Como um velho alto, magro, semicareca, tépido, esguio e sentenciado ao absurdo, estou nessa poltrona pouco confortável onde me torço e retorço para tentar achar a posição mais aceitável, me vejo sorrindo para as letras que preenchem as folhas inabitadas do caderno que tenho em mãos. Com a garrafa de whisky, para menos de dois dedos, e o copo, no encosto, mais cheio que vazio, eu me mantenho igualmente acordado em relação à quão quente meu cachimbo está porque, claro, o pouco verde que ali te, caso rápido queimado, se esvai para fora da minha companhia e logo me sinto só, ali, semiconsciente, lamentando minhas mágoas para os julgamentos medíocres que relato no papel o de Ludwig Von Beethoven me dá a razão inapta que mereço, pelas minhas cenas pecatórias onde faço coisas icônicas por sentado em uma poltrona velha de couro bege puído, falando com as escritas onde despejo benevolências violentamente pacíficas. Mas sou eu, eu mesmo que me recosto-me nessa pele morta presa em madeira. Eu quem sou o que está ou quem está na sua vida para lhe fazer pensar!! Se eu fosse deus, eu seria ateu e mesmo comigo na minha melhor pose de decrépito, com a barba por fazer respingada do doce suco fina dos deuses, e sabendo que já citei-o me vejo na obrigação de ressalta-lo novamente. Whisky. O deus dos fracos;
Eu me encontrarei inóspito e sem mérito algum porque minha mente e consciência estarão anos luz daqui (além, muito além de onde já quis um dia chegar), e meu corpo estático, vulnerável, só pela sua breve presença carnal, prolongada e sozinha, você me vê… E agora sabe como me vejo amanhã. É difícil explicar esse sentimento seco, sem qualquer lágrima de amor;
E não tente você, por sua vez, facilmente colocar a culpa na vasta imensidão verde do fininho, porque para minhas melhores viagens ele foi o piloto! As portas antes assustadoras e humilhantes por onde sempre tive medo de olhar, mais ainda de passar, ele me tomou pela mão e conduziu minha mente e alma, consciência e espírito pelo caminho de encara-las! Na minha arte, os melhores momentos futuros, esses de uma vez para sempre, ele me mostrou onde posicionar o corpo e ter a eternidade. No que escrevo mostra-se pouco assíduo e extremamente inconstante porque pouco me aparece ou apareceu. Incômodo sou eu me satisfazer com o que faço sem o bom gosto morno da fumaça. Ainda nas palavras, essas dos livros que li e não nas que me debruço tanto a fazer há tanto tempo, eu acompanhava-me nas entrelinhas finas com mais um outro do fino e tudo era muito mais fantástico e as lembranças são irreparavelmente boas;
Pensando bem, chego até a me tomar por nostálgico, em dadas vezes, por conta de coisas que me recordo e depois não existem cigarros que consigam impedir que eu me perca nos beijos da garota do mar chamada saudade. O amor na prática é sempre o contrário;
Agora você pode entender como me vejo aqui. Eu mesmo existindo insistentemente persistindo em consumir-me e mostrar nada do homem que antes fui e onde haviam braços fortes de marinheiro pelos quais mocinhas derretiam-se ao ver em movimento. Eu me trouxe até aqui e queimei os meus olhos para os haveres da vida, do mundo e das estradas. Em meios às minhas palavras melancólicas, talvez você consiga ouvir um surdo rumor de amores longínquos. Mesmo se estiver encharcado de qualquer bebida não tão boa e não tiver mais razão nem sentido de nada enquanto, pela oitava (ou será a sétima??) vez, me desdobro cansadamente sobre as palavras que insistem em ficarem presas na minha mente e a garganta não tem coragem o suficiente para rouba-las, como se ao pega-las fosse apagar os olhos de minh'alma e dize-las tirar-me a vida… Então escrevo como se aquela fosse a última vez que olho para a folha. Esse incessante morrer que nos meus versos encontras, é minha vida, por ele me comunico com o mundo em que estou porque nessa solidão do indivíduo em que me acho, desaprendi a linguagem com que os homens comunicam-se. Por isso bebo como se o copo estivesse sempre sendo enchido ou como se a cada vez que bebo ele enchesse duas outras, então, todas as vezes, vejo-me bem servido. Beber é preciso e podemos beber honradamente nossas cervejas. Mesmo se eu mal abrir os olhos por conta de quanto do reth já foi queimado, eu serei ainda o mesmo. Na transcendência ganha ou no descanso não dado. Eu!! Na apoteose notória ou na perda total de tempo. Eu!!
