01 de março de 2013
Por Marjorie
— Marjorie a gente precisa conversar – Com um suspiro pesado ele quebra o silêncio a meia hora instaurado entre nós. Thiago me arrastou até aqui, trancou a porta e agora estávamos desviando olhares um para outro porque eu me recusei a abrir a boca. Quando penso na maneira autoritária como ele puxou meu braço e me guiou até o camarim, me obrigando a compartilhar o mesmo espaço que ele e ao mesmo tempo me acusando de estar sendo infantil por evitá-lo mais de uma vez no dia, quando a única coisa que ele queria era resolver a nossa situação como adultos, fez com que as coisas só piorassem. — Nós não vamos sair dessa sala até termos uma conversa, por favor, Marjorie não me deixa falando sozinho como se eu fosse um completo idiota, diz alguma coisa, Marjorie.... Marjorie a gente precisa conversar.
— Precisa? – Viro o rosto na sua direção, sem fazer contato visual. Olhar para ele me impediria de mantermos uma conversa minimante civilizada.
— A gente tem que conversar, eu... eu sinto muito pelo que aconteceu... eu...
— Não sinta! – o corto com rispidez. Ele dá um passo a frente buscando por contato físico. O qual eu ansiava desde que entrei pela porta. Droga! Sinto que posso quebrar em mil pedaços se ele tocar um só dedo em minha pele, mas ele não se atreve, porque de algum modo ele sabe que não vai adiantar, não agora.
— Marjorie, eu não quis dizer aquilo daquela forma... Eu...
— Eu já entendi, Thiago, já entendi que você está confuso com tudo, que não tem certeza dos seus sentimentos, que não sabe o que quer. Tá tudo bem – Na verdade, não estava, mas voltar ao assunto daquela noite em que fomos flagrados juntos por um paparazzo, e sua reação diante do ocorrido me fez perceber o quanto Thiago era vulnerável e inconsequente quando o que estava em jogo era a sua reputação e credibilidade familiar, não estava nos meus planos.
— Não, não está tudo bem! – Sua voz é impetuosa e me atinge em cheio. Noto que estamos mais próximos do que antes. Enquanto eu falava devo ter andando inconscientemente em sua direção. Posso sentir sua respiração ofegar contra a minha boca e preciso de um esforço sobre humano para desviar da sua presença.
— Não! Não está, mas vai ficar quando tudo isso acabar. Tudo acaba bem, não é o que dizem? – Pisco nervosamente. Encará-lo não é tarefa fácil. — Então.... Quando tudo isso acabar, os próximos trabalhos virão e você sequer vai lembrar desde trabalho e de tudo o que aconteceu. Você vai seguir sua vida, com a sua mulher, seus filhos e eu vou seguir a minha, é assim que tem que ser. É assim que vai ser.
— Não é assim, você sabe... – Ele luta contra ele mesmo desesperadamente buscando lógica em seu raciocínio. — Sabe que tudo o que aconteceu foi sincero e verdadeiro. Todos os nossos beijos
— Que beijo? O que você fez questão de estragar, ontem à noite?
— Esse e os outros que se sucederam em cena e fora dela também e não venha você quer me dizer que não, porque eu sei e você também sabe que eles existiram e foram sinceros.
— Foram? Será que foram mesmo ou tudo não passou de uma fantasia da nossa cabeça alimentada pela história dos nossos personagens. Tudo não passou de jogo cênico e a gente se deixou envolver pelos sentimentos e emoções dos personagens. Nunca existiu beijo algum entre nós. – Perco o ar, não consigo respirar. Nunca existiu beijo algum entre nós. Mentira... Mentira. Como consegui dizer tamanho absurdo. Minhas palavras se repetem em minha mente enquanto percebo o quanto o magoei.
