Rafael, ainda que meio desconfiado – a passos curtos e com o chapéu debaixo do braço - entrou naquele quarto, vazio a não ser por anos de poeira e abandono, e de repente se viu no lugar do menino de anteontem. Assim como vivenciara há duas noites atrás, sentia que aquilo não era uma lembrança; tão pouco uma visão utópica de um passado lúdico do qual não participara. Mais vívido que isso, era um vislumbre de um pequeno instante; uma pequena fatia de tempo na vida de alguém a quem desconhecia a identidade ou qualquer outra coisa a não ser a cena que presenciava ali.
Percebeu que naquele lapso havia deixado para trás o ano de 1812, provavelmente avançando até uma data desconhecida. Uma outra era. Como naquela outra noite, caíra sutilmente no meio das ideias e sonhos do menino de outro tempo; e novamente existia no corpo dele. Enxergava com os olhos dele; Ouvia com seus ouvidos uma melodia a qual não tinha palavras pra descrever. Com sons em timbres nunca antes ouvidos pelos homens de seu próprio tempo; sentia os estranhos objetos ao seu redor com as mãos do rapaz. Uma delas que - fora de seu controle, - manuseava habilmente um curioso bastão, que conduzido pela destra mão do mancebo riscava permanentemente descansando, palavra após palavra, frases num pedaço de papel: “Ela caminha e isso que faz a arte do escrever. Sem porquê. Talvez aos bons olhos de vê-la e inspirar-se nela solta e jogada à garoa bela da viela que caminhava”.
Ele, o jovem, observava constantemente uma placa luminosa elegantemente feita com partes de metal e vidro, de onde aparentemente vinha a música. E como um ímã, o objeto atraía uma ideia: irmão; E dava vida à voz ausente de um cantor de outra era, soando como se o ar estivesse com as ondas de som em destaque mostrando os tons, embora não soubesse se tal percepção vinha de sua própria mente, ou se eram reflexos da alma do rapaz. Sentia como se tudo estivesse presente ali, naquele instante. O rapaz, as palavras, os sons; e era como se tudo o conduzisse numa melancólica dança, no passado, no futuro... De que importava mesmo o tempo?
Seus olhos - ou os do garoto – olhavam agora o espaço ao redor: a cama. As roupas. As folhas de cadernos soltas sobre a mesa de trabalho, o celular... Havia um nome também: Rafael. Talvez essa fosse a ponte no final das contas. Entre seu mundo e o mundo deste estranho. Duas vidas em espaços diferentes. Diferentes espaços de tempo. Mas unidas em uma ideia, um sentido, uma única palavra que fazia deste momento um momento em comum. Naquele momento de calma; concentrava-se. A luz clara e reluzente isolava-o do restante do mundo, e agora ele continha o universo na palma de sua mão esquerda e na direta, uma lapiseira. Meditou alguns segundos e tentou prender-se à alguma cena que cativasse ou incomodasse o suficiente, causando uma reação em cadeia nos seus neurônios, pra que assim pudesse, só enriquecendo as imagens em sua cabeça, despejar às letras e suas uniões uma forma definitiva e "concreta" ao que lhe corroesse as profundidades da mente.
Voltava a riscar o papel quando sentiu um sopro em seu rosto, uma brisa de primavera, com essência de livros envelhecidos e brancas folhas de jacarandá; contemplou a grande e mística árvore que agora projetava-se na sua frente, envolta em uma névoa densa e fria. Perguntou-se onde estava; Perguntou-se pra onde teria ido o menino de momentos atrás e de repente compreendeu que estava agora muitos séculos longe dele. Estava agora no exato instante onde os ramos do tempo se encontram. Um destes ramos, pertencia ao rapaz; os outros, histórias de outros tempos. Quis saber qual destes ramos lhe pertencia, e pôs-se a estudar os galhos mais velhos. Viu a imagem de um homem, abrindo a porta de uma sala vazia, há muito abandonada. Pé ante pé, e o chapéu debaixo do braço. E com a mesma rapidez que fluíra para o mundo do rapaz de momentos atrás, estava agora novamente no vazio do quarto. Mas dessa vez, parte deste vazio estava preenchida. Com a música e as palavras do rapaz a ecoar como um vestígio de outro tempo.