Atravessei o mar nu, espremido e doente.
Senti minha dignidade sendo retirada de mim, lágrima a lágrima, desde a travessia forçada com mais 500 pessoas no porão daquela desgraça. Kalunga me chama pois lá deixei minha alma, Kalunga me chama pois sente a necessidade que tenho de preencher o vazio criado em meu coração. Sempre tive os pés no chão, mas nunca me senti pertencente a este, o vazio se fez presente mesmo antes de eu me fazer broto e nascer garoto nesse mundo choroso.
Meus pés chamam a terra que está do outro lado do atlântico, terra esta que tem a cor da minha pele, que foi manchada de sangue com a chegada dos colonizadores, eles sobem o morro e nos jogam nas barcas, foi assim com meus irmãos, meus primos, meus sobrinhos, meus avós, foi assim com meu tio Amarildo, é assim até hoje. Foram seis meses sem saber onde estavam(os), seis meses de travessia, seis meses de rato, mofo, bicho e doença. O crime? Muita melanina. Mas nós sobrevivemos, ressaca após ressaca, para cada um de nós assassinado nascem milhares, fizemos de nossa pele terra, de nosso peito porto e do sorriso de nossas matriarcas nossa âncora.
Nos jogaram no barro, nos relegaram a lama e nos condenaram ao choro, mas se esqueceram que foram as minhas lágrimas que salgaram as águas do mar.
Construí as cidades deste país, cidades túmulos, onde enterro TODOS OS SANTOS DIAS os corpos de meus iguais, quando olho para o vidro dos caixões lacrados, pela crueldade dos atiradores treinados para nos matar, no reflexo das cachoeiras que escorrem de meus olhos tudo que vejo sou eu mesmo, poderia ser eu, fui eu, somos nós.
Hoje sou corpo pós-atlântico, ameaça e ameaçado, não carrego mais as costas marcadas, mas vivo com as cicatrizes do tráfico, não carrego mais grilhões no pescoço, mas ainda querem me ver contente quando só recebo osso, não vivo mais na senzala, mas sou alvejado, até em ventre sagrado, pelas balas dos caras de farda.
São tantos furos, tantas balas, que meu corpo já é usado de mapa. Minha pele é exposta igual aquele quadro na sua sala. Eu já estou cansado, muitas lutas, muitos lutos, não sei mais o quanto de mim ainda está vivo. Tenho um grito parado no ar… Mais uma bala entrou sem avisar. Na minha terra não era assim… Aqui é choro sem fim, dor maior que o mundo. Escrevo de longe, fui morto por um banzo profundo
12/06/2021 21:00 Huiris Rosa