A matilha me acordou de madrugada. Seus latidos ecoavam costa abaixo como um eco em espiral. Eu os seguia com o ouvido: Estão subindo, não, descendo. Os sons da montanha enganam. Por volta das quatro, me enrolei no cobertor, calcei as botas e saí. A lanterna mal abria um metro na noite. Dali só se podia imaginar o frio sólido da montanha. Não era vento, mas aquela sensação que você tem quando anda de olhos fechados e, sem precisar tocar em nada, sabe que há uma parede à frente. Os latidos pararam e recomeçaram. Deviam estar rondando a pedreira. Ali, em certas madrugadas sem estrelas, era possível ver um brilho de névoa branca quando os refletores das máquinas iluminavam a poeira. Mas hoje eles pareciam não estar trabalhando. Fiquei parada na porta, na beira da luz, tateando em busca de volumes na escuridão plana da noite, e, quando voltei para a cama, não consegui dormir. Me revirei até a claridade aparecer por trás da floresta nublada. Estava gelado. Calcei as botas de novo e joguei a manta sobre as costas. O nevoeiro continuava rasteiro, não soprava nem uma gota de vento. Íamos passar o dia inteiro dentro da nuvem, com os pardais enganados pela falta de luz. Dei a volta pelo jardim, arrancando alguns talos de língua-de-vaca que haviam criado raízes por ali. A umidade agia sobre as coisas, corroendo tudo como um lamento. Os cachorros já tinham parado de latir, mas quis vigiar o portão, verificar se tudo estava em ordem. O chão, esponjoso, cedia sob meus pés. Cerca de dez metros além do limite do jardim, passando pelo galinheiro abandonado, pouco antes de chegar ao alambrado, estava o corpo.
Fernanda Trías, A montanha das fúrias, trad. Marina Waquil




















