Por trás das formulações desses cenários futuros estão determinadas ideias do que é um instrumento de pesquisa, uma escrita calcada na subjetividade humana, um estilo de um autor. Essas ideias só podem parecer autoevidentes para quem entende que a criação artística pode estar submetida completamente aos critérios de validação de eficiência, metrificação e produtividade que regem a sociedade contemporânea. A literatura, como toda forma de arte, é o domínio da liberdade plena de expressão, mas há limiares que, uma vez ultrapassados, a descaracterizam. Um texto publicitário nunca será arte, pois sua mensagem é sempre a mesma: consuma isso. O risco proporcionado pelas ferramentas de IA à literatura é do mesmo tipo. Não se trata tanto de indagar se o autor segue sendo um autor e se ele está de fato criando algo ao recorrer ao apoio da geração de texto de um modelo de linguagem estatístico — a resposta nos dois casos é sim —, mas de afirmar que a qualidade de comunicação que se estabelece entre criador(es) e leitores na escrita mediada pela IA é diferente daquela que caracteriza a escrita literária.
Trecho da edição #35 da newsletter, sobre a incompatibilidade essencial entre escrita criativa e IA. Leiam, assinem, contribuam :)
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Não tem nada mais ridículo do que uma pessoa tentando convencer outra. Trabalhei com persuasão minha vida toda, a persuasão é o maior câncer do comportamento humano. Ninguém nunca devia ser convencido de nada. As pessoas sabem o que querem e sabem do que precisam. (...) Persuadir uma pessoa a não seguir o coração é obsceno, a persuasão é uma coisa obscena, a gente sabe do que precisa e ninguém pode nos aconselhar.
Em "Águas do Norte", um médico irlandês, Sumner, embarca em um navio baleeiro que partirá ao gélido norte em busca de caça para fornecimento de gordura de baleia e outros produtos, apesar de já reconhecerem que há uma perceptível decadência econômica na atividade frente a novas tecnologias – como as lamparinas a querosene.
Sabem também que Brownlee, o capitão do navio, não deveria estar capitaneando aquele navio, pois em sua última jornada ao Ártico perdera sua embarcação e parte de seus homens para o mar e o frio, e que nenhum proprietário de navios no mundo daria uma nova chance a alguém marcado com o estigma de azarado.
Mas Baxter, o proprietário do navio encarrega Brownlee dessa nova expedição, com uma equipe não muito digna de confiança.
Há um contraste enorme entre Sumner e seus colegas de embarcação. Os baleeiros são grosseiros, rudes, despreocupados e supersticiosos, e Sumner acha difícil o convívio, apesar de que aquela é sua única chance de recomeçar a vida. Por isso, enquanto não está trabalhando, ele prefere se recolher a sua cabine, e, enquanto os outros acham que eles está lendo seu Homero ou rezando, na verdade ele está viajando na inconsciência para ele prazerosa do láudano.
Dos tripulantes, conhecemos logo cedo Drax, e suas características animalescas, suas atitudes impensadas e que dispensam explicações chocam o leitor pela simplicidade com a qual ele lida com elas: ele faz o que tem que fazer, no momento que precisa fazer. Não há nada pessoal em seus atos que não diga exclusivamente respeito a si mesmo e sua sobrevivência.
Essa falta de uma moral coletiva o transforma em um animal selvagem, perigoso, desconfiado e que terá uma papel importante na maneira como os fatos se desencadearão.
Percebe que a mentira sai fácil, como esperado. Palavras não passam de ruídos em determinada ordem, pode usá-las como bem entender. Os porcos roncam, os patos grasnam e os homens mentem: costuma ser assim.
Em contrapartida, Otto é um sueco de pensamento filosófico e intrincado saber teológico com quem Sumner consegue conversar mais a fundo, apesar de não ser um crente e achar que a maioria das coisas que Otto diz não passa de superstição alienadora. Mas ter Otto para conversar é uma fonte de alívio para Sumner em meio a tanta – ele considera – bestialidade.
Sumner carrega consigo um segredo que é desvendado logo na primeira metade do livro. Foi médico do exército imperial em uma revolução na Índia colonizada, e saíra de lá com um ferimento a bala que o deixara mancando e viciado em opioides.
Insinuou que o trabalho de um médico num navio baleeiro era um detalhe da legislação, uma exigência a ser cumprida, mas na prática não havia porcaria nenhuma a fazer - daí a remuneração ridícula, é claro.
Poucas pessoas entendem a presença dele em um navio daquele, pois o cargo de médico de bordo geralmente é ocupado por estudantes desesperados por dinheiro ou profissionais com um passado sombrio e poucas alternativas, e o irlandês misterioso e bem apessoado simplesmente não se encaixa.
O ambiente vil da embarcação é muito bem descrito pelo autor, McGuire, que não perde tempo em gastar seu francês e ser bem franco quanto aos cheiros, objetos e ocupantes.
