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Post 13 - Diário do Caminho de Santiago de Compostela - Etapa 4 - Parte 3
Dia 4 – PARTE 3
Data 02/05/2017
Etapa: Almadén de la Plata -> El Real de la Jara, Espanha
Distância: 16,6 km
Tempo: sol -> sol
Caminhamos um pouco mais por uma área arborizada, não muito densa, de tipos de árvores não muito diferentes umas das outras, provavelmente, uma floresta “criada” pelo homem para algum tipo de cultura específica. Sem dúvida, muito distante daquilo que olhos brasileiros estão acostumados a ver nas ricas, fechadas e verdejantes florestas da Mata Atlântica.
O caminho seguia por uma estrada de terra até que bem larga, provavelmente para permitir o tráfego de veículos rurais. Não faltou muito para que entrássemos no trecho urbano, porém, sem antes passar por pequenas propriedades rurais destinadas às lavouras.
Estávamos num pequeno elevado, podíamos ver o pequeno núcleo urbano abaixo de nós. Neste término de caminho, seria “ladeira abaixo” e nunca a expressão “para baixo, todo santo ajuda” veio tanto a calhar, aqui, ao menos, Santo Tiago, ou Santiago, ajudou.
A primeira construção no lado esquerdo do vilarejo adentrado pelo caminho/rua que utilizamos era o albergue municipal. Era uma construção de 2 pisos, suas paredes eram brancas com detalhes em amarelo, o que era um prenuncio do que iríamos ver na cidade toda. Admito que senti uma sensação não muito boa ao ver o albergue local do peregrino. Havia vários homens no lado de fora, o que me deu uma sensação de que o local era apertado já que estavam ali. Não entrei para comprovar meu sentimento ou intuição.
Hoje, ao escrever esse diário anos depois da peregrinação, posso utilizar o Google Maps e o Street View para me ajudar a relembrar locais, estradas e prédios, vi o prédio do albergue com outros olhos. É, sentimentos são únicos e de momento, são fotografias. Com o tempo talvez as sensações mudem.
Creio que o que me deu na época, foi ver as grades nas poucas janelas no segundo piso da construção. Logo veria que isso é comum em todas as janelas de todas as casas do interior espanhol. Não sei se são de fato necessárias na Espanha, mas vai saber. Também, longe de mim, como brasileiro, querer criticar isso quando temos muros altos, cercas elétricas, arame farpado e toda parafernália tecnológica para nos manter “seguros”.
De toda forma, pouco importava a condição do albergue ou minhas sensações ao ver a fachada do albergue, pois já havíamos feito uma reserva na pousada privada da Molina. Deixamos o albergue municipal para trás e levei comigo um alívio momentâneo.
Seguíamos ladeira abaixo por este “corredor” de casas coladas nas vielas estreitas do vilarejo com estreitas calçadas separando a rua da porta das casas. Para quem já foi para Tiradentes em Minas Gerais, pode ter uma sensação do que é andar por lá.
Não sabíamos exatamente onde ficava a pousada da Molina, tínhamos que seguir até o centro do vilarejo e perguntar. No meio do caminho até lá, vimos uma placa em frente a uma casa no lado direito deste “corredor” que ofertava vagas para peregrinos. Seria ali? Um senhor com semblante sisudo ouve o nome “Molina” e desfere um “no!” (não). Ok, sigamos em frente. O lugar era pequeno e não deveria ser difícil encontrar a tal pousada privada.
Pegamos direitas e esquerdas naquele mini labirinto espanhol de casas brancas quase sempre iguais com fachadas planas, portas verdes ou marrons com janelas gradeadas. Não lembro muito bem, só sei que chegamos, enfim, à pousada da Molina que ficava no lado esquerdo da viela (calle Real, no Google Street View ainda se pode ver a placa do Alojamiento Molina pendurada na fachada).
