Donas e cavaleiros, apresentamos a “Estreleira decrecentista”
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Donas e cavaleiros, apresentamos a “Estreleira decrecentista”

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Catástrofe Sem Corte
Sobre o clima, a acumulação e a pergunta que os tecnocratas são pagos para não fazer
Quem estiver no paredão de Espinho em Fevereiro, quando o Atlântico galga as defesas e deixa nos vidros da primeira linha de edifícios um sal que ninguém pediu, percebe de imediato o que o cinema de catástrofe nos roubou. O cinema do desastre ensinou-nos a esperar uma vaga e um corte: o espectáculo, a ruptura, a montagem limpa que nos deposita já no rescaldo, do outro lado do pior, salvos pela elipse. Mas a tempestade em Espinho não corta. É um plano-sequência. Tem a duração da chuva de Béla Tarr, aquela continuidade insuportável em que nada se resolve e tudo se decide, e o mar regressa todas as noites como um credor que conhece a morada. O que nele se decide não é o destino da marginal, mas a questão de quem está autorizado a agir enquanto a água sobe. É essa a forma da crise climática. Não o acontecimento. A duração. E o nosso escândalo é termos entregue o plano-sequência justamente a quem tem todo o interesse em prolongá-lo, sentado na sala às escuras, à espera de um corte que não virá.
Comecemos, então, onde o discurso oficial se recusa a começar: não pela medida, mas pelo agente. Perguntar "por quem" antes de "o quê", porque os dois são inseparáveis, e essa separação é a primeira mentira, a operação que precede e autoriza todas as outras.
Não é uma falha de mercado.
O enquadramento dominante oferece-nos as alterações climáticas como uma externalidade: um custo que escapou ao preço, uma avaria num mecanismo de resto racional, a corrigir pela discreta reprecificação do carbono e pela paciente acumulação de subsídio verde. É uma mentira do tipo mais respeitável, a que se profere em comissão, de fato e gravata, com o ar contrito de quem reza. A biosfera não foi acidentalmente esquecida no livro de contas. Foi convertida em livro de contas. A contabilidade de dupla entrada tornou-se a única teologia que ainda merece crença, e o seu dogma é que tudo o que vive pode ser inscrito numa coluna e abatido na seguinte. A compulsão para acumular, para transformar os sistemas vivos em excedente e o excedente em mais acumulação, rasga o velho metabolismo entre o homem e a terra e chama progresso ao rasgão. Não é um defeito do sistema que produziu esta crise; é o seu princípio de movimento, o seu coração a bater. Chamar a isto uma falha de mercado é confundir o êxito mais perfeito do mercado com um lapso. O Comércio Europeu de Licenças de Emissão é temido, à esquerda, precisamente porque funciona: é o dispositivo pelo qual a descarbonização se torna compatível com o capital, lenta por desígnio, regressiva na incidência, cuidadosa sobretudo em nunca tocar na questão da propriedade. Vende a licença de poluir como antigamente se vendiam indulgências, e a alma continua à venda. Um preço sobre o carbono pede ao sistema que se discipline a si mesmo. Mas ninguém jejua diante de um banquete que é seu.
O céu tem uma composição de classe.
Mandam-nos imaginar a humanidade como um único sujeito emissor, uma espécie que esgotou colectivamente a sua conta, e aceitar, por isso, uma penitência simétrica. Mas o céu não é um tecto que pese por igual sobre todas as cabeças. O carbono não se distribui como se distribui a culpa. O iate e o autocarro não respiram o mesmo ar nem projectam a mesma sombra. Quando o décimo mais rico responde por uma fatia das emissões que escarnece do seu número, e o jacto privado queima numa hora o que um trabalhador não alcança num ano inteiro, a linguagem do sacrifício universal torna-se um instrumento de paz de classe: o convite à reformada de Aveiro para expiar, de camisola vestida dentro de casa, os apetites de uma classe a que nunca pertencerá. O programa de mitigação da esquerda começa nesta recusa do falso nós: taxas progressivas sobre o carbono, supressão das emissões de luxo, fim dos voos de curta distância onde já circula o comboio, contracção planeada não da vida, mas do desperdício, a publicidade que fabrica a sede para depois a vender em garrafa, a obsolescência programada, a indústria que vive de armar a morte, todo o turbilhão que existe apenas para manter a roda a girar sobre o seu próprio eixo. Suficiência, não mera eficiência. E, por baixo de tudo, a desmercadorização da própria energia: a rede e a produção trazidas para mãos públicas e municipais, porque uma empresa de electricidade privada que possui um activo de carvão há de queimá-lo até à última brasa, e só um poder comum pode escolher deixar a luz adormecida no solo, onde nunca devia ter acordado.
A adaptação é a privatização da sobrevivência, a menos que a tomemos.