— Você sabe que isso não é verdade, os nossos beijos... a gente... A gente existiu - Seus olhos miram os meus cheios de pesar e sofrimento. Ele parou de lutar contra si mesmo, deixando os dedos escorregarem na minha face. Doeu vê-lo tão destruído e iria doer mais considerando as próximas palavras que me rodavam. Fecho os olhos por um instante, levada a sentir seu toque um pouco mais antes de destruir tudo. Suspiro, talvez essa fosse nossa despedida.
— Laura e Edgar existem, existiram. – Abro meus olhos e lentamente encaro o verde fosco dos seus olhos. — A gente? Eu não sei, nunca soube, Thiago, e acho que nunca vou saber por que essa é só mais uma das tantas perguntas sem resposta. - Sua mão abruptamente saiu do meu rosto. Eu dou as costas a ele, abro a porta e o deixo sozinho.
Ele não me impediu de seguir o meu caminho. Nem por um momento Thiago tentou, pelo contrário sua reação foi de extrema frieza e profissionalismo. Talvez nem isso. Ele permaneceu imóvel, completamente absorto pelas palavras duras que disse a ele.
Em nenhum momento eu quis o ferir ou magoar, porque magoa-lo, significa antes de tudo, me magoar. Mas é mais fácil assim. É mais fácil evitar do que enfrentar. É mais fácil fugir do que ficar e encarar.
Eu estava fazendo o trabalho duro por ele, no fundo estava nos poupando da dor e do sofrimento de termos que encarar a realidade dos fatos e isso não torna a despedida algo mais fácil de digerir, muito pelo contrário.
É insuportável ver todos os rostos felizes em minha volta. Todos comemorando o término de um trabalho e eu aqui querendo morrer pelo mesmo motivo. A cada cena gravada a sensação de despedida aumentava dentro de mim e junto com ela a certeza de que tudo tem um fim. Tudo acaba.
Foram longos meses de convivência. Eu tenho medo de perder o contato com essas pessoas. Tenho medo de perder essas pessoas que eu ganhei.
Tenho medo de perdê-lo. Não quero pensar o quanto essa possibilidade me amedronta, me apavora e paralisa. Não quero pensar que apesar de tudo o que tivemos, ele escolha estar com ela. Bom, eu praticamente acabei de empurra-lo para Mariana agora.
Eu não posso culpá-lo por isso, posso? Não posso culpá-lo pela loucura de quase matar um paparazzo para manter a sua integridade, posso?
Nós fomos um erro desde o começo. Nunca deveria ter existido nada entre nós. Eu nunca deveria ter alimentado essa chama e me deixar queimar pelo seu amor.
— Marjorie, o que houve? – evito olhar para Camila. — Você está bem? – ela insiste, me segurando pelo antebraço. — É claro que não está, você está chorando – observa erguendo o meu rosto, os dedos correm para minha face, limpando as lágrimas. — Amiga... você e Thiago – ela hesita sem saber se deve continuar a me questionar ou cessar as suas perguntas.
— Não quero falar sobre isso, não... - Suspiro, finalmente juntando as palavras. — Não agora.
— Tudo bem, você sabe que pode falar comigo quando quiser. Eu estou aqui por você, certo?
— Certo. – Forço um meio sorriso, ela não pararia até ver o resquício de um em meu rosto. — Nós temos trabalho a fazer.
— Tem razão. Você está certa. Temos um grande trabalho a fazer – comemora com empolgação. — Temos um grande trabalho para concluir, na verdade. Dá para acreditar que estamos concluindo as gravações hoje? Para mim é como se estivéssemos começando ontem. Lembra, nós duas sentadas em um banco de igreja vestidas de noiva.
— Você ainda está vestida de noiva. Isabel finalmente vai se casar com o seu Zé.
— É... para você ver tudo termina onde começou. A vida é feita de ciclos, minha amiga, precisamos concluir algumas histórias para dar espaço e vida para que novas ocorram.
— Humm... eu não estou pronta para isso, não como você está, Camila. Não estou pronta para abandonar Laura, não mesmo. Acho que preciso da minha última cena como Laura, nós podemos?
