu coração imediatamente aqueceu, e o frio cortante das montanhas dera lugar a um segundo de calor e vida. Enquanto caminhava para seu destino, aproveitava ao máximo o contato do corpo de Felicia contra o seu, sendo a única sensação agradável das últimas horas. Genuinamente, o que Ishmael almejava era se esconder com a herdeira onde ninguém pudessem os encontrar e mergulhar nas sensações que ela lhe proporcionava há meses; mas sempre havia de acordar, e lembrar que a situação não os permitia ––– e novamente, vinha o sentimento do porquê não haviam provado um ao outro desde o primeiro dia em que se desejaram. “ ––– Não há o que agradecer.” Proferiu ao chegarem no recinto, sorriso de soslaio desenhando-se nos lábios azulados, tanto pela cor do sangue quanto pelo frio. Não, Ishmael não deixaria Felicia sem beija-la. Não ali, não agora; afinal, vidas andavam em corda bamba, e por mais que fosse insuportável pensar na ida da loira para um mundo melhor, Ishmael tinha consciência de que quem corria esse risco era ele ––– e algo, ou alguém, sussurrava em seu subconsciente algo sobre arrependimento amargo. E aparentemente, Felicia lera seus pensamentos; seus lábios avançaram um para o outro, afundando-se num beijo lento e absolutamente delicioso. As mãos de Vlahakis não tardaram a subir pra entrelaçar-se nas madeixas loiras da noiva, tentando aproveitar cada parte dela que poderia em momento ––– e por um momento, no mundo só havia duas pessoas. O toque de Felicia beirava a poesia, a um soneto, melódico e ritmado quanto os movimentos tão perfeitamente sincronizados dos corpos dos noivos. Mas uma hora tinham que se separar, e o movimento foi feito contra a vontade de Ishmael ––– afinal, por ele, manteria-se ali para sempre. “ ––– É um ótimo motivo.” Assentiu, permitindo suas mãos a descerem para tocarem o próprio peito; e dali, tirou o crucifixo que sempre carregava consigo, tirando-o de onde se encontrava e entregando-o a Felicia. “ ––– Um motivo para me esperar. Eu vou voltar para você, Licy. Eu prometo.” E com um último beijo, este mais rápido do que o anterior, Ishmael saiu do quarto. Ele queria, mas não olharia para trás; pois se o fizesse, fraquejaria. Não iria, não conseguiria. E se o momento com Felicia foi o melhor das últimas horas ––– ou melhor, dois últimos meses ––– deixa-la seria o mais doloroso.
Um amor improvável, um beijo de despedia e a inquietação que toma a conta de alguém vagarosamente. Esses fatores trazem uma atitude desesperada, um erro grave que só é notado quando o calor do momento passa. Eles confiaram na luz, deram as mãos ao Deus e se deixaram levar pelas promessas do destino. Foram estupidos, apertando as mãos com a sorte em um acordo sem garantias. Esqueceram-se que todo ápice de felicidade antecede um evento catastrófico. Mau presságio.













