POV: DON'T THEY KNOW THAT YOU'RE FULL OF PAIN ALREADY?
Aviso: menção a ferimentos, sangue e poderes hemocinéticos.
O combate jĂĄ havia se dissolvido em algo desordenado quando Beatrice percebeu que nĂŁo estava mais seguindo estratĂ©gia alguma de forma propriamente dita, apenas reagindo ao que surgia diante dela. No caso, karpoi que apareciam e desapareciam entre os corpos dos campistas, pequenos e rĂĄpidos como o que constava em seus estudos e ela jĂĄ havia derrubado alguns com golpes diretos, direcionados e assertivos, resultado do tipo de violĂȘncia que seu corpo executava sem hesitação devido aos anos de treinamento e tambĂ©m por conta da filiação que possuĂa; o frenesi lhe sendo familiar, bem-vindo, estimulante. O verdadeiro problema estava nos gigantes que viu surgirem sem mais nem menos, com nenhum dado sobre eles em sua mente; nenhuma informação. Absolutamente nada.
Cada passo deles fazendo o chão vibrar sob as botas de quem ainda estava de pé, como ela própria, com o olhar afiado voltado na direção daquelas silhuetas monstruosas enquanto as adagas ensanguentadas eram seguradas mais firmemente como se isso lhe desse alguma segurança sobre seus passos seguintes.
Foi nesse movimento irregular de gente correndo e criaturas avançando que Beatrice viu, então, alguns metros adiante, a filha de Asclépio ajoelhada no chão, pressionando um ferimento em outro semideus como se o resto do anfiteatro não estivesse desmoronando ao redor; a Kowder reconheceu aquilo imediatamente, simplesmente porque sabia que havia pessoas que lutavam para derrubar inimigos e havia aquelas que permaneciam ao lado dos feridos mesmo quando o mais óbvio seria fugir, preservar-se.
Curandeiros faziam isso. E eram raros.
O gigante apareceu no campo de visão dela no mesmo instante em que percebeu o risco, não tanto para si, mas para Poppy: quatro metros de pedra junto com metal e terra avançando råpido demais para um ser daquele tamanho, o braço jå levantado e mirando em algo que, posteriormente, a filha de Belona compreendeu o que seria. Até que, por fim, Beatrice não fez cålculo algum além do necessårio, respirando fundo, atravessando a distùncia e empurrando a curandeira para fora da trajetória do golpe que se seguiu bem em tempo, só conseguindo exclamar uma interjeição.
Intencionalmente, porque era melhor que a atingisse do que acertasse Poppy.
E o impacto veio, bem como atingiu a Kowder de lado: a massa da criatura colidiu contra seu flanco direito, sendo que força do golpe foi suficiente para arrancar o ar de seus pulmĂ”es no mesmo instante em que o movimento fazia arremessĂĄ-la contra o chĂŁo, sentindo as costas arranharem e se incomodarem com a areia debaixo de si. Em seguida, quando Beatrice conseguiu puxar o ar outra vez, respirando minimamente, veio junto do movimento dificultoso o gosto metĂĄlico na boca e aquela dor profunda se espalhando pela lateral do tronco, num lembrete de como jĂĄ estava machucada anteriormente; de como estava com ferimentos sob cuidados; de como seu corpo parecia constantemente no limite desde a guerra contra Cronos, reinvidicando seu preço agora: as costelas inferiores do lado direito protestaram de imediato, a dor irregular e esmagadora que piorava cada vez que ela tentava respirar, tentando se localizar em meio aos gritos e aos tilintares das lĂąminas prĂłximas de si. Sentindo aquele lĂquido quente escorrendo pela lateral do corpo, descendo das costelas atĂ© o quadril enquanto o sangue se espalhava pela terra sob ela, manchando tambĂ©m as vestes cerimoniais que usava. E que, querendo ou nĂŁo, haviam sido pensadas de modo que pudesse tirar o mĂĄximo proveito de seus poderes se fosse o caso de algo dar errado como estava dando.