— Vocês devem – Denis nos interrompe pela sala de edição. — Mantenham essa emoção, por favor. Está ótima para o clima da cena, Ok? Certo... Marjorie, Camila podemos começar gravando em 3... 2
— Ah, como é que você me escapa justo na hora dos cumprimentos? – Camila cumpre o curto trajeto até onde eu estou, sentando-se ao meu lado no banco simples de madeira.
— Ah não, eu queria um minutinho de silêncio. – Sorrio timidamente, deixando meu olhar vagar pelo cenário enquanto a mente viajava para minha primeira cena ao lado de Camila. — Lembra daquele dia na igreja?
— Seis anos, enfim eu me casei com meu Zé, oh! – Ela exibe a aliança recém posta no dedo, eu rio com franca admiração.
— E eu? – prossigo com o meu discurso, brincado com as diversas etapas de Laura. — Casei, divorciei, reconciliei, separei enfim revoguei o divórcio.
— E então casou de novo – diz Camila, caindo na risada.
— É... – Concordo com sorriso, o desmanchando logo em seguida. — Nossa, eu tinha tantas duvidas
— E eu tinha tantas certezas – completa ela com sorriso amplo no rosto e um olhar emocionado.
— Mas o tempo me mostrou que o casamento vale a pena quando o marido... – Automaticamente penso no Thiago. Minha mente vaga outra vez, perdida entre inúmeras cenas que tive o prazer, a honra e o privilégio de jogar com ele. — Ah... quando o marido é o Edgar.
— Ah eu posso dizer o mesmo do meu Zé, mas, nossa, foram tantos encontros e desencontros.
— É... – Volto minha atenção para ela, quando meus olhos encontraram os seus, percebo o quão afetuosos e sinceros eles podem ser. Eu tinha de verdade estabelecido um vínculo genuíno de amizade, apesar de toda a correria do dia a dia, Camila estava lá por mim quando eu precisava. Isso definitivamente é raro de se encontrar. — Até a gente se desencontrou e encontrou – concluo, sem evitar a voz embargada.
— É verdade, mas a gente não se larga mais, não – Seus braços me apertaram com força, repleto de carinho, eu fui incapaz de me soltar do seu abraço.
— Não... não.
— Humm... - o que se seguiu foram múrmuros comprovando o nosso sincero desejo de nos manter unidas. — Não... não.
— Muito bom... Meninas, a emoção não podia ser melhor. A cena final ficará excelente, mas precisamos concluir a cena, certo? Marjorie, a partir da sua última fala, ok? – Eu então sigo o combinado e digo minhas últimas palavras como Laura.
— Aquele dia de tantas dúvidas, minha única certeza era que eu tinha encontrado uma amiga de verdade.
— Eu também. Eu dormi pensando que tinha perdido o Zé, mas eu estava certa que tinha encontrado você.
— E corta... – Dennis comemora depois de deixar a câmera viajar, distanciando-a lentamente dos nossos rostos. — Parabéns pessoal, ótimo trabalho.
A cena final é gravada com todo elenco e equipe de gravação, e assim que foi possível eu escapei. Deixei o local de gravação antes que qualquer um dê-se por minha falta. Eu definitivamente não queria prolongar a minha despedida.
Não queria aquela longa e exaustiva sessão de abraços e palavras de felicidade misturas a sensação de luto e perda.
E apear de ter dito a Camila que ficaria para a comemoração que o pessoal estava programando para o fim da tarde, meu destino em mente era um só: Ir para casa.
~*~
Por Thiago
— Hey André, preciso agradecer você, você sabe, não sabe?
— Sei? - Ele me olha com o olhar confuso, quase perdido como quem busca por um explicação razoável para o meu comportamento maluco, em abraçá-lo de forma contagiante.
