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Escorra
A gente luta diariamente com a gente mesmo. Não há luta maior no mundo. Cada um com seus demônios, vícios, traumas, tropeços, engasgos, desvios e sangue escorrido no canto dá boca. A epopéia trágica somos nós. E matamos um leão por dia. Maldito leão... É duro na queda. Vem sorrateiro, começa manso, rodeia com o olhar fixo e a pupila fina como quem diz "o teu te aguarda, mente inquieta. o que lhe é punição, tá engatilhado", ruge estridente o leão. O leão somos nós. Feras que por nada nem ninguém se amansam ou se deixam domar, mas que mesmo no seio da selvageria dilaceram o pensamento a cada fechada de olho. Ruge, fera. Mostra o fio da navalha que me tortura. Mostra esse seu pelo seco de passado cretino que tanto me afligiu por um sadismo que a vida cisma em justificar como destino. Ruge alto porque minhas sessões de terapias em atraso são todos os dias e porque não temo a morte, não. Tenho medo é de quando você não se aproxima. De quando você não me devora. De quando não te vejo à espreita. Tenho medo é da falta de luta. Temo é por não ter sangue que escorra. Então vem, leão do dia. Que pra você minha resiliência abre a porta da frente. Vem que te espero. Vem que meu eu escorre a cada vez que te deita te sangra e te mata
Arejar
Que o vento sopre o que pesa dentro do peito. Me conte, com os pés cruzados e as mãos esticadas para trás, tudo o que deu medo ao longo da vida. Todos os nomes, todas as chagas, todo o crime que a que o teu emocional se sujeitou. Fala em bom tom e com a voz alta o nome das dores de quem ele foi cúmplice nessa vida que a duros tropeços te colocou aqui. Enquanto a fala da independência do seu bem estar tenta deitar o corpo na grama seca, deixe cair as flores que murcharam aí dentro. Elas de nada te servem. A ponte entre você e sua resignificação. Sua resignação. Seu respiro agudo entre encher o peito de ar e esvaziar o peito de angústia. A vida se arrastou a tal ponto que ganhou corpo. E a ruptura, tua catarse, é obra sua; uma versão final que sentou na primeira quebra e viu de longe tudo se despedaçando, mas por um bem maior. Bem maior.Arejar é dar as mãos pra tarde que cai e se envolver com a noite sem medo do escuro. É ouvir o barulho dos passos no andar de cima e fazer uma crônica mental, tentando imaginar com quantos passos se cruza uma sala. Arejar é abrir a janela. Arejar é do que você precisa, menina. Arejar vai te aliviar o peito. Você nada deve a essa caminhada longa. É ela quem te deve uma conversa franca, olhando nos olhos. Quem disse que a umidade fria do que virou passado te faria menos inteira? A vida não tinha te olhado no olho. Agora ela olha. E vê o que faltava arejar.
Amar
Imagine ganhar seu primeiro brinquedo. Ele é pontiagudo, não cabe na mão, tem várias texturas e te diverte como nada divertiu. Imagine um quarto cheio de brinquedos. Separam-se os brinquedos de brincar no jardim dos de levar para a escola e os coloridos dos de levar pro banho. Tudo está uma zona e fora do lugar, mas você sabe que ali é seu espaço de descanso. Ainda que as pilhas e pilhas de coisas tornem a procura difícil, o brinquedo que você procura estará ali. E em nenhum outro lugar.
Quem ama brinca. Brinca de sério, brinca de gente grande e, principalmente, brinca de viver. E viver, por não ser brincadeira, precisa aos montes desse amar sincero, que de tão sincero, faz dos dias uma baita brincadeira. A quem amou, fica um sorriso de canto de boca de alguém que te entende. A quem espera, fica uma mão no ombro de quem já te entendeu, mesmo sem saber. Todo mundo cabe na ciranda de roda. Então imagine seu primeiro brinquedo e ame. Ame, porque amar é brincadeira de verdade.
