Beverly Glenn-Copeland, Transmissions: The Music of Beverly Glenn-Copeland (2020)
Destaque: "In the Image"
Conheço-o apenas há poucas semanas, menos de um mês, mas Beverly Glenn-Copeland reside já num cantinho muito particular das minhas frustraçaões musicais pessoais, até aqui ocupado apenas por Florence + The Machine. Que é como quem diz, uma descoberta feita poucos dias depois de terem tocado pela primeira vez em Portugal, tendo assim perdido a oportunidade de assistir a um concerto único. Sobretudo no caso de Beverly Glenn-Copeland: Florence Welsh, afinal, vem a Portugal a cada par de anos, por norma a um festival, pelo que por mais pena que tenha de ter perdido aquele primeiro concerto na Aula Magna em 2010, só não a vi já ao vivo porque não decidi mesmo fazê-lo; aliás, podia tê-lo feito há dias. Mas todas as probabilidades indicam que o concerto de Beverly Glenn-Copeland na mesma Aula Magna no passado dia 9 de Junho, numa iniciativa da ZDB, tenha mesmo sido a única passagem pelo nosso país do músico canadiano, já com 82 anos e um diagnóstico complicado (inícios de demência). Os felizardos que o viram e ouviram em Junho, como a jornalista e escritora Joana Stichini Vilela, terão ganho uma pequena lotaria naquela noite; espero que o saibam.
(Esta introdução saiu-me um pouco mais azeda do que pretendia, até porque este texto será mesmo muito elogioso. Enfim, adiante.)
E falo de Joana Stichini Vilela pois foi através dela que descobri Berverly Glenn-Copeland. Há algumas semanas regressava do Alentejo após uma ida inesperada, e quando já estava a aproximar-me de Lisboa na A2 desliguei a música em mp3 que me acompanhava e sintonizei a Radar. Estava no ar o programa "Índice Médio de Felicidade", de Miguel Ribeiro, que tinha como convidada a jornalista e escritora, a propósito do seu mais recente livro, LX 90. E foi justamente Joana Stichini Vilela quem deixou como sugestão Berverly Glenn-Copeland, resumindo com brevidade radiofónica a sua carreira de cerca de cinco décadas, o acaso extraordinário que foi a sua redescoberta já com idade avançada, e a sua música tão invulgar. E, claro, falou do concerto de Lisboa. Naquele momento, enquanto conduzia e ouvia aquela conversa na rádio, sem fazer a mais pequena ideia de quem estavam a falar, julguei que o concerto tivesse decorrido anos antes, e não duas semanas atrás. De seguida propôs que se ouvisse "Ever New", canção do disco de 1986 Keyboard Fantasies que, por sinal, esteve no cerne da tal redescoberta tardia. E a Radar passou então "Ever New".
Creio que nunca tinha atravessado a Ponte 25 de Abril sob o efeito de um encantamento musical tão extraordinário como aquela canção naquele fim de tarde soalheiro e solitário enquanto regressava de um funeral. Aquela travessia do Tejo foi - é - indescritível.
Tanto que quando acabou a canção nem prestei atenção a mais nada para além disto: concentrei-me na estrada e na condução (como convinha), e, mal voltei a ouvir o nome, em repetir "Beverly Glenn-Copeland" em voz alta, sem parar, até poder finalmente parar o carro, pegar no telemóvel e tomar nota (não tinha companhia na viagem, e enquanto conduzo nunca pego no telemóvel). Foi, claro, a primeira coisa que fiz quando estacionei o carro na vizinhança: pesquisei quem era (é) Beverly Glenn-Copeland, que discos tinha, se estariam em streaming. E assim que pude, voltei a ouvir, e voltei a encantar-me.
Ouvi este Transmissions: The Music of Beverly Glenn-Copeland, uma colectânea de 2020 a encapsular a sua longa e até então relativamente obscura carreira, e não resisti no dia seguinte a ir à loja do costume encomendá-lo. Por norma não costumo comprar colectâneas; tenho algumas, claro (Jimi Hendrix, The Cranberries, The Animals), mas regra geral não aprecio os best-of, as selecções das editoras por fins menos artísticos do que comerciais, apostadas mais nos sucessos evidentes do que nas pérolas menos óbvias que encontramos nos álbuns de estúdio. Mas para um artista tão indie como Beverly Glenn-Copeland, quase incaracterizável, este disco pareceu-me um bom ponto de partida para conhecê-lo um pouco melhor; e, admito, não resisti também a esta capa lindíssima. Agora que já o ouvi, tenho a certeza de que não ficarei por aqui, e que ao longo deste ano e do próximo procurarei todos os discos de Beverly Glenn-Copeland: não só porque daí para cá saíram mais dois álbuns (The Ones Ahead, de 2023, e Laughter in Summer, de 2026), mas também porque adorei cada uma das canções seleccionadas, e querei ouvir mais, entender melhor o processo criativo de cada longa-duração, e recuperar aquele encantamento uma e outra vez.
