Pierrot, Columbina e Arlequim
Pierrot, Colombina e Arlequim são as personagens mais icónicas e duradouras da Commedia dell'arte italiana, um género teatral popular que floresceu entre os séculos XVI e XVIII. Estes personagens transcenderam o teatro e tornaram-se figuras centrais na arte, na música e no Carnaval, especialmente no Brasil e em Veneza.
A Commedia dell'arte (literalmente, "comédia de arte" ou "comédia dos profissionais") é uma forma de teatro popular e profissional que surgiu na Itália em meados do século XVI e se tornou extremamente influente em toda a Europa.
Os atores baseavam-se num esquema de enredo básico, chamado canovaccio ou roteiro, e improvisavam o diálogo, as ações e as lazzi (gags cómicos) no momento. O teatro era construÃdo em torno de personagens convencionais e arquétipos, conhecidos pelo público de antemão. Os atores especializavam-se num único tipo e representavam-no durante toda a sua carreira.A maioria dos personagens, com exceção dos amantes, usava máscaras de couro distintivas que ajudavam a definir o seu tipo e personalidade. O desempenho era altamente fÃsico, incorporando pantomima, acrobacias, dança e música, exigindo grande habilidade corporal dos atores. As trupes eram profissionais, viajavam pelas cidades e apresentavam-se em praças públicas ou em palcos improvisados. A Commedia dell'arte foi pioneira ao permitir que mulheres atuassem profissionalmente no palco, o que era raro na época.
Os personagens dividiam-se em três categorias principais:
Os Zanni (Servos): Os criados, palhaços e trapaceiros. IncluÃam Arlequim (Arlecchino), Colombina, Pierrot (ou Pedrolino), Brighella e Pulcinella.
Os Vecchi (Velhos): Os mestres, ricos e, muitas vezes, avarentos. IncluÃam Pantaleão (Pantalone), um comerciante veneziano, e Il Dottore (O Doutor), um pedante e falso sábio.
Os Innamorati (Amantes): Os jovens da classe alta, românticos e, geralmente, sem máscara. Eram os protagonistas das histórias de amor complicadas, como Isabella e Flavio.
Il Capitano (O Capitão): Um soldado fanfarrão, arrogante e cobarde, que se gabava de feitos heroicos que nunca cometeu.
A Commedia dell'arte teve uma influência imensa no teatro europeu, notavelmente em dramaturgos como Molière, e o seu legado perdura no teatro moderno, no cinema, na pantomima e nas artes performativas contemporâneas.
A relação entre Pierrot e Colombina é frequentemente apresentada num clássico triângulo amoroso que envolve uma terceira personagem: o Arlequim (em italiano, Arlecchino).
Colombina (Colombina, que significa "pombinha" em italiano) é a figura feminina central. É uma serva inteligente, prática e, muitas vezes, a única personagem sem máscara. Ela é o objeto de afeto tanto de Pierrot quanto de Arlequim e usa a sua astúcia para manipular a situação a seu favor.
Pierrot é o palhaço triste e ingénuo, frequentemente vestido com roupas brancas largas, um grande colarinho e uma carapuça. Ele representa o amante rejeitado, melancólico e leal. A sua tristeza e amor não correspondido por Colombina são as suas principais caracterÃsticas.
Arlequim é o rival de Pierrot. Vestido com um fato de retalhos coloridos, é ágil, astuto e um eterno trapaceiro. Ele compete com Pierrot pelo amor e atenção de Colombina e geralmente tem mais sucesso devido à sua malÃcia e charme.
O trio tornou-se um motivo recorrente em diversas formas de arte:
Na pintura: Artistas como Pablo Picasso e Jean-Antoine Watteau imortalizaram estas figuras nas suas telas.
No ballet e ópera: Foram adaptados em inúmeras produções, incluindo o famoso ballet Harlequinade.
No carnaval: Em muitos paÃses, as fantasias de Pierrot, Colombina e Arlequim continuam a ser um clássico do Carnaval, representando o drama e a comédia da vida.
