As três Antonias disseram que viram PARTHENOPE DELLA TORRE passando na praça de manhã, você ouviu? Não é de se espantar, já que PARTHE/THENA tem 30 ANOS e quase todo mundo aqui já conhece a rotina dele por estar em Monteluna HÁ SETE ANOS. A cidade pode até estar mudando, mas ela segue firme sendo bastante GENTIL, mas também tendo seu lado RESERVADO. Ela continua se parecendo com ADRIA ARJONA e ESTÁ ansiosa para conhecer os novos moradores!
Um vestido de luto esquecido numa cadeira, roupas de linho, perfume derramado sobre cartas antigas, espelho rachado, ópera italiana num disco arranhado, flores secas. Mãos manchadas de tinta e cal. Cabelos soltos como algas em maré baixa. Um crucifixo de madeira carcomida pendurado por fé. Cadernos com esquemas rabiscados ao lado de versos. Um vestido de linho lavado mil vezes. Gatos que aparecem sem serem chamados. Uma escultura rachada no jardim coberta de musgo. Cartas nunca enviadas dentro de caixas de chapéu. Poeira dançando na luz da manhã. A palavra “rovina” sussurrada como oração. Lágrimas que não caem — ficam presas na garganta.
RESUMO
Parthenope, Parthe ou Thena, é uma arquiteta napolitana melancólica e de alma antiga, vinda de uma família de riqueza decadente à beira do Mediterrâneo. Seu irmão gêmeo, Aureliano, tirou a própria vida quando tinham cerca de 20 anos — uma perda que marcou profundamente sua vida e obra. Ela se mudou há alguns anos para Monteluna, onde restaurou uma antiga capela e passou a viver em seu estúdio de arquitetura, num espaço que é ao mesmo tempo santuário, túmulo e ateliê.
Reservada, intensa e envolta em um ar de luto elegante, Parthenope vive entre o passado e a pedra. Com a recente chegada de novos moradores à cidade, ela observa com desconfiança e curiosidade esse renascimento coletivo, dividida entre o desejo de preservar seu silêncio e a possibilidade de se reconectar com o mundo.
A arquitetura, para ela, é tanto profissão quanto linguagem secreta — um jeito de falar com os mortos e, talvez, encontrar um novo lugar entre os vivos.
CONEXÕES DESEJADAS ; DELLA TORRE ATELIER
DETALHES . . .
Parthenope e seu irmão gêmeo, Aureliano, cresceram como príncipes de uma dinastia em extinção. A Villa Della Torre, à beira do mar napolitano, era cheia de tapeçarias, salões vazios e espelhos manchados. A mãe era ausente e dedicada à astrologia, sujeita a ataques de humor. O pai era um colecionador de artefatos etruscos e dívidas. Aureliano era sua alma gêmea, seu reflexo — mais expansivo, mais vulnerável, talvez mais frágil. Eles compartilhavam diários, rituais secretos e uma linguagem só deles. Quando ele morreu, ela não apenas perdeu o irmão: perdeu metade de si. O suicídio aconteceu durante os estudos universitários em Roma, pouco antes da formatura. Aureliano pulou do alto de um hotel. Thena estava no meio de um projeto sobre jardins suspensos e nunca terminou. Ela nunca mais voltou a Roma.
Parthenope chegou em Monteluna numa manhã abafada de setembro, alguns anos atrás, quando as cigarras ainda gritavam e a cidade era quase só ruínas, silêncio e pedra. Veio sozinha, com poucos pertences — um baú, um estojo de desenho, algumas roupas, uma caixa de madeira entalhada com os cadernos de Aureliano, e um coração tão mastigado pelo luto que ela mal percebia mais a dor, só o som de fundo que ficou. Não disse a ninguém que vinha. Nem sabia se ficaria. Escolheu Monteluna porque ninguém a escolheria. A cidadezinha, com suas casas vendidas por um euro, parecia uma espécie de purgatório pitoresco, onde os mortos poderiam caminhar ao lado dos vivos sem que ninguém fizesse perguntas. A casa que comprou era a antiga igreja abandonada, que ela restaurou com cuidado e reverência. Dormiu semanas em um colchão no chão, cercada por poeira e cheiro de madeira molhada, até que o espaço começou a lembrar algo entre uma cripta e um ateliê renascentista. Só então, começou a desenhar de novo.
Thena vive uma rotina que parece feita de rituais: Acorda cedo, acende velas, ouve rádio antigo. Toma café forte, quase sempre sozinha, olhando pela janela. Passeia pelo vilarejo com seu cão, no encalço, sem pressa, mas como quem inspeciona ruínas sagradas. Conversa pouco, mas com elegância — frases curtas, voz suave, sotaque napolitano que não esconde. Trabalha no estúdio até tarde da noite, iluminada por candeeiros ou por luar. Vai ao cemitério todos os domingos, embora ninguém saiba bem por quê. Gosta de ficar na praça principal observando os outros, como quem assiste a uma peça que não quer participar. Aos olhos dos moradores antigos, ela é “a bela estranha” — reservada, educada, um tanto assombrada. Já foi chamada de viúva sem marido, de santa blasfema, de fada triste. Todos têm uma teoria. Ninguém está totalmente certo.
Com a nova leva de gente comprando casas por um euro e tentando reinventar Monteluna, Thena se vê pela primeira vez cercada de ruído. Pessoas jovens, famílias barulhentas, artistas desorganizados, idealistas otimistas demais. Um punhado de estrangeiros com ideias de “comunidade”, “empreendedorismo local”, “turismo sustentável”. Uns querem transformar Monteluna em um destino boêmio. Outros querem plantar lavanda e abrir bistrôs. Ela observa tudo com um misto de curiosidade, irritação e leve temor. Por um lado, Parthenope gosta da ideia de vida renascendo — as luzes acesas, as paredes sendo pintadas, crianças correndo pelas ruas de novo. Há algo de bonito ali, algo que, talvez, o irmão gostaria de ver.
Por outro, sente-se como uma sílfide num conto invadido por personagens de outro gênero. A cidade que ela escolheu porque era deserta está se enchendo de vozes. E ela, que finalmente se sentia livre no silêncio, agora se pergunta onde se esconderá da esperança dos outros. Ainda assim, de forma lenta e contida, começa a se envolver. É consultada sobre restauros. Às vezes, ajuda com projetos. Em silêncio, às vezes esboça melhorias na praça principal. Às vezes, deixa pão ou flores na porta de alguém novo. Quase nunca assina. Talvez esteja esperando um motivo para ficar de verdade. Ou alguém que entenda a língua do luto que ela ainda fala — mesmo quando sorri.
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Diferente do irmão, quando Samuel decidiu morar longe dos pais, também decidiu morar longe do antiquário, para que em seu horário vago tivesse um descanso de verdade, preferia atravessar a cidade em sua moto, mesmo com o vento gelado, do que ser incomodado a qualquer momento. O loiro não é o tipo que costuma cuidar da casa, principalmente pelo lado de fora, logo não é incomum que a grama, os arbustos, os matos e também as flores, nasçam de forma desenfreada, deixando seu lar com cara de abandonado. Samuel avistou a movimentação um tanto estranha em sua entrada e saiu apenas para fazer seu papel de dono preocupado. Observou o comportamento alheio, não era a primeira a desejar as flores, de qualquer forma ele