O que pode nos assustar mais do que um rosto do lado de fora da janela?
E se esse rosto fosco, te aparecer nas altas horas da madrugada? Imagine agora que é noite de relâmpagos ainda sem chuva e que, ao cair de um deles, a forma se ilumine mostrando ao lado do rosto, grudadas ao vidro, duas mãos espalmadas, que pensaria você? Fechei os olhos e comecei a rezar para um Deus que, nesses momentos, torço para que exista. Devo acordar quem dorme ao meu lado, gritar e acender a luz? Fechar os olhos é a fuga das crianças, dos medrosos e dos fracos. Em qual deles me enquadro? Em qual deles você se enquadra? Percebo então que o rosto respira. Uma espécie de vapor se forma embaçando a janela. Por que havemos de dormir sem cortina? Lembro que estão sendo lavadas e recordo da desgraça que será despertar com o sol na cara. Maior desgraça é aquela forma que não me deixa como um encosto. Sou homem - e o único da casa. Devo então adotar a atitude cabível. Sei que não poderá entrar. Temos grades que nos protegem dos invasores. E se disparar um tiro e atingir-nos? Mil idéias me passam e não sei o que fazer. Posso bater no vidro e espantar a forma. Ela não aparenta ter cabelos. O crânio é perfeitamente divisado. Poderia estar usando uma touca. Tenho a impressão de que é enorme, monstruoso e de que aumenta de tamanho a cada relâmpago.
Ytallo Martins








