(trecho do seu livro Politicas da Realidades: Ensaios sobre Teoria Feminista)
“Alguém é marcado para sofrer as pressões opressivas por causa de seu pertencimento a um grupo ou categoria. A maior parte do sofrimento e frustração daquela pessoa se deve ao fato de que aquela pessoa pertence àquela categoria. Nesse caso em especifico, é essa a categoria que tratamos, mulher. Ser uma mulher é um fator de peso quando falamos sobre não termos trabalhos melhores que os nossos; ser uma mulher me faz uma provável vitima de assédio ou abuso sexual; é eu ser mulher que reduz o poder da minha raiva a uma mera prova da minha insanidade. Se uma mulher tem pouco ou nenhum poder econômico ou político, ou alcança apenas uma pequena parte daquilo que ela quer alcançar, um grande e significante fator nisso é que ela é uma mulher. Para qualquer mulher de qualquer raça ou classe econômica, ser uma mulher está significantemente ligado a qualquer desvantagens ou privações que ela sofra, sejam elas grandes ou pequenas.
Não é o caso quando estamos falando de um homem. Simplesmente ser um homem não é o que se coloca entre ele e um emprego melhor; seja lá quais sejam os assédios ou abusos que ele esteja sujeito a, ser um homem não é o que o faz a vitima perfeita; ser um homem não transforma sua raiva em impotência – bem ao contrário, na verdade. Se um homem tem pouco ou nenhum poder material ou político, ou alcança apenas parte daquilo que ele quer alcançar, ser um homem não faz parte da explicação. Ser um homem é algo que ele tem a seu favor, ainda que talvez raça, classe, idade ou deficiência esteja contra ele.
Mulheres são oprimidas enquanto mulheres. Membros de um certo grupo ou classe racial e/ou econômica, ambos homens e mulheres, são oprimidos enquanto membros daqueles grupos ou classes raciais e/ou econômicas. Mas homens não são oprimidos enquanto homens.
... e não é estranho pensarmos que já estivemos confusas e mistificadas em relação a algo tão simples?”
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“Feminismo lésbico e o movimento de direitos dos gays: outra visão da supremacia masculina, outro separatismo”, por Marilyn Frye, do livro “Políticas da Realidade: Ensaios sobre Teoria Feminista”
(1F)
Muitos homens gays e algumas lésbicas e feministas assumem que é razoável esperar que lésbicas e feministas apóiem ou participem nos projetos e organizações político-culturais gays, e muitas pessoas acham que é razoável esperar que homens gays entendam e apóiem as causas feministas e lésbicas. Mas ambas as expectativas são, geralmente, conspicuamente insatisfeitas.
Com algumas poucas exceções, lésbicas – e, em particular, lésbicas feministas – não vêem os direitos dos gays como uma causa convincente ou acham as organizações gays compensadoras o suficiente para causar algo mais que um interesse temporário. Com talvez ainda menos exceções, homens gays não acham que as preocupações lésbicas e feministas sejam tão similares com as suas o suficiente para compelir tanto ação política de apoio ou atenção séria. As organizações políticas e culturais dos gays que acolhem ostensivamente e agem em prol de tanto homens gays quanto mulheres “gays” geralmente têm pouquíssimas mulheres lésbicas, e as organizações políticas e culturais das lésbicas e feministas, quer aceitem ou não a participação masculina, tem pouco ou nenhum apoio dos homens gays.
Todos nós, desviantes, sofremos com o fato de que a cultura dominante é, pelo menos publicamente, intolerante com os desvios do que podemos chamar de “sexualidade missionária”: aquela centrada em torno do controle masculino e subordinação feminina, com intercursos genitais. Lésbicas e gays estão ambos sujeitos a escárnio e ostracismo, abuso e terror, e em ambos os casos porque, por alguma razão, eles fluem por fora das estruturas políticas e sociais de sexo e gênero. Imagens populares de homens gays e mulheres lésbicas são imagens de pessoas que não se encaixam nos padrões de gênero imposto aos sexos. Ela é vista como uma fêmea que não é feminina e ele é visto como um macho que não é masculino. Em muitos estados e locais lésbicas e homens gays se encontram juntos por causa de uma necessidade política em comum, quando precisam batalhar contra algo que iria sancionar legalmente o ferimento a seus direitos, ou quando estão sob ataque de grupos como “Moral Majority” ou “Ku Klux Klan”. Homens gays parecem ser, para muitas mulheres, menos sexistas que homens heterossexuais, presumivelmente porque homens gays não estão interessados na sexualidade feminina. E o comprometimento feminista com a auto-determinação individual no que diz respeito a sexualidade inclui, para muitas feministas, um comprometimento com os direitos dos gays.
Tais coisas podem levar uma pessoa a supor que existe, de fato, uma afinidade política e cultural entre homens gays e mulheres – lésbicas e/ou feministas -, e então assumir que a ausência de uma aliança firme e geral pode ser explicada por algum tipo de barreira ou engato, algum fator acidental de “estilo” entre as causas, linguagem ou desinformação, que obscurece os interesses em comum ou torna a cooperação difícil. Eu não compartilho dessa suposição.
Uma cultura hostil a qualquer sexualidade que não a sexualidade missionária é também hostil as mulheres – porque essa cultura é sexista, misógina e gira em torno da supremacia masculina. Por causa da realidade dessa cultura, os mundos que os clínicos chamariam de “homossexual” são muito diferentes para lésbicas e homens gays: nós desviamos de normais muito diferentes; nossos desvios estão situados em locais distintos na estrutura política e visão de mundo da supremacia masculina; nós não somos objetos das mesmas fobias e repugnâncias. Se algumas de nós sentem fios de simpatia nos conectando e por tanto querem que nós sejamos causas “amigas”, a primeira coisa que deveríamos fazer é nos dedicarmos a entender as diferenças que nos separam. E porque essas diferenças se revelam tão profundas, elas põem em duvida se existe sequer qualquer base para uma afinidade cultural e política sob as quais poderíamos construir alianças.
Uma olhar sob os princípios e valores da cultura e sociedade de supremacia masculina sugerem imediatamente que a cultura masculina gay e o movimento de direitos dos gays, como podem ser vistos em suas manifestações publicas, são em muitos pontos centrais considerados mais congruentes do que discrepantes com a falocracia, o que os torna tão hostil às mulheres e ao amor entre mulheres com as quais as lésbicas estão comprometidas. Dentre os mais fundamentais desses princípios e valores estão:
1- A presunção da cidadania masculina.
2- Valorização do pênis.
3- Homoerotismo masculino, ou amor entre homens.
4- Desprezo pelas mulheres, ou ódio às mulheres.