— Sabe, o favor que você fez a Marjorie aquele dia. Você é o melhor! – Dou um tapa de camaradagem em seu ombro, fazendo-o estreitar o olhar em minha direção.
— Hã, eu sou?
— É mesmo, é uns dos melhores, senão o melhor diretor que já conhecemos, mas não conte aos outros, principalmente ao Dennis, que eu lhe disse isso.
— Certo Thiago, eu vou acreditar. – André se afasta do meu abraço e sorri com cara de poucos amigos. Talvez eu não devesse o agradecer, não naquele momento. Ah... Dane-se, pouco importa o que ele pensa ou o quão desconfortável ele está no momento, sigo-o elogiando efusivamente.
— Mas é a mais pura verdade, espera a Marjorie chegar, ela vai confirmar o que eu estou dizendo. – Bom, era o que eu esperava que ela fizesse. Afinal, o nosso momento foi... Foi tão... Ah eu sequer encontro palavras para descrevê-lo. Foi tão importante para mim... Pensar nela em meus braços me faz sorrir e até mesmo esquecer que discutimos a pouco. — Você viu a Marjorie? – André responde com um aceno negativo de cabeça, fazendo a preocupação dentro de mim aumentar. Depois de algum tempo procurando-a, buscando encontrá-la em meu campo de visão, desisto, me obrigando a insistir na pergunta.
— Ela deve estar concluindo a cena final com a Camila – O diretor acrescenta depois de notar a minha preocupação. — Daqui a pouco ela aparece, Thiago, não se preocupe.
Não deveria me sentir assim, ela foi rude comigo, suas palavras ainda me machucavam, a forma como concluímos as nossas gravações não lembra em nada o que fomos durante o processo desse trabalho.
Não era a minha Marjorie. Agir com frieza e pouco interesse diante de seu personagem, diante das câmeras e de um gravando contundente do diretor. Não consigo acreditar que nossa última cena tenha sido tão fria e distante, é como se não existíssemos de fato, como se toda a nossa cumplicidade fosse de repente jogada ralo a baixo.
Minha mente vaga entre lembranças da nossa última cena, do seu beijo protocolar, falas bem pontuadas e nossa discussão enquanto meus olhos teimam em buscar seu minúsculo corpo em meio à multidão de contrarregras, produtores, câmeras, figurinistas, atores e diretores. Ela não está aqui.
— Camila... Hey Camila, A Marjorie, você a viu? – trocamos olhares antes dela conseguir chegar até mim.
— Bom... ela deveria estar aqui, ela me disse que encontraria você.
— Então, onde ela está?
— Não sei, Thiago, Marjorie não é dada a multidões e confraternizações, esse tipo de coisa, você sabe. – Ela me dá um sorriso forçado antes de ser encurralada pelo repórter do site da novela.
Uma concessão de entrevistas é realizada e eu fujo, ou pelo menos tento, me esquivar de todas elas o mais rápido possível. Os fotógrafos que cobrem o evento solicitam que o maior números de atores se reúnam para uma foto final, é quase como se repetíssemos a última tomada de cena que fizemos a recém.
~*~
Quando enfim consigo ter acesso aos camarins masculinos, tomo uma ducha rápida, visto minhas roupas habituais, sabendo que não usarei mais os ternos de Edgar Vieira. Era estranho como cada parte do meu dia fazia com que eu me lembrasse que se tratava de uma despedida silenciosa do personagem.
Arrancar Edgar de dentro de mim, não será fácil.
Depois de checar se não havia esquecido de nada, pego as chaves do carro, minha pasta e fones de ouvido, plugo-os automaticamente no celular, batendo a porta atrás de mim ao sair.
Por algum motivo irracional, ainda busco por Marjorie no camarim em que compartilhamos nosso primeiro beijo, a sala em que descobri que não saberia viver sem ela, a sala em que soube que estava a cada dia lentamente me apaixonando por ela.
