A COLETIVA DE IMPRENSA
A pacata vizinhança de Jackson Garden se mostrava mais agitada e apreensiva com a circulação de tantos forasteiros. Pela primeira vez, um mĂȘs depois o desaparecimento de Victoria Patterson, o xerife Quentin Murphy aceitou falar publicamente sobre o caso na subprefeitura do distrito. Dezenas de repĂłrteres de Bridgeport se reuniram no local, preparado como um auditĂłrio para a coletiva de imprensa, e aguardaram a chegada do xerife enquanto alguns moradores curiosos se aninhavam nos cantos da sala para obter informaçÔes. Nunca antes a subprefeitura estivera tĂŁo cheia.
âBom dia a todosâ o xerife Murphy disse, testando os vĂĄrios microfones apoiados sobre um palanque central. Era um homem alto e forte, com o semblante abatido quase se escondendo atrĂĄs da sobrancelhas escuras. Ele olhou para a famĂlia Patterson, reunida a poucos metros de distĂąncia, como se estivesse se desculpando, e começou a falar.
âComo vocĂȘs sabem, trĂȘs semanas atrĂĄs encontramos Victoria Patterson, de vinte e um anos, sem vida em uma residĂȘncia local. A investigação acerca das circunstĂąncias da morte ainda estĂŁo em andamento e nĂŁo podemos compartilhar todos os detalhes, mas gostaria de oferecer meus agradecimentos Ă força policial de Bridgeport, que tanto tem nos ajudado.â Ele limpou a garganta com um pigarro, os olhos fixos em um papel sobre o palanque. Parecia nunca ter feito algo do tipo antes. âTambĂ©m gostaria de deixar meus sentimentos Ă famĂlia da vĂtima e Ă comunidade, que tem sido tĂŁo forte neste momento tĂŁo desafiador na histĂłria de Jackson Garden. Quanto Ă segurança dos moradores, estamos com reforços na delegacia e providenciando medidas para garantir que nada mais aconteça. AtĂ© o caso ser solucionado, todas as festas no distrito deverĂŁo ser autorizadas e acompanhadas por nĂłs da polĂcia.â O xerife reorganizou os papĂ©is e levantou o olhar para os repĂłrteres. âObrigado. Agora sim. Perguntas?â
Diversas vozes agitadas se sobrepunham em resposta, sem que nada pudesse ser compreendido. Quentin Murphy apontou para uma mulher loira de meia idade, usando um terno verde limĂŁo.
âXerife, a causa da morte jĂĄ foi determinada? Ă verdade que a vĂtima sofreu uma overdose? Por que medidas tĂŁo estritas em uma vizinhança tĂŁo calma?â ela questionou, o olhar firme e crĂtico.
âOs testes toxicolĂłgicos ainda estĂŁo em anĂĄlise, mas o mais provĂĄvel Ă© que a causa da morte tenha sido um ferimento Ă bala no lado direito da cabeça. Foram encontradas diversas impressĂ”es digitais na arma do crime, porĂ©m ainda nĂŁo descartamos a hipĂłtese de suicĂdio. Existe a possibilidade de termos um assassino Ă solta, entĂŁo precisamos fazer de tudo para proteger as crianças de Jackson Garden.â
A repórter fez anotaçÔes sobre a declaração e Quentin Murphy apontou para um homem alto no fundo no auditório.
âOnde o corpo da senhorita Patterson estava? Onde aconteceu o crime?â ele perguntou.
âAinda nĂŁo estamos certos de que aconteceu algum crime, mas o corpo da vĂtima foi encontrado no quarto do pĂąnico da residĂȘncia onde, dias antes, ocorreu uma festa com os jovens locais. O legista estima que Victoria Patterson tenha morrido naquela noite. Como o quarto estava isolado e climatizado, os moradores nĂŁo teriam como perceber o que estava lĂĄ.â
Assim como a mulher anterior, o repórter voltou a atenção a um bloco de notas.
âĂltima perguntaâ o xerife disse, e apontou para mais um jornalista.
âVocĂȘs tem algum suspeito? Quem foi interrogado? AlguĂ©m foi preso?â
âEstamos atentos a algumas pessoas de interesse e conversamos com diversos moradores locais, a famĂlia da vĂtima e os convidados da festa, naturalmente. Por enquanto Ă© tudo que posso dizer. Obrigado pela atenção.â
Alguns repórteres se levantaram para tentar alcançar o xerife, contudo, outros policiais os impediram. Quentin Murphy passou por uma porta e desapareceu de vista, provavelmente destinado de volta à delegacia.



