5- Heterossexualidade compulsória pelo sexo masculino.
6- A presunção de acesso fálico geral.
Quando uma pessoa explora os significados desses princípios e valores, a cultura masculina heterossexual e homossexual começa a ficar tão parecida que se torna um desafio descobrir porque homens heterossexuais não reconhecem seus irmãos gays, como certamente não reconhecem, muito as custas física e psicológica dos mesmos.
1 – A presunção da cidadania masculina é o principio que se, e somente se, alguém é um macho, ele tem a prima facie de clamar por uma determinada matriz de direitos, como o direito de deter e dispor de propriedade, direito a integridade física e liberdade de movimento, direito a ter uma esposa e direito a paternidade, direito a acessar recursos para se sustentar, e etc (2F). Ainda que alguns homens dominantes aceitem, entre eles, alguns tipos de justificativa para cercear ou negar esses direitos de um homem (exemplo: a necessidade de montar um exército), a presunção é de que eles têm esses direitos. Se outras pessoas negam esses direitos a um homem de forma arbitrária, isto é, aparentemente sem reconhecer que essa negação requer certos tipos de justificações, então esse homem não será considerado um homem completo ou masculino. Assim, o que é chamado de “discriminação” – a suspensão arbitrária de certos direitos masculinos, suspensão não acompanhada por certos tipos de justificativas – é sentida como “castradora”, e aqueles cujos direitos foram suspensos são inclinados a responder para afirmar a sua masculinidade.
Movimentos de direitos civis de vários tipos nesse país, que estão sob liderança masculina, têm tendido a abraçar essa abordagem que obviamente não questiona, mas se apóia na presunção de cidadania masculina. Um movimento de direitos civis feminista, até mesmo o mais moderado, é levado a desafiar essa presunção, portanto obrigado a desafiar mais radicalmente à ordem vigente, porque todo ele é constituído de mulheres. (3F) A única alternativa que resta às mulheres para não abraçar esse desafio mais radical é de afirmar uma masculinidade de mulheres, o que já foi tentado e na minha opinião é tão absurdo como possa parecer, mas essa afirmação não é fácil de explicar ou de incorporar na retórica política persuasiva.
Como a constituição dos movimentos de direitos dos gays é constantemente e definitivamente classificado e degradado como “feminino” ou “afeminado”, parece que uma lógica e orgulhosa estratégica política dos gays seria demandar cidadania enquanto “mulheres” – a estratégia de desafiar a presunção da cidadania masculina. Alguns indivíduos homens gays se inclinam a isso, e por tanto, a um parentesco político com as mulheres, mas o movimento pelos direitos dos gays num geral tomou o curso de afirmar a masculinidade dos seus constituintes, supondo que a presunção dos direitos dos homens gays seguirá após o reconhecimento desta. Ao fazê-lo, eles concordam em apoiar a reserva de uma cidadania plena para os homens e, assim, alinham-se com os adversários políticos do feminismo.
É verdade que os homens gay, falando geralmente, são homens reais e sob a lógica da falocracia eles também são incluídos na presunção de cidadania masculina. Na verdade, como alguns homens gays já entenderam (ainda que a consciência popular não tenha entendido ainda), homens gays geralmente são, em significantes maneiras, talvez em todas as formas importantes, mais leais a masculinidade e a supremacia masculina do que outros homens (4F)
2. Na cultura falocrata, o pênis é deificado, fetichizado, mistificado e adorado. A literatura masculina prova com redundância convincente que os homens heterossexuais se identificam com seus pênis e simultaneamente são estranhamente alienados a eles (5F). Essa cultura é tal que homens não são comumente tidos como “risíveis” quando caracterizam a mulher como um macho castrado. É uma cultura em que se associa o pênis a características como potência, presença e criatividade é plausível – não o cérebro, os olhos, a boca ou a mão, mas o pênis. Nessa cultura, qualquer objeto ou imagem que se assemelhe no todo ou sugira as proporções de um pênis ereto será imbuído ou assumido a ter poderes míticos, semânticos, psicológicos ou sobrenaturais especiais. Não há nada na cultura masculina gay ou política, como vemos nas ruas, bares e no meio gay, que desafia essa crença na magia do pênis. Na cultura heterossexual, a adoração do pênis em representações simbólicas é evidente e comum, mas o amor ao pênis na carne dos homens tende a ser algo como “um caso de armário”, expressado veladamente e em privado, ou disfarçado por um humor ou comportamento áspero. Os homens gays geralmente são só muito mais diretos: menos ambivalentes, menos contidos, mais evidentes.
Se a adoração ao falo é central para a cultura falocrata, então os homens gays, em geral, são mais como sacerdotes fervorosos do que infiéis, e o movimento gay pode ser o fundamentalismo da religião global que é o patriarcado. Nesse caso, a congruência da cultura gay masculina com a cultura heterossexual masculina e o abismo entre estes e a cultura das mulheres é realmente grande.
As mulheres geralmente têm boas razões experienciais para associar valores e sentimentos negativos com o pênis, uma vez que o pênis está ligado, em grande medida, com grande parte de sua degradação, terror e dor. O medo ou temor que isso pode gerar pode ser uma adoração ao falo, mas há também a não tão incomum experiência de tédio, frustração e alienação nos tipos de encontros com pênis que são anunciados como excitantes, realizadores ou transcendentes. Como vivemos com a iminente ameaça de estupro, a atitude de muitas mulheres em relação ao pênis tendem a oscilar entre a indiferença e o desprezo, atitudes que são contrarias ao culto. Lésbicas e feministas, que podem afirmar com mais segurança acerca da dispensabilidade dos pênis à gratificação física das mulheres e à sua identidade e autoridade, podem ser ainda mais propensas do que a maioria das mulheres à não-adoração. É entre as mulheres, principalmente entre as feministas e lésbicas, que as incrédulas podem ser encontradas. Nós e os homens gays e estamos em lados opostos desta ortodoxia falocrata.
Deixe-me sinalizar que, embora eu derrogue e ironize a adoração ao pênis, eu não desprezo sua apreciação. Eu suspeito que se pênis fossem mais apreciados e menos adorados, o entendimento de todos sobre ambas as sexualidades masculinas e femininas, sobre poder e amor, mudaria de forma irreconhecível e para muito melhor. Mas eu não leio a cultura masculina gay como uma cultura radical de prazer, apesar de sua retórica hedonista e o bom número de cozinheiros que produz. Há sugestões de esta heresia em apenas suas margens externas, e eu vou voltar a esse assunto mais tarde.