Sem sucesso, busco nos camarins coletivos, também não a encontro. Minha última tentativa de encontrá-la está no estacionamento. Rumo para lá, sem muitas expectativas, Marjorie era mestre em se esconder quando não queria ser encontrada.
Talvez ela já esteja em casa a muito tempo e eu estou aqui feito idiota, apenas perdendo o meu tempo porque sinto uma necessidade insana de vê-la.
— Thiago, por favor, espera! – Paro, girando os calcanhares para encará-lo. Noto o olhar preocupado.
— O que foi? – assinto, removendo os fones de ouvido. — Eu esqueci algo, porque essa cara, André, alguma cena não ficou boa, é isso, vou ter que regravar, se for, por favor me diz que é com a Marjorie.
— É com a Marjorie...
— A CENA!? – Arqueio as sobrancelhas, surpreso. Não pode ser verdade
— Não, a cena... o problema. - Ele diz em um sopro, a voz afoita. — Eu preciso que você venha comigo discretamente, e eu explico no caminho.
— Ir com você? Discretamente, André, você está me deixando preocupado.
— Thiago, eu sei, vai parecer estranho o que eu vou dizer, mas...
— Mas o que, fala... – Ando a passos largos ao seu lado, enquanto ele me explica o que está acontecendo.
— Encontrei isso jogado perto de onde meu carro está estacionado.
— Um celular? – Um celular destruído. Franzo o cenho com o estado do aparelho. Eu o reconheço. Reconheceria um pertence de Marjorie de todo o modo.
— É o celular da Marjorie, eu já chequei, a última ligação foi para você – capto a última informação dada por André e meu coração aperta.
— E por que o celular dela está completamente destruído? - Acabo formulando uma pergunta óbvia. Porque havia acontecido algo com ela. Algo grave, de muito grave.
— É aí que entra a parte estranha, a pessoa que está com ela no carro mandou ela fazer isso.
— Certamente para que ela não pudesse se comunicar com mais ninguém.
— Ou mais exatamente com você. – Droga, isso não pode estar acontecendo. Não, não pode.
— Como é que é, eu não estou entendendo. – Eu desconverso perplexo, buscando forças para seguir andando em direção ao estacionamento.
— Mas você vai, assim que ver a pessoa, você vai reconhecer. O carro ainda está parado no estacionamento. Nós só precisamos ir. – Eu peço para Deus que não seja verdade o que eu estou imaginado. Mariana não pode estar envolvida nisso. Deus queira que não.
— Ótimo, então vamos - Reunindo minhas forças, ordeno para prosseguirmos. —, o que estamos esperando, o que-
— Thiago, olha...
— Mariana?! É A MARINA!?
Meus olhos recaem sobre a tela quebrada do celular, o aplicativo de mensagem está aberto. Leio as mensagens de Marjorie.
*EU ESTOU COM MEDO, THIAGO*
*EU TENHO MEDO DE PERDER VOCÊ*
Não penso no que estou fazendo. Não tenho nenhum plano em mente para evitar que o pior aconteça, para evitar que a Mariana cometa uma loucura e estregue nossas vidas.
— Você não me conhece, meu amor, não sabe do que eu sou capaz por amor a você. Eu sumo no mundo. Você nunca mais vai ver seus filhos, faço eles te odiarem, esquecerem que você existe. Isso é só o começo, eu posso fazer pior, posso pôr a vida da Marjorie em risco. Eu já a ameacei uma vez. Ela não te contou? Acho que ela não levou muito a sério a minha conversa, mas não custa nada mandar mais um recadinho para ela.
— Você está louca, completamente fora do seu juízo.
— Você quer ficar com Marjorie, não quer? Fica e vamos ver o que acontece com as pessoas que você mais ama.
Ciente das ameaças que Marina fez a Marjorie, corro em direção ao carro enquanto meu coração salta do peito.
