Em alerta, lentamente Caim soltara o dente do outro e afastava sua mão até que esta pendesse ao lado do corpo novamente. Um calafrio mudo alastrava-se por cada célula, carne e veia, tal qual vermes necrófagos vagarosamente corroendo um cadáver. Seus olhos arregalados pareciam duas contas de azul cristalino e, absolutamente expressivos, encaravam vermelhos abismais com inato e silencioso aterramento.
Abriu a boca para falar algo algumas vezes, mas em nenhuma delas sequer um som foi emitido. E em cada vez que tentava falar mais pálido parecia ficar. Um sorriso oblíquo encurvara-se nos lábios do outro pingando pravidade e, fruto deste tão pequeno, mas significativo gesto, Caim o sentiu como uma pancada nos sentidos. A adrenalina finalmente correu e um gélido filete de suor frio desceu-lhe a alma. Por instinto deu um passo vacilante para trás e no mesmo segundo viu-se impedido de afastar-se mais: estava preso pela mão morta e fria que o segurava.
Sentiu o arranhar dos dentes com o mesmo desconforto com que os ouvidos humanos ouviam uma lousa ser arranhada vagarosamente. Por dentro sua alma se debatia, por fora seu corpo paralisava. Concomitantemente a tal desconforto, foi com terror e catarse que sentiu um formigamento, até então por ele desconhecido, queimando tal qual fogo baixo, lento, insinuante e quente, aflorando em seu âmago. Um arquejo, não mais breve ou sútil que um arfar escorregou de seus lábios.
Seu grito ecoou pelo recinto, ricocheteando nas paredes. Uma dor lancinante tomou-lhe o corpo, tão intensa que, não fosse o aperto férreo do outro em seu pulso, teria caído de joelhos no chão. Por dentro de pálpebras fechadas e apertadas, só via um branco leitoso. A dor excruciante e aguda então foi recebida por um voz masculina e grave ressoando em sua cabeça tal como ecos. Era um cânone de “ Liam”, “Will”, “Não!”, comandos e meiguices sobrepondo-se em sussurros e gritos desvanecendo e ressurgindo como camadas em repiques de som. As vezes tais nomes ressoavam de forma doce, outras agressivas. Não havia silêncio. Sua cabeça parecia que iria explodir. E então, parou.
Assim, de forma abrupta, toda dor e vozes desapareceram. O clarão branco leitoso desvaneceu. Atordoado e exausto, agora liberto das presas e aperto do outro, o corpo de Caim pendeu para trás. Desequilibrado, teria ido ao chão se suas costas não tivessem encontrado a estante atrás dele. Sua cabeça pendia para baixo e arfava pesadamente, a respiração entrecortada, em meio a euforia e ecos da dor insuportável e confusão que se encontrava. Resquícios daquela voz ainda o assombravam com um terror que superava qualquer medo da dor ou da morte.
Por segundos que pareceram horas apenas sua respiração desnivelada podia ser ouvida e os baques surdos dos livros arrebentados no chão.
A pergunta ecoou pela vastidão da sala já quase despida de todos os seus livros, ricocheteando pelas paredes a voz de timbre grave e ricamente espessa rolando quase que obscenamente como mel quente pela ponta da língua. Entre as respirações entrecortadas e silêncio as palavras quebradas soavam paradoxalmente miseráveis e desoladoramente esperançosas.