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âđĘż                                   o amanhecer no acampamento tinha deixado de parecer estranho hĂĄ algumas semanas. a falta do sol virou rotina, nĂŁo estranhava despertar e nĂŁo ter mais uma um fresta de luz solar invadindo o chalĂŠ para incomodar seu sono. o clima apĂĄtico parecia esticar os dias, tornando-os mais entediantes e chatos. apĂłs o ataque dos monstros que saĂram da fenda e a morte do cĂŁo infernal, brooklyn se recuperava do veneno da formiga, deixara a enfermaria sob o alerta de precisar de repouso pelos prĂłximos dias.Â
nĂŁo foi o Ăşnico machucado em seu chalĂŠ e o sentimento de pânico de saber que os irmĂŁos estavam feridos foi algo assustador. o nĂvel de preocupação que agora tinha com aquelas pessoas ia alĂŠm do que imaginou que conseguiria ter; hĂĄ quatro meses quando pisou ali pela primeira vez em oito anos, exceção de preocupação com os irmĂŁos era algo que nĂŁo passava por sua mente. depois de quase uma dĂŠcada longe, parecia hipocrisia de sua parte chegar ali obrigado e pensar que faria diferença em sua vida o estado de saĂşde daqueles com quem dividia o chalĂŠ.
mas foi o que aconteceu.Â
culpava-se de nĂŁo ter conseguido ajudar nenhum dos dois mais graves, a situação de james tinha lhe dado um susto e tanto... mas pelo menos tinha dado conta das crianças. seu foco ter sido isso no inĂcio talvez tenha feito a diferença para evitar mais feridos.Â
a caixinha em cima da cama apĂłs voltar de um banho demorado foi encarada com estranheza porque jĂĄ tinha recuperado sua recompensa da missĂŁo, aquilo era estranho demais para si. ao ler as instruçþes do papel grudado no caderninho laranja, sabia para onde iria: o punho de zeus. o lugar que muitos diziam ser amaldiçoado, brooklyn sentia paz. ninguĂŠm ousava se aproximar do local entĂŁo era perfeito para que se concentrasse.Â
nĂŁo demorou a chegar e preparar o local segundo as instruçþes: a vela e a folha foram paradas mas primeiro começou a colocar no papel o que tinha sentido na missĂŁo que saiu na Ăşltima semana. curiosidade, empenho, determinaçãoâŚ. impotĂŞncia, desespero, medo, apreensĂŁo. todos os sentimentos foram escritos e cada vez que colocava um no papel, parecia sentir o exato momento que o teve pela primeira vez na missĂŁo. com os dĂgitos um pouco trĂŞmulo, ligou o fogo da vela e queimou a folha. com um respirar fundo e os olhos sendo fechados, deixou-se mergulhar nas possibilidades dispostas a si.Â
o lestrigĂŁo estava de frente para os trĂŞs semideuses pequenos, as crianças sentiam um medo imenso e isso vazava para brooklyn mesmo de longe. elas nĂŁo tinham esperanças de escaparem, de serem salvas, pareciam ter aceito que aquele era o fim. iriam morrer. e sequer entendiam o que acontecia, mesclado com o medo havia confusĂŁo. o mundo das crianças foi abalado por um conhecimento que elas sequer deveriam ter noção de que era real⌠e iriam morrer com isso.Â
nĂŁo podia deixar isso acontecer. sua determinação foi forte o suficiente para que inflasse o sentimento de segurança para os pequenos, tentando inundĂĄ-los com a segurança. agora que estava ali com os colegas, nĂŁo os deixariam sucumbir. mas antes que pudesse fazer alguma Ăştil, no momento que se lançou na direção delas, outro monstro surgia e pegava-lhe pelo braço, levantando-lhe com uma força bruta. sentiu o momento exato em que o braço deslocou, o grito de dor escapando de sua garganta. sua escolha foi correr para as crianças e era assim que acabaria. via as duas colegas como figuras secundĂĄrias passando como um borrĂŁo, no fundo de sua mente sabia que essa era a posição de pietra, nĂŁo sua. mas ali na ilusĂŁo? o lestrigĂŁo jogou-lhe com toda força no chĂŁo e tudo ficou embaçado. ouviu os gritos das colegas de missĂŁo e das crianças⌠mas entĂŁo tudo parou. tudo ficou em silĂŞncio. sem ele para jogar a espada e cortar o braço do lestrigĂŁo, a criatura nĂŁo soltou o corpo que segurava. sem ele para gritar para candace buscar as crianças, o monstro que as atormentava parecia ter levado a pior. o caminho que achava que deveria escolher levava todos para a morte e, de repente, voltava a realidade com um soluço alto.Â
