Irá a máquina suplantar a inteligência humana?
Antes da Copa, o projeto Andar de Novo (Walk Again) (que envolve pesquisadores de todo o mundo e é coordenado pelo neurocientista brasileiro) anunciou que faria um feito inédito: iria mostrar ao mundo um paciente tetraplégico se levantar de uma cadeira, dar alguns passos e chutar uma bola no meio do campo
Interface homem-máquina.
Qual o futuro da vida humana na relação do ser humano com o máquina? Acreditou-se durante vários anos que o cérebro era estático e que o comportamento humano tinha correlação com áreas específicas e, assim sendo, uma lesão em uma região da cabeça poderia colocar em risco a área do corpo relacionada. Essa perspectiva é chamada de abordagem LOCALIZACIONISTA. Atualmente já se sabe que o cérebro pode ser transformado com a experiência, o que chamamos de NEUROPLASTICIDADE.
Ainda hoje se tem um embate entre posições localizacionistas e a neuroplástica. Em meus estudos constato que estas não são abordagens excludentes. Existe sim o local do movimento no cortex motor em nosso cérebro. No entanto, não é verdade, e experimentos importantes comprovam que, uma vez paralizados alguns movimentos é possível que outras regiões do cérebro façam o trabalho de remodelagem com intervenções precisas. Isso graças ao potencial de ação dos neurônios que por meio de sinapses levam mensagem a regiões afetadas. Uma prova não só de que não se pode falar apenas do localizacionismo, mas sobretudo, de que as conexões neurais estão sempre se modificando diante de novas experiências.
De acordo com o neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis, o cérebro é um computador orgânico, analógico, e não é o único. Qualquer órgão se conecta a nivel celular com outros órgãos, assim como um ser humano se conecta a outros seres humanos.
Considerando toda a complexidade do cérebro humano e diante de tantas pesquisas que profetizam a apropriação, ou o hibridismo, entre homem e máquina, Nicolelis afirma ser impossível a cópia do cérebro no computador digital, por apresentar este, configurações específicas diferentes da máquina. Por exemplo, não funciona em sistema binário e o sistema nervoso central não tem passos previsíveis mas age na interação contínua com o ambiente. Nesse sentido não é correto falar de Inteligencia artificial(I.A) e sim de processamentos a partir de padrões relacionados. Inteligente é o programador e não o computudor, diz Nicolelis, no curso Interface homem-máquina, da PUCPR.
É jogada de marketing e resultado de um grande empreendimento mercadológico, segundo Nicolelis, a notícia da Neuralink sobre o experimento revolucionário desta interface cérebro-máquina. Veja abaixo a notícia que está dispinível em < https://www.smartel.com.br/blog/260/neurolink-elon-musk-quer-conectar-humanos-e-maquinas-ja-em-2020>
O bilionário Elon Musk anunciou que a Neuralink, startup da qual é fundador e CEO, está "progredindo" em uma interface que conecta o cérebro a computadores por meio de chips. Este experimento, segundo ele, deve ser realizado em humanos no ano que vem.
Desde 2017, a empresa está d.esenvolvendo implantes cerebrais para permitir a comunicação entre máquinas e pessoas, algo vital para que o ser humano não seja surpreendido pela inteligência artificial no futuro, segundo Musk.
"A maioria das pessoas não percebe, mas podemos resolver isso com um chip. Podemos fazer uma interface cérebro-máquina completa. Este projeto pode alcançar uma espécie de simbiose com a inteligência artificial", disse Musk durante um evento em São Francisco, nos EUA, junto a membros da Neuralink.
Irá a máquina suplantar a capacidade neural do nosso cérebro?
Muitas coisas estão acontecendo e no lugar de olhar para esses grandes experiementos, podemos antes pensar no risco que existe para as futuras gerações a exposição viciantes às redes digitais, ação que de acordo com os estudos mais recentes da neurociência, pode trazer consequências dráticas para o desenvolvimento das habilidades neurais.
De acordo com a neurociência existe uma máxima importante sobre a capacidade neural: use ou perca. Quando fazemos continuamente uma atividade estamos redefinindo novos mapas mentais.
O interessante desta reflexão é agregar a ela o conceito de Brainet, do Nicolelis, que é a capacide de sincronia entre várias redes de comunicação, nesse sentido redes neurais. E ele afirma a sua teoria: A história da civilização humana se dá, so longo do tempo, pelo embate de Brainets que geram diferentes visõs do mundo que competem pela mente coletiva. Se toda realidade é construída por abstrações mentais ao longo da história, e as abstrações mentais seriam, para o neurocientista, a matéria prima para o verdadeiro criador de tudo, o cérebro humano, ser um consumidor passivo das possibilidades digitais pode trazer sérios danos à nossa saúde tanto psíquica quanto social.
A competição no contexto das Brainets, consolidam acordos coletivos de grande escala. Assim se explica a existência de uma multitudes de visões, da fraturação do mundo e do real, consequencia de uma briga por territórios neurais. Captura da mente. Eu poderia chamar provisoriamente de ninchos neurais.
A capacidade de fusão do tempo e do espaço, a criatividade, a intuição, a mobilidade cognitiva e social, expressões eminentes do cérebro humano jamais será copiado pela máquina (NICOLELIS, PUCPR). Teorias ou, usando um termo do autor, abstrações mentais são criadas e compartilhadas no embate pela hegemonia científica, que afirmam ser possível transceder a biologia por meio da tecnologia, modificando assim a configuração neural e comportamental do ser humano. Essa é a promesa do Transumanismo, por exemplo, que trataremos numa nova oportunidade.
Esse texto não pretende ser uma expressão científica e sim um ponto de partida para uma conversa sobre as várias mudanças que assistimos e/ou participamos enquanto nativos ou imigrantes digitais, e as consequencias para o futuro da mente humana. A vontade de me estender e levantar pontos de discussão sobre a vigilância a que todos nós estamos expostos como consumidores digitais e de certa forma somos parte de experimentos mercadológicos tendo em vista que o nosso comportamento é monitorado a cada click que damos. O que eu assisto, curto, compartilho, ouço, fotografo, enfim, estamos fornecendo de forma gratuita, dados importantes sobre o nosso comportamento que está sendo vendido e comercializado para que empresas possam, diante dos dados e da análise desses dados, não só agir de acordo com o nosso comportamento mas, sobretudo, podem investir em estratégias para mudar o nosso comportamento. Essa seria uma nova face do capitalismo, chamado Capitalismo de Vigilância, termo da cientista social, Shoshana Zuboff. Mas isso é assunto para um novo post.
Por enquanto, termino esse texto com a mesma citação de Nicolelis no final das aulas da PUCPR, no curso Interface homem-máquina, citando o poeta, T. S. Eliot:
Onde está a vida que todos nós perdemos no viver?
Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento?
Onde está o conhecimento que perdemos na informação?


















