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Deixe ir quem nĂŁo faz questĂŁo de ficar. Vai doer no começo, mas passa. VocĂȘ vai ver, talvez nĂŁo amanhĂŁ, mas daqui alguns dias, algumas semanas, vai ficar tudo bem de novo e vocĂȘ vai agradecer. Ă como dizem por aĂ, tem coisas que a gente perde, mas tem outras que a gente se livra.
Gabriela Freitas
NĂŁo se angustie procurando-o: ele vem atĂ© vocĂȘ, quando vocĂȘ e ele estiverem prontos. Cada um tem seus processos, vocĂȘ precisa entender os seus. De repente, isso que parece ser uma dificuldade enorme pode estar sendo simplesmente o processo de gestação do sub ou do inconsciente.
Caio F. Abreu

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Ăs vezes a gente vai-se fechando dentro da prĂłpria cabeça, e tudo começa a parecer muito mais difĂcil do que realmente Ă©. Eu acho que a gente nĂŁo deve perder a curiosidade pelas coisas: hĂĄ muitos lugares para serem vistos, muitas pessoas para serem conhecidas.
Caio Fernando Abreu
[...] -VocĂȘ gosta de estrelas? -Gosto. VocĂȘ tambĂ©m? -TambĂ©m. VocĂȘ estĂĄ olhando a lua? -Quase cheia. Em Virgem. -AmanhĂŁ faz conjunção com JĂșpiter. -Com Saturno tambĂ©m. -Isso Ă© bom? -Eu nĂŁo sei. Deve ser. -Ă sim. Bom encontrar vocĂȘ. -TambĂ©m acho. (SilĂȘncio) -VocĂȘ gosta de JĂșpiter? -Gosto. Na verdade "desejaria viver em JĂșpiter onde as almas sĂŁo puras e a transa Ă© outra". -Que Ă© isso? -Um poema de um menino que vai morrer. -Como Ă© que vocĂȘ sabe? -Em fevereiro, ele vai se matar em fevereiro. (SilĂȘncio) -VocĂȘ tem um cigarro? -Estou tentando parar de fumar. -Eu tambĂ©m. Mas queria uma coisa nas mĂŁos agora. -VocĂȘ tem uma coisa nas mĂŁos agora. -Eu? -Eu. (SilĂȘncio) -Como Ă© que vocĂȘ sabe? -O quĂȘ? -Que o menino vai se matar. -Sei de muitas coisas. Algumas nem aconteceram ainda. -Eu nĂŁo sei nada. -Te ensino a saber, nĂŁo a sentir. NĂŁo sinto nada, jĂĄ faz tempo. -Eu sĂł sinto, mas nĂŁo sei o que sinto. Quando sei, nĂŁo compreendo. -NinguĂ©m compreende. -Ăs vezes sim. Eu te ensino. -DifĂcil, morri em dezembro. Com cinco tiros nas costas. VocĂȘ tambĂ©m. -TambĂ©m, depois saĂ do corpo. VocĂȘ jĂĄ saiu do corpo? (SilĂȘncio) -VocĂȘ tomou alguma coisa? -O quĂȘ? -CocaĂna, morfina, codeĂna, mescalina, heroĂna, estenamina, psilocibina, metedrina. -NĂŁo tomei nada. NĂŁo tomo mais nada. -Nem eu. JĂĄ tomei tudo. -Tudo? -Cogumelos tĂȘm parte com o diabo. -O Ăłpio aperfeiçoa o real. -Agora quero ficar limpa. De corpo, de alma. NĂŁo quero sair do corpo. (SilĂȘncio) -Acho que estou voltando. Usava saias coloridas, flores nos cabelos. -Minha trança chegava atĂ© a cintura. As pulseiras cobriam os braços. -Alguma coisa se perdeu. -Onde fomos? Onde ficamos? -Alguma coisa se encontrou. -E aqueles guizos? -E aquelas fitas? -O sol jĂĄ foi embora. -A estrada escureceu. -Mas navegamos. -Sim. Onde estĂĄ o Norte? -Localiza o Cruzeiro do Sul. Depois caminha na direção oposta. (SilĂȘncio) -VocĂȘ Ă© de Virgem? -Sou. E vocĂȘ, de CapricĂłrnio? -Sou. Eu sabia. -Eu sabia tambĂ©m. -Combinamos: terra. -Sim. Combinamos. (SilĂȘncio) -AmanhĂŁ vou embora para Paris. -AmanhĂŁ vou embora para Natal. -Eu te mando um cartĂŁo de lĂĄ. -Eu te mando um cartĂŁo de lĂĄ. -No meu cartĂŁo vai ter uma pedra suspensa sobre o mar. -No meu nĂŁo vai ter pedra, sĂł mar. E uma palmeira debruçada. (SilĂȘncio) -Vou tomar chĂĄ de ayahuasca e ver vocĂȘ egĂpcia. Parada do meu lado, olhando de perfil. -Vou tomar chĂĄ de datura e ver vocĂȘ tuaregue. Perdido no deserto, ofuscado pelo sol. -Vamos nos ver? -No teu chĂĄ. No meu chĂĄ. (SilĂȘncio) -Quando a noite chegar cedo e a neve cobrir as ruas, ficarei