Como você pode imaginar, a pousada da Molina era de fachada plana, branca e com portas grandes. Momento de esclarecimento, já falei muito em cidades brancas, mas não o porquê. Como já havia sentido e iria sentir ao longo do caminho, a Espanha é um país muito quente com temperaturas altíssimas. Assim, a cor branca das casas é uma das “tecnologias” utilizadas pelos locais para refletir os raios solares que escaldam os espanhóis, turistas e seus peregrinos.
A outra tecnologia é a espessura das paredes, não estou exagerando em dizer que as paredes da pousada da Molina, e de todas as demais, deviam ser de meio metro. Sim, eram muito grossas para que o frescor interno não escape. Basicamente, as casas eram uma geladeira natural de paredes grossas em vez de possuir sistemas de ar condicionado forçando baixas temperaturas. O que faz todo o sentido já que aquelas casas deviam ser centenárias utilizando o que havia disponível a mão, tinta branca e muitos tijolos.
Cruzando o umbral da grande porta da pousada da Molina, andamos por um corredor que nos levou até uma sala de jantar grande juntamente com sua grande mesa. No lado esquerdo, ficava uma grande cozinha e depois os cômodos da dona da pousada e de sua família, creio que seu filho e nora moravam ali também. No lado direito da sala de jantar, havia uma porta que levava para outro corredor. À direita no fundo, o quarto que iria dividir com outros 2 peregrinos, incluindo o holandês fotógrafo. No meio do corredor, havia um cômodo que havia sido transformado num quarto, pelo menos a mim pareceu, ali o senhor alemão ficou. À esquerda do corredor havia outros quartos, talvez 2 ou 3.
Depois deles, havia 2 portas à direita que eram de 2 banheiros imensos. Naqueles espaços poderiam dormir facilmente alguns peregrinos com muito gosto. Os banheiros eram amplos, com louças antigas, chuveiros dentro de boxes, azulejos, espelho e janelas. Sim, os banheiros possuíam janelas grandes para o corredor, mas deviam ser “jateadas” e havia cortinas também. Nada de janelinha basculante para o lado de “fora”. Lembrando que as casas são coladas parede com parede, logo, todas as janelas ou eram viradas para a rua através da fachada frontal ou viradas para dentro, como corredores ou algo mais charmoso a ser retratado em breve.
Seguindo por este corredor, ao fundo, a área de serviço.
Voltando à sala de jantar, agora olhando para frente, havia o “charmoso” átrio da casa ou uma espécie de quintal ou pátio. Havia algumas mesas próximas à porta da sala de jantar, como se fosse um deck ou grande varanda coberta por um toldo, depois um pequeno declive com o corredor dos banheiros e área de serviço à direita. Um paredão à esquerda (que vizinhava com a próxima casa) e uma pequena edícula aberta. Para padrões brasileiros, diria que era uma área de churrasqueira, mas não vi nenhuma ali. Servia de depósito para coisas que não deveriam caber na casa. Ah sim, no fundo também havia um espaço para lavar a roupa. Importantíssimo varal e seu tanque. Esse átrio possuía várias plantas, uma grande árvore e uma horta.
Agora que a pousada estava mapeada, vamos aos acontecimentos. A Molina nos recebeu com o calor espanhol típico, foi extremamente hospitaleira, ela nos mostrou o lugar e falou das regras da pousada. Sem perder tempo, tivemos nossa credencial carimbada.
Ela nos apresentou aos seu marido e família que morava na casa. Deixamos nossos pertences em nossos quartos e, como de costume (mesmo que recente), fomos beber uma cerveja para o relaxamento pós-chegada na pousada e término da etapa do dia. Como a etapa era relativamente curta, perto dos 17 quilômetros, devemos tê-la feito perto de 4 horas. Portanto, a chegada na pousada deve ter ocorrido perto do meio-dia. Uma das fontes de renda das pousadas privadas além da acomodação são os extras como roupas lavadas e serviços de bar. Sim, sentamo-nos em uma das mesas do átrio e tomamos uma cerveja local, bem, o senhor alemão e eu, já o holandês fotógrafo foi na sua tradicional Coca-Cola.