Este é o segundo livro do autor britânico Ian McGuire e meu primeiro contato com sua prosa, que me agradou por não ser cheia de rodeios, dedos ou bem-me-queres: as coisas acontecem em um ritmo acelerado e entorpecido de álcool e láudano.
Ele não perdoa ninguém de suas descrições despidas de pudor e quando faz uso delas através dos diálogos dos marinheiros elas se tornam ainda mais pungentes e certeiras.
A narrativa se desenvolve de forma competente e envolvente. Há no clima um cheiro de maquinação e traição que vai se tornando palpável e não demora muito até que entendemos que aquela viagem não foi organizada para terminar bem; e os desdobramentos que vão se desenrolando a cada página são um lembrete constante de como a crueldade humana pode ter tons tão escuros.
O livro foi adaptado para minissérie de mesmo nome, com Colin Farrell e Jack O’Connell, e está disponível no Globoplay.
★★★★☆
Ficha Técnica:
Águas do Norte
Ian McGuire
Editora Todavia
304 páginas
Título Original: The North Water
Tradução de Daniel Galera
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He pictures his mother’s slobbery euphoria and his dad’s doll-like face punctuated by a pair of misty eyes, and thinks that part of the fun in having a child is paying back the emotional debt we owe to our forebears. It’s just that when he thinks of their happiness, he can’t help also thinking of the spiritual exhaustion that he will feel thirty minutes later.
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Às vezes sinto que viver no mundo de hoje é perceber que a batalha é contra uma ordem abrangente e implacável, que não pertence a ninguém. É como querer combater, incentivar ou se posicionar de qualquer outro modo diante de um terremoto. O que pode um estudo, um manifesto, uma bomba contra um sismo? Sua causalidade escapa à dimensão da vida individual ou social. Pensar assim nos convida ao niilismo, e não estou defendendo que seja verdade. Só constato a sensação de impotência que se acumula a conta-gotas. A utopia da redução de danos. Já nem sonhamos com a grande revolução, com o potlach global capaz de reconfigurar a marcha da autodestruição ecológica. Em vez disso, o ser humano reelege o prefeito que representa de cabo a rabo as ideologias responsáveis pelo desastre — que não é natural, e sim resultante de escolhas humanas — e recorre aos chats de IA para poupar seu intelecto das mais básicas funções cognitivas em troca de mais uns minutinhos de doomscrolling.
Trecho de Niilismo e performance no Antropoceno, ou: O data center de Eldorado é inevitável?, edição #30 da minha newsletter dentesguardados. Leiam lá! E colaborem se puderem :)
Outro aspecto que me afetou bastante foi o papel da linguagem nessa dança. Boa parte dos exercícios eram executados de olhos fechados. Janaína nos propunha caminhos e percepções falando constantemente, e era fantástico ouvi-la. A linguagem para falar dos corpos não é óbvia. Para além de um domínio inspirado da base vocabular anatômica -- pensar em ossos empilhados, em ísqueos e patelas, em vísceras pesando ou se dissolvendo --, é preciso recorrer a metáforas adequadas. Os pés "não podem lutar contra o chão", um movimento é como "um elástico desses de roupa, mas um elástico gasto, já meio frouxo", estar parado em pé envolve uma "pequeníssima dança", o ar se transforma em gelatina e nos apóia, entra pelos buracos. Ler ou ouvir palavras sobre o corpo é uma coisa, dançar enquanto ouvimos é outra: o trânsito de duas vias entre verbo e carne vai nos alimentando com informações sobre o corpo que podemos reter, e toda uma região conjuntiva do nosso conhecimento do corpo vai se reconfigurando e expandindo. Em alguns momentos senti estar em contato empírico com a ideia de que toda linguagem deriva do corpo, do mundo sensível, da concretude do ambiente. Se você tem a intenção de descrever o mundo em palavras, essa é uma constatação que pode ser transformadora.
-- Trecho da edição mais recente da minha newsletter 'dentesguardados', sobre quedas, danças e escritas. Vocês podem assinar e apoiar com qualquer quantia :)
O ruído de uma moto passando na estrada é acompanhado pelos latidos de Bagre, roucos como berros de um fumante inveterado. O pai franze a testa. Não atura esse vira-lata insolente e barulhento e o mantém somente por senso de responsabilidade. Tu pode deixar pra trás um filho, um irmão, um pai, com certeza uma mulher, há circunstâncias em que tudo isso é justificável, mas não tem o direito de deixar pra trás um cachorro depois de cuidar dele por um certo tempo, disse-lhe uma vez quando ainda era criança e a família vivia numa casa em Ipanema pela qual passaram meia dúzia de cães. Os cachorros abdicam pra sempre do instinto pra viver com as pessoas e nunca mais podem recuperá-lo por completo. Um cachorro fiel é um animal aleijado.