3. O terceiro principio da supremacia masculina que eu listei acima é o principio do homoerotismo masculino. Não estou falando de algum tipo de homossexualidade “reprimida” que é dita como explicação para a intensa heterossexualidade de muitos homens. Eu falo aqui não de homossexualidade, mas de homoerotismo, e eu não acho que ele é de forma alguma reprimido.
Na dominante linguagem e visão de mundo masculina e heterossexual, “sexo” equivale ao que eu chamei aqui de “sexo missionário”. Apesar da variedade de coisas que as pessoas realmente fazem com e para o outro em particular sob as rubricas de “ter relações sexuais” ou “ser sexual”, imagens culturais do sexo e “atos sexuais” referem-se e pertencem-se, majoritariamente, a dominância masculina, subordinação feminina e o intercurso genital, isso é, o ato sexual. Como vem sendo constantemente documentado, muitos homens afirmam, de fato insistem, que não há nenhuma conexão essencial entre o sexo (isto é, o ato sexual), com o amor, afeto, conexão emocional, a admiração, a honra ou qualquer tipo de paixão que envolva desejo e apego. Dizer que os homens heterossexuais são heterossexuais é só dizer que eles se envolvem sexualmente (ato sexual) exclusivamente com (ou em cima, ou para) o outro sexo, ou seja, as mulheres (6F). Tudo ou quase tudo que diz respeito ao amor, a maioria dos homens heterossexuais reservam exclusivamente para outros homens. As pessoas que eles admiram, respeitam, adoram, reverenciam, a quem honram, imitam, idolatram e formam profundos vínculos, a quem estão dispostos a ensinar e com quem estão dispostos a aprender, e cujo respeito, admiração, reconhecimento, honra, reverência e amor eles desejam, essas são, esmagadoramente, outros homens. Nas suas relações com as mulheres, o que passa por respeito é bondade, generosidade ou paternalismo, o que passa por honra é a remoção do pedestal. Das mulheres querem devoção, serviço e sexo.
A cultura masculina heterossexual é homoerótica; é sobre amor entre homens. É perfeitamente consistente com o ser hetero-sexo-ual, já que nesse regime sexo e amor não tem nada essencial, e muito pouco do que é acidental, a ver um com outro.
A cultura gay masculina também é homoerótica. Não há quase nada que sugira qualquer extensão de amor às mulheres, e todos os elementos de paixão e vínculo, incluindo todos os tipos de prazer sensual e desejo, estão colocados abertamente em suas relações entre machos. O amor entre homens é, apenas, mais transparente para os amantes e mais completo para homens gays do que para homens heterossexuais.
A cultura lésbica e lésbica-feminista é também, claro, geralmente homoerótica. Lésbicas e feministas tendem a reservar paixão, vínculo e desejo para mulheres, e desejam tais coisas também de outras mulheres. Nós tendemos a ser relativamente indiferentes, eroticamente, a homens, até onde a socialização e a sobrevivência em uma cultura de supremacia masculina permitam. Não amar os homens é, numa cultura de supremacia masculina, possivelmente o único pecado mais execrável. É um indicativo disso, eu acho, que a indiferença lésbica ou feminista a homens seja identificada diretamente como ódio aos homens. Não amar os homens é algo tão vil nesse esquema de valores que não pode ser concebido como algo meramente negativo tal como é, como uma simples abstenção de interesse, mas há de ser concebido como uma inimizade.
Se o amor entre homens é a regra numa cultura falocrata, como eu penso que é, e se, por tanto, homoerotismo masculino é compulsório, então homens gays deveriam ser contabilizados dentre os fiéis, ou os cidadãos leais e cumpridores da lei, e lésbicas feministas são pecadoras e criminosas, ou, se percebidas politicamente, rebeldes e traidoras.
4. Dada a nitidez do dualismo macho/fêmea e masculino/feminino do pensamento falocrata, o ódio às mulheres é uma óbvia conseqüência do amor a homens.
Ódio às mulheres é uma coisa tão comum nesta cultura que ás vezes é difícil de ver. Ele é expressado em grande parte naquilo que se passa por humor, e na maior parte por “entretenimento popular”. Sua presença também na alta cultura e erudição foi documentada por estudiosas feministas em todos os campos. É promovida pelas indústrias de publicidade e moda. Em todo tipo de pornografia heterossexual, inclusive aquela que é feita por homens e é chamada de “pornografia lésbica”, produzida para o público masculino, e que se trata de uma exposição absolutamente intransigente no que diz respeito ao ódio às mulheres (1). Treinadores de atletismo e sargentos militares expressam seu desgosto quando seus encarregados executam inadequadamente uma tarefa chamando-os de “mulheres”, “damas” e “garotinhas” e outro nomes mais depreciativos para fêmeas.
O ódio às mulheres é grande parte do que suporta a cultura de supremacia masculina; suas funções na sociedade falocrata são muitas. Dentre outras coisas, ele suporta a solidariedade masculina quando define as mulheres não só como diferentes, mas também como inferiores. Ele ajuda a manter uma fronteira clara e definitiva entre o masculino “nós” e seu correspondente “eles”, e ajuda a sustentar uma ilusão de superioridade que motiva a lealdade. Homens não raramente manifestam seu desprezo por mulheres por meio de rituais para expressar e, assim, confirmar para si mesmo e para uns aos outros sua masculinidade, isso é, o seu partidarismo leal ao sexo masculino “nós” e seus direitos aos privilégios de membro. Esta é uma função das trocas de história de “conquista”, de derrogação casual, estupro coletivo e outras pequenas e grandes atrocidades (2).
Numa cultura misógina, uma das coisas mais desagradáveis que podem acontecer a um homem é ele ser tratado ou visto como uma mulher, ou afeminado. Esta degradação faz dele um objeto próprio de estupro e escárnio, e reverte para ele a presunção de direitos civis. Este terrível destino recai para homens gays. Na sociedade em geral, se é sabido que um homem é gay, ele está sujeito a ser atrelado ao nível do estatuto sexual, autoridade pessoal e direitos civis que são presuntivos para as mulheres. Isso é, claro, muito injusto, para a maioria dos homens gays que são tão totalmente homens como todos os homens; ser gay não é de todo incompatível com ser leal a masculinidade e comprometido com o desprezo pelas mulheres. Algumas das mesmas coisas que levam as pessoas heterossexuais a duvidar da masculinidade de homens gay são, na verdade, provas dela.
Uma das coisas que convence o mundo heterossexual de que homens gays não são realmente homens é o estilo afeminado de alguns homens gays e a representação feminina na instituição gay, sendo que ambos são associados na mentalidade popular com homossexualidade masculina. Mas, como eu li, a feminilidade dos homens gays e o uso de vestuários tidos como femininos não exibem nenhum amor ou identificação com mulheres ou feminilidade.