Batíamos papo numa mesa enquanto 2 outras mulheres europeias conversavam em outra. Para minha insatisfação, fumavam muito e baforavam na gente. Apesar do lugar ser aberto, o cheiro vinha até nós.
Depois de conversar por quase meia hora, ou talvez mais, o senhor alemão saiu e o holandês fotógrafo olhava as fotos tiradas deste dia. De repente, chegou o marido da Molina com um cesto cheio de legumes e verduras. Não lembro se passou por ali ou se quis entrar na conversa, só sei que ficamos mais 1 hora falando sobre tomates e seus tipos, como o rosa, coração de touro e o chifre de boi, além de falar de vinhos também. Foi uma conversa bem agradável que iria se contrapor com a experiência da manhã seguinte. Ai, esses espanhóis.
Depois do corpo já hidratado, hora das pequenas obrigações do dia. Tomar banho em um dos gigantescos banheiros por uns minutinhos a mais daqueles tomados nos albergues públicos para relaxar o corpo e tentar recuperar o calcanhar direito que seguia berrando.
Em seguida, fui até o fundo da casa para lavar as meias, cueca e camiseta do dia com sabão no tanque e, por fim, pendurar no varal para secá-las, algo que ocorria muito rapidamente com o calor, sol e secura daquela região hispânica.
Meus colegas de caminhada já estavam descansando após suas obrigações diárias. Aproveitei para fazer compras. Havia algumas coisas na minha lista, algumas rotineiras como comida, mas havia um item que era indispensável para minha paz auditiva.
Saí e busquei pelas vendas próximas, comprei as provisões das próximas 24 horas. Claro, jamais carregue peso desnecessário já que em todas cidades você poderá se reabastecer. Seja leve e leve só o necessário (que belo trocadilho).
No quesito comida, comprei frutas, como de costume, maças e bananas pela praticidade de poder comer a qualquer momento sem se preocupar com embalagens ou preparos. Também comprei os jamóns locais (guarde essa informação para a etapa de amanhã) e alguns pães para sanduíches improvisados.
Na parte da hidratação, comprei água, muitíssimo importante, pois o calor e a secura do ar suga nossa água corporal. Eu me acostumei a levar comigo sempre 3 litros de água distribuídos em algumas garrafas para equilibrar o peso da mochila durante as várias horas diárias de caminhada. Duas de meio litro a 1 litro nas laterais da mochila e uma maior dentro dela.
A segunda parada seria para uma compra mais do que necessária, encontrar ponteiras de borracha para meus bastões de caminhada e dar um fim no som infernal do tec, tec, tec... Encontro uma venda que me pareceu ser aquelas lojas do passado, bem antes das lojas de produtos chineses, onde se encontra de tudo. Pago alguns euros em cada ponteira e saio contente.
Hora de voltar para a pousada da Molina e testar as ponteiras o quanto antes.
Na pousada, instalo as ponteiras nas pontas dos bastões. Embora pareçam de qualidade mediana, elas dão conta do recado abafando o som das pontas metálicas dos bastões. Como já comentei, em trechos de asfalto, o som seco dos bastões contra o piso é no mínimo irritante, para mim e para aqueles ao meu redor. Agora estaria num modo silencioso.
Vejo que meus companheiros de grupeto de caminhada estão acordados e despertos. Decidimos ir a um bar do vilarejo branco para mudar de ares e ver um pouco da vida espanhola do interior.
Saímos da pousada, pegamos a direita e rumamos ao centro (???) e, após algumas centenas de passos na mesma rua da pousada da Molina, chegamos a um bar que ficava numa mini quadra com as ruas limitando suas paredes. O bar era o El Chati(informação que obtive graças ao Google Maps depois de muitas explorações virtuais).
Este bar/restaurante estava numa construção de 2 pisos, ao lado dele, outro bar/restaurante. Entramos, nas paredes, azulejos coloridos até meia altura, depois uma pintura até o teto que geralmente era coberta com vários quadros e fotos. No salão, várias mesas, ao fundo, o balcão do bar também azulejado e com tampo de aço inox, e uma escada que levava ao piso superior atrás dele. O El Chatiestava tomado por locais, na maioria, homens de média e avançada idade.
