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O feio, o belo, o clássico e a tradição
Direto ao ponto: ano passado escrevi um ensaio de estética a respeito do feio; este me chamou a atenção assim em abstrato. O ponto de partida foi o graffiti na minha cidade; que eu acho bonito, mas é tratado como feio, visto como imoral; provavelmente por causa da relação de classe e aí isso toma uma dimensão política e econômica.
O feio é o desviante, o que foi posto à pobreza e não queremos olhar porque (talvez) nos identificamos nele e dele queremos nos descolar. O feio é o alienado, aquele que não teve possibilidade de ascender socialmente, o que não teve acesso à educação formal, ao clássico - pode parecer.
Devemos defender o feio que o é por sua exclusão.
Mas não é preciso muito para notar que esse feio, aqui falando do graffiti, tem uma elaboração formal que o eleva ao refinado, ao belo. Aqui o rótulo de feio apenas o categoriza como tal somente pela lógica da exclusão do diferente, a partir de uma moral.
Agora o problema:
sem ter isso muito claro, pensei em começar a fazer fotos feias; digo, tecnicamente feias. Para me descolar de um suposto refino da técnica. Tentando assim escapar de algum elitismo, de alguma adequação estética (formal). Como se isso fosse uma crítica.
Essa ideia agora também me parece infantil. A resposta à superficialidade da técnica seria realmente não ter técnica nenhuma? Isso não significa uma simples destruição da técnica? Como se ela não tivesse função ou não fosse produto de uma elaboração humana?
Creio que nesse sentido eu estaria confundindo algumas coisas. Jogando o bebê fora com a água do banho. A técnica é uma conquista da humanidade, não da classe dominante.
A resposta do oprimido não deve ser negar a humanidade e retornar ao primitivo, ao incomunicável, mas produzir uma outra humanidade, uma nova e que possa simbolizar e comunicar, porque a natureza humana é social e creio que não avançaremos muito ao "retornar" a um primitivo idealizado, nunca antes existente, que seria esse incomunicável.
Me parece um erro não somente pelo idealismo, mas pelo efeito que isso implica: a divisão, a negação do social. A linguagem nasce da necessidade de comunicação e cooperação.
A fragmentação entre indivíduos isolados me remete mais àquilo que é mais fácil de conquistar; se se argumenta que fora da linguagem não pode ser conquistado, posso até concordar, apenas se concordarmos que essa atituide de desistência implica que a capitulação ocorreu no momento anterior, onde o derrotado cria para si uma ficção de que escolheu a derrota e dessa forma ganhou.
Não me parece, portanto, que desistir da elaboração formal seja a resposta. A resposta, contudo, me parece muito mais complexa que isso e por isso também não a alcanço.
Acho que há algo na direção de Saviani, como ele aborda os conteúdos "clássicos" e os utiliza para apropriar a realidade pela classe trabalhadora. O clássico não precisa carregar a tradição. O clássico o é porque representa uma determinada síntese da história humana e assim não pertence a uma classe em específico, ainda que historicamente as condições tenham favorecido a apropriação destes pelas classes dominantes.
Assim como o graffiti que cria sua própria técnica utilizando ferramentas que inicialmente não foram produzidas para essa finalidade, a fotografia deveria poder fazer o mesmo. Não é negar a técnica, nem a linguagem.
Dito isso, para ser justo com Saviani, que pensa uma prática pedagógica que compreende essa ética, temos que considerar que o oprimido, aquele que carrega o maior peso do processo produtivo capitalista, frequentemente não possui amplo acesso à técnica.
Isso não impediu que o graffiti se desenvolvesse.
Mas é preciso também defender esse lado do feio, o de baixa elaboração formal, porque ele deve ser visto como um estágio de desenvolvimento da humanidade. E qualquer tentativa de erguer-se acima do que se está quando já se carrega um peso enorme, o peso do mundo, deve ser reconhecida como uma maravilha apenas por si só.
_
Agora sinto que estou dando voltas ou me alongando e me perdendo. Porque simplesmente não consigo chegar a uma resposta sobre como formular então uma estética fotográfica. O que passa na minha cabeça é que, diferentemente do graffiti, que é uma forma de pintura e portanto carrega mais da subjetividade do autor, a fotografia carrega uma proporção maior da objetividade do externo e é também muito disseminada pela vivência cotidiana; fazendo assim, com que nosso imaginário esteja muito mais colonizado e dessensibilizado para tal prática de produção e leitura.
Aqui então chego a um encerramento.
Preciso pensar em Saviani

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SS