~*~
Por Marjorie
Eu sinto medo. A adrenalina percorre o meu corpo. O vento bate em meu rosto. Olho para baixo, vejo pequenas luzes, do que são casas – tão minúsculas aos meus olhos. Pessoas convivem normalmente, seguem suas rotinas corriqueiras, com os mesmos velhos hábitos de sempre.
O quão frágil a vida pode ser? Em um dia comum você levanta, escolhe o que vai vestir, toma o seu café da manhã, se alimenta mal ou às vez mal come, sai de casa e volta tarde da noite provavelmente exausta, mas você está em casa e isso, apenas isso, te faz feliz ou ao menos deveria.
Minhas pernas tremem, fazendo com que eu perca o pouco equilíbrio que tinha, os pés vacilam um pouco, quero me afastar do parapeito do prédio abandonado, mas uma mão me impede enquanto fala. Eu resolvi ignorá-la. Suas palavras são como sussurros para mim.
Ela está nitidamente louca e perturbada, de cada vinte palavras, dez são sobre como eu não vou sair daqui viva. As outras dez, desrespeito ao Thiago e ao fato de que ele não me ama. O que eu espero não ser verdade.
É desesperador. Me abraço, encolhendo os ombros para diminuir a sensação de frio. O medo nos faz sentir tanto frio? Não me lembro da previsão do tempo para hoje. Por que eu estou pensando na qualidade do tempo? Quando estou prestes a ter meu corpo arremessado para baixo desses andaimes?
Faço sinal a ela, indicando que quero me sentar, ela não deixa. Eu imploro. Ela cede. A sensação é ainda pior. Minhas pernas estão dependuradas para o nada. Tento controlar minha vontade de chorar. Não posso e não quero demostrar fraqueza ou que estou com medo – quando na realidade estou sucumbindo a ele.
Conversar com ela, eu deveria tentar conversar com Mariana, quem sabe chegar a um acordo. Qualquer um... Duvido que algum desses acordos vá me agradar, mas o que me importa? O que eu quero agora é sair daqui. Sair viva.
Fechos os olhos, suspiro lentamente para controlar minhas emoções. Costumo fazer isso antes de iniciar um show ou entrar no palco de teatro, ajuda a relaxar e centrar as energias em torno do personagem. Marjorie, isto é um personagem, trabalho minha mente ao meu favor.
Os murmúrios cessam, por um segundo obtenho paz. Mariana enfim concluiu o seu discurso. Se ela soubesse que não ouvi metade do que ela disse.
— Então você está esperando o quê para se jogar?
— Espera, você realmente acha que eu vou me jogar daqui de cima, Mariana, que eu vou tirar minha própria vida? Se você quer, faça isso com suas próprias mãos, eu não vou a lugar algum. Podemos passar horas, dias, meses aqui se você preferir. Eu sei... sei que minha companhia não deve ser das melhores, mas pensando bem, você me trouxe para cá, não foi? Espero que tenha trazido algo para beber ou comer porque vamos precisar.
— Eu vou precisar, você quer dizer. Você pode ficar sem, aliás, vai... É essa a morte que você prefere, morrer de fome?
— Agora eu tenho escolha? Você vai me deixar escolher, é sério, que alma mais bondosa a sua.
— Você não me provoca, eu não estou brincando, querida.
— Ah, não está mesmo... Isso não me parece uma brincadeira. Eu não duvido de você, da sua capacidade em fazer o mal, de me fazer mal ou me ferir. Eu não sei o que você ganha com isso, mas tudo bem. Se tirar minha vida resolve a sua, vai fazer tudo ficar bem, então faça o planejado, me mate, Mariana.
Me arrependo do que disse, assim que vejo a má intenção em seus olhos. Ela está mesmo disposta acabar com a minha vida.
Por favor, não... Mariana, por favor, não... Eu imploro... Os meus olhos lutam para transmitir o que minha voz não consegue dizer....
— Com prazer, querida! É um prazer poder acabar com a sua vida... Sabe, o Thiago pode me odiar por isso a vida toda, mas o prazer de saber que ele não será feliz ao seu lado compensa o risco.