O balanço e o gosto
[Terei prazer em dizer aos meus netos uma daquelas frases de efeito. Imagino eles, na flor da infância, saindo por aí e dizendo aos risos sobre o que o avô deles dizia. Talvez o ufanismo sentimental tenha me agarrado com força na manhã de hoje, mas é certo que balançar na rede dos sonhos futuros não é crime nenhum].
A beleza, senhores, mora nos detalhes. Eles, quanto mais ricos forem, escancaram sua boniteza como num convite colorido de aniversário. Data, hora e local. É do que precisamos para um encontro, por exemplo. Pra quem ama, aliás, o encontro é justamente o tema da festa. É quando o vinco de concreto das arcadas de pedra de uma ponte de parque (perdão pela aliteração) viram o riso de uma lembrança. Ou quando o cheiro do momento, que nem se pode explicar, aguça aquele arquivo de coisas da memória e te fazem tossir uma risada e uma aceno de cabeça.
Sobre a frase de efeito que falarei no amanhã, somente uma me vem à cabeça assim, tão certa de si: “A felicidade tem gosto de hoje”. E mesmo que balançando na rede dos sonhos futuros, vamos lembrar que estamos aqui - e agora.

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A flor da pele
O arpejo pede os quatro dedos bem posicionados nas cordas, em uma simetria prestes a entrar em movimento, naqueles segundos em que se expira toda a desatenção. Toque. A pele vibra pela conquista. Como é diferente ser mexida assim, em tão doce harmonia, em tão firmes pinceladas na pele borrada de tinta. Tinta. Pinta a pele com uma flor. A pele é marcada com uma mistura de vermelho. O vermelho do sangue, da rosa, da boca, do copo de vinho, do beijo no copo, da borda do fogo, do céu que acompanha o dia até a porta no descalabro da luz, da marca de unha nas costas e do que escorre da agulha durante uma tatuagem. A pele. À flor dela, no solo fértil com cheiro de gente, a flor dela brota e se finca. Os espinhos não deixam escapar pelas mãos, ao menos que mais do vermelho escorra. Os mesmos quatro dedos bem posicionados também se fincam; na pele, vive a permanência. Da tinta, do toque, da flor, do que for pensado e se quiser manter apesar de todas as camadas que caem, apesar da cor que empalidece, apesar da pétala que se derruba. O toque, meu amor, é a flor da pele. Em todo seu significado.
Moletom
Peguei o moletom sem você pedir. Não fazia frio, mas o vento era de uma cara de pau sem tamanho. Entrava em alguns sopros gelados de sete e meia e fazia brotar o arrepio do corpo. Você costumava gostar do frio que a noite causava. Não via sentido em viver naquele tempo do ano sem sentir um pouco do clima. “Eu gosto do frio”. Sei bem, meu bem. Mas sempre encostava a janela, já que eu perambulava sem camisa pelo quarto quase o tempo todo. É tão forte a sensação de sentir tudo num curto espaço de quarto, cama e tapete, no aconchego da companhia da felicidade. Essa que nos acompanha, deixa clara a água onde repousamos os pés cheios de areia fina da uma praia sem mais ninguém. As passeatas fundas do pensamento vêm aos montes quando estamos lado a lado, na praia ou na cama, à beira da janela de ferro comido ou à espera de novas noites de frio.
Cabe (a)o amor
A alma jovem desacostumada aos sorrisos leves tinha certa dificuldade em aceitar a beleza da vida. Podia uma vida tão dura pegar sua dureza e dar lugar a uma fagulha de paz? A pergunta era quase retórica, tamanho o esforço de se encontrar motivos pra soltar as amarras de uma longa história sem sabor. Como é que de repente o peito se enche?, perguntou com as sobrancelhas franzidas. Como se preenche um espaço com tanta sobra, como se seca o mar de emoções tão rapidamente? O mesmo mar dos contidos que seca, é o mar do ajuizados que transborda e faz pensar, com a mão por entre os cabelos: Cabe em mim tudo isso? O mundo não se vê preparado para as coisas maiores do que ele. Nem tanto por não caber: o mundo é teimoso. É o filho doente que pegou resfriado pelos pés no chão, e não assume o erro, dando, tão facilmente, a razão, à mãe preocupada e que sabe o que diz. Mundo, escuta com atenção. Não só você, escuta também o peito que se diz pequeno, a paz que não quer fazer as pazes e o coração que é o protagonista: cabe o amor. Sim, por cima de todo o impossível, de todas as barreiras do tempo e do espaço, cabe ao amor. O amor cabe em cada pedaço sem solução do quebra-cabeça, que se monta num toque. Quando as luzes caírem, lembra sempre do amor que sente; a alma jovem desacostumada ainda há de crescer e os sorrisos e a leveza farão valer toda a primeira dificuldade.
