âEscrever, para mim, virĂĄ talvez a adquirir, algum dia, um sentido mais preciso e elevado. No momento, representa um modo de nĂŁo sucumbir, de nĂŁo ir levando ao azar a minha vida. Uma decisĂŁo artificial, CecĂlia. Honesta, contudo. Invento, ao mesmo tempo que as formigas, pĂĄssaros imaginĂĄrios e tamanduĂĄs com lĂngua de fogo. Jogar umas palavras contra outras, exercer sobre elas uma espĂ©cie de atrito, fustigando-as, atĂ© que elas desprendam chispas: atĂ© que saltem, dentre as palavras, demĂŽnios inesperados. Numa sociedade como a nossa, da qual, mais ou menos como os seus clientes do Hospital Pedro II, desconfio e que nĂŁo me atrai, Ă©, com atritar as consciĂȘncias - atĂ© que estas, igualmente, façam-se em chamas e incendeiem o arcabouço velho -, o que resta fazer. Ambas, vĂȘ-se bem, atividades mais ou menos gratuitas, e, em certo sentido, fora da lei. Estou longe de ter as virtudes exigidas para incendiar as consciĂȘncias, como faz, na zona canavieira, Francisco JuliĂŁo. Falta-me a energia cega dos reformadores; e com a minha tendĂȘncia, talvez arcaica, para raciocinar com todos os dados dos problemas, custaria muito a decidir-me sobre os valores que devem ser incinerados ou substituĂdos. Nem, ao menos, sei dizer com segurança se a profissĂŁo que vocĂȘ exerce, fraterna e retificadora, Ă© mesmo adequada Ă realidade que vivemos. Ela pode dar um sentido Ă sua vida. Mas, verdadeiramente, tem sentido hoje? NĂŁo sou capaz de responder, CecĂlia. Resta-me, entĂŁo, por este modo recusando todas as estĂșpidas formas oficiais de viver, isto que suponho ficar em minha alçada - intentar maquinaçÔes com as palavras. Projeto desesperado e enleante.â
Avalovara de Osman Lins, pĂĄgina 211