— Mariana, chega! Já chega, para com isso agora.
Sinto uma mão me puxar para longe do ataque de Mariana, eu o desconheço, mas parece ser um grande amigo de Thiago.
Os dois trocam olhares confidentes enquanto ouço a voz alterada do Thiago. Ele olha rapidamente para mim. Nosso contato visual não dura muito, mas é o suficiente para saber o quanto ele está angustiado e com medo.
Thiago está preocupado comigo, mas tenta manter o controle da situação, focando sua atenção nas reações da Marina. Acalmá-la é prioridade para ele, e eu o entendo, entendo o porquê, mas a forma carinhosa com que ele a faz dói, machuca.
Estou sendo egoísta e agindo como uma adolescente com ciúmes do namorado, quando deveria estar grata e aliviada por Thiago ter evitado que o pior acontecesse, mas não consigo deixar de desejar que ele me abrace como faz com ela agora.
Eu tenho medo de perder as pessoas que eu ganhei.
Eu tenho medo de perdê-lo.
— Marjorie, certo? Você está bem? – assinto com meio sorriso. Ele toca o meu ombro com gentileza em apoio ao ocorrido. — Ah, a propósito, eu não me apresentei, Diego Senra, eu sou amigo do Thiago e também seu agenciador – explica ele, oferecendo-me um casaco.
— Humm – múrmuro em resposta, aceitando a oferta do casaco. Diego então o coloca em meus ombros, enquanto traspasso meus braços para dentro das magas sem desviar o olhar de Thiago e Mariana.
— Você quer sair daqui nós podemos ir a outro lugar se você quiser... Eu posso chamar um táxi – sugere ele, sem deixar de notar o meu olhar possesivo para o casal a nossa frente.
— Eu estou de carro, obrigada.
— Eu sei..., mas depois do ocorrido, achei que você fosse preferir um táxi.
— Você deveria ouvir o meu amigo aí, Diego geralmente costuma estar certo sobre as coisas, Marjorie.
— É... pode ser, mas eu...
— Você prefere ir embora com seu carro, eu sei. – Ele sorri para mim pela primeira vez na noite. E eu percebo o quanto senti falta desse sorriso protetor. — Diego, você pode cuidar da Mariana, um minuto, por gentileza, eu quero conversar com a Marjorie sem ser interrompido.
— Ah, claro... claro, meu amigo, eu estou indo, vou tomar conta de tudo com sempre, prometo. Não se preocupe, Mariana estará segura.
— Seu amigo é sempre assim.
— Assim? – Thiago arqueia as sobrancelhas, enquanto seus braços se moldam a minha cintura.
— Assim... prolixo, proativo... Tão prestativo e educado?
— É Marjorie, eu acho que é. O que importa, eu não quero falar sobre ele, por favor, eu não tenho muito tempo para abraçar você.
— Só abraçar? - pergunto honestamente. Sentindo suas mãos encontrando o caminho ao redor do meu rosto enquanto ele passeia os dedos em torno dos meus lábios.
— Não, beijar também, é claro. – Ele sorri amorosamente, depositando um pequeno beijo no meu nariz antes de alcançar os lábios. — Eu não mencionei porque achei que isso já estava implícito, sabe? – Corro os dedos pelo colarinho da sua camisa sem quebrar o contado da sua boca na minha, eu aprofundo o beijo, sentido o gosto bom que só o seu beijo tem. Tudo em mim se acalma. Ele me traz paz. Ele me acalma. Ele, só ele, me dá paz. Mas não dura muito, por mais que eu queira permanecer em seus braços, Thiago se afasta ainda mantendo a mão em minha cintura, ele sussurra. — Você está bem, eu fiquei com tanto med- - Não deixo completar a frase e o beijo em resposta.