Para a maioria, essa feminilidade é afetada e caracterizada por um exagero teatral. É um escárnio casual e cínico das mulheres, para quem a feminilidade é a pompa de opressão, mas também é uma espécie de jogo, uma brincadeira com algo que é um tabu. É uma maldade o espetáculo de, suspeito eu, aqueles que acreditam em sua imunidade à contaminação do que por aqueles que tem duvidas ou medos. Rapazes arrogantes que tem certeza de sua imortalidade são os que fazem acrobacias no parapeito cinco andares acima do pavimento. O que a afetação feminina de homens gays parece ser para mim é um tipo de esporte sério no qual homens podem exercer seu controle e poder sob o feminino, assim como em outros esportes homens exercem poder físico e controle sobre os elementos do universo físico. Alguns gays conseguem, de fato, o domínio prodigioso do feminino, e muitas vezes são tratados por aqueles que o conhecem com o respeito que é dirigido aos heróis. (7F) Mas o domínio do feminino não é feminino. É masculino. Não é uma manifestação de amor pelas mulheres, mas sim de ódio a elas. Alguém com tal maestria talvez possa ter a primeira reivindicação à masculinidade.
Tudo isso sugere que há mais do que “um pouco de verdade” na alegação comum de que a homofobia pertence mais àqueles que estão menos seguro de sua masculinidade. O flagrante da feminilidade dos homens gays ridiculariza a ansiedade e a supersticiosa rejeição ao feminino que parte de homens heterossexuais. (3) E existem homens gays que estão inclinados a festejar essa conta, para se sentir orgulhosos e encantados com uma analise como esta que sugere que eles são superiores a outros homens, ou seja, superiores em sua masculinidade. Eles revelam claramente assim que eles realmente estão aprovados no teste de masculinidade de desprezo às mulheres. (4)
(Há uma política mais suave por trás da afetação ao feminino de alguns homens gays. Pode ser um tipo de diversão que envolve a zombaria, não de mulheres ou homens heterossexuais, mas de toda a instituição do gênero – uma caricatura irreverente e deliberada de uma das mais sagradas caricaturas da cultura patriarcal. Essa talvez seja mais necessariamente uma alegre ação política de um rebelde de gênero do que um exercício de masculinidade. Um certo tipo de alegria em conexão com o que é, afinal, a parafernália da opressão das mulheres pode se tornar de vez apenas uma piada de mau gosto. Mas quando a tolice permanece e coloca isso como uma boa piada sobre o patriarcado, então traímos a leviandade potencialmente revolucionária sobre o assunto sério que é a masculinidade, e por tanto, talvez expressa uma política mais adequada ao feminismo do que a maioria das políticas gays.)
Uma pessoa poderia esperar que, desde que homens gays podem ser, de certa forma, vitimas de ódio às mulheres, eles poderiam ter chegado a uma incomum identificação com as mulheres e, por tanto, ter firmado alianças políticas com elas. Está é uma possibilidade política que está em algum grau atualizada por alguns homens gays, mas, para a maioria, tal identificação é realmente impossível. Eles sabem, mesmo que não articuladamente, que sua classificação com as mulheres é baseada em um profundo mal-entendido. Como a maioria dos outros homens que por uma razão ou outra chegaram a sentir um gostinho de como é ser uma mulher em uma cultura misógina, eles estão inclinados a protestar, não a injustiça de qualquer pessoa ser tratada de forma tão mesquinha, mas a injustiça deles serem tratados assim quando não são mulheres. A identificação da cultura heterossexual de homens gays com mulheres usualmente só serve a intensificação dos investimentos dos homens gays em formas de se diferenciar e se distinguir de fêmeas. O que resulta não é aliança com as mulheres, mas estratégias pensadas para demonstrar publicamente a identificação de homens gays com outros homens, sobre e contra mulheres. Tais estratégias envolvem formas de agir publicamente expressando a dinâmica de dominância masculina e subordinação feminina.
Não é fácil encontrar formas de encenar ações públicas e aparições que apresentem simultaneamente a homossexualidade de homens gays e seu correto e homem-supremacista desprezo por mulheres. A feminilidade afetada de fato cumpre esse papel, mas é popularmente mal interpretada. Seria perfeito se alguns homens gays que são casados pudessem aparecer com suas esposas em talk-shows nos quais homens pudessem falar animadamente sobre as alegrias de amar os homens e suas esposas pudessem sorrir e dar o apoio adequado, dizendo que elas só querem que seus maridos sejam felizes. Mas não haveria muitos voluntários para esse trabalho. Quem serão, então, as mulheres que iram aparecer ligeiramente ao lado e ligeiramente atrás dos homens gays, representando a fêmea na relação e em contraste com a sua masculinidade? Lésbicas, claro. Os homens gays podem apresentar-se como homens com crédito, isto é, sendo definidos como superiores as mulheres, se existirem lésbicas nos movimentos de direitos dos gays – dado que apenas os homens estão sempre ou quase sempre em posição visível de liderança. Por terem fêmeas ao redor, visíveis, mas em posições subordinadas, homens gays podem publicamente demonstrar sua separação e distinção de mulheres, e sua atitude “apropriada” em relação às mulheres que é, no fundo, o ódio a elas. (5)
A cultura gay masculina e os movimentos masculinos de direitos dos gays, em suas manifestações visíveis publicamente, parecem conformar muito bem com o principio fundamental da supremacia masculina que é o ódio às mulheres. Qualquer um que fique por um tempo em um bar gay pode esperar: homens gays, como todos os outros homens, comumente, casualmente e alegremente fazendo piadas que zombam e difamam as mulheres, o corpo das mulheres e os órgãos genitais das mulheres. (6) Na verdade, em alguns círculos, o desprezo pelas mulheres e o nojo físico dos corpos das mulheres são abertamente aceitos como apenas o outro lado da moeda da atração gay de homens por outros homens.
5. O quinto dos princípios da supremacia masculina que eu listei foi o principio da heterossexualidade compulsória. É uma regra sobre fazer sexo, isto é, sobre o “fazer sexo” na “sexualidade missionária”. Esta atividade é normalmente obrigatória para os homens nesta cultura. Foder é uma grande parte de como fêmeas são mantidas subordinadas a machos. É um ritual de promulgação dessa subordinação que constantemente reafirma o fato da subordinação, e habituam ambos os homens e as mulheres a ela, ambos em corpo e imaginação. Também é um dos componentes do sistema de comportamentos e valores que constituem a maternidade compulsória para mulheres. Uma grande parte do ato sexual também presumivelmente preserva e mantém a crença da mulher em sua própria heterossexualidade compulsória, o que em troca (para as mulheres, não para os homens) se conecta e reforça o hetero-erotismo feminino, isto é, o amor aos homens que parte das mulheres. É muito importante para a manutenção da supremacia masculina que os homens fodam as mulheres, muito. Por isso é necessário; é compulsório. Fazê-lo é tanto um dever quanto uma expressão de solidariedade. Um homem que não fode ou não vá foder mulheres não está cumprindo seu dever, ele não é um membro leal e de confiança da equipe.
