E se só tivermos certeza de que a certeza é psicótica? Já nos contradizemos... Não podemos afirmar mais nada, mas Nietzsche diz que eu sou a afirmação, minha mãe, que devo ser humilde. Até mesmo quando sou, não sei se sou, pois estou sozinha. Será que aquela falta perpétua encontra descanso no furor das massas, na coletividade exacerbada onde a própria intelectualidade se extingue, em um instinto que Freud descreveu como irredutível? Então procuro as massas para me fazer existir, realizada, logo percebo, contudo, que nela deixo de existir. Volto, afinal sempre voltamos como se nunca tivesse sido pois o que ficam são desejos, a não-presença, para o mundo em que se pega ônibus em paradas de ônibus, se dirigem carros, se comem churros e se sofre por amor. Me deparo com o não escape, a indiscutível presença corpórea. Diante da incerteza de nós mesmos, se somos as unhas do corpo, a vontade, a punição, a dor, es, über-ich ou ich, nesse mundo continuamos comendo churros, sofrendo por amor, esperando os mesmos ônibus nas mesmas paradas de ônibus. Entre você e o mundo, escolha o mundo, disse Kafka, ele esqueceu apenas que não é uma escolha, estamos indiscutivelmente aqui, onde? Concordo que gostava das minhas certezas, acreditar que minhas roupas poderiam falar quem sou, que meu rosto era tudo de mim, e as vezes ainda acredito, mas é isso apenas, um fanatismo agudo para se fazer entender alguma coisa, nada mais que uma crença compartilhada por todos, o que o faz inescrutável. Segundo Freud, “nossos atos derivam de um substrato inconsciente, este substrato encerra os inúmeros resíduos ancestrais que constituem a alma da raça”, mas se formos toda essa herança, o que resta, e será que resta? Sabemos o tudo que somos? Não. Pelo mesmo motivo que uma verruga atrás da perna cresce no corpo, ou em nós mesmos, sem sabermos. É então que a arte surge como redenção, inova a partir do velho, apesar de não ser tão simples equação, por fim, afirmamos nossa existência pela criação. Concordo com o livre-arbítrio, os que discordam possuem aquele discurso desligado das suas pulsões, perdidos no espaço procurando encontrar caminho, pois é impossível negar o que defende a existência do eu. O problema é que ele, o livre-arbítrio, não é sustentado racionalmente, defendemos a teórica ferida narcísica, sabemos que não somos donos na própria casa, mas nunca abandonaremos o nosso eu, essa casa desconhecida. Pelo mesmo motivo surgem conscientes nossas aflições, nomeamos, racionalizamos, mas não as resolvemos. Foi dessa confusão autística que nasceram as civilizações, nos agarramos em fantasias compartilhadas, totens, para se fazer algum sentido dessa loucura. Esquecemos, contudo, que o cetro não tem utilidade, é inclusive acrescentado à roupagem junto aos adornos, antes das cerimônias e apenas para elas. O homem se atém a esses símbolos, com um certo afinco, com aquela certeza psicótica que não só o impede de encontrar a ele mesmo, mas o ilude encontra-lo no que o distancia de si próprio.
Os vazios mentais nos fazem existir. O sujeito despedaçado ansioso procura signos para descarregar a sua pulsão que está em estado de agitação, carece do lugar apropriado. Para melhor discernir esse ponto, falarei primeiro do que se configura como o estado de bem-estar do ego, nele o ego não se encontra desfragmentado e pode encontrar relento em si mesmo, estando a estrutura e formação sujeito-histórica psíquica confortáveis para a convivência interna. A respiração ou qualquer outro processo corporal orgânico é entendido de forma positiva, e então integrado ao estado do sujeito. Essa aceitação dos processos orgânicos naturais em seu estado normal, permite que eventuais desestabilizações desse funcionamento possam ser assimiladas e também integradas no sujeito psíquico. Um exemplo é o uso de drogas psicoativas modernas(bala e maconha), chamam-se bad trip os efeitos negativos dessas substâncias e acontecem com frequência em pacientes com ansiedade. O dizer de que “se precisa estar com a cabeça boa” para curtir a vibe, é recorrente e traduz a necessidade do sujeito estar integralizado para poder sofrer a desfragmentação causada pelas substâncias. Segundo a lógica da economia libidinal, a psique desorganizada não irá aceitar mais desorganização (o que resulta nas bad trips), e a psique organizada conseguirá integrar as novas formas expansivas do ser que acontecem quando em estados alterados de consciência por essas substâncias. Essa mesma economia também se aplica às diversas atividades menos extremas de despedaçamento que acarretam a busca do apoio no ego integralizado no dia-a-dia. Um sintoma explícito (mas interno) dessa convivência pacífica são os vazios mentais, momentos em que o sujeito não pensa racionalmente em nada, não lhe são aparentes (no sentido de conscientes) os símbolos ou ideias, os objetos de análise momentânea. Esses pequenos trechos são elaborações inconscientes da história do sujeito, um gozo de estar sendo quem se é e nada além disso, seja o que formos, não se sabe se essa elaboração gera gozo ou o gozo gera a elaboração. Concomitante a essa vivência positiva do ego consigo, ou em consequência dessa resolução(pois o ego fragmentário se preocupa constantemente com essa irresolução), o sujeito também consegue e obtém prazer em dedicar energia libidinal ao estar com os outros, o que também se traduz como o estado de integralização da desfragmentação já mencionado, pois estar com terceiros é receber discursos alheios, não seus. Os vazios mentais são observáveis mais diretamente nos momentos em que, em momentos de distração e atividades com amigos, perguntamos para eles: “no que você está pensando?” e eles respondem “nada”, em tom de contentamento. São trechos comuns para as psiques saudáveis, mas extremamente raros e invejados pelos egos ansiosos despedaçados. O contrário não acontece para o ego despedaçado, as atividades simples de troca com outros são intrusões ao eu psíquico, não lhe parecem neutras ou gratificantes, mas danosas, tortuosas.