CapÃtulo 44
 A Rafa deu um passo a frente, mas eu a puxei para o lado, sumindo da visão da minha famÃlia que por sorte ainda não notou que estávamos ali.
  - Está tudo bem para você? – Era a milésima vez que ela pergunta aquilo – Se quiser nós podemos voltar e...
 - Não Rafa – Falei mais firme dessa vez – O pior que pode acontecer é te tratarem mal, e se isso acontecer nós vamos embora na hora, entendeu?
  Ela sorriu gentilmente, afirmando com a cabeça.
  - Só... Vamos esperar mais um pouco de pessoas chegar.
  - Não quero chegar atrasada Hanna – Ela falou com certo desespero na voz – Logo de primeira e eu já os faço esperar?
  Ignorei seu comentário, olhando ao redor e analisando a quantidade de pessoas por ali.
  - Na verdade, acho que meu irmão não vai gostar muito de você sabe. – Comentei como quem não quer nada.
 - Como assim? – Ela me perguntou assustada.
 Sorri divertida.
 - Ele vai ficar decepcionado ao perceber que a irmã dele fica com uma menina mais linda do que todas as meninas que ela já ficou juntas.
 Ela começou a rir, aliviada.
 - A gente não fica – Ela comentou enquanto observava um casal que acabara de chegar.
 - É... – Respondi vagamente.
  Ela me olhou de esgueira, com um sorriso descontraÃdo no rosto.
 - Você acha que a gente namora? – Ela perguntou como quem não quer nada.
  Sua pergunta me fez sorrir.
 - Claro que sim, pra você não? – Perguntei olhando pela janela – Deve total lealdade e fidelidade a mim.
  Ela suspirou decepcionada.
 - É esse seu medo? Minha falta de lealdade e fidelidade.
  Balancei a cabeça.
 - Claro que não Rafa – Falei firme – Só que outras pessoas é que deveriam ver isso. Na verdade, pessoas loiras, de olhos azuis.
  Ela começou a rir baixinho.
 - O Renan e o Ramon já sabem. – Ela falou fingindo não entender.
 - Você entendeu perfeitamente.
  Ela continuou rindo baixinho, enquanto voltava a analisar mais algumas pessoas que haviam chego. Finalmente virou a cabeça para me olhar, seus olhos cor de mel me analisando atentamente.
  - Se seus pais gostarem de mim, poderÃamos até usar uma aliança sabia?
  Voltei a olhar pela janela, concentrada nas pessoas despreocupadas lá fora.
   - Não é e nunca vai ser a aliança que nos representa.
  Ela sorriu, olhando a estrada a sua frente.
  - É, tenho total convicção disso.
  Por fim, decidi que poderÃamos entrar antes que meu irmão resolvesse ir fumar e nos encontrasse ali, paradas. Nós nos sentamos em silencio em duas cadeiras reservadas para nós. Eles ainda não estavam comendo e o restaurante não estava relativamente cheio ainda, o que fez com que eu me sentisse um pouco mais aliviada.
  - Então você é a Rafaela. – Meu pai disse, soando simpático assim que nos sentamos.
  Ela balançou a cabeça sorrindo.
  - Acho que sim - Ela esticou a mão por cima da mesa – É um prazer conhecê-lo Senhor.
   Gentilmente meu pai tocou nas mãos da Rafa.
   - Senhor não, me chame de Matheus – Ele falou formalmente.
   Mais uma vez ela balançou a cabeça sorrindo.  Minha mãe não expressava emoção nenhuma, completamente em silencio.
   - É um prazer em revê-la senhorita. – O Lohan a cumprimentou – Eu disse que nos verÃamos em breve.
   - Pois é – Ela falou descontraÃda.
   O Isaac não dirigiu a palavra a ela, assim como a minha mãe, e pra ser sincera, não ligaria se ele ficasse o tempo todo assim.
   Eles começaram a conversar sobre a dança, e perguntar sobre o futuro ou o que ela queria para o futuro. Lentamente meu pai e o Lohan foram fazendo com que a Rafa falasse cada vez mais sobre ela.
    O garçom finalmente apareceu e começou a nos servir.
   - Eu trouxe uma coisa para vocês.