É esta a frente onde as próximas décadas se perderão ou se aguentarão, e é a que o mercado já vai vencendo no silêncio em que vence sempre. Entregue ao capital, a adaptação faz-se triagem: o prémio de seguro privado, o enclave climatizado, o muro alto à volta de quem pode pagar, e a maré entregue a quem não pode. Há sempre um barco para uns e a água para os outros, e o naufrágio aprende depressa a ler o cadastro. O paredão de Espinho é, sob esta luz, um pequeno monumento à lógica contrária: o comum a defender-se em conjunto, em público, com o corpo na frente de mar, em nome de todos os que vivem por detrás dele. É essa lógica que há que generalizar, e defender dos capitalistas do desastre, que vêem em cada cheia um contrato e em cada reconstrução um cercamento. A adaptação como bem comum: as infra-estruturas contra a cheia e o calor, a água que corra para todos, a reabilitação do parque habitacional que é ao mesmo tempo mitigação, adaptação e fim da pobreza energética, o serviço público de saúde de pé diante do estio que já mata, e, exigência que os sindicatos do Sul levantam agora sobre os seus próprios mortos, o direito do pedreiro e do trabalhador dos armazéns a largar a ferramenta quando o ar se faz lâmina. A sobrevivência não é um serviço que se contrate. É um direito, ou não é nada.
Não há transição verde erguida sobre uma zona de sacrifício.
E a transição não pode tornar-se a próxima ronda de expropriação vestida com as cores da virtude. Isto não é abstracto de onde escrevo. O lítio sob Covas do Barroso é a figura perfeita do colonialismo verde voltado para dentro: o automóvel eléctrico do consumidor metropolitano comprado com a serra aberta ao meio, a aldeia esvaziada, a água turva onde antes havia truta, a zona de sacrifício deslocada do Congo para Trás-os-Montes como se a periferia fosse sempre o quintal de alguém. Um país que devora o seu próprio interior para iluminar a sua própria montra não faz uma transição: muda apenas a cor da ferida. Uma política climática de esquerda que não recuse isto não recusa nada. Significa, à escala europeia, tratar o financiamento climático ao Sul global não como esmola, mas como a primeira prestação de uma dívida que o centro imperial contrai desde que ardeu o primeiro carvão em seu nome: reparação, transferência de tecnologia, suspensão das patentes que privatizam o remédio, cancelamento das dívidas soberanas que empurram a periferia para o mesmo extractivismo que depois condenamos do alto. A Europa fez-se com o fumo de uma fogueira que acendeu noutros continentes. Não lhe assiste o direito de saldar a conta atirando mais lenha à mesma fogueira.
O agente ainda não existe. Tem de ser construído.
O que nos devolve, como tem de ser, ao "por quem". Não o mercado por si só, que produziu isto. Não o Estado regulador neoliberal, que assina a sentença e lhe chama gestão. A resposta é um Estado refeito em instrumento de planeamento democrático, e, à escala europeia, isto força um confronto que a esquerda tem sido demasiado tímida para nomear: o de saber se os próprios Tratados, com o seu direito da concorrência e a sua disciplina orçamental, proíbem por construção a intervenção que o momento exige, de modo que a escolha é entre reescrever a casa ou sair dela. Abaixo do Estado, o novo municipalismo: a água e a energia devolvidas à mão comum, a cidade como o pequeno laboratório onde o futuro se ensaia antes de lhe darem licença. E, abaixo disso, o único motor que alguma vez moveu de facto a história: os muitos, organizados, de baixo para cima, como a maré, que não pede licença a ninguém para subir.
A lição decisiva está escrita nos destroços dos coletes amarelos, e a esquerda esquece-a por sua conta e risco. Uma taxa de carbono imposta ao trabalhador enquanto o oligarca voa sem entraves não produz uma transição: produz uma revolta, e a revolta tem razão. Não se pode pedir a quem conta os dias até ao fim do mês que se levante pelo fim do mundo, a não ser que as duas pontas se atem no mesmo nó. O fim do mês contra o fim do mundo: a questão social e a questão ecológica não são duas sedes a disputar o mesmo copo. São a mesma sede. E o trabalho de uma esquerda séria é dar-lhe uma só voz, antes que outra voz, mais velha e mais suja, se ofereça para o fazer no seu lugar.
A água está a subir em tempo real, num plano que não vai cortar e ao fim do qual ninguém promete a manhã. A única coisa ainda por decidir é de quem será a mão na alavanca enquanto a maré entra: a mão que fecha a comporta sobre os de fora, ou a mão que abre o dique a tempo de todos. Não há corte que nos salve daquilo que escolhermos agora. Tudo decorre dessa mão. Nada a precede.