a folha de louro acabava de queimar.Â
brooklyn soltou um grito agoniado, ainda sentia os resquĂcios da dor no braço e a cabeça tonta com o impacto que nunca sofreu de verdade. as lĂĄgrimas caĂam grossas pelo rosto porque antes se culpava por nĂŁo ter sido ele no lugar de pietra a se machucar tĂŁo feio, mas se fosse ele⌠nĂŁo sabia nem se as amigas teriam voltado com vida. nĂŁo conseguiu saber antes de sentir-se morrer. teria morrido se tivesse seguido os prĂłprios impulsos. teria provavelmente colocado as amigas em um risco maior e ceifado a chance das crianças sobreviverem.Â
tombou para frente com a testa no chĂŁo, as mĂŁos espalmadas na grama molhada enquanto soluçava e deixava as lĂĄgrimas caĂrem para o solo. aquele choro nĂŁo era de alĂvio por ter feito a escolha certa de nĂŁo correr para os pequenos na hora que os viu, nĂŁo era por causa da dor que pouco a pouco deixava seu corpo quando seu cĂŠrebro percebia que nada do que foi criado era real.Â
era um choro por perceber o quanto se importava com aquelas pessoas.Â
hĂĄ quatro meses, estaria feliz de ter sobrevivido. hĂĄ quatro meses, teria recusado sair em missĂŁo, nĂŁo teria se importado com as crianças perdidas, teria se importado apenas com sua prĂłpria segurança.Â
mas era seguro dizer que o brooklyn de quatro meses atrĂĄs jĂĄ nĂŁo existia.Â
sua vida podia ser toda estruturada fora do Acampamento, ter criado para si todo um refĂşgio lĂĄ fora... mas nĂŁo podia virar as costas para o primeiro refĂşgio que lhe acolheu e lhe deu um norte. estava preso naquele lugar, fazendo parte da vida daquelas pessoas se deixando que elas ocupassem um espaço especial em sua rotina, em seu coração. de certo modo, elas viravam sua prioridade.Â
no momento que conseguiu parar de chorar e endireitar-se, apenas soluçava baixinho. o olhar caiu entĂŁo para a conta de argila e, para sua surpresa, a conta estava pintada de roxo e tinha um desenho de um coração entrelaçado com o sĂmbolo do infinito com traços brancos. pegando a conta em mĂŁos, podia sentir a tinta seca, a superfĂcie lisinha como se aquele desenho tivesse sido feito hĂĄ dias e nĂŁo aparecido magicamente hĂĄ alguns segundos. depois de colocĂĄ-la no seu colar como a mais nova adição totalizando cinco contas, ao invĂŠs de retornar para o chalĂŠ o semideus migrou atĂŠ a casa grande onde sentou-se na cadeira vazia Ă frente do pai sem sequer pedir para ser convidado.Â
âolĂĄ, brooklyn, bom dia. vejo que estĂĄ melhor, eu estou bem, esperando quĂron voltar para continuarmos o jogo⌠mas sabe, poderia melhorar se vocĂŞ tentasse transformar minha ĂĄgua em vinho, obrigado por perguntar.â a ironia pesava na lĂngua de dionĂsio que atĂŠ colocou o copo de ĂĄgua na frente do filho. parecia estranho para si que toda vez o deus acertava o nome dos filhos mas sempre errava o nome dos outros semideuses.Â
âpai, vocĂŞ e eu sabemos que isso nĂŁo funciona.â disse, a voz saindo grossa por causa do choro anterior e isso parecendo atrair a atenção do deus que parou de olhar para as cartas que embaralhava e ergueu a vista para o filho. a vermelhidĂŁo no nariz e nos olhos entregavam tudo o que ele precisava saber.