AtĂ© que Beatrice apoiou o cotovelo no chĂŁo e tentou se erguer, com uma respiração que vinha muito curta agora, dificultosa. Preocupante. Cada inspiração forçando a musculatura ferida e fazendo o lado direito do corpo latejar como se algo ali estivesse pressionando de dentro para fora, como se o gigante estivesse apertando pessoalmente suas costelas. E foi em meio a esse desespero, a essa sensação aterradora de que nĂŁo sabia quanto tempo mais aguentaria de forma consciente, que o sangue que manchava o solo ao seu redor começou a reagir antes mesmo que ela levantasse a mĂŁo recuperando uma de suas adagas. As pequenas correntes vermelhas se arrastando pela terra em direção aos seus dedos, subindo pelo ar como fios lĂquidos que endureciam Ă medida que se juntavam, e toda sua força de vontade se direcionando para o fato de nĂŁo acertar um dos seus, nenhum dos outros campistas; apenas aquele gigante, numa tentativa de voltar a distrai-lo e atrai-lo para si e nĂŁo para Poppy ou para um grupo pequeno que estava tentando conduzir alguns dos seus para fora do campo tambĂ©m.
AtĂ© que Beatrice conseguiu ficar de pĂ©, embora o peso do prĂłprio tronco parecesse puxar para o lado ferido, forçando mais de seus limites, isso se mostrando na forma como tremia sem nem perceber. Do outro lado, o gigante jĂĄ se movia novamente, preparando outro ataque e Beatrice reuniu mais sangue ao redor da mĂŁo aberta, puxando cada gota disponĂvel para o ar atĂ© que as lĂąminas carmesim pairassem ao redor dela; os fluidos misturando-se ao que outros campistas haviam derramado tambĂ©m, piorando a situação do gigante em questĂŁo que, Ă quela altura do campeonato, estava sendo atormentado por sua benção dada por VĂȘnus, atordoado, mas ainda nĂŁo o suficiente para recuar.
Enquanto isso, Beatrice tentava se certificar de onde Poppy estava; nĂŁo muito distante de si, mas a Kowder estava quase encurralada entre as arquibancadas do anfiteatro, as ruĂnas daquela parte, enquanto a filha de AsclĂ©pio estava no contraponto. NĂŁo poderia submetĂȘ-la a ser a isca ali, entĂŁo que terminasse de resolver o problema que havia criado para si.
No caso, aquele gigante que avançou outra vez, com o braço enorme que começou a descer em direção a ela, até que a filha de Belona ergueu a mão ensanguentada enquanto o sangue que escorria de seu flanco direito aberto continuava alimentando o poder que, ao mesmo tempo que a atormentava, se mostrava uma dådiva sanguinolenta. Digna de sua mãe, de fato.
As lĂąminas disparando, certeiras, atĂ© encontrarem aquela junção de pedra. O gigante finalmente recuando um passo pesado, desengonçado, quando os cortes passaram a abrir cortes irregulares em sua superfĂcie. A resposta vindo logo depois, num cambalear rĂĄpido o suficiente para que Beatrice mancasse para o lado oposto em busca de uma fuga efetiva. Enquanto mais sangue escorria pela lateral do corpo, descendo pela cintura e pingando no chĂŁo.
Tudo de que precisava para continuar lutando e abrindo caminho até um lugar seguro, ao que a visão jå começava a escurecer levemente nas bordas e cada respiração puxava uma fisgada profunda nas costelas fraturadas, suplicantes por atenção.
Ainda assim, permaneceu ali, combatendo e lutando em meio ao desnorteio e deixando um novo rastro de destruição atrĂĄs de si. AtĂ© o momento em que os joelhos voltaram a fraquejar e ela precisou ceder Ă gravidade, escorregando contra uma pilastra, observando a movimentação dos outros campistas pelo canto dos olhos; tomada agora pelo medo, nĂŁo da morte ou de continuar sangrando e sentindo aqueles tremores bem como a sensação de nĂŁo entender muito mais o que estava ao redor, mas de falhar. De ter falhado. De estar falhando. Sentindo-se pequena, pĂfia, agora que o acampamento mais precisava de si novamente, amaldiçoada outra vez pelos poderes que haviam sido levados ao extremo naquela noite, como hĂĄ algum tempo nĂŁo mais acontecia. O pensamento fraco passando pelos nomes que importavam, pelas pessoas que ela precisava ver, averiguar se estavam bem ou pelo menos contemplar uma Ășltima vez, se fosse o caso de TĂąnatos decidir aparecer para buscĂĄ-la.
NĂŁo poderia ser agora, poderia?
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