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Te vejo perdendo-se todos os dias entre essas coisas vivas onde não estou. Tenho medo de, dia após dia, cada vez mais não estar no que você vê.
Caio F.
(....) Mas que você me sentisse um pouco distante e tivesse pressa em me chamar outra vez para perto, para baixo ou para cima, não sei, e então você ensaiasse um gesto feito um toque para chegar mais perto, apenas para chegar mais perto, um pouco mais perto de mim.
Caio Fernando Abreu
(...) andei pensando sobre amor, essa palavra sagrada. O que mais me deteve, do que pensei, era assim: a perda do amor é igual à perda da morte. Só que dói mais. Quando morre alguém que você ama, você se dói inteiro(a) — mas a morte é inevitável, e portanto normal. Quando você perde alguém que você ama, e esse amor — essa pessoa — continua vivo(a), há então uma morte anormal. O NUNCA MAIS de não ter quem se ama torna-se tão irremediável quanto não ter NUNCA MAIS quem morreu. E dói mais fundo — porque se poderia ter, já que está vivo(a). Mas não se tem, nem se terá, quando o fim do amor é: NEVER. — Caio Fernando Abreu
Vontade de pedir silencio. Porque não seria necessária mais nenhuma palavra um segundo antes ou depois de dizerem ao mesmo tempo: - quero ficar com você.

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Que as perdas sejam medidas em milímetros e que todo ganho não possa ser medido por fita métrica nem contado em reais. Que minha bolsa esteja cheia de papéis coloridos e desenhados a giz de cera pelo anjo que mora comigo. Que as relações criadas sejam honestamente mantidas e seladas com abraços longos. E que seja doce tudo que tiver que ser.
Caio F. Abreu
Se bem que, como rugas e perdas, cicatrizes também fossem troféus. Grandes fracassos, tipo Napoleão em Waterloo, deveriam ser condecorados, afinal por que essa discriminação maniqueísta?
Morangos Mofados – Caio Fernando Abreu
Ela olhava através da cortina a rua cheia de pernas e braços apressados, alguns taxistas esperando chamadas que não vinham e poucos carentes ainda no sono de chão frio. Estava pelada e se sentia exposta mesmo sendo ela quem observava, de alguma maneira, estava entre aquelas pessoas na rua. O sol ainda não corrompido da manhã queimava no frio dos braços finos, contornando a pelugem sem cor. Sentia-se estéril como o branco que refletia do próprio corpo. Na cama atrás de si encontrava a constante presença do telefone, que se transbordou. Ergueu o aparelho. Ele ainda restava em sua cama alguns pedaços de si, esses restos iam logrando o dia que vinha. A cada cinco minutos postergava o despertador, que postergava o tempo, que não postergava o sono. Todos esses momentos de semi consciência possibilitavam a escolha do acordar, ou nem tanto, mas o fato é que ele estava atrasado desde o primeiro alarme que fora programado desse jeito mesmo. De qualquer forma, em dado minuto resolveu-se levantar, o por quê da escolha desse certo horário não se sabe. Era o corpo que escolhia as horas nem tão longe do horário que se devia ter acordado para amenizar a culpa, escolhendo um número aleatório que se prolongava a cada semana, as desculpas eram boladas com um raciocínio sofisticado para camuflar a demorada preguiça. O telefone tocou. Oi?, a voz questionava em tom gentil escondendo certo temor, Oi, a voz fingia contentamento enquanto se perguntava o que teria feito para ser temida, Como tá?, Nem sei, Como não sabe?, Nem sei, e ela nem sabia, e ela não encontrava nele algum interesse verdadeiro para tentar explicar, e ela já perguntara, e ele dizia que tinha sim, que gostava muito dela e queria saber, mas nunca perguntara sem ela antes dizer... Então tá, respondia ele sem entender, ela parecia entrar num monólogo, mas assim se lembrou que essa confusão já era de costume, e a deixou como era, Só queria saber como tava, ela lembrava de como nunca imaginou que fosse ser assim, que naqueles primeiros dias era ela que evitava o gurizão desajeitado, com barba-pentelho e roupas sujas, um pedinte pequeno demais para lhe apunhalar qualquer ferimento, e que por esse motivo mesmo deixou-se cativar, e que por esse motivo mesmo esqueceu que poderia se machucar, Tô bem... Alguns problemas de dinheiro só, ele agradecia a leveza do assunto e deixava que aquele timbre, aquele exato timbre e não outro, trouxesse alguma vontade no peito que não saberia explicar, Ah, eu também, mas como não preciso de muito.. ela lembrava que aquela voz que hoje não se esforça mais para simular algum interesse já pensou nela todos as manhãs, já falou bom-dia sem falta, já enxeu o saco, já se foi, não é mais, mudou de frequência, uma voz que mudou de olhar, essa voz sempre foi assim, meio seduzida por um novo rosto, meio cansada dos antigos, meio rebelde, procurando aventuras, meio inquieta, mas aquela inquietude era, para ela, infantil, mesquinha, não iria dar em nenhuma aventura nada, eram apenas atrações superficiais da era moderna, a qual ela não sentia se encaixar, Você tá ficando com outra pessoa? Preciso saber, e realmente achava que precisava saber, Você sabe que fico com pessoas, não quero falar sobre isso, espero que fique bem, procure fazer o que gosta, e ele voltava a ficar irritado, confuso com medo que do outro lado despencasse um choro culposo, Eu tô ficando melhor, só é difícil, você não precisa me tratar assim, eu me coloquei nessa posição meio humilhante por não ter o medo que as pessoas tem de parecer patética, carência não é crime e você não precisa me olhar de cima por eu mostrar ela, fica bem, desculpa pelo momento, você sabe como é, já esteve assim comigo também, só não falou, só não expressou, ela lembrou do simplismo dele, aquela parte que nunca realmente entendeu ela, que percorria caminhos tão curvos, e que ela também nunca entendeu dele, escolhendo a ponte sobre o rio sem tocar na água morna dos choros e da dor tão curiosa da vida