Na aula de amor próprio fui dos alunos mais inquietos
Na carteira branca da sala escrevi, aos trancos, com meu compasso, que o espelho é inimigo íntimo do meu sossego. Em meio às declarações de guerra a meus trejeitos, vi que palpitava em mim a vontade de entender quando foi que a alegria deu palavra de ordem pra fuga do meu riso. Quando foi que a saudade de mim virou decreto de lei. Quando foi que me deixei. O diálogo da razão com a emoção se acaba cada vez mais, em cada decisão tomada. Como se uma parte de mim tomasse conta de todo meu ser, fazendo o peso pender em meu corpo e minhas mãos se afastarem. Não conseguia aprender que eu, antes de qualquer pessoa, deveria ser meu par. Me colocar pra dormir, me acariciar, segurar no colo e secar as lágrimas.
O desinteresse era aparente nas aulas da vida. Mas uma hora, com o ouvido atento, com a mente sã e músculos livres de tensões, coloquei os ensinamentos em prática. Nessa artéria tem sangue, esperança, dedicação.
Tem a vida, com todo (meu) amor
(Por Bia Fortes @textualizei e Lucas Berti @poemaretrato)
Crônica madrugada
Caminhamos por horas e horas pela estradinha pouco iluminada até chegar aqui, por volta das 5h da manhã, todo encasacados e com o gelado do vento na garganta. Fazia muito frio, mas a gente ficava naquela entre esquecer dele pela conversa gostosa e lembrar dele pra apertar ainda mais as mãos dentro das luvas pretas de couro. Saíamos da mesa de jantar perto das 23h, quando todo mundo já mexia nos farelos do prato naquela clima de fim de festa. “Vamos dar uma volta”, eu disse. Tudo era paz, a resposta veio com um aceno de cabeça e um alerta de que, bom, fazia frio. Pegamos os casacos e saímos por aí. Como as noites vinham cedo por ali, perto da meia noite era um breu sem tamanho. Mas estávamos acostumados a entrar no escuro juntos e inseparáveis, até acostumar os olhos em meio à noite, igual sempre fazíamos na hora de apagar a luz. Curioso. Apesar do escuro, da luz apagada e da vontade de andar sem hora e rumo pela madrugada - e pelo pretinho básico de que tanto gostamos e que serviu até pra escolher a luva de couro - nosso caminho era claro e terminava nisso aí.
Num nascer de sol sem a menor preocupação.

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Alma crua e fria de luz arredia se esvazia de toda a vil lembrança e hoje é quente ardente na gente
Poema Retrato
10 atos de auto-amor Admire-se Curve-se Encolha-se Deite-se Contraia-se Retraia-se Debruce-se Esparrame-se Espelhe-se Ame-se
Poema Retrato
Amores que abalam são inabaláveis Como se faz com maquiagem, chegamos em casa e deixamos escorrer na pia. Não é mais preciso impressionar o mundo. Mas aí entra o maior dos deslumbramentos: o nosso. Nele não há camadas montadas, só pele colada uma na outra. Como tatuagem, sentimos aquela dor discreta de um amor impossível, quase que numa ficha caindo. Permanente. Querer estar junto até quando se está; tem como ser mais louco e nosso esse amor sublime? Tem e muito. A cada dia.
Poema Retrato
De um grande sentimento se abre uma bifurcação. Dela se sente a correnteza. Incerteza e a plenitude. Basta remar
Poema Retrato