Alguns homens gays são certamente desviantes nesse aspecto, fazem lobby por uma tolerância para esse desvio sem as penas que agora estão ligadas a ele. Eles quebram uma regra da falocracia, mas em muito casos eles são leais a seus deveres só porque eles aprenderam muito bem suas lições sobre ódio às mulheres. A relutância deles de desempenhar esse comportamento masculino é somente devido a um desequilíbrio no qual o requisito de ódio às mulheres assumiu uma forma e intensidade que a coloca em tensão com outras exigências da masculinidade. Essa divergência entre a vida gay e a cultura de supremacia masculina claramente não é uma viragem de valores fundamentais masculinos de supremacia, ele é uma manifestação das tensões internas desses valores.
A falta de vontade de alguns homens gays de se comprometer a foder mulheres não parece ser central para a homossexualidade masculina, para o “gayness”¹, como é apresentado e defendido pelo movimento de direitos gays masculino. Este último parece ser em grande parte tolerante ao requisito masculino de heterossexualidade de foder mulheres; seus porta-vozes parecem exigir apenas que os homens não se limitem a heterossexualidade, ou seja, que o contato genital e a relação sexual possam ser permitidos como parte de suas relações homoeróticas com outros homens. Eles apontam que um grande número de gays são casados, e que muitos homens que se envolvem no que é chamado de homossexualidade também fodem mulheres – isto é, eles são homens “normais” e que cumprem seu dever. Eles apontam quantos homens gays são pais. Não tenho a pretensão de saber os dados demográficos aqui: quantos homens gays fodem mulheres ou as engravidaram, nem mesmo quantos estão comprometidos com essa linha de persuasão de papeis como ativistas dos direitos gays. Mas este é um dos temas na retórica dos direitos dos homossexuais. Homens que seguem essa linha não são, novamente, aliados políticos das mulheres. Eles mantém sua solidariedade com outros homens em respeito a esse aspecto, de manter o sistema funcionado, e só desejam créditos para eles próprios, apesar de algumas de suas outras atividades e tendências.
6. Chegamos agora ao único dos fundamentais princípios da cultura e sociedade de supremacia masculina na qual realmente há uma divergência interessante entre elas e os valores e princípios do que rotulamos de homossexualidade masculina. Mesmo aqui a situação é ambígua, porque, mais uma vez, se trata do almejo do movimento de direitos dos gays masculinos a algo que os homens heterossexuais já possuem.
Homens, em geral, nesta cultura, consideram, em virtude de sua masculinidade genital, que tem acesso a tudo que desejam. Os tipos de limitações que reconhecem a esta acessibilidade geral do universo são limitações impostas por outros homens através de coisas como propriedade privada, a existência do Estado e as regras e rituais de limitações de violência entre os homens. Em sua identificação com a humanidade, eles não reconhecem limitações alguma sobre seu acesso a qualquer outra coisa no universo, com a possível exceção das impostas pelas exigências físicas da própria sobrevivência da humanidade, e eles podem até ignorar ou zombar delas, partindo de alguma estranha crença de imortalidade e eternidade da humanidade. A tradução desta arrogância masculina cósmica para o nível individual, dos corpos masculinos, é a individual presunção do quase universal direito à foder – para afirmar sua dominação masculina sobre tudo que não é ele mesmo, usando pessoas ou coisas unicamente para satisfazer seu prazer fálico ou auto-afirmação em nível simbólico ou físico. Qualquer objeto físico pode ser urinado sobre ou dentro de, ou ejaculado sobre ou dentro de, ou penetrado por seu pênis, como pode qualquer animal não-humano ou qualquer mulher, sujeito apenas às limitações impostas por direitos de propriedade e os costumes sociais locais – e mesmo aqueles são muito invioláveis pelo pênis ereto, que, dizem, não tem consciência. A única limitação geral e quase inviolável ao acesso fálico masculino é que os homens não devem foder outros machos, machos humanos, especialmente adultos de sua própria classe, tribo, raça, etc. Está é a única regra importante da cultura falocrata que a maioria dos homens gays viola, e esta violação é central para o que é defendido e promovido pelo movimento dos direitos dos gays do sexo masculino.
Mas note a forma desse desvio das regras de supremacia masculina. Ele é uma recusa a limitação do acesso fálico; é uma recusa para conter o auto masculino. É um excesso de arrogância fálica. O principio fundamental do acesso fálico universal. O que está em disputa é apenas uma qualificação da mesma. A cultura gay masculina não nega ou evita o principio; o abraça.
Uma grande parte do que mantém a supremacia masculina é a constante cultivação de masculinidade en torno dos genitais masculinos. Masculinidade envolve a crença de que, como homem, essa pessoa será o centro do universo que é projetado para alimentá-lo e sustentá-lo, projetado para ser governado por ele, bem como a crença de que qualquer coisa que não está em conformidade com o desejo desse homem pode ser, talvez, deve ser, posta “na linha” por meio de violência. Até agora, realmente não haveria espaço no universo para mais de um homem. Deve ser um fator de correção, algo para proteger os seres masculinos uns dos outros. Com certeza, há uma espécie de “tabu do incesto”, construído e incorporado ao padrão de masculinidade; um ser adequadamente masculino não saqueia ou consome outros seres masculinos em seu grupo de parentesco. (8F) É uma moderação, como a regra de honra entre ladrões.
Dentre um grupo de parentesco, os seres masculinos podem competir em várias formas bem definidas e ritualísticas, mas eles se identificam uns com os outros, de tal forma que eles não podem ver um ao outro como o “outro”, ou seja, como matéria-prima para a gratificação de seus apetites. Esta mistura em rebanho com outros seres masculinos, que ás vezes eles chama de “solidariedade masculina”, é o que garante aos homens algum pedaço crucial de segurança entre outros seres masculinos. Sem ela, em arrogância solipsista infantil, os machos poderiam aniquilar cegamente uns aos outros.
