toda escuridão também passa
E então, depois de dias em que o peso do ar parecia insuportável demais para aguentar e o oxigênio parecia rarefeito demais para respirar, a garota finalmente parou de chorar. As olheiras finalmente pararam de ser tão proeminentes e sorrir se tornou um pouquinho mais fácil.
A garota finalmente decidiu encontrar uma parte dela que tinha morrido a muito tempo: a parte que acreditava que tudo que ia ficar bem de novo. A garota chorou com cada dor e cada corte e se recusava a seguir em frente movida pela falsa esperança de que tudo voltaria a ser como antes. O antes que ela tanto ansiava era só a ilusão que ela tanto criou na cabeça dela de que as coisas seriam mais fáceis. É difícil aceitar que você pode mover o céu e a terra por alguém e ela pode escolher - por livre e espontânea vontade, exercendo todo o seu livre arbítrio - que não deseja fazer o mesmo por você. A garota foi criada para acreditar que se ela fizesse diferente, se esforçasse mais um pouco ou fosse só um pouquinho melhor, ela seria enfim escolhida. Seria enfim salva de si mesma e de toda escuridão que existia dentro de si. A garota mal conseguia acreditar que existisse uma realidade fora daquela que imaginara para si - fora de toda cobrança, medos e inseguranças. A criança que a garota foi um dia tinha o medo terrível de ser abandonada e de ser rejeitada. A garota ainda não sabia que todos os nossos medos tem grandes chances de se tornar realidade quando vivemos cercadas de insegurança.
A garota se viu sozinha. A criança chorou e não entendeu porque tudo aquilo estava acontecendo. Ela se debateu e soluçou. Aos poucos, a criança parou de brincar, de existir. A garota não se lembrava mais da criança, os poucos flashbacks de alguns sorrisos sumiam e desapareciam conforme o tempo ia passando. A garota nunca soube lidar com todos os sentimentos reprimidos que existiam dentro dela e tinha muita dificuldade de aceitar que ela merecia sentir mais. Na verdade, o maior problema sempre foi aceitar que tava tudo bem sentir. É permitido. A garota colocou todos os seus sonhos e esperanças na oportunidade de ser escolhida.
Quando finalmente a garota foi rejeitada - de novo -, ela terminou de ruir o que restava da criança dentro dela. Foram tempos sombrios para garota. Alguns meses de dor, sofrimento e dificuldade de respirar. Os pensamentos, nos quais antes ela encontrava tanto refúgio, viraram um mar de lamentações e medo. Fechar os olhos era terrivelmente complicado. A garota ocupava seus dias com preocupações mundanas para passar o tempo. E ela ficou terrivelmente boa em só passar o tempo. Em se ocupar.
A garota se esqueceu que as emoções sempre encontram um jeito de escapar.
Não importava o que a garota fizesse ou o quanto ela lutasse para só seguir em frente, todas as vezes que fechava os olhos, lá estava tudo de que ela estava fugindo. Ela não dormia. A garota sempre amou dormir, mas todos os dias, as três da manhã em ponto, estava preparada para angustiante dor que era sentir tanto.
A garota achou que aquilo nunca ia passar. Achou que os pesadelos nunca fossem passar.
A garota achou que com o tempo ela se acostumaria, que as coisas passariam.
A garota então viu seu corpo definhar aos poucos. Começou com a dificuldade de comer. A garota amava comida e sentir o gosto das coisas, até que elas pararam de ter gosto. A garota não conseguia mais engolir. Tomar água era difícil também. Depois, vieram as quedas de pressão, afinal, um corpo não se sustenta com o ar. Naqueles dias onde não conseguia engolir nada, era mais difícil ainda colocar a máscara de que tudo estava bem. As roupas que não serviam ficaram largas. Depois, tudo o que a garota enfim conseguia comer, saia do seu corpo mais rápido do que entrou. Ninguém via que a garota estava doente por dentro e por fora.
A garota não comia e não dormia, mas tentava acima de tudo manter a máscara de que tudo estava bem. A garota, sem comer, tentou compensar tudo correndo. Corria para esquecer dos problemas e colocava o fone de ouvido no máximo. A garota ainda cantava. Ela gostava de cantar no carro a caminho do trabalho, fingindo que era outra pessoa e que tudo ficaria bem. A garota já era médica e cuidava de todo mundo.
A garota era mestre em resolver problemas e eles vinham de toda parte. Ela se desesperava, mas resolvia todos. Um por um. A garota tentava ser o alicerce para sua família, sem nunca dar trabalho, sem nunca causar trabalho, sem nunca infligir uma dor. A garota precisava de ajuda. Desesperadamente.
A garota viu o homem que amava com outra pessoa - ao vivo, a cores e com todo amor exalando pelos poros - no mesmo dia em que viu seu carro pelos ares e a fumaça varrer todo o resto de esperanças que a garota tinha. Uma das últimas alegrias que a garota tinha era cantar no carro.
A garota então, enfim, parou de tentar de vez. As pessoas enfim começaram a perceber que havia algo errado na falta de esperança e vida que exalavam dela. A casa da garota se tornou tão bagunçada quanto a alma dela. As roupas - a essa altura do campeonato - estavam caindo. Ela não sabia mais se seu rim funcionava depois de tanto tempo sem beber água.
A garota não estava sozinha. As pessoas começaram a se cercar da garota. Um pedido para comer, para se lembrar de beber água, um pedido para finalmente falar sobre o que estava sentindo. A garota ainda tinha muita dificuldade para admitir que algo estava errado com ela. Admitir que existia algo errado era admitir que ela era passível de erros e isso ia contra toda a máscara que ela criou para si mesma.
