“Sou mulher como outra qualquer. Venho do século passado E trago comigo todas as idades. Nasci numa rebaixa de serra entre serras e morros. "Longe de todos os lugares". Numa cidade de onde levaram o ouro e deixaram as pedras. Junto a estas decorreram a minha infância e adolescência. Aos meus anseios respondiam as escarpas agrestes. E eu fechada dentro da imensa serrania que se azulava na distância longínqua. Numa ânsia de vida eu abria o voo nas asas impossíveis do sonho. “Sendo eu mais doméstica do Que intelectual, não escrevo jamais de forma consciente e racionalizada, e sim impelida por um impulso incontrolável. Sendo assim, tenho a consciência de ser autêntica. Nasci para escrever, mas o meio, o tempo,as criaturas e fatores outros contramarcaram minha vida. Sou mais doceira e cozinheira do que escritora, sendo a culinária a mais nobre de todas as Artes......... Nunca recebi estímulos familiares para ser literata Sempre houve na família, senão uma hostilidade, pelo menos uma reserva determinada a essa minha tendência inata. Talvez, por tudo isso e muito mais, Sinta dentro de mim, no fundo dos meus reservatórios secretos, um vago desejo de analfabetismo. Sobrevivi, me recompondo aos bocados, à dura compreensão dos rígidos preconceitos do passado ......... Apenas a autenticidade da minha poesia arrancada aos pedaços do fundo da minha sensibilidade, e este anseio: procuro superar todos os dias minha própria personalidade renovada, despedaçando dentro de mim tudo que é velho e morto.”
Cora Coralina, quem é você?



















