concreta '56 a raiz da forma, Edited by Lorenzo Mammi (art), André Stolarski (design), and João Bandeira (poetry), Museu de Arte Moderna de São Paulo, São Paulo, 2006 [räume.spaces, Tokyo]
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concreta '56 a raiz da forma, Edited by Lorenzo Mammi (art), André Stolarski (design), and João Bandeira (poetry), Museu de Arte Moderna de São Paulo, São Paulo, 2006 [räume.spaces, Tokyo]

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•poesia visual•
O que os cegos estão sonhando?
O número no braço dela é A 16.334. Os judeus da série A foram presos a partir de maio de 1944. Foram contabilizados 20 mil homens e 29.354 mulheres, portanto, ela era a de número 16.334. Quando a filha visitou o Museu do Holocausto, Iad va Shem, em Jerusualém, em 2010, buscando encontrar o diário dela que está lá guardado, a diretora do museu encontou casualmente um registro de funcionárias da cozinha de Auschwitz, de 1944. Era um registro elaborado por um oficial nazista. Lá estavam o nome e o número dela, além do de várias outras companheiras. O efeito de ver o número no braço dela, já como parte de seu corpo e da composição de sua figura, tanto que ninguém o percebe mais, e o efeito de ver o seu nome e o número escritos numa folha de registro do campo, grafados por um oficial nazista, são radicalmente diferentes. Era como se a filha o estivesse vendo pela primeira vez. Como se nunca soubesse que a mãe tinha um número tatuado no braço, nem mesmo que ela tivesse sido prisioneira. Então aquela história que foi contada em casa, na sala, na cozinha, na infância, também está guardada em registros oficiais? Aconteceu de verdade? Tudo aquilo que foi contado, que tem dimensão de realidade somente dentro da imaginação de quem escuta e na lembrança de quem viveu, teve corpo, tamanho, volume, também nas mãos de um soldado? Ele escreveu o nome e o número dela? Quando ela viu este registro, seu nome ali, gravado, não se abalou, como não se abala com quase nada. A diretora do museu advertiu as duas filhas: cuidado quando vocês mostrarem isso a ela. A filha tomou o devido cuidado, mas não era neceessário. Ela se recusa a se deixar perturbar ou talvez simplesmente não se perturbe mesmo. Para aqueles com quem as coisas efetivamente aconteceram, elas somente aconteceram. São fatos, não fabulações. É, foi assim mesmo. O que esse papel pode acrescentar de novo ao que ela já sabe, ou melhor, já viveu? Ela também não tem piedade de si mesma por ter sido tatuada. Não exibe o número com orgulho nem tem vergonha dele. Ele está ali, faz parte dela. Se oferecessem a ela a possibilidade de tirar o número de lá, ela não aceitaria. Não insiste em lembrar-se de nada, mas também não quer extirpar de si essa marca física de sua passagem por lá. A memória esquece, mas o corpo avisa, lembra, e essa marca ela quer manter. O que os cegos estão sonhando? com o Diário de Lili Jaffe (1944-1945). Noemi Jaffe, 2012, p. 169-70.
para esquecer, for+get, é preciso perdoar, for+give. dar (give) para dester (for+get) ou esquecer. etimologia pré freudiana.
noemi jaffe
Dicionário sentimental

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“No Google, memória me leva a “Lo cierto es que con los años y el resto de ruido que ocupa la memoria, los detalles se van quedando en el olvido”. Não sei o significado se se van quedando en olvido. Talvez queira dizer os detalhes vão caindo dentro do ouvido. Como se, com o passar do tempo, nossas orelhas fossem abertas à força pelos detalhes do mundo, por minúcias que nos perfuram. Mais velhos, sabemos que cada pormenor é ilusão, e esse saber nos leva a negar o mundo, e o mundo não aceita isso; por isso o real nos esburaca, nos obriga a fazer um parto para dentro.
(...) O rolo de papel higiênico ganhou minhas memórias, como se fosse o receptáculo sagrado de mim mesmo. Escrevi até acabar a tinta da minha paciência. As palavras foram dispostas em tópicos, e um deles, por exemplo, referia-se a uma máxima encontrada por acaso num livro sobre o conceito oriental de ilusão, anotada num papel que até hoje carrego na carteira:
32: Each person, each physical object, from the perspective of eternity, is like a brief, disturbed drop of water from an unbounded ocean...
Brief é bife, com um cuspe de ar na ponto do pé do e. Unbounded é a fusão de dois termos: uma bunda. Eita pessoas, eita objetos da física, fracos da perspectiva da eternidade, são como líquidos em forma de bifes, distúrbios com gosto de dropes comprados na loja do Walter, fracos e com uma bunda do tamanho do oceano. - Fecharemos as portas agora, os técnicos disseram que a internet só voltará amanhã. Estou aqui para ficar sozinho. Deixamos de estar sozinhos quando falamos com outros -- a solidão é a falta de comunicação, é solidez no pensamento que vaza para fora, é pedra nos rins da língua. Salvar como, salvei, e ele deletou cada um dos arquivos de propósito? Só por causa da minha cara de bunda e do protetor de tela estranho? O protetor de tela continua ligado, mesmo sem internet? (...) O computador desligado e longe do dono parece inofensivo, não se mexe nem emite nenhum ruído, como uma pedra no meio da companhia de seguros, um corpo vegetativo que nem é iludido nem feliz. Observei. De perto. A máquina. No primeiro chute, a tela
foi
par
a
o
chã
o,
e a CPU, segurei alto, bem alto, como uma oferenda, para ninguém, e foi
fo
i
i
i
i,
.
Lo cierto es que con los años sou feliz disturbed drop of water from an unbounded olvido. (...) Lancei a caneca exatamente no centro da tela que refletia a distorção do mundo e a lua inteira. Salvar como?” ["Salvar como” em 336 Horas, André Gravatá e Noemi Jaffe, 2013]
O capricórnio se aproxima
O capricórnio se aproxima Flavio Cafiero “Vender enciclopédias”, “trabalhar em banco”, “comer pudim de pão”, “fazer aula de violão” e, finalmente, “ser de capricórnio”. Códigos familiares para assuntos proibidos para as crianças. É percorrendo esse mapa congestionado da linguagem que o leitor vai compreendendo lentamente o enredo cheio de humor e melancolia de O capricórnio…
O capricórnio se aproxima foi originalmente publicado por Cafeína Literária
necessidade de ordem é caretice. obsessão por resultados é caretice. desenvolvimento acima de tudo é caretice. dançar conforme a música é caretice. submeter-se às circunstâncias é caretice. conformar-se com o inevitável é caretice. achar que os fins justificam os meios é caretice. achar que deus dá o frio conforme o cobertor é caretice. pensar que deus ajuda quem cedo madruga é caretice. imaginar que o prazer é uma compensação pelo trabalho é caretice. acreditar que o só o esforço valoriza a conquista é caretice. dizer cada um com seus problemas é caretice. cada um por si e deus por todos é caretice. a caretice é uma doença e o remédio é desastrar-se.
noemi jaffe