Apenas uma carta de amor?
Meu carro foi para a oficina, isso me obrigou a ir de Ă´nibus para o trabalho. A semana inteira de Ă´nibus. Socorro! PorĂ©m, sair da rotina pode ter as suas vantagens, como observar a vida alheia. Coloco meus fones. Ao meu redor, há as mesmas pessoas de sempre — um cara de maleta e terno, um senhor de uniforme e botas de proteção, uma senhorita de mochila, outra carregando uma criança — e mais um montĂŁo de gente. Um tĂ©dio total, mas hoje aconteceu uma coisa diferente.Â
Um motoqueiro, do outro lado da rua, saiu de capacete de algum lugar, pelo jeito que andava, parecia emburrado e tinha um envelope vermelho nas mĂŁos. Antes de montar na moto, amassou o papel, jogou-o ao chĂŁo e foi-se embora. Fiquei com a pulga atrás da orelha, o que será que ele teria amassado? Assim que partiu, uma de minhas companheiras de ponto atravessou a rua, pegou o papel, desamassou-o e voltou correndo para seu lugar. Que absurdo! Ela atravessou a rua sĂł para bisbilhotar. Eu apenas desliguei a mĂşsica, mas nĂŁo tirei os fones, queria ouvir tudo de forma discreta. Esmiucei os olhos, consegui ver o envelope vermelho, com uma carta dentro, parecia escrita em letra cursiva. A mulher leu em voz alta, para uma amiga, a primeira linha: “passei para dizer que te amo...”. Um Ă´nibus chegou, graças a Deus nĂŁo era o meu e nem o delas, mas o barulho de gente e do motor me impediu de ouvir boa parte da carta. Resolvi chegar mais perto. Para dificultar minha vida, tinha gente indo em direção ao Ă´nibus estacionado perto de mim. Fui contra o fluxo de pessoas tumultuadas tentando entrar, empurraram-me na direção oposta da carta. Em minha investida contra a marĂ©, resmunguei alguns “com licença” e, apesar de ninguĂ©m me dar propriamente licença, agradeci a cada passada. Apalparam minha bunda, maldita multidĂŁo, nĂŁo tenho tempo para ver quem foi, ou começar uma confusĂŁo, quero ouvir a carta. Consegui, a duras penas, aproximar-me, mas a moça lia em voz baixa agora. Droga!Â
Pensei no que levaria alguĂ©m a escrever uma carta a mĂŁo por esses dias de tecnologia, que tornaram tudo mais fácil. Quero dizer, uma mensagem de texto ou de voz poderia resolver a agonia do escritor. Se ele nĂŁo tivesse coragem, bastava abrir umas cervejas e mandar alguns áudios com a voz embargada e dicção embolada. Na manhĂŁ seguinte, a declaração desvairada teria sido feita, ele se arrependeria e, provavelmente, mandaria desculpas ou faria alguma piada. Claro, essa tĂ©cnica nĂŁo Ă© nada romântica, talvez a praticidade atrapalhe o romance. Pelo jeito, ele quis fazer direito. Teve a dificuldade de ir a uma papelaria, comprar o envelope, o papel, pensar em suas palavras, escrever e - muito provavelmente - reescrever, atĂ© encontrar o tom certo para sua declaração. Depois, o que ele iria fazer? Colocar a carta no correio? Entregá-la em mĂŁos? Será que iria querer ver a reação do destinatário ao lĂŞ-la? Ou teria medo? Antigamente se lia declarações nas rádios, vai ver ainda existe algum programa assim.Â
Apesar de todos esses questionamentos, o que mais me intriga Ă©: embora tenha se esforçado para escrevĂŞ-la, o sujeito a amassou e jogou fora. O que o fez mudar de ideia? Talvez estivesse guardando a carta por muito tempo, esperando o “tal momento certo” e ele nunca veio, vai que o destinatário se casou... Ou já deu o fora nele. Claro que, nada impede de ele ter recebido a carta, mas prefiro acreditar que ele a escreveu. Já escreveu alguma carta? Bom, particularmente, acho que nunca escrevi uma, nĂŁo no nĂvel pessoal, apenas quando eu era criança e na escola nos pediam para escrever “mamĂŁe te amo, mais do que todos meus brinquedos juntos”.Â
Sacudi a cabeça, tive de tirar os fones, talvez ele esteja abafando um pouco o som. Consegui ouvir: “Queria muito me esquecer de fazer fantasias em vocĂŞ...”. Outro Ă´nibus. Mas o que está acontecendo nessa carta? A mulher terminou de ler e riu com a amiga. Riu dos pobres sentimentos do rapaz que a escreveu. NĂŁo importa se estava bem escrita, ele teve coragem de a escrever. Confesso que, por um instante, rezei para que ela jogasse a carta fora. O meu momento de fĂ© foi em vĂŁo, apesar de rir, ela a guardou na bolsa. Por quĂŞ? Será que pretende reescrever e entregar para seu amor? Ou guardar e falar que a recebeu?Â
NĂŁo contive a curiosidade, aproximei-me, cutuquei a moça:Â
- Oi, bom dia. Observei que pegou um papel no chĂŁo, pareceu uma carta, pode me falar do que se trata?
 - Isso?Â
 - Sim, por favor.Â
 - Não é da sua conta.
- Mas a senhora a pegou no chĂŁo, nĂŁo dá pra compartilhar?Â
- Num dá não.
De supetĂŁo peguei a carta de sua mĂŁo e tentei correr. O povĂŁo me atrapalhou. Ela gritou, agarrou meu braço e me jogou ao chĂŁo. Rolamos, feito cĂŁes loucos. Com a carta em mĂŁos, apanhei e ninguĂ©m da multidĂŁo veio nos apartar. Fiquei sem reação, a mulher me batia como se eu tivesse roubado um tesouro pessoal, como se nĂŁo tivesse pegado a carta na sarjeta. Nossa, eu sĂł queria ter um material de leitura enquanto esperava o Ă´nibus. Tentei me proteger e, graças a Deus (agora acho que me converti), a amiga da mulher a tirou de cima de mim.Â
Na confusĂŁo o papel se rasgou e voou ao vento. NĂŁo li a carta, nĂŁo fui para o trabalho, acabei com um vĂdeo - bem constrangedor - na internet e uns arranhados que nĂŁo sei como explicar a Lurdinha, minha noiva.Â
- Então, doutor, o senhor me entende né!? Vejo que é casado, será que o senhor pode me arrumar um atestado? Nem é pro meu trabalho, é pro meu amor, é caso de vida ou morte.
Autor: thats.ns















