Era uma situação absolutamente estranha. Obviamente, ela sabia que a prĂłpria situação do reality show nĂŁo era comum, e com isso traria novos desafios. PorĂ©m, ela imaginou que emocionalmente iria sentir uma gama de sentimentos familiares. Amor, luxĂșria, paixĂŁo, afeto, desafeto, rivalidade⊠Todos aqueles sentimentos haviam perpassado sua vida, independente do programa. Mas nunca havia estado numa situação como aquela, nĂŁo tinha sentido um sentimento como aquele, em que queria desesperadamente algo e o outro tambĂ©m, mas tinham suas mĂŁos atadas por coisas alĂ©m do poder deles. Ela se sentia completamente imponente. O seu livre arbĂtrio continuava ali, ela poderia mandar a resolução do programa para o inferno e passar todo o seu tempo com ele, mas estaria indo contra o que ambos se propuseram. Parecia um ciclo sem fim. Mas como poderia abrir seu coração novamente se parecia que nem mais a ela pertencia? Ela ouviu o que ele disse sem conseguir falar nada. Parecia que as palavras haviam morrido na sua garganta. Ela tambĂ©m queria conhecĂȘ-lo. Tudo, de todas as formas. E nĂŁo queria que o tempo deles tivesse acabado ali, mas ela estava tentando dar para ele uma saĂda fĂĄcil. Uma em que ambos talvez sofressem menos, um corte limpo e cirĂșrgico. E as borboletas no estĂŽmago ficavam ainda mais agitadas quando ele parecia recusar o atalho que ela havia dado. Seu coração estupidamente batia mais forte quando ele falava coisas do gĂȘnero. Ela tambĂ©m nĂŁo queria ir para lugar nenhum que nĂŁo fosse com ele. âEu quero ficar com vocĂȘ tambĂ©m,â ela murmurou em um tom baixo, quase inaudĂvel se seus rostos nĂŁo tivessem tĂŁo prĂłximos e apertou os dedos dele entre os seus. NĂŁo sabia como os outros iriam reagir. AmĂ©lia e Raymond nĂŁo pareciam estar juntos, mas Dimitri e Serena⊠Eles tinha um relacionamento instĂĄvel. NĂŁo ouvia ninguĂ©m falar sobre eles, especificamente sobre nĂŁo serem um match mais ainda parecerem insanamente atraĂdos um pelo outro, mas ela nĂŁo sabia o que passava pela cabeça dos outros participantes. âCerto. E vocĂȘ tem que fazer o mesmo,â ela reiterou o que estavam falando. Ela nunca iria se perdoar se o impedisse de achar o match dele e viver o amor Ă©pico que ele havia mencionado se fosse isso que ele queria. O importante era ele ter a escolha de fazĂȘ-lo, sem se sentir impedido por ela. O problema era: serĂĄ que, inconscientemente, ele nĂŁo iria leva-la em consideração ao fazer suas escolhas se ela estivesse na sua vida? âSe vocĂȘ decidir seguir algo com seu match,â sua garganta agora parecia completamente seca e ela mordeu internamente o canto direito do lĂĄbio inferior, nervosamente, âeu sĂł queria que vocĂȘ me avisasse,â porque eles nĂŁo estavam prometendo o mundo um pro outro, mas o mĂnimo de respeito poderia se dar para saber onde as coisas andavam, certo? Ela nĂŁo queria se sentir cega, porque ela tentava nĂŁo se intrometer nas conexĂ”es dos outros. Com a Ășltima frase, ela tinha que refrear a forte vontade de abraça-lo no momento. Mas a sua força de vontade terminava ali. Ela nĂŁo conseguiria ser a pessoa forte que diria nĂŁo. Ela nĂŁo queria se afastar dele tambĂ©m, entĂŁo porque ela deveria ir contra ao que ela queria? âSpence,â resmungou porque se via numa posição muito complicada. Tinha diversas implicaçÔes em se manter junto dele, como nĂŁo deixar confortĂĄvel para as outras mulheres se aproximarem talvez, ou ela mesmo nĂŁo conseguir da abertura. Dilara era emotiva, mas por muitos anos precisou ser uma pessoa sensata e assim conseguia ver os problemas que podiam aparecer⊠Mas iria encarĂĄ-los quando o momento chegasse. âââmas precisamos manter as coisas um pouco mais⊠menos⊠sabe?â Provavelmente ele nĂŁo sabia, porque naquela frase ela nĂŁo tinha falado absolutamente nada. Mas, na cabeça dela, estava claro que eles tinham que agir um pouco menos como um casal. Ficar junto dele daquela forma seria torturante, mas, por ele, Dee estava disposta a tentar.