o dia inteiro na cama pensando em dormir com vocĂȘ. -Quando estiver muito quente, me darĂĄ uma moleza de balançar devagarinho na rede pensando em dormir com vocĂȘ. -Vou te escrever carta e nĂŁo te mandar. -Vou tentar recompor teu rosto sem conseguir. -Vou ver JĂșpiter e me lembrar de vocĂȘ. -Vou ver Saturno e me lembrar de vocĂȘ. -Daqui a vinte anos voltarĂŁo a se encontrar. -O tempo nĂŁo existe. -O tempo existe, sim, e devora. -Vou procurar teu cheiro no corpo de outra mulher. Sem encontrar, porque terei esquecido. Alfazema? -Alecrim. Quando eu olhar a noite enorme do Equador, pensarei se tudo isso foi um encontro ou uma despedida. -E que uma palavra ou um gesto, seu ou meu, seria suficiente para modificar nossos roteiros. (SilĂȘncio) -Mas nĂŁo seria natural. -Natural Ă© as pessoas se encontrarem e se perderem. -Natural Ă© encontrar. Natural Ă© perder. -Linhas paralelas se encontram no infinito. -O infinito nĂŁo acaba. O infinito Ă© nunca. -Ou sempre. (SilĂȘncio) -Tudo isso Ă© muito abstrato. EstĂĄ tocando "Kiss, kiss, kiss". Por que vocĂȘ nĂŁo me convida para dormirmos juntos. -VocĂȘ quer dormir comigo? -NĂŁo. -Porque nĂŁo Ă© preciso? -Porque nĂŁo Ă© preciso. (SilĂȘncio) -Me beija. -Te beijo. [...]
O dia em que JĂșpiter encontrou Saturno,
Caio Fernando Abreu
Tenho trabalhado tanto, mas sempre penso em vocĂȘ. Mais de tardezinha que de manhĂŁ, mais naqueles dias que parecem poeira assenta e com mais força quando a noite avança. NĂŁo sĂŁo pensamentos escuros, embora noturnos⊠Sabe, eu me perguntava atĂ© que ponto vocĂȘ era aquilo que eu via em vocĂȘ ou apenas aquilo que eu queria ver em vocĂȘ. Eu queria saber atĂ© que ponto vocĂȘ nĂŁo era apenas uma projeção daquilo que eu sentia, e se era assim, atĂ© quando eu conseguiria ver em vocĂȘ todas essas coisas que me fascinavam e que no fundo, sempre no fundo, talvez nem fossem suas, mas minhas, e pensava que amar era sĂł conseguir ver, e desamar era nĂŁo mais conseguir ver, entende? Eu quis tanto ser a tua paz, quis tanto que vocĂȘ fosse o meu encontro. Quis tanto dar, tanto receber. Quis precisar, sem exigĂȘncias. E sem solicitaçÔes, aceitar o que me era dado. Sem ir alĂ©m, compreende? NĂŁo queria pedir mais do que vocĂȘ tinha, assim como eu nĂŁo daria mais do que dispunha, por limitação humana. Mas o que tinha, era seu. Mas se vocĂȘ tivesse ficado, teria sido diferente? Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerĂĄ muito mais â por que ir em frente? NĂŁo hĂĄ sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia â qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quĂȘ. Melhor do que nĂŁo sobrar nada, e que esse nada seja ĂĄspero como um tempo perdido. Tinha terminado, entĂŁo. Porque a gente, alguma coisa dentro da gente, sempre sabe exatamente quando termina. Mas de tudo isso, me ficaram coisas tĂŁo boas. Uma lembrança boa de vocĂȘ, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. De nĂŁo morrer, de nĂŁo sufocar, de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trarĂĄ, porque sempre traz, e entĂŁo nĂŁo repetir nenhum comportamento. Ser novo. Mesmo que a gente se perca, nĂŁo importa. Que tenha se transformado em passado antes de virar futuro. Mas que seja bom o que vier, para vocĂȘ, para mim. Te escrevo, enfim, me ocorre agora, porque nem vocĂȘ nem eu somos descartĂĄveis. ⊠E eu acho que Ă© por isso que te escrevo, para cuidar de ti, para cuidar de mim â para nĂŁo querer, violentamente nĂŁo querer de maneira alguma ficar na sua memĂłria, seu coração, sua cabeça, como uma sombra escura.
Carta AnĂŽnima, in: Pequenas Epifanias - Caio Fernando Abreu.