— Estou... agora estou – Deixo minha cabeça apoiada em seu peito sentindo o seu cheiro de roupa limpa, enquanto seus dedos acariciam lentamente os meus cabelos. — Mas tive medo de perder você.
— Eu sei, Mah... Eu sei, sei que tudo o que você me disse hoje mais cedo não é verdade, não pode ser. Eu e você sabemos disso, nós sabemos o quanto o nosso amor é intenso, sincero e capaz de enfrentar o mundo se for preciso.
— Eu enfrento o mundo por você se for preciso, Thiago.
— Hey... Olha para mim. – Ele pede gentilmente erguendo meu rosto com o polegar. — Eu também, eu vou estar sempre aqui por você. Sempre que você precisar, eu estarei com você mesmo não estando, mesmo que pareça estar ausente, eu estou com você.
— Desculpe, a intromissão, mas nós precisamos ir, Thiago, a Mariana está ficando impaciente e eu...
— Achei que tinha mencionado que queria ficar a sós com a Marjorie. – Ele sorri, afastando uma mecha do meu cabelo para trás da minha orelha. — Eu mencionei isso a ele, não mencionei?
— Mencionou – eu o respondo feliz pela forma com ele ignorou o comentário do amigo e seguiu com seus olhos fixos em mim.
— Ah... ele não é tão educado quanto eu pensei.
— Não, não mesmo, ele está mais para um grande intrometido, desmancha prazeres. – Thiago concorda, passando as mãos em meus ombros ele faz um gesto inusitado. — O que você está fazendo?
— Dando a você a minha jaqueta. – diz retirando o casaco que Diego havia me dado para então pôr o seu. — Você pode ficar com ele pra sempre se quiser, eu não me importo – ele comenta orgulhoso, puxando o zíper para cima.
— Eu não me importo se você quiser busca-lo algum dia, na verdade, eu prefiro.
— Eu vou ter que ir então. – Seus dedos ajeitam a gola, trazendo parte do cabelo preso na dentro da peça para a altura dos meus ombros.
— Com certeza, você vai.
— É... – Ele esfrega meus braços em um ritmo lento de vai-e-vem. É tão boa a sensação que sinto meu corpo aquecer inteiro. — Você tem certeza que consegui ir para casa dirigindo? – Com a mão em meus ombros, Thiago me guia em direção as escadas. Finalmente estou saindo deste lugar horrível. — Eu posso pedir para o Diego te acompanhar.
— Eu acho que ele não está muito afim de fazer essa gentileza. - Eu o encaro quando eu e Thiago alcançamos o térreo. Confirmo minhas suspeitas, Diego podia ser amigo do Thiago, mas não é um grande fã da minha presença, eu posso sentir. — Eu preferiria outra companhia a dele, mas eu sei que... que não dá, não é?
— Marjorie, por favor, não dificulta, não torna as coisas ainda mais complicadas para mim. Eu quero estar com você, mas para isso acontecer eu preciso me entender com a Mariana primeiro e não vai ser fácil. Vem, não faz essa carinha, eu vou acompanhar você até o carro.
~*~
Por Thiago
— Espera. - Marjorie para, com uma das mãos na porta do carro. Vou até ela faço-a olhar para mim. Ela o faz, relutante. — Amo você. - Ela respira fundo e me abraça, e mesmo me beijando em seguida, aquilo não dura. Quando se afasta, a mão dela ainda está unida a minha.
— Amo você também - diz ela, com uma das mão na minha bochecha. É esse o problema. Marjorie abre a porta e entra no carro. Fico olhando até que ela desapareça do meu campo de visão.
— Você sabe que isso vai trazer problemas para você. Na verdade, mais para ela do que para você, não sabe? Thiago... Oh Thiago, eu estou falando com você...
— Me deixa em paz, Diego.
— Eu só estou cumprindo o meu papel de amigo e avisando, depois não diz
— Não diz que eu não avisei e blá, blá, blá, eu sei, eu já sei, me deixa em paz!