Éramos estranhos ali, mais altos e muito claros em tom de pele do que a média, sem contar os traços faciais discrepantes e nossas vestimentas que entregavam nossa “profissão” temporária, peregrino. Sentamos numa mesa, pedi uma caña(possivelmente uma Estrella Damn, Estrella Galicia, San Miguel ou Cruzcampo), o senhor alemão, uma radler, o holandês fotógrafo, uma Coca-Cola.
Como (um ótimo) costume espanhol, nossas bebidas foram acompanhadas de tapas (tira gostos), para minha alegria, as deliciosas e frescas azeitonas, provavelmente, oriundas das plantações locais.
Como já reportei, os bares/restaurantes vistos até então possuem algo em comum, por mais modestos que sejam, eles exibem grandes televisões de tela plana em várias paredes do recinto. Ali não era diferente. Os televisores estavam ligados para que os locais pudessem apreciar um dos esportes nacionais, as touradas.
Os senhores, e os mais novos, assistiam às telas totalmente compenetrados como se estivessem sido hipnotizados. Por incrível que pareça, havia silêncio em meio àquilo até que o toureiro fizesse algum movimento naquela valsa da morte, seja a dele ou a do touro.
A cada estocada da espada (eram várias) no lombo do touro, a torcida reagia. Em termos crus, estávamos vendo um açougue esportivo transmitido ao vivo de alguma cidade maior. Não vou julgar, pois compreendo muito bem e respeito as diferenças culturais entre os países, mas era difícil de não sentir um mal-estar naquele balé sanguinário esportivo.
Minha torcida era para que os 2 entes daquela dança saíssem ilesos, porém, parecia não haver graça na minha ideia. Quando criança, via desenhos que retratavam a tourada como um simples olé para lá e para cá com aquele pano vermelho sendo balançado para atrair o touro. Era mais que isso, deveria haver um desfecho mortal.
Lembrei de quando via lutas de MMA na tevê, que foram poucas, o que prendia minha atenção era ver em que estado sairiam os lutadores. A luta é bárbara, a tourada é bárbara, no entanto, ambas embaladas em seus próprios rituais e regras. Um colega uma vez me disse que a tourada representa muito a sociedade e cultura espanhola, intensa, bruta, emotiva e com fogo nas entranhas. Bem, viria a passar quase 50 dias na Espanha e talvez isso faça sentido.
Continuamos na nossa toada de beber algumas cervejas e observar o que ocorria ao redor. Como a casa estava cheia, eu ia até o balcão pegar meu copinho de cerveja aguardando que fosse agraciado com mais algum tira gosto.
Creio que tenhamos ficado ali entre 1 a 2 horas, o pescoço já doía, pois, as tais televisões ficavam no alto, próximas do teto. Depois daquele estudo informal sociocultural etnográfico, decidimos voltar para a pousada. Já estávamos perto do final da tarde, se bem que a tarde aqui enganava já que o anoitecer era bem mais tarde. O sol estava alto ainda, deviam ser 5 horas da tarde.
Na pousada, perguntamos para a Molina por um lugar para jantar. Ela prontamente indicou La Casa de La Cultura. Ok, demos um tempo em nossos quartos antes de nos dirigir para tal restaurante. O quarto estava friozinho a ponto de dar certo desconforto. Dentei um pouco e usei o saco de dormir como cobertor.
No entardecer, caminhamos (eu com muita dor) pelas estreitas calçadas de El Real de la Jaraaté o restaurante. Chegar lá seria fácil, bastaria pegar uma direita e depois uma esquerda. O restaurante ficava num prédio de esquina, suas calçadas eram um xadrez de lajotas brancas e vermelhas. Para tornar a experiência mais agradável, o estabelecimento possuía 2 ambientes, o aberto e o prédio fechado. A escolha foi fácil, ficamos no belo ambiente externo. O céu limpo e toldos coloridos sobre de nós, árvores, arbustos e muros com grades ao nosso redor, além de 2 portões nas 2 ruas de acesso ao local.