A indústria automotiva é o exemplo mais emblemático, mas o investimento chinês em outros setores exportadores, como de tecnologia limpa e en
por Serge Latouche (in: Tratado do Decrescimento Sereno, ed. Martins Fontes, 2012) “O CRESCIMENTO INFINITO É INCOMPATÍVEL COM UM MUNDO FINITO!” Serge Latouche, filósofo e economista francês, em …
Para onde vamos? De cara contra o muro. Estamos a bordo de um bólido sem piloto, sem marcha a ré e sem freio, que vai se arrebentar contra os limites do planeta. (…) Mas, com a nossa refeição desta noite garantida, não queremos escutar nada. Ocultamos, em particular, a questão de saber de onde viemos: de uma sociedade de crescimento – ou seja, de uma sociedade fagocitada por uma economia cuja única finalidade é o crescimento pelo crescimento. É significativa a ausência de uma verdadeira crítica da sociedade de crescimento na maioria dos discursos ambientalistas, que só fazem enrolar nas suas colocações sinuosas sobre o desenvolvimento sustentável.
#88: Ecos do outro lado do cabo
O SOM É A ENXADA #88: Ecos do Lado do Cabo Quarta-feira, 15 de Maio de 2019 às 22h na Rádio Manobras
Hoje vamos em modo DJ com ecos do outro lado do cabo para animar o balanço do plantio primaveril. E porque o tempo já (ou ainda) convida, uma série de dicas de saída às ruas e ao campo com a enxada na mão.
Num formato diferente do habitual, este programa intercala música e sugestões de eventos, cursos e oficinas, marchas e acções de rua, incluindo

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“Em tempos de paz e em tempos de guerra, a religião – ele escreve sobre os antigos Romanos – intervinha em todos os atos. Ela estava presente em tudo, ela envolvia o homem. A alma, o corpo, a vida privada, a vida pública, as refeições, as festas, as assembleias, os tribunais, os combates, tudo estava sob o império desta religião da cidade. Ela regulava todas as ações do homem, dispunha de todos os instantes de sua vida, contemplava todos os seus hábitos. Ela governava o ser humano com uma autoridade tão absoluta que não restava nada que estivesse fora dela”. Não podemos mais dizer a mesma coisa das religiões de hoje, nem mesmo do islamismo radical. Em contrapartida, basta substituir religião por economia e colocar os verbos no presente para ter uma descrição perfeita da situação atual.
http://www.ihu.unisinos.br/images/stories/cadernos/ideias/168cadernosihuideias.pdf
Uma conversa com Jorge Filipe a propósito de um dos eventos a decorrer em Montemor-o-Novo durante a edição de 2015 do Festival Cidade Pre0cupada: o Curso de Decrescimento. Esta oficina, a decorrer de 7 a 13 de Julho de 2015, é organizada em conjunto pelo ISCTE e as Oficinas do Convento, dentro de um projecto europeu chamado GROWL (Grow Less, Learn More). O objectivo deste curso é "desenvolver novas propostas para formas de organização social e política que questionam o discurso hegemónico do “crescimento”, e que, ao invés, se enfocam no bem-estar das pessoas, na reciprocidade, nas relações de proximidade, novas demografias (regresso ao interior do país, saída das grandes cidades para localidades mais pequenas, com dimensões mais “humanas”), e na utilização sustentável dos recursos naturais." Ao longo desta conversa, emitida em directo no dia 26 de Junho de 2015, é possivel ouvir o Jorge a explicar o conceito de decrescimento, assim como uma série de questões e temas que se interligam. Entre outros: progresso, mobilidade, velocidade, sustentabilidade, consumo e economia. Ainda segundo o Jorge, o contexto da cidade de Montemor foi considerado o ideal para desenvolver este curso, que se debruça em particular no desenho de políticas públicas de decrescimento. "Adicionalmente, irá decorrer uma Caravana do Decrescimento, de dias 16 a 19 de Julho, que irá marcar o final do primeiro ciclo de cursos desta rede europeia, e assim dar força às questões decrescentistas, nomeadamente em Portugal. A Caravana parte em Montemor-o-Novo, passando pela Torre da Gadanha, São Cristóvão, Alcácer do Sal, Setubal, até chegar a Lisboa, onde haverá uma Mesa Posta." Links de interesse: Curso de Decrescimento GROWL Caravana do Decrescimento
stress.fm na Cidade Pre0cupada 2015:
FOTOS | PODCASTS
Natureza, ecologia e economia: uma abordagem antiutilitarista
Por Serge Latouche
Original em francês
Fonte: Protopia
O antiutilitarismo, ao atacar as raízes da economia moderna e do economismo, acaba encontrando a preocupação ecológica a respeito do meio ambiente. A eliminação do desmesuramento instituído por uma reinserção da economia no social, ou mesmo o retorno a um certo re-encantamento do mundo acabam entrando em ressonância com uma certa…
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