E que canções são estas, que Transmissions apresenta de forma mais emocional do que cronológica? O disco abre com "La Vita", de 2004, com uma componente lírica inesperada logo no início, depois a misturar-se com a voz enorme de Beverly, num contraste assombroso, enquanto canta "my mother says to me 'enjoy your life'"; palavras de que nos devíamos lembrar sempre. Segue-se "Ever New", a tal que me apanhou na ponte, o hino electrónico minimalista de Keyboard Fantasies de 1986 que retiraria Beverly Glenn-Copeland da obscuridade trinta anos depois do seu lançamento discreto; uma invocação da Primavera, da renovação constante, das possibilidades infinitas de nos reinventarmos, assim ousemos - algo que virá/terá vindo do âmago de Beverly, ele mesmo reinventado enquanto artista ao longo dos anos e enquanto homem transsexual. É uma autêntica ode à esperança, e possivelmente o ponto mais alto deste disco, e da sua carreira. Da primaveril "Ever New" passamos para "Colour of Anyhow", original de 1970, melancólica, acompanhada ao piano primeiro, dando lugar a uma composição quase de jazz nesta discreta versão gravada ao vivo; parece quase ser tocada numa sala pequena, enevoada, quase em sonho. Sucede-lhe "Deep River", de 1971, que comeca a capella, próxima do cântico litúrgico, numa demonstração imaculada da voz enorme de Beverly Glenn-Copeland, a transitar para uma batida de ecos africanos num ritmo mais intenso e alegre, produndamente alegre, nesta versão ao vivo onde ouvimos o cantor a chamar e a puxar por um público que não vemos no disco, mas do qual quase nos sentimos a fazer parte.
No lado B, pois é do disco em vinil que estou a falar, esta alegria dá lugar a alguma melancolia em "Don't Despair", de 1970, tema mais soturno, a puxar por uma voz mais feminina e primordial, num ritmo intenso, desesperado apesar do pedido do título e do refrão "don't despair / tomorrow may bring roses / don't despair / tomorrow may bring love", quase como se duvidasse nessa possibilidade; como se as palavras se destinassem apenas a quem as possa ouvir, e não a quem as canta. E continuamos em 1970 com "Durocher", uma belíssima canção de amor contra todas as dúvidas e adversidades. Segue-se a instrumental "River Dreams", de 2019, primeira canção nova em muitos anos, com a voz murmurada e melancólica enquanto instrumento; não há letra mas nem por isso deixa de faltar poesia e emoção nesta melodia. Com "This Side of Grace", regressamos a 2004 e ao disco Primal Prayer, e também a uma certa sonoridade gospel que "Deep River" já deixava adivinhar, alegre e litúrgica àquela boa maneira afro-americana que é tão efusiva como dançável; e, mais uma vez, é impossível ficar indiferente à voz espantosa de Beverly Glenn-Copeland. "Sunset Village" remata o disco retornando a Keyboard Fantasies e ao seu minimalismo electrónico, com uma melodia simples, quase de embalar, a convidar ao sonho e ao esquecimento, na promessa de algo melhor logo ali, do outro lado da consciência.
Mas Transmissions ainda tem mais qualquer coisa. Na versão digital há mais quatro canções, e a edição em vinil inclui um disco extra de sete polegadas e 45rpm, em jeito de single, com duas canções. A primeira é o meu destaque de todo o álbum: "In the Image", de 2004, também próxima do gospel mas não bem lá; ou pelo menos a conjurar um tom que me transporta para um outro lugar, mais alegre e esperançoso. Não será talvez o melhor resumo do álbum (se é que é possível resumir um álbum como Transmissions), mas é uma canção a todos os níveis extraordinária. E no outro lado do single temos "Montreal Main (The Buddha in the Palm)", de 1983, num ritmo mais rock, com uma guitarra eléctrica muito "anos 80", uma canção de busca incessante: "but it's not the hils we climb, / it's the practice of climbin'", e é nesta demanda e nesta lembrança que termina o encantamento de Transmissions.
E ouvindo este resumo da sua carreira, e estas canções tão diferentes entre si, como categorizar a música de Beverly Glenn-Copeland? Depende da fase, do momento da vida, do estado de espírito; entrará talvez na categoria vasta de world music, se bem que seja talvez difícil dizer a que mundo ao certo pertencem estas melodias. Li algures uma descrição como new age, que entendo ainda que considere uma maldade, dada a associação daquela expressão a doidices; há um lado marcadamente espiritual na música de Beverly Glenn Copeland, aqui e ali etérea e difusa; mas é também uma sonoridade muito terrena, a viver do ritmo das estações (uma imagem recorrente nas letras), do mundo natural, da respiração das nossas vidas. Pop, rock, electrónica, jazz, ambiente: Beverly Glenn-Copeland foi a todo o lado, ainda que não ao mesmo tempo, e o resultado é prodigioso.
Sim, permanece alguma frustração: se o tivesse descoberto há dois meses teria talvez podido assistir a um concerto irrepetível. Mas após ouvir Transmissions, e enquanto vou descobrindo a restante discografia e lendo a sua história de vida, o que fica sobretudo é gratidão: por uma descoberta espantosa, por uma sonoridade que não esperava apanhar-me como apanhou, por uma memória que perdurará, e sobretudo por uma ideia que me faz imensa falta: nunca é tarde para se fazer o que temos de fazer, e para que coisas boas possam acontecer nas nossas vidas (parece um cliché, bem sei, mas nesta música soa a revelação). Já septuagenário, Beverly Glenn-Copeland viu a sua arte discreta, que permaneceu nas sombras durante décadas, a ser redescoberta e reapreciada por um acaso quase cósmico; um reconhecimento que lhe chegou tarde, mas felizmente não demasiado tarde. E regressou à música (que, na verdade, nunca deixou), aos discos, aos palcos, e encanta quem o quer ouvir. Não se tornou, nem se tornará algum dia, mainstream; é demasiado invulgar e inclassificável para tal. Mas continua a soar sempre novo, e a chegar a quem nestes anos procura música singular, emotiva e, acima de tudo, humana.