Os olhos. Aqueles olhos profundos e brilhantes me instigavam a saber mais, a querer mais. Aqueles olhos, os teus olhos, eu não conseguia decifrar. Eram eles pretos ou castanhos? Eu não conseguia. Teus olhos, janelas da alma, eram como dois botões costurados na face, como naquele filme "Coralline". Eles me amedrontavam. Toda vez que você me olhava, eu me sentia despida de toda e qualquer máscara ou maquiagem. Era apenas eu, sendo observada por você, olhos brilhantes. Eu, nua mas de roupa. Eu, despida até a alma. Eu, apenas ali, encarando-te de volta na tentativa de desnudar-te também. Sem efeito algum. Esse sempre foi o meu, o nosso, problema. Você sabia de cor e salteado meus gostos e manias. Eu não sabia nem se você gostava de sorvete de morango ou se preferia o de chocolate. Você me viu, me leu, porque eu sou, e sempre fui, esse livro de um milhão de páginas, aberto. Você era como um túmulo, não se ouviam sons, nem sentimentos emanando de você. Apenas silêncio. Só eu sei o quanto esse teu silêncio me incomoda. Os olhos teus, me encarando de novo. Pretos, chego a conclusão. Totalmente escuros, pupila e íris. Você sorri, quando me vê olhando. Seus olhos quase desaparecem, são apenas fendas faiscantes. Eu solto o ar, finalmente. Toco meu corpo, para ter certeza de que realmente estou vestida. Você ri, de novo, pois sabe o que isso tudo significa.Você continua a me olhar, com esses olhos brilhantes. Eu abaixo a cabeça, envergonhada novamente. Droga. Você ganhou. Você sempre ganha.