A proscrição contra o sexo entre homens é a tampa sobre a masculinidade, o único principio limitador que impede a masculinidade de ser simplesmente uma tempestade interminável de individualismo indiferente a coletividade. Como tal, essa interdição está necessariamente o tempo todo em tensão com o resto da masculinidade. Essa tensão confere a masculinidade uma estrutura, mas também é eternamente problemática. Enquanto os homens são socializados constantemente à masculinidade, o espectro de seu funcionamento individualista está sempre presente. A reação fóbica dos homens heterossexuais à homossexualidade masculina pode ser vista como um medo de uma masculinidade ilimitada, desgovernada e irrestrita. É, evidentemente, mais que isso e mais complicado, mas é também isso, dentre outras coisas.
Para amenizar esse medo, o que a retórica e ideologia do movimento de direitos dos gays masculino tem tentado fazer é convencer os homens heterossexuais que sexo anal e sexo oral entre homens não são, afinal, uma violação da regra que proíbe homens de predar ou consumir outros homens, mas são, ao contrário, expressões da ligação masculina.
Eu não tenho pretensão de saber se, ou quantas vezes, o sexo anal ou felação entre homens é basicamente estupro ou basicamente uma ligação entre homens, então eu não vou me oferecer para resolver essa questão. O que eu quero salientar é apenas isso: se é uma reivindicação dos homens gays e seu movimento que o sexo entre homens é uma forma de ligação masculina, uma intensificação e conclusão do homoerotismo masculino, o que é fundamental para a supremacia masculina, então eles mesmo estão argumentando que sua cultura e prática são, no final das contas, perfeitamente congruentes com a cultura, pratica e princípios da supremacia masculina.
De acordo com o quadro geral que surgiu aqui, a homossexualidade masculina é congruente com e uma extensão lógica da cultura de supremacia masculina heterossexual. Parece que os homens heterossexuais apenas não entendem a congruência e se assustam com a extensão da lógica. Em resposta, o movimento de direitos gays masculino tenta educar e encorajar homens heterossexuais a apreciar a normalidade e inocuidade dos homens gays. Ele não desafios os princípios da cultura de supremacia masculina.
Em contraste, qualquer política que se preocupa com a dignidade e o bem estar das mulheres não pode deixar de desafiar esses princípios, e o feminismo lésbico em particular está em total desacordo com eles. O estilo, as atividades, os desejos e os valores do feminismo lésbico estão, obviamente, em profunda discordância com os princípios da cultura de supremacia masculina. Ela não gosta de homens; ela não preserva toda a paixão e troca significativa aos homens. Ela não odeia as mulheres. Ela pressupõe igualdade entre corpos femininos e masculinos, ou mesmo a superioridade ou normatização do corpo feminino. Ela não tem interesse em pênis além de algumas preocupações razoáveis sobre como os homens estão usando-os contra as mulheres. Ela afirma os direitos civis para as mulheres sem argumentar que mulheres são realmente homens com encanamento diferente. Ela não é um complemento à regra da heterossexualidade para homens. Ela não é acessível ao pênis; ela não vê a si mesma como um objeto natural para o sexo e nega que homens tenham tanto o direito quanto o dever de fodê-las.
Nossas existências como fêmeas que não são propriedades do sexo masculino e não são acessíveis ao sexo, nossos valores e nossa atenção, a nossa experiência do erótico a quem direcionamos nossa paixão, tudo isso nos coloca diretamente em oposição à cultura de supremacia masculina em todos os aspectos, tanto que nossa existência é quase impensável dentro da visão de mundo dessa cultura. (7)
Longe de haver uma afinidade natural entre lésbicas feministas e o movimento dos direitos civis dos gays, eu vejo suas políticas como sendo, na maioria dos aspectos, diretamente antiéticas entre si. A direção geral da política dos homossexuais masculinos é afirmar a masculinidade e privilégio masculino para homens gays e promover o alargamento da gama de presunção de acesso fálico para o ponto onde ele está, na verdade, absolutamente ilimitado. A direção geral da política feminista lésbica é o desmantelamento do privilégio masculino, o apagamento da masculinidade, como a inversão da regra de acesso fálico, substituindo a regra de que “o acesso é autorizado a menos que expressamente proibido” com a regra de que “o acesso é proibido a menos que expressamente autorizado.”
Existem outras possibilidades. Homens gays, pelo menos aqueles que não são das classes econômicas dominantes e/ou não são brancos, experienciam o ódio, medo e desprezo de homens heterossexuais (9F), experienciam o ostracismo e a suspensão de direitos, ou vivem sob a ameaça de tal. Homens gays são significantemente mais aterrorizados e vitimizados do que outros homens de sua classe e raça por valentões, bullies e fanáticos religiosos do mundo. Eles toleram, assim como as mulheres, assédio legal e ilegal, e insultos que nenhuma pessoa deveria tolerar. Desta marginalização e vitimização poderia sair algo mais construtivo, progressivo – de fato revolucionário – que as políticas de assimilação que consistem principalmente em reivindicar masculinidade e fundamentos para tal. No entanto, quando um homem se percebe “diferente” em suas relações às categorias de gênero, em seus desejos sensuais, em suas paixões, ele começa a se perceber em um contexto cultural que lhe oferece a dualidade masculino/feminino, na qual ele pode se encaixar. Por um lado, a ele é oferecido a cultura dominante sexista e heterossexista, que irá rotulá-lo de feminino e castigá-lo, e, por outro lado, a ele é oferecido uma subcultura gay de homens muito misógina e hiper-masculina; ele é convidado a participar de um movimento pelo direito dos gays masculinista, mediando os dois, tentando construir pontes de entendimento entre ambos. Se ele tem bom gosto estético e político para achar ambos repugnantes, ele só pode fazer o que as lésbicas feministas vêm fazendo: inventar. Ele tem que se movimentar, como nós temos, em direções previamente indescritíveis. Ele tem que inventar o que é masculinidade quando não está formada e endurecida em moldes de masculinidade heterossexual, hipermasculinidade gay ou efeminação. Para um homem, sequer pensar se tal invenção vale a pena ou é necessária já é ser desleal à falocracia. Para um homem gay, é ser traidor ao macho que os homens heterossexuais sempre pensaram que ele fosse.
Qualquer homem que queira ser amigo das mulheres tem que compreender os valores e princípios da cultura falocrata e como sua vida está entrelaçada a eles, e deve rejeitá-los e se tornar desleal à masculinidade. Qualquer homem que faça isso tem que reinventar o que é ser homem. A intuição inicial que muitas de nós temos de que homens gays podem ser mais propensos do que homens heterossexuais a ser amigos das mulheres tem, talvez, um pouco de verdade: para homens gays, mais do que para homens heterossexuais, as sementes do motivo e dos recursos para tomar esse caminho radical são construídas por causa de suas situações políticas e culturais nesse mundo. A diferença do homem gay pode ser a fonte do atrito que talvez possam criar essa invenção e prover recursos para essa invenção.
