Agora você vai ouvir aquilo que merece
As coisas ficam muito boas quando a gente esquece...
Mas acontece que eu não esqueci a sua covardia, a sua ingratidão
A judiaria que você um dia fez pro coitadinho do meu coração!
Estamos suspensos numa névoa fria que clarifica o tumultuado afastamento pregresso. Flutuo naquele estado de embriaguez em que a realidade por vezes me cobra insanidade e me atiro no caos já enredado. As bolhas de sabão são perenes como um encontro fadado ao caos, belas especialmente pela poesia da destinação ao breve. O pôr do sol no Alvorada é somente aquela carta de baralho que salta como uma estratégia, o subterfúgio para uma ameaça direta ao que sou. Fico vigilante, aprendi na dinâmica do jogo que coincidências apenas são a fé dos que ainda gozam da inocência natural. Chegas no balcão e encomendas novos versos encharcados de ti, mais um amontoado de escrita que joga lenha na imensa fogueira do não esquecer. Percorra este campo regado por tumbas que guardam o que paira entre a vida e a morte, na linha tênue entre a finitude e aquilo que já é eterno. Eu te esperava ao longo da avenida, descobria um ritmo novo ao me atentar a mistura de meus passos no chão com o coração a pulsar acelerado dentro do peito. Vinhas cavalgando, apresentavas naquele final de tarde o seu desengonçado ritmo a quem já estava a muito preso na sua cadeia de encantos. Ali, naquele mesmo final de caminho, eu também fiz seu trajeto nas semanas seguintes e retornei em prantos para casa após sua brusca partida. Que irônica é a vida de um forasteiro, não é mesmo? Já perdi noites e dias a rogar por um novo baque mascarado de acaso. Mas veja, os caminhos parecem ter virado labirintos ao nascer de cada intenção objetiva. Me torturava entre as tentativas falhas de te ver surgir na esquina, de cruzar com o vai e vêm de suas pálpebras entre o arvoredo dos concretos. O Parque abrigou toda a minha cólera de amante e o dispersar de cada esperança que tive naquela estação, nas caetaneadas sob a luz da dita cuja a minguar. Aqui jazem os tumultos de uma vez! Atormentas o agora com estas insinuações atadas com tantas incoerências, abres cinicamente as comportas para aquela água já em repouso. Não tragas o entardecer meu bem, este ir e vir empanturrado de tiros no escuro. Quem olha pensa que não é contigo. Mas porque eu sempre sou o primeiro a gaguejar e a atirar minhas suspeitas vaidosas no ar? Sejas objetivo em seu bote e goteje nesta madrugada cada gota do seu ardiloso veneno, de suas confusões que inebriam feito mágica. Aponte sua varinha e professe uma conjugação de verbos que traduzam a combustão do seu núcleo endiabrado, ou de seu membro rijo pela provocação. Se ao menos soubesses de fato como o teu querer verdadeiro pode me destruir... Gostas quando me atiro na lama, quando revelo a viscosidade deste obscuro enlace de almas possuídas, não é mesmo? Pois bem! Desnude a mim os seus dejetos mais estimados e seja unicamente a surpresa boa a partir de hoje. Contorno neste instante o teu corpo multicolor e também deixo cicatrizar nele a nódoa da minha existência. Tatue estes versos na sua aorta. Ele já dizia que tu eras sua droga, o seu vício estupidamente teso e a reserva para todas as horas de abstinência. Pois para mim saibas que és um perigoso material radioativo que sucumbe poeticamente com tudo que eu era antes. Deixei de ser assim que fui contigo. Caio por instantes naquelas armadilhas dos terreiros e retorno a perambular na realidade quase que privado de memória. Só tu rege este disparar eletrizante dentro de mim, me faz tremer até mesmo com a frustração das erras notificações do ícone da camerazinha. És o demônio que faz ninho em meu pensar e que me enche com suas diretrizes sem preocupação com o que é real, com a vida já estabelecida. Lembro, monitoro todas as lembranças a bailarem junto de minha frequência cardíaca no monitor. Este que escreve apenas é uma persona meio-humano meio-elefante que crê ter potência real para desbancar as leis ilustres da física. Me ensinastes a duvidar até mesmo do raio solar que me chega num domingo de lua cheia, ironicamente apadrinhada pelo aguadeiro uraniano. Agora trovo os percalços de quem recorda a sua maneira, sou a própria personificação do coisa ruim no seu saber de tudo que se passa. Escreva em seu diário que hoje pensei em duas almas presas pelo desejo dentro de uma barraca de camping e nas trapalhadas que somente um calouro na arte de amar pode cometer. Rabisca no pé do papel que és a minha obsessão de estimação. Esconjuro! Sob a benção da lua cheia de hoje suplico apenas que tenhas em mão meus versos de outrora e que leias novamente o que te reservou o coração que mais teve avidez por ti. Uivo. Não a tristeza, eu lembro, louvamos a roda da fortuna e aos enamorados a entoar Sozinho no silêncio da noite. A sina é nossa, é intransferível. Escrevo unicamente para não esquecer.