Embora fosse modesto como todos os demais prédios da região, o local parecia um sonho. Senti-me num filme. Sem dúvida, era um privilegiado por estar ali mesmo que tendo uma pequena cruz no pé direito.
Escolhemos uma mesa próximo à esquina e logo o garçom veio nos atender, pedimos as bebidas (não vou descrevê-las pois você já deve saber qual cada um pediu, na verdade, a bebida pode fazer parte do menu, então, pode ser que eu tenha escolhido uma taça de vinho em vez de uma cerveza) E, em seguida, foi-nos apresentado as opções do menu do peregrino.
Como entrada, a salada, tipicamente, monstruosa em tamanho. Depois, poderíamos escolher entre cerdo(porco) e pollo (frango) acompanhado de batatas fritas. Por fim, a sobremesa, não me recordo das opções mas sei que tive preocupação com minha intolerância à lactose. Conhecendo minha gula, devo ter fechado os olhos e comi o que veio, seja pudim, seja sorvete ou algum doce local.
Havia um grupo ocupando várias mesas do outro lado deste pátio com diversas mulheres que conversavam no típico volume espanhol, em outras palavras, berrando. Deveria haver quase dez delas tornando o ambiente quase ensurdecedor, apesar de estarmos num ambiente aberto.
Várias vezes a conversa da minha mesa com meus colegas de caminhada perdia o fio da meada. Em uma dessas conversas, lembro de termos falado da grande mulher dinamarquesa que nos acompanhou dias atrás. Aproveitei para contar a história de quando ela se abriu para falar de sua primeira experiência no caminho anos atrás e sua pedra largada ao término do caminho.
O silêncio, pelo menos em nossa mesa, deu prosseguimento à conversa. Penso que todos nós refletimos por alguns instantes.
Já estava escuro, eram passadas as 9 horas da noite, decidimos pagar a conta e voltar para o alojamento. O valor do menu do peregrino era entorno de 10 euros, diria que é a média. Em alguns lugares poderia chegar a 8, já em outros, alcançava quase 12.
Voltamos caminhando pela pacata El Real de la Jara em meio a seu silêncio, vielas desertas, carros estacionados em frente das casas coladas aos seus vizinhos, ruas de pedra, calçadas que mal comportavam 1 pessoa, luzes ao alto em lanternas presas às construções, uma paz sonora, visual e mental que relaxaria qualquer um antes de se deitar para mais um dia de caminhada (foto).
Bem, só não relaxou meu pé. Esse doía e muito. Diria que estava praticamente mancando. Conforme passado pela médica de Sevilha, seguia tomando anti-inflamatórios, passava um creme e fazia os banhos de água quente e frio. Porém, a teimosia demorava a aceitar que só uma atitude poderia resolver isso.
Mas no momento, o que importava era o passo da vez e a etapa do dia. A última havia ficado para trás, já o primeiro, eu sentia a cada dois passos.
Chegamos na pousada. Escovei os dentes, preparei a mochila para o dia seguinte e segui para o átrio com meu pequeno caderno laranja e caneta para anotar as memórias do dia em uma página e meia, algo que deve ter levado uns 30 minutos. Uma das mulheres europeias estava lá, pelo o que pude escutar dela falando, deveria ser holandesa. Infelizmente, voltara a fumar, o que me deixou irritado.
Volto para meu quarto, o holandês fotógrafo estava lá juntamente com o outro ocupante do quarto. Verifiquei o horário despertador no celular, coloquei meu “pijama”, enleei-me no lençol de seda dentro do saco de dormir, pus os tampões no ouvido, guardei meus pertences no saco do saco de dormir e sem perceber, havia dormido.