Um dos privilégios de ser normal e comum é uma certa inconsciência. Quando a pessoa é tida como normal em seu meio social, ela não tem que pensar nisso. Comumente, nas discussões sobre preconceito e discriminação, eu ouço afirmações como estas: “Eu não penso em mim como heterossexual”; “Eu não penso em mim como branco”; “Eu não penso em mim como um homem”; “Eu sou apenas uma pessoa, eu só penso em mim como uma pessoa.”. Se uma pessoa é a norma, ela não tem que perceber o que se é. (8) Se alguém é marginal, não se tem o privilégio de não perceber o que se é.
Essa ausência de privilégio é uma presença de conhecimento. Como tal, pode ser um grande recurso, dado que apenas a pessoa marginalizada não despreza o conhecimento e almeja inclusão, almeja a inconsciência que a normalidade oferece. Eu não digo isso casualmente ou de forma insensível. Eu conheço o desejo pela normalidade e a carga conhecimento. Mas o conhecimento e marginalidade podem ser abraçados. A única alternativa que nos resta se não abraçá-los seria apagar os significados das nossas próprias existências a fim de nos misturarmos com os “normais” – fingindo que nossa diferença não é nada, de verdade, nada mais significante que preferir carros estrangeiros, Bourbon² ou roupa da moda ocidental. Homens gays e lésbicas, todos, são desviantes sexuais: nossos corpos se movem nesse mundo por caminhos muito diferentes de todos os outros padrões e encontram outros corpos de forma muito diferente e em diferentes lugares do que os corpos da maioria heterossexual. Nada poderia ser mais fundamental. A diferença não é “mera”, não é desimportante. O que quer que em nós anseie pela integridade tem que o fazer aliado ao conhecimento, e não ao desejo de perder a consciência na normalidade.
Eu não posso dizer a outra pessoa como o conhecimento da sua marginalidade vai se ramificar através da experiência da vida a mais conhecimento, mas eu acho que é seguro dizer que desde que nossa marginalidade tem tanto a ver com nossos corpos e a não-conformidade de nossos corpos com os corpos e categorias comportamentais das culturas dominantes, temos acesso ao conhecimento de organismos que se perdem e/ou estão escondidos nas culturas dominantes. Em particular, ambos os homens gays ou as lésbicas podem ter acesso ao conhecimento físico, sensorial, de prazer e sensual que é quase totalmente bloqueado em culturas de supremacia masculinas heterossexuais, especialmente nos córregos mais dominados por estilos e valores brancos, cristãos, comerciais e militaristas. Na medida em que a cultura masculina gay explora e expande suas tendências para a busca do simples prazer corporal, ao contrário de suas tendências para o fetichismo, fantasia e alienação, ele pode criar concepções bastante radicais e até então impensáveis do que pode ser viver com um corpo masculino.
A ortodoxia falocrata diz que o esforço muscular extenuante e o orgasmo associado ao ato sexual são as duas mais elevadas e mais grandiosas formas de prazer num corpo masculino. Essa doutrina serve aos propósitos de uma sociedade que requere tanto sexo constante quanto uma população de machos que se imaginam como guerreiros. Mas os prazeres corporais que existem nos atos que expressam a supremacia masculina e a dominância física, com certeza, não são paradigmas, nem de tamanho nem de largura, do prazer disponível para um homem. Há alguma intuição na cultura gay masculina, e os guardiões da supremacia masculina não querem saber dela. Uma busca direta e entusiasmada pelos prazeres dos corpos masculinos não vão, eu suspeito, levar um homem à masculinidade, não vão direcionar um homem para uma vida de predar os outros e conquistar a natureza, muito mais do que a busca pelos prazeres corporais leva as mulheres à feminilidade e a monogamia heterossexual. Eu só posso recomendar que os homens por si mesmos descubram e inventem ao que isso os levaria.
Outra coisa em geral que se pode dizer com segurança sobre os recursos fornecidos pela marginalidade é que a marginalidade abre a possibilidade de vermos estruturas da cultura dominante que são invisíveis para quem enxerga de dentro. É uma benção peculiar, tanto para homens gays quando para lésbicas, sermos em muitas formas tanto Cidadãos e Exilados, tanto membros da família e estranhos. Muitos de nós somos criados como heterossexuais; muitos de nós têm sido heterossexuais; e muitos de nós podem e de fato passam como heterossexuais grande parte do tempo. Muitos de nós conhecem o mundo heterossexual a partir de seu interior, e, só se nos arriscarmos, a partir de suas margens. O conhecimento que temos acesso justamente porque vemos as estruturas a partir de uma posição marginalizada nos dá a possibilidade de basearmos nossas invenções em nós mesmos, invenções do que uma mulher é e do que um homem é, em uma notável compreensão dos seres humanos e sua sociedade tal como elas foram construídas e desconstruídas antes. Só se nos arriscarmos. A vontade é o elemento mais necessário.
Tem sido uma prática política das lésbicas feministas se apresentar publicamente como pessoas que escolheram os padrões lésbicos de desejo e sexualidade. Se como indivíduos nós sentimos termos nascido lésbicas ou sermos lésbicas por decisão, então nós reivindicamos como agentes moralmente e politicamente conscientes de uma escolha positiva: para reivindicar nosso lesbianidade, para tirar o máximo de proveito de suas vantagens. Isso é fundamental para o nosso feminismo: que as mulheres possam conhecer os seus próprios corpos e desejos, interpretar suas próprias correntes eróticas e criar e escolher ambientes que estimulem mudanças conscientes em todos esses aspectos; e que um erotismo feminino que é independente dos machos e da masculinidade possa ser possível e esteja disponível para ser escolhido. Nós reivindicamos essas coisas e lutamos por um mundo onde todas as mulheres possam ser livres para vivê-las sem punição e terror, acreditando também que se o mundo permitisse o erotismo feminino auto-determinado, então seria um mundo completamente diferente. Tem sido uma prática política do movimento de direitos gays dominados por machos negar que a homossexualidade é escolhida, ou digna de escolha. Publicamente o posicionamento principal desse movimento foi: “Gostaríamos de ser heterossexuais se tivéssemos uma escolha, mas não temos uma escolha”, complementada por “Nós somos realmente apenas humanos, assim como você.”
Isso implica que é humano querer ser heterossexual, e é muito humano ter defeitos e manias. Enquanto se desculpa pela sua diferença ao justificá-la como algo sob a qual não se tem controle, o movimento afoga essa mesma diferença em uma lavagem em prol de um sentimento de humanidade comum.