Mesmo sendo o velho mal sentado de forma inconfortável na poltrona de couro, eu ainda sou o que me foi. Estou escrevendo e há certeza nisso. À devota ocupação com o copo baixo e aos dedos amarelos. Como numa plena dádiva pelos traços do poeta mouco da música. Ao whisky que não bebi. Às palavras ditosas que não correram em minhas mãos grandes de poeta. Aos livros dispostos nas estantes atrás de mim sussurrando incansavelmente, uns aos outros pequenas coisas que meus ouvidos captam;
Aos becks! À ganja! Ao bolado! À sativa de canabis! Ao pleno THC! Seja de qual nome for:
À Maconha;
Aos meus instantes orgulhosos, onde me faço sempre mais sozinho e me dou sem pensar às graças da solidão para poder, assim, morrer dando vida às coisas que escrevo (o poeta sempre se deixa morrer um pouco para a vida, que dele escorre, encher as palavras). Sou eu mesmo, minha poesia, minha pungente inefável poesia. Minha vida. Toda criação exige tempo, as minhas exigem-me minha essência. Aos que me tiveram ao lado, mais por prazer do que por sentimento (as vezes as coisas são apenas o que parecem ser, sem nada demais) e foram embora por conta de tantos pecados que me cubro;
À minha morte do homem, onde o poeta se mostra com a maior representação clara de vida, eu me mantenho aqui… Não serei eu o poeta em um mundo caduco. Desconfortável disposto (ou estou exposto) nesse assento bege, bebericando meu melhor destilado a cada nova ascensão erudita das canções clássicas do mestre que me tocam profundamente, com o caderno repousado junto à lapiseira que me foi herdada onde, em sincronia com as palavras impregnadas de sono, dão vida ao que já era antes imaginado pela libertação dos cantos e espaços da minha mente que só a fumaça agindo em mim pode me mostrar;
Cada um reza como sabe, minhas orações são assim;
E num vazio agudo que me toma e nada que eu faça, tenha, diga ou seja e pessoa nenhuma que eu coloque ao meu redor, tenha ao meu lado ou junto comigo e nenhum ato de ninguém nem nada é o suficiente para me suprir e livrar meu coração (estúpido, ridículo e frágil coração) disso que sinto. Como uma fome imensurável que não pode ser nunca acalmada. Só minha poesia me entende;
Ao poeta que já se cansou dessa vida de solidão e não consegue mais achar sentido nas coisas… O tempo é minha matéria. O tempo presente. Os homens presentes. À vida ausente;
Tenho medo do fim. O grito mais alto é o suspiro e os oceanos calaram-se há muito, mas meu peito grita forte de medo. Só me acha em alguma bravura quando com minhas escritas… Por diversas vezes ficamos sozinhos, a luz apagou-se, mas nas sombras escuras ela me sorriu e o brilho luminoso de sua aura me resplandeceu enorme. Sem ela tudo me assusta então tenho mais medo. E depois, quando eu morrer de medo, sobre o meu túmulo nascerão flores brancas e medrosas…?!?!
Só minha poesia me basta. Não morrerei aqui. Não!!! Arrastar-me-ei pelos morros e chegarei até ela e a contemplarei como um sentimento enorme e parado;
À bebida que já não tem mais o mesmo gosto. Às palavras que já não fluem pelas minhas entranhas escorrendo de mim e manchando as folhas. Se você tive a sorte o suficiente de encontrar a poesia, não deixe-a partir. A poesia é um abismo e o poeta silêncio. Eu que me achava o rei do fogo e dos trovões vi meu reino desabar cedendo às tentações das palavras. Nós só entendemos quão bom algo é quando nos vai embora. Me coloquei à espera de que ela me voltasse e esperei. Esperei. Esperei. Pacientemente eu esperei, então elas, as minhas expectativas, principiaram-se a roer as sobre cascas indiferentes e roeram as páginas, as dedicatórias, até mesmo a poeira velha e inabitadas dos retratos da minha sepultada infância. E quando de por mim elas estavam por todas as partes. Ao meu redor. Na minha cama. Na cadeira. Pulando no chão
No dicionário. No armário… Devorando os meus livros, cadernos, anotações, lembretes, rascunhos e por fim, paradas me olhando na esperança que eu alimentasse-as mais. Criei tantas expectativas que não dei conta de alimenta-las então elas me devoram. Só não roeram o imortal soluço aquoso dos sentidos de tudo que escrevo. Engraçado isso… Mesmo sem minha poesia aqui eu ainda escrevo. O desconforto aumenta. Já não sei se o problema é de fato a poltrona ou se sou eu. Mesmo no enfadonho e desagradável estar que sinto sentado, viajo junto com as letras e chegou mais perto para contemplar as palavras. Belíssimas. Para onde for a estrada eu também vou, sem direção e sem rumo, o que sou eu se não só mais um loco à procura da poesia?!?!
À boa sensação junto à queimação lenta que já não me saciam mais como antes. À vida, e não comas, tu, a vida de garfo e faca. Lambuza-te. A todos, para a eternidade e, acima de tudo, pela vida da poesia.