Como nĂŁo previu que poderia acabar se encontrando naquela situação? Como nĂŁo imaginou que se envolver tĂŁo rĂĄpido assim com alguĂ©m pudesse ser tĂŁo desconcertante e intenso, que no momento em que descobrisse nĂŁo ser seu match a maior parte do jogo perderia o sentido pra ele. Haviam sido colocados em uma casa que, apesar das personalidades, das diferenças e semelhanças, todos tinham um mesmo objetivo: encontrar alguĂ©m pra passar a vida ao seu lado. E provavelmente por isso, foi tĂŁo fĂĄcil pra ele encontrar em Dilara esse alguĂ©m - ela era doce, ela era delicada, ela era envolvente e tĂŁo boba quanto ele. Como poderia pedir algo diferente? Como poderia querer qualquer coisa diferente dela? E agora em que ele jĂĄ havia atĂ© mesmo deslumbrado um futuro ao lado dela, nĂŁo teria mais nada daquilo? NĂŁo tinha ideia do que ela esperava que ele fizesse. NĂŁo tinha ideia, na verdade, o que ela esperava que pudesse ser feito naquele ponto. Mas entendia que haviam se comprometido com o jogo, que talvez ela devesse tentar. Talvez ele mesmo devesse tentar. Mas nĂŁo estava conseguindo se concentrar em nada do tipo, ainda era recente demais. O ĂĄlcool ainda estava exalando de sua boca depois de tantas cervejas tomadas ao longo da madrugada em claro. Assentiu, quando a morena pediu para que ele tambĂ©m tentasse alguma coisa - poderia conversar com Maddison, afinal, era sua Ășltima resposta real. Mas nĂŁo tinha ideia de como lidar com aquilo. Talvez Maddison fosse ideal no papel, mas como poderia ser mais real e mais verdadeira do que aquilo que ele estava vivendo junto dela? NĂŁo fazia sentido em sua cabeça. âEu aviso se o impossĂvel acontecerâ disse com certo humor, pois em sua cabeça, naquele momento, era muito difcil que mudasse de ideia. NĂŁo que Spencer fosse um romĂąntico incurĂĄvel, sabia muito bem que havia a possibilidade das coisas lĂĄ fora nĂŁo darem cem por cento certo como ele imaginava - a vida era assim, imprevisĂvel muitas vezes. Mas isso nĂŁo significava que ele nĂŁo tentaria - se nĂŁo desse certo, nĂŁo seria por falta de tentativa, por falta de vontade da parte dele. Queria muito ela. E talvez por isso, quando a fala seguinte veio, sua expressĂŁo se tornou impassĂvel, apĂĄtica. Teve de comprimir os lĂĄbios. âClaro.â ele respondeu a contragosto, desviando os olhos dela. Ela provavelmente tentaria se aproximar de outras pessoas, isso ele havia entendido. Mas nĂŁo devia nem poder ficar perto demais? Aquilo começava a se tornar cada vez mais difĂcil. âVocĂȘ quer que eu durma no sofĂĄ? Eu posso, ahn... ou se vocĂȘ tiver planos de dormir com algum dos outros caras, eu posso... continuar no sofĂĄ, enfim. Eu posso dormir aquiâ ele coçou a nuca, um pouco incerto, um pouco inseguro. Apenas respirou fundo. âIsso significa que nĂŁo posso te beijar. Mas e te tocar? NĂŁo posso? Quais sĂŁo os limites que... vocĂȘ... quer? Que vocĂȘ acha melhor?â