O pintor rococó francês Watteau foi um dos primeiros a levar as personagens da Commedia dell'arte para a alta arte, afastando-as das praças públicas. Ele representava frequentemente atores em poses melancólicas ou em festas elegantes (fêtes galantes). "Pierrot" (anteriormente conhecido como "Gilles") (c. 1718-1719) é talvez a pintura mais icónica de Pierrot. Em vez de uma cena de farsa, Watteau pinta Pierrot sozinho, com um olhar vazio e melancólico, destacando a tristeza inerente à personagem. "O Triunfo de Ceres" (c. 1710-20) apresenta as três figuras principais num cenário de festa, mostrando a interação clássica do triângulo amoroso.
O mestre pós-impressionista Paul Cézanne revisitou o tema no final do século XIX, usando as figuras para explorar a forma e a cor, distanciando-se da narrativa teatral.
Em "Pierrot e Arlequim (Mardi Gras)" (1888) Cézanne pintou os seus filho e amigo com os trajes das personagens. A pintura foca-se na estrutura e na relação espacial entre as figuras, sendo uma das suas obras mais famosas sobre o tema.
Pablo Picasso tinha uma grande afinidade com as figuras do circo e da Commedia dell'arte, especialmente durante os seus PerÃodos Azul e Rosa e, mais tarde, no seu perÃodo neoclássico.
Em "Arlequim Apoiado" (1901) e várias outras obras de Arlequim, Picasso usou o padrão de losangos do traje do Arlequim, muitas vezes em autorretratos simbólicos ou representações de amigos, como o poeta Max Jacob.
Em "Pierrot e Colombina" (1918), uma obra do perÃodo neoclássico, retrata as figuras com uma elegância serena e simplificada.
Georges Barbier (InÃcio do século XX) criou ilustrações de moda e arte decorativa com as personagens em estilos Art Nouveau e Art Déco, muitas vezes para o Ballets Russes de Diaghilev.
O modernista brasileiro Emiliano Di Cavalcanti (1897–1976) utilizou frequentemente as figuras de Pierrot, Colombina e Arlequim nas suas obras, especialmente para capturar o espÃrito do Carnaval brasileiro.
Di Cavalcanti, conhecido pelas suas cores vibrantes e temas tipicamente brasileiros, reinterpretou estas personagens europeias da Commedia dell'arte, integrando-as na iconografia cultural do Brasil e ligando a melancolia e a alegria do carnaval tradicional às suas representações de mulatas e da vida urbana do Rio de Janeiro.
Uma das obras mais famosas de Di Cavalcanti que incorpora as três personagens é a pintura a óleo "Pierrot, Arlequim e Colombina" (1922). Esta obra, pintada no ano da crucial Semana de Arte Moderna de São Paulo, mostra as figuras centrais com a pincelada e o estilo modernista caracterÃsticos do artista.
Outras obras e menções incluem:
"Arlequinade" (c. 1920): Outra obra que se foca especificamente no personagem do Arlequim e o seu traje de losangos.
"Pierrette" (1922): Uma obra separada que ilustra a versão feminina de Pierrot.
O artista britânico Mark Gertler (1891–1939) pintou a sua própria versão de "Arlequim, Colombina e Pierrot" em 1918. É uma obra significativa do artista, que na altura estava a admirar o trabalho de Paul Cézanne e a ser influenciado pelo crÃtico de arte Roger Fry e pelo Grupo de Bloomsbury.
A composição de Gertler foi diretamente baseada numa apresentação do ballet Le Carnaval dos Ballets Russes de Diaghilev, que ele viu no London Coliseum em outubro de 1918. A bailarina Lydia Lopokova representou Colombina, e a sua energia radiante após uma pirueta en pointe foi capturada na tela.
A pintura pertence a uma coleção privada, mas foi exibida na exposição "Arte Britânica: Ponto de Fuga" na Fundação Calouste Gulbenkian em Lisboa.
Estas representações mostram a versatilidade das personagens, que evoluÃram de figuras cómicas do teatro improvisado para musas da alta arte, simbolizando temas universais como o amor, a rejeição, a melancolia e a própria natureza da performance e da identidade.