A garota estava cansada de ser e principalmente de se sentir uma coitada.
O sonho da garota sempre foi ser leve e despreocupada. Sempre foi ser aquele tipo de pessoa que deixa a vida seguir seu rumo e é feliz com qualquer uma das alternativas. Mas aquela não era ela.
A garota tentou fazer tudo o que lhe era dito e ensinado para ficar melhor: sem pensamentos negativos, meditação, escrever sobre seus sentimentos, falar sobre eles, se abrir, fazer algo por ela mesma, se exercitar, ver os amigos. A garota fez tudo. Ela tentou com um afinco admirável.
Ela, aos poucos, conseguia sentir orgulho de si mesma por tentar tanto.
Mas a garota ainda não entendia porque mesmo cercada de ajuda e pessoas por todos os lados ainda se sentia tão sozinha. Mas a criança dela sabia. Sabia que tudo aquilo era porque ela ainda acreditava ser insuficiente por ter sido rejeitada tantas vezes, porque ela não sabia amar a si mesma, só aos outros.
A criança lutou muito para reviver. Esse crédito precisa ser dado a ela. Ela voltou aos poucos. As vezes com uma piada, as vezes com uma risada. As vezes ela aparecia tímida, ainda com os olhos marejados por ter sido tão esquecida. As vezes ela não aparecia.
A garota vivia no limbo. Um passo pra frente, um passo pra trás. Um passo para cura, um passo para escuridão. A garota viu sua criança e sua sombra sentarem lado a lado e coexistirem nesse espaço tempo e dividirem a mesma linha do multiverso. A sombra é grande, etérea. A sombra quer se deitar e finalmente deixar a vida partir, enquanto a criança só quer sair para brincar e sentir amada.
A garota quase viu sua essência se perder. Quando o carro foi pelos ares, o pensamento de que ela também deveria ter ido para os ares passou pela sua cabeça. É triste, horrível e incerto, mas o primeiro passo era finalmente parar de mentir para si mesma. Ela sabia que as coisas poderiam ser infinitamente piores, mas pensou - por um segundo só - que aquela seria uma forma fácil de acabar com todo o sofrimento.
A garota não se orgulhou desse pensamento. Ela sabia que queria viver - lá no fundo, ela só queria parar de sofrer tanto.
A garota não sabe quando as coisas começaram a fazer sentido de novo, mas um dia ela acordou as 4h da manhã (e não as 3h). Um dia ela acordou sem a sensação de aperto no peito. No outro final de semana ela conseguiu acordar depois das 6h. Em um dia, ela dormiu 8 horas seguidas.
No outro, ela acordou com fome (COM FOME!!!!). Há meses ela não sabia o que era comer sem passar mal. Em outro dia, ela aprendeu a rir do celular de novo. Aprendeu a ler de novo. No outro dia ela acordou com vontade de levantar da cama, não porque ela sabia o que precisava ser feito para melhorar, mas porque ela QUERIA.
A garota tinha muita dificuldade de lembrar o som da própria risada e tinha muita dificuldade de se lembrar quando foi a última vez que riu até a barriga doer. Então um dia ela lembrou que ama brincar com seus gatos, que ama comédias românticas. Há meses a garota não conseguia assistir um filme ou ler ou brincar ou rir. A garota não sabia qual foi a última vez que ela tinha cozinhado uma refeição ou arrumado o quarto.
Então, um dia, o ar acordou menos rarefeito. Foi mais fácil respirar.
Foi mais fácil sair da cama. Foi mais fácil fingir que estava tudo bem porque não era tão fingimento assim. A garota começou a deixar a criança sair e foi mais fácil seguir em frente. A criança viu que ela nunca ia ser rejeitada por quem realmente importava: a garota.
A garota percebeu que merecia mais do que apenas sobreviver.
A garota percebeu que o que faltava era tratar ela da mesma forma que trata todos os outros: com amor, carinho e respeito.
A garota ainda tem algumas dificuldades, como o medo de confiar e de se apaixonar de novo. A garota nunca mais quer passar por isso de novo. A garota nunca mais quer sentir como se seu coração fosse tirado do peito e estilhaçado em pedaços. A garota ainda está aprendendo a como colar as partes que se soltaram. Mas agora a garota sabe que consegue passar por isso, porque ela sabe que merece viver.
A garota aos poucos vai aprendendo o seu valor.
A garota nunca mais quer se esquecer de como é o sorriso da criança.
A garota sabe agora que isso só depende dela.
A garota ainda tem um coração gigante, sonhos gigantes, amores gigantes. A garota talvez nunca esteja preparada para as próximas fases que virão, mas ela aprendeu a tomar mais cuidado. A criança agora vai estar sempre no pé dela e se algum dia ela precisar se lembrar do quanto merece mais, a criança prometeu gritar no ouvido dela até que ela se relembre.
A vida é uma montanha-russa de sentimentos e emoções, de altos e baixos. A garota (re)aprendeu que ela tem sentimentos demais para ficarem escondidos e que tá tudo bem sentir demais. Se ela conseguiu sentir tanta tristeza é porque é perfeitamente capaz de sentir o dobro de felicidade e de amor. Toda moeda tem dois lados.
A garota e a criança agora são uma só, elas coexistem e coabitam em mim. E sempre que eu esqueço, as duas sussurram no meu ouvido que toda escuridão, por mais duradoura, também passa.