âvocĂŞ estava chorando.â aquilo nĂŁo era uma pergunta. os olhos roxos do deus caĂram para o colar de contas e ele assentiu, o presente das contas foi algo especial para todos os campistas e confeccionar a nova levava a um momento doloroso. âo que houve?â perguntou com o que parecia interesse, mas beirava mais a desconfiança pela forma como estreitava os olhos para lhe encarar.Â
ânada. nĂŁo houve nada. mas eu vim perguntar uma coisaâŚâ mexeu-se desconfortĂĄvel na cadeira porque aquilo era um pouco fora de seu costume, sentar para conversar com pai sem ser chamado era algo que nĂŁo fazia desde a infância. âo cargo de conselheiro estĂĄ livre, nĂŁo ĂŠ? do chalĂŠ?â o deus assentiu em concordância para a sua pergunta e brook endireitou a postura mais uma vez, agora para passar segurança do que diria a seguir: âeu quero assumir o cargo.âÂ
para sua surpresa, dionĂsio soltou uma risada apĂłs alguns segundos, parecendo divertido com a sua questĂŁo. âvocĂŞ? brooklyn, se eu liberasse sua saĂda agora, vocĂŞ iria embora do acampamento sem olhar para trĂĄs, estou mentindo? de volta para aquela sua competição.â
âhĂĄ um mĂŞs isso seria verdade⌠nĂŁo, hĂĄ trĂŞs, talvez duas semanas isso seria verdade, pai. mas agora nĂŁo. eu nĂŁo iria. o acampamento Ê⌠as pessoas, os meus irmĂŁos se tornaram mais importantes.â teimou, defendendo seu ponto. a determinação brilhava na expressĂŁo do semideus que sustentava o olhar com o deus. âeu deixaria tudo aqui num piscar de olhos, mas isso foi antes. agora? eu nĂŁo cometeria esse erro. nĂŁo sei o que estĂĄ acontecendo com o olimpo, nĂŁo sei o que estĂĄ acontecendo com vocĂŞs deuses⌠mas eu sei que nĂŁo seria capaz de ficar em paz sabendo que meus irmĂŁos estĂŁo vulnerĂĄveis.â nĂŁo ter alguĂŠm para os guiar os deixava vulnerĂĄveis em relação aos outros chalĂŠs. em meio ao que temia ser o inĂcio de uma guerra, isso era perigoso. âeu estou aqui, eu nĂŁo vou embora. e eu quero ajudĂĄ-los.âÂ
sua firmeza calou dionĂsio. brooklyn edwards alĂŠm de ser filho de um deus teimoso, era filho de uma semideusa de atena. quando decidia algo, nĂŁo havia quem o tirasse do seu foco. os segundos em silĂŞncio enquanto os dois se encaravam parecendo disputar quem piscava primeiro foi quebrado por um riso novo de seu pai, mas que dessa vez se encostou para trĂĄs na cadeira de modo relaxado. âparece que o chalĂŠ doze tem um novo conselheiro entĂŁo. comunique aos seus irmĂŁos, se eles concordarem, pode assumir.â o sorriso debochado entĂŁo brincou nĂŁo lĂĄbios do mais velho, fazendo com que automaticamente brook se levantasse. âo quĂŞ? nĂŁo vai esperar eu dizer que eu avisei que vocĂŞ sentia falta desse lugarzinho de merda?â
o semideus fez questĂŁo de contornar a mesa para mexer com os cabelos grisalhos do pai, bagunçado os fios ondulados. ânĂŁo, nĂŁo estou ouvindo nada, papai. suas cartas estĂŁo repetidas, quĂron vai ganhar.â alertou ao se afastar, o coração batia acelerado no peito e a mente estava transbordando euforia nĂŁo ficando para trĂĄs para ver o pai trocar as cartas com algumas disponĂveis na tentativa de roubar o jogo com o centauro. esperava nĂŁo se arrepender de sua decisĂŁo.Â
@silencehq
semideuses mencionados: @eroscandy @pips-plants @jamesherr


