    Ela começou a mexer na bolsa e por fim tirou um envelope que eu levei um tempo até perceber que era um convite.
    - São entradas, especiais para o final do campeonato este fim de semana. Coloquei no seu nome dona Marta, e dentro dele tem as entradas em miniaturas para cada um de vocês, e para a esposa do Isaac também.
    Ela esticou a mão por cima da mesa e ofereceu o envelope para minha mãe, que não se mexeu.
    - Adoraria recebê-los por lá. – Ela falou prestativa ainda com a mão no ar.
    Meu coração gelou ao pensar que a minha mãe não pegaria o envelope, porém lentamente seus braços se mexerem fazendo com que o envelope finalmente passasse para suas mãos.
   - É muito gentil da sua parte – Minha mãe falou séria.
   A Rafa sorriu em resposta, e sem cerimônia ela começou a comer o pedaço de pizza em seu prato.
   - Minha irmã costumava falar muito bem da sua mãe... – Minha mãe comentou como quem não quer nada – O que vocês fazem da vida.
   A Rafa deu um gole no suco antes de responder.
   - Ela continuou com o jornal, que o Renan trabalha... E eu, ando dançando ultimamente. – A voz dela expressava simpatia.
   - E o que a sua mãe acha... – Ela lançou um olhar significativo de cima em baixo na Rafa, com a melhor expressão de desdém que conseguiu – Disso.
  A Rafa estava mastigando um pedaço de pizza, mas o engoliu de uma vez.
  - De mim? – Ela perguntou e minha mãe assentiu com a cabeça – Minha mãe me ama, e quer o meu bem, assim como a minha felicidade... Ela gosta muito da sua filha também.
   A simpatia com que ela respondia as perguntas rudes da minha mãe partia meu coração.
  - Hum... Ela gosta? – Minha mãe apoiou os cotovelos na mesa e se inclinou um pouquinho pra frente – A sua mãe por acaso... É... Como posso dizer... Ela não teve você em laboratório não é?
   Um surto de perplexidade e raiva me percorreu em segundos.
  - O que? – Perguntei surpresa – Mãe... Meu Deus, a mãe dela namora, namora o capitão. Você... Olha se você vai ficar atacando a Rafa com esses tipos de pergunta, a gente vai embo...
   A Rafa colocou a mão na minha perna por de baixo da mesa, o que fez com que eu me calasse. Olhei para ela tentando entender seu gesto e ela balançou levemente a cabeça, fazendo um sinal negativo, que eu mal notei.
   Ela voltou a olhar pra mim mãe, e sorriu.
  - Meu pai mora há quatro horas daqui, com uma nova famÃlia que ele formou depois que nos deixou.
   Minha mãe tirou os braços da mesa, e voltou a se endireitar na cadeira.
   - É por isso que você não gosta dos homens? – Ela perguntou e outra vez seu tom era de puro desdém.
   A Rafa riu de um jeito suave e balançou a cabeça.
  - Não, meu pai é um grande homem – Ela pensou um pouquinho sobre o que disse – Na verdade, ele é bem corajoso e verdadeiro. Muitos preferem trair suas esposas a simplesmente se separar. Acredito que minha mãe esteja mais feliz agora.
    Sorri por dentro orgulhosa de cada palavra que a Rafa dizia. Se a intenção da minha mãe era encontrar nela uma pessoa desajuizada e sem limites, com certeza não estava funcionando.
    Suas perguntas pareceram ter se acabado, pois minha mãe se calou e finalmente começou a comer o pedaço de pizza em seu prato.
    Voltei comer o meu também, observando o prato dos outros. Talvez quando todos terminassem a gente pudesse ir embora. Eu estava rÃgida e desconfortável, enquanto a Rafaela parecia estar despreocupada.
     Meu pai pigarreou chamando nossa atenção.
    - Me permite uma única pergunta? – Ele estava olhando para baixo, mas depois seus olhos se focaram na Rafa.
    Ela simplesmente afirmou com a cabeça.
     Ele tomou um gole do suco a sua frente, deu um longo suspiro, formulando a pergunta em sua cabeça. Estava a ponto de gritar para que ele perguntasse logo, mas finalmente sua boca se abriu. Ele sorriu de conto me observando atentamente, em seguida seus olhos voltaram a pairar sobre a Rafaela.
