Por trás das formulações desses cenários futuros estão determinadas ideias do que é um instrumento de pesquisa, uma escrita calcada na subjetividade humana, um estilo de um autor. Essas ideias só podem parecer autoevidentes para quem entende que a criação artística pode estar submetida completamente aos critérios de validação de eficiência, metrificação e produtividade que regem a sociedade contemporânea. A literatura, como toda forma de arte, é o domínio da liberdade plena de expressão, mas há limiares que, uma vez ultrapassados, a descaracterizam. Um texto publicitário nunca será arte, pois sua mensagem é sempre a mesma: consuma isso. O risco proporcionado pelas ferramentas de IA à literatura é do mesmo tipo. Não se trata tanto de indagar se o autor segue sendo um autor e se ele está de fato criando algo ao recorrer ao apoio da geração de texto de um modelo de linguagem estatístico — a resposta nos dois casos é sim —, mas de afirmar que a qualidade de comunicação que se estabelece entre criador(es) e leitores na escrita mediada pela IA é diferente daquela que caracteriza a escrita literária.
Trecho da edição #35 da newsletter, sobre a incompatibilidade essencial entre escrita criativa e IA. Leiam, assinem, contribuam :)
















