Era o amargo bom, viçoso e quente na boca que aquecia os dois. Que atava os dedos de um nos do outro e que servia de desculpa para que os lábios dele procurassem os macios dela. E o gosto doce e bom de café no beijo só lhes dava combustível para continuar ali beijando como se ao cessarem pudessem morrer, então, na dúvida de não correr tal risco mortal, não parar de beijar era o melhor a fazer. A lua já está ímpia e indomável reinando sozinha e majestosa no templo azul celeste celestial da noite primaveril quando, pela última vez os lábios apaixonados e rosados se descolaram. Não sabiam eles, entretanto, o que viria a seguir. Talvez ela soubesse; Há mais segredos na mente de uma mulher do que a própria filosofia e todos os seus grandes pensadores puderam chegar a supor um dia. De qualquer forma, ele não levará a cabo as palavras da velha cigana que lhe tomava à mão e a lera desvendando um futuro nada promissor, e mesmo não se importando com o que foi ou não dito ele ignorou o que a sua intuição, usando uma dessas dicas incontestáveis, lhe dizia sobre algo terrível que estava para acontecer;
No instante que se fez após o primeiro segundo no qual ele deixou-a em casa (sobre total protesto e contragosto porque ele queria-a mais) um vento frio arrematou-o pelo lado fazendo, assim, com que os pelos finos e curtos de sua nuca arrepiassem. Algo ali estava errado. O celular vibrou "Cuidado. Já é tarde." ele leu na tela e embaixo o nome dela e isso era mais um sinal. Quase como se ela soubesse o que a velha lera na mão dele e como se as dicas da mente dele fossem compartilhadas à dela e ambos sentissem e soubessem que o último beijo fora realmente o último beijo. O jovem, galante e impecável na arte da conquista, só desejou poder emaranhar seus dedos nos cabelos sedosos dela por uma vez mais para senti-la respondendo com um arquejo involuntário com o corpo todo ao seu toque perfeito de pleno carinho, mas era tarde demais. Desde o instante que se fez após o primeiro segundo no qual ele deixou-a em sua casa, já era tarde demais;
Adentrando a noite fria, de uma cidade ainda mais fria, deu a ficar observando os carros passantes, ali parado na esquina. Pretos, brancos, de luxo, putos carros em sua marcha incessante e insistente que nunca leva à um começo ou à um fim e sempre retorna ao mesmo lugar. Perguntava-se o que estava errado. De súbito um mal estar apertou-lhe a garganta, como um sentimento de um feriado às avessas que, por mais que o reprimisse, mais repetidamente e com maior força permeava-lhe o âmago do seu espírito. Decidiu-se por descer de volta a rua que mal subia a primeira metade e voltar à casa dela a fim de ver o que havia por lá e, por fim, tomar por definitivo o caminho de casa. Gostava de vagar pelas ruas da cidade como um errante. Acabou por distrair-se, entrementes, com um homem de terno que conduzia um conversível prata, jogando um cigarro mal fumado pela metade na rua úmida e encostando perto da porta de sua amada. Escondeu por de trás de uma árvore, como que atendendo a um instinto primitivo, e observou alguns instantes. Sabia exatamente quem era o homem, e sentia que seu pressentimento de mais cedo lhe era agora respondido, quase como uma prece inconscientemente atendida. O homem sabia. Se não, ao menos desconfiava. Seguiu-os. Talvez os tivesse observado o tempo todo. Poderia acabar tudo ali. A luz opaca e fraca do poste tirava-o de seu devaneio e clareava as suas certezas: Era o marido batendo à porta. Ela abrira; Sem nenhuma cerimônia e com meio cigarro já finalizado ainda amargando a boca, ele entrou a casa imponente e convicto de si. Por detrás da árvore não soube o que fazer. Um rubor que te subiu-lhe queimando suas faces e, em seguida, desceu apertando violentamente as suas entranhas, quis vomitar e então tudo perdeu a cor enquanto ele perdia o chão. Que seria feito deles?? Quis correr para dentro da casa ou para ou lugar qualquer, mas permaneceu ali imóvel e inquieto. Talvez fosse melhor ir embora. Sabia que a haveria de se explicar, de agir como se nada tivesse acontecido. Como se a chegada mais cedo dele fosse só uma boa surpresa agradável, como poemas no verão. Ou ele poderia entrar lá e pôr um fim em tudo aquilo. Poderia mata-lo ali mesmo e fugir com ela para viverem juntos e em paz. Era capaz disso, tinha certeza. Foi interrompido repentinamente por um grito. Não se muniu nem se ocupou com dúvidas. Correu à toda em direção à casa e adentrou-a silenciosamente - a porta estava entreaberta - e procurou. Sem saber exatamente pelo que, mas procurou. Seguiu em meio aos móveis semidestruídos e fora do lugar e tentou ouvir algo. Estancou em frente à porta do quarto, estarrecido com as manchas de sangue fresco no batente. Não soube mais no que pensar. Estava fora de sua consciência. Só caminhava e se torturava em seus próprios pensamentos. Devagar abriu a porta para ver o retrato já rascunhado nos seus piores pesadelos. Ela desfalecida na cama, banhada naquela líquido pastoso, espesso, escuro e tépido de vida. Uma faca jazia inerte no chão. Não se preocupou com o cano da arma apontada para o seu peito. Só, fixado à cena, culpava-se. Sem palavras finais que concluíssem a trágica trama daqueles dois que sempre foram três, ele fechou os olhos. Ouviu-se um tiro e agora tudo que se viveu até aquele dado momento morreu junto ali.