    - Porque a Hanna? – Sua voz saiu calma e suave.
    A pergunta me pegou de surpresa, e pelo jeito não foi só a mim. A Rafa ficou ereta na cadeira, e pelo canto do olho percebi que ela me olhava.
    Todos ficaram em silencio, e a pizzaria por um momento pareceu ficar também.
    - Ora Matheus – Ela bufou uma risadinha – Pergunte a si mesmo e achara a resposta. Por que a Hanna?
     Ele sorriu convicto. Meu pai gostava de desafios, palavras cruzadas, jogos de baralhos. Gostava de encurralar meus amigos com perguntas que eles não sabiam a resposta, só pelo prazer de ensina-los depois. Dessa vez, a resposta da Rafa parecia ter o preenchido por completo.
     Eu entendi a resposta dela. Meu pai não virou meu pai por que Deus e a vida quis, ele me escolheu. Mesmo que tenha sido minha mãe a me encontrar, eles tinham cerca de três meses para decidir se ficariam comigo ou não. Meu pai fez minha mãe assinar os papeis três semanas depois. Ele, assim como a Rafa havia me escolhido. Eu particularmente queria ouvir dos dois, razão por razão, afinal, eram pessoas maravilhosas, e por que logo eu?
     - Sabe menina – Meu pai comentou olhando para baixo – Você é uma boa pessoa, de bom coração. – Ele levantou o olhar para encontrar os da Rafa – Vai ser bom conviver com você.
     Ela sorriu e finalmente todos ficaram em silêncios. Eles terminaram de comer e meu pai foi pagar a conta, enquanto minha mãe foi ao banheiro.
     Ficamos nós e meus irmãos.
    - Sabe – A voz do Isaac preencheu o silencio da nossa mesa – Vai haver uma festa na minha casa, para comemorar o aniversario do meu filho... Se tiver tempo na sua agenda, está convidada.
    - Claro que sim – A Rafa parecia surpresa – Ficarei contente em aparecer.
    Isso parecia ser o Maximo que ele conseguia fazer, por fim se levantou e foi para fora fumar.  Minha mente começou a repassar cada detalhe daquela noite, estava perdida nas perguntas e respostas que despertei quando a Rafa entrelaçou os dedos nos meus por baixo da mesa.
   Procurei seus olhos surpresa pelo seu ato, e contente e completamente satisfeita ela sorriu pra mim. Espontaneamente meus lábios se curvaram, lhe devolvendo o sorriso suave.
   Nós fomos para fora, e minha famÃlia se despediu da Rafa com um aperto de mão formal. Levando em conta a situação à quilo era uma bela de um vitoria. Eu voltaria com eles para casa, mas antes acompanhei a Rafa até o carro dela.
      - Rafa? – Quando eu disse seu nome, ela parou de andar e virou-se para mim – Porque eu?
  Ela deu uma risadinha divertida, e continuou andando de costas.
  - Sei lá, eu devo ter feito algo muito bom na minha vida passada, e ai Deus, o destino e todos os astros resolveram me presentear fazendo você pertencer a mim.
   Finalmente chegamos ao carro e descontraÃda ela se apoiou sobre ele.
   - Eu pertenço a você? – Lancei-lhe um sorriso malicioso.
   Não percebendo o deboche na minha pergunta ela passou gentilmente a mão pela minha bochecha, com seus olhos fixados no meu.
   - Agora mais do que nunca. – A ponta do seu dedo contornou meu lábio inferior.
   Só notei nossa proximidade quando o meu corpo ferveu ao sentir o dela encostando-se a mim.
   - É melhor eu ir – Segurei a mão dela – Não quero cair da escada logo agora que já subimos o primeiro degrau.
   Ela voltou a olhar nos meus olhos, completamente feliz. Eu sabia exatamente quando ela estava feliz.
   - Queria ter metade do controle que você tem. – Falou tristonha.
   - Anos de pratica – Falei brincando.
   Dei-lhe um beijo rápido na testa, e segurei suas mãos de maneira firme.
   - Até amanha então?
   Ela sorriu alegre.
   - Claro. Você é minha convidada de honra.
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