Parker não conseguia ficar irritado com a forma natural com que ele lhe direcionava as palavras. No meio de tanta confusão, acreditava que no fundo fosse vê-lo igualmente perdido; qual foi sua surpresa ao notar que conseguir levar o clima de um modo mais fácil, tranquilo, que conseguia. Até os sorrisos que ele dava pareciam infligir alguma coisa que não enxergava, um desafio entremeado às entrelinhas de suas atitudes. Seria esse um teste? Logo afastou a perspectiva; não passava de mera especulação. Agora estava a por a roupa em um dos cachorros e Parker observava enquanto ele o fazia, notando a destreza de seus movimentos; a sutilidade do hábito. Mas algo lhe pegou desprevenido; e gostaria de dizer que tinha sido mais do que as palavras dele; a revelação do que não esperava. Não sabia porque, mas tinha criado uma imagem do amigo; ela agora estava se quebrando. Pessoas...? Aquilo, sim, era uma surpresa. Não que fosse grande coisa, por que parecia ser? “Eu não vim aqui arrastado” falou, só notando que falara alto quando se ouviu. “Afinal, vim para surpreender você, não é?” falou, como se fosse óbvio. O amigo tinha pedido sua presença para fotografar seus cachorros e ali estava ele. Como um amigo. Fazendo algo bom por uma pessoa. E então mais uma vez verteu-se à estupidez de fotografá-lo, aproveitando os poucos momentos para olhá-lo de modo desprevenido. Observou o formato de seus olhos e o desenho de seus lábios. Parecia que estava bêbado, apesar de não ter ingerido nem um gole de álcool. Estava extasiado, e nem saberia dizer o por que. Quando Kael voltou a falar, pôs-se em silêncio, sabendo que qualquer resposta ou soaria falsa ou idiota. Não falar nada parecia a opção mais acertada. “Kael, você é um idiota.” Pronunciou, chegando perto dele e segurando-o pela camisa. Não sabia ao certo o que seu gesto significava. Sentia que poderia esmurrá-lo a qualquer momento. Teria sido a melhor opção, a mais correta. Afinal, ele não poderia passar de um idiota por pronunciar coisas como aquela. Principalmente depois do que acontecera mais cedo. Mas tudo o que fez foi segurá-lo pela camisa e olhá-lo em seus olhos. Sentia o peito fechar-se e a respiração travar na garganta. Assim como no piano, estava próximo e a raiva parecia ser convertida em algo mais do que desejo. “...um idiota” repetiu, ainda tendo os olhos voltados aos dele e a mente o mais longe possível da racionalidade.