Para que os benefícios da marginalidade possam ser colhidos, a marginalidade deve ser, em algum grau, escolhida. Mesmo que, em uma história individual, uma pessoa experiencie seus padrões de desejo como oferecidos e não escolhidos, essa pessoa pode negá-los, resistir, tolerá-los ou abraçá-los. Pode-se escolher um tipo de vida que é dedicada a mudar tais padrões, disfarçando-se ou escapando das conseqüências que ser diferente traz, ou um tipo de vida que toma sua diferença como parte integrante da sua posição e localização no mundo. Se alguém toma a rota de negação e fuga, não poderá aproveitar a diferença como recurso. Não poderá ver o que há para ser visto ou saber o que há para ser sabido para aquele corpo localizado naquele lugar no mundo se essa pessoa estiver preocupada desejando não estar lá, negando a peculiaridade de sua posição ou renegando a si mesma.
A energia disponível para aqueles que escolhem, que decidem a favor dos desvios das normas heterossexuais, pode ser muito grande. A escolha, a decisão, desafia as doutrinas do determinismo genético que obscurece o fato de que a heterossexualidade é parte de uma política. A escolha desafia os valores de uma normalidade heterossexual. E a escolha coloca o agente dela numa posição de criar e explorar uma visão diferente.
Muitos homens gays, incluindo aqueles que ocupam posições de liderança no movimento dos direitos dos homossexuais, não querem esse tipo de poder. Eles não querem nenhuma mudança fundamental na política e na sociedade ou nenhum tipo radical de conhecimento novo. Eles (normalmente, machos branco) desejam apenas sua parte do espólio. Mas outros já começaram a entender o potencial de cura e o poder revelador da diferença e estão começando a se comprometer com o projeto de reinventar a masculinidade a partir de uma posição positiva e escolhida, por fora das estruturas de masculinidade e supremacia masculina.
Se há esperança para a coordenação dos esforços e conhecimentos das lésbicas feministas e homens gays, é aqui nas margens que nós vamos encontrá-las, enquanto trabalhamos nas nossas diferenças a partir dos fundamentos que nós escolhemos.
Notas de rodapé.
1F. Esse ensaio é uma revisão de uma palestra que eu dei num evento na Primavera de 1981, na Grand Rapids, Michigan, organizado pela organização católica gay da “Grand Rapids”. Dignamente, co-patrocinado por Aradia. Meus agradecimentos a Larry Magnetize e a Canine Lewes por verem a necessidade e terem feito algo sobre isso.
2F. Obviamente, o que é considerado cidadania varia de nação para nação, e dentro das nações os homens dentre eles mesmo tem mais de uma classe de cidadania.
3F. Existem boas razões políticas pelas quais levou 72 anos desde a primeira demanda publica pelo sufrágio feminino até a ratificação do sufrágio, e porque a Emenda de Direitos Iguais, que foi feita pelo congresso em 1920, ainda não se tornou, 64 anos depois, uma lei. O principio da cidadania masculina (e não feminina) é muito básica para uma sociedade falocrata.
4F. O homoerotismo celebrado no Sumposium de Plato e aplaudido em alguns círculos gays contemporâneos é tanto claramente elitista quando especificamente condizente com a supremacia masculina.
5F. Como C. Shafer apontou para mim, de acordo com esse uso da expressão "se identificar com", a identificação pressupõe alienação já que só se pode identificar com algo que é diferente de si mesmo.
6F. Quando um homem que se considera firmamente heterosexual fode outro garoto ou outro homem, geralmente ele vê esse outro como uma mulher ou acha que esse outro foi feito mulher pelo seu ato.
7F. Imitadores de fêmeas são um tipo de artista oferecidos em bares e clubes gays, e eles se apresentam para públicos que os apreciam muito. Suas habilidades são reconhecidas e admiradas. Os melhores deles viagem o mundo, como outros artistas, e seus nomes artísticos são conhecidos por todos os países. Eles são um tipo de idolo.
8F. Eu uso o termo “parentesco" aqui com um significado especial. O grupo em questão pode ser definido mais ou menos amplamente pela classa, raça, idade, afinidade religiosa, filiação, origem étnica, linguagem, etc, e pode ser uma gangue de rua, uma “Máfia” familiar, uma corporação, estudantes de uma escola particular, uma máquina política, etc.
9F. E mulheres, também, incluindo algumas lésbicas. Mas as atitudes negativas de mulheres em torno de um grupo de homens não têm tantas conseqüências quanto as atitudes negativas dos homens.
Notas finais.
1. Veja “Pornography: Men Possessing Women”, por Andrea Dworkin (Perigee Books, Putnam, 1981). E "Sadomasochism: Eroticized Violence, Eroticized Powerlessness," em “Against Sadomasochism: A Radical Feminist Analysis”, editado por Robin Ruth Linden, Darlene R. Pagano, Diana E.H. Russell e Susan Leigh Star (Frog In The Well, 430 Oakdale Road, East Palo Alto, California 94302, 1982), p. 125 ff.
2. Veja “Woman Hating”, Andrea Dworkin (E.P. Dutton, 1974), e “Gyn/Ecology: The Metaethics of Radical Feminism”, por Mary Daly (Beacon Press, Boston, 1978), especialmente a primeira e segunda passagem, para uma discussão completa sobre o sintomas e funcionamos do ódio às mulheres.
3. Obrigada à C.S. pela realização de que a feminilidade gay tem tão pouco a ver com mulheres, que não é sequer o escárnio das mulheres que eu pensei que fosse.
4. Esta observação é devida a C.S.
5. Essa observação é devida a John Stoltenberg. Veja "Toward Gender Justice," WINMagazine, Março 20, 1975, pp. 6-9.
6.Veja "Sexist Slang and the Gay Community: Are You One, Too?" por Julia P. Stanley e Susan W. Robbins, “The Michigan Occasional Papers Series”, Número XIV (Michigan Occasional Papers in Women's Studies, Universidade de Michigan, 354 Lorch Hall, Ann Arbor, Michigan 48109).
7. Para explicação e elaboração desta afirmação, ver "To Be And Be Seen: The Politics of Reality," nesta coleção.
8. Que este tipo de inconsciência é um dos privilégios de dominação foi esclarecido por mim por Regi Teasley, muito antes (que eu saiba) que outras feministas tenham compreendido isso.
¹ “Gayness”: termo estado-unidense para se referir a uma áurea imaginaria que cerca uma pessoa após ela cometer certa ação, dizer certa palavra ou frase, vestir certa roupa ou ir até determinado local. É dito que alguém está “coberto de gayness” quando essa pessoa parece gay ou soa gay.