Post 11 - Diário do Caminho de Santiago de Compostela - Etapa 4 - Parte 1
Dia 4 – PARTE 1
Data 02/05/2017
Etapa: Almadén de la Plata à El Real de la Jara, Espanha
Distância: 16,6 km
Tempo: sol -> sol
Se acostumem com a sequência de fatos de todo começo de dia, pois aparentemente eu me acostumei a isso também, fui um dos últimos a acordar, se não o último. Olho ao redor, todos já preparando suas mochilas antes de zarpar. O senhor coreano já não estava mais presente, deveria ter saído como de costume antes das 6 da manhã.
Eram 6 e pouco da manhã, deveria fazer minha rotina matinal de trocar de roupa, ir ao banheiro, arrumar a mochila, colocar as barras de cereal no bolso lateral direito da calça à altura da coxa, pois o esquerdo servia para o “lixo” das embalagens das barras consumidas ao longo do dia. Nos bolsos da calça mais próximos da cintura, eu deixava, no lado direito, meu passaporte e parte do dinheiro, no esquerdo, meu celular que servia de câmera fotográfica (mas que não é). Outra parte do dinheiro eu carregava numa “doleira” que ficava na cintura, outra parte numa mini-bolsa/pochete que eu carregava do ombro até a cintura do lado oposto, a última parte ficava na mochila escondido em algum bolso secreto. Nesta pochete, eu costumava colocar tudo de valor na hora que eu ia em banheiros de albergues ou quando dormia, juntamente com o saco do saco de dormir que ficava colado em mim com outros pertences (olhas as dicas valiosíssimas).
Tanto cuidado é necessário? Não sei, melhor prevenir do que remediar. Sim, estamos na Espanha, lugar seguro e criminalidade baixíssima, mas para que dar margem para o azar? Sem contar que estou num país estrangeiro, nem tudo se resolve ligando para um amigo ou familiar em caso de emergência.
E o pé? Já começava doendo pela tendinite e, para piorar, várias bolhas depois de um dia tão extenuante como o anterior. Ao me ver com esparadrapos, o senhor alemão me fala para esquecer isso e usar somente vaselina. Claro! Como poderia ter esquecido dela? Lembro que tinha um tubo guardado e ainda não utilizado que havia comprado numa farmácia em Barcelona atrás do mercado municipal La Boqueria, lugar onde tive uma história engraçada com um político brasileiro presidenciável. Mas isso faz parte do outro livro de memórias da viagem que “abraça” o caminho de Santiago de Compostela a ser escrito no futuro.
Simples assim, use o máximo de vaselina que puder a ponto de lambuzar, besuntar e tornar o pé um sabão. Não esqueça de pôr principalmente no calcanhar e entre os dedos. Acredite, tenha fé. Se você não crê em força maior, divina ou providencial, sem problemas, cada um tem sua visão de mundo. Muitos peregrinos não são cristãos, a força maior pode vir de você ou não. Este diário, o caminho e o mundo aceita a todos. No entanto, neste caminho santo percorrido por não-santos ou em qualquer outra atividade que demande horas de caminhada, confie, só a vaselina salva. Sabe o que é o pior? Um tubo de vaselina genérica que dura semanas custa alguns euros. Nada de esparadrapos simples ou aqueles especiais que grudam no seu pé por vários dias e que custam vezes um tubo de vaselina.
Olha, dediquei dois parágrafos para falar disso e sigo para o terceiro. Esta é a maior dica que poderei dar para você, aspirante peregrino, que um dia sonha em fazer algo similar. Eu conheci pessoas quase desistirem por causa de bolha no pé, sim, uma bolha, sem contar outros riscos atrelados a quem estoura elas com alfinetes, alicates ou agulhas. Jamais faça isso! Bolha é uma reação normal do corpo onde há atrito na pele. “Então, se pôr esparadrapo não tem atrito”, você pensa. Ledo engano, o atrito ainda existe e o esparadrapo deixa o local ainda mais quente, pois o calor não se dissipa. A holandesa usava aquelas meias com “dedos” para os pés. Pode ser uma solução. Porém, mais simples é usar vaselina e a cada hora ou duas, parar para descansar e descalçar as botas dos pés para o suor e calor irem embora. Esses calçados de caminhada, são normalmente desenvolvidos para evitar a entrada de água e, portanto, são mais fechados tornando a bota um forno. Pronto, chega de falar da santa vaselina. Deveria haver procissões para ela.
Pé lambuzado de vaselina, meia por cima, bota. Tudo pronto e certo. Meus colegas, os senhores alemão e holandês (o fotógrafo), tinham o recém-costume de tomar o café, ou o desayuno, de todo santo dia numa cafeteria, que era bar e restaurante durante o dia e noite, uma espécie de “padoca” paulistana, no entanto, bem mais animada como falarei em breve.
Nem todas abriam tão cedo, mas algumas aproveitavam o fluxo de peregrinos e já iniciavam os serviços às 6 da manhã. Devido ao meu atraso comum pelas manhãs, chegamos imediatamente depois de um grupo de peregrinos espanhóis. Ah, esse grupo.
A cafeteria estava um caos, barulhenta (necessário falar isso na Espanha?) e cheia de peregrinos de todas as cores, mochilas e equipamentos. Só em bastões de caminhada encostados nas paredes, eu perdi a conta. A cafeteria possuía o balcão à esquerda ocupando quase toda a parede com seus atendentes por trás dele. Toda a área restante era preenchida com mesas e cadeiras e, claro, havia uma televisão grande de tela plana ligada passando o telejornal, bem como uma máquina caça-níquel daquelas bem bregas.
Ambiente reconhecido, agora, precisaria entrar na “fila” invisível. Claro, estamos na Espanha, é preciso falar alto para ser ouvido. O tal grupo espanhol formado por alguns homens e, imagino eu, suas respectivas mulheres faziam um coro pedindo café e tostadas, que são pães compridos tostados na chapa entregues junto com mantequilla (manteiga) ou alguma mermelada (geleia) local. Como falei anteriormente, havia o tal balcão, nele, pessoas comiam e, entre elas, os demais clientes sentados nas mesas do salão precisavam transpor aqueles do balcão para que suas vozes e braços pudessem chamar a atenção dos atendentes ligeiramente brutos.
Se tivéssemos chegado 5 minutos antes, melhor, se eu tivesse ficado pronto antes, teríamos sido atendidos mais rapidamente. Os atendentes até que eram ágeis em suas tarefas, porém, pegavam um pedido por vez, qual pedido foi pego antes de mim? O do grupo peregrino espanhol, 3 ou 4 casais, que incluía café solo o con leche, jugo de naranja, tostadas e algumas coisas mais do café da manhã local poderia oferecer. Sim, tive que esperar por sei lá quantos cafés, sucos, tostadas e afins.
É comum ficar impaciente, se bem que ter pressa no Caminho de Santiago com tantas etapas, quilômetros e tudo sendo feito a pé, parece ilógico. A questão é simples, quanto antes começar a caminhar, mais cedo se chega à cidade-destino para evitar o sol, e o calor infernal, da uma da tarde em diante. Embora a primavera houvesse começado somente semanas atrás, o calor que faz na Espanha não se iguala aos dos demais países europeus, ainda mais naquela região semiárida. Pode ser que esteja forçando a barra no termo, mas naquele dia veria uma característica arquitetônica imprescindível nas casas além da pintura branca obrigatória. No futuro breve, também entenderia o porquê da siesta (sesta ou cochilo pós-almoço).
Ok, consegui pedir para mim e meus colegas do grupeto de caminhada, café e tostadas, as quais comi com o máximo de mermelada disponível para que não me faltasse energia. Depois de terminar, hora de ir ao banheiro antes de se “jogar ao desconhecido”. Passei pelo corredor onde, ao fundo, havia um pequeno pátio com os banheiros à direita, uma porta para o masculino e outro para o feminino.
Adivinha quem mais estava na fila ao banheiro? O holandês chato. Havia algo que o deixava inquieto. Ele queria usar o banheiro para fazer suas necessidades mais “pesadas”, porém, não havia papel higiênico no banheiro masculino. Falei para usar o feminino. Demonstrou certa vergonha e saiu, imagino eu, buscar por um banheiro em outro lugar. Eu também precisei usar o banheiro para tal necessidade, não pensei duas vezes, fui no feminino mesmo. Outro ponto, não havia assento no vaso masculino, o que é muito comum em banheiros na Europa, sim, no masculino somente. Óbvio, homens só produzem urina. Olha, isso é algo que nunca entendi. Como se qualquer pessoa não pudesse ter um algum desarranjo devido a algo que comeu ou bebeu no próprio restaurante.
Pequena pausa, há 2 coisas que eu não gosto em viagens e nessa eu falei desde o começo. Aviões de hélice e banheiro dito “turco”, este mesmo que você está pensando, aquele que só tem um buraco no chão onde você deve ficar de cócoras. Fora isso, pode vir que não me rendo. Quem diria que meses depois indo para a Rússia e Mongólia, essas 2 “coisas” se mostrariam presentes. A segunda mesmo, uma realidade triste de um país nômade e pobre. Mas sigamos com a ordem dos fatos, ainda mais que essa história ficará para o outro livro.
Estou lá, vejo o banheiro feminino com assento e papel higiênico na direita, na esquerda, aquele vaso “pelado” e sem papel. Vou no feminino como já disse. Quando saio, uma mulher espanhola do tal grupo de peregrinos espanhóis está à porta visualmente irritada. Baixo a cabeça como se nada estivesse acontecido, lavo a mão e volto ao salão para me reunir com meu grupeto.
Minha mesa ficava na linha do corredor, o que me dava visão ao pátio com os banheiros, lá vi a espanhola irritada gesticular e apontar para dentro, junto dela havia outra mulher. Quando voltam ao salão, as 2 espanholas sentam à sua mesa e apontam para mim. Aparentemente, fiz algo “imperdoável”, pois virei assunto da tal mesa. Pouco importa, talvez jamais os visse novamente.
Pagamos a conta e saímos, o holandês fotógrafo ajeitava sua supercâmera em seu peito. O senhor alemão arrumava alguma outra coisa. Hoje, partiríamos nós 3 sem a presença da holandesa que já deveria estar saindo da cidade onde chegaríamos em algumas horas.
A etapa de hoje deveria ser relativamente leve até El Real de la Jara, comparado à etapa de ontem, praticamente plana apesar de algumas pequenas lombadas. O céu indicava que teríamos um dia ensolarado. A distância desta etapa beirava os 16 quilômetros que deveriam ser transcorridos em aproximadamente 4 a 5 horas de caminhada. Ótimo!
Já deveria ser perto das 8 da manhã, a cidade começava a mostrar seus sinais de despertar. Já as cegonhas pareciam ainda dormentes.
Saímos pelo norte da cidade (branca), por onde passamos por uma portela (porteira) e depois pela Plaza de toros até subirmos o Cerro de los Covachos. Este pequeno monte não incomodou muito meu pé, pois antes de sentir algo, já começamos a descer rumo a um pequeno vale. Deveria haver um castelo por ali, ou talvez suas ruínas, mas nada vimos. Passamos reto.
Chegando lá embaixo deste vale, avistamos árvores, aparentemente frutíferas, e algumas construções, como alguns galpões e prédios agrícolas. No meio, havia uma casa, e que construção (foto)!
#etapa4 de @swimclandestina , de #portdelaselva a #calaProna #alasaca !! :-) #success #RoadToBCN #newwaveswimbuoy #swimpostureo #swimpositive #piratas #clandestinos #Swimemotions #swimfriends #openwaterswimming #openwater #aiguesobertes #swim #natacio #natacion #swimmer #swimming #swimenjoy #cataloniaexperience #ows (en Cala Prona) https://www.instagram.com/p/B8UXt0wIDM6/?igshid=1n0n79yxirfpa

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Las piedras y la arena #etapa4 #lanenah y su #furgotrip19 #furgomelez #puntapotorratxa #laredo https://www.instagram.com/p/B09bhqIl9yZ/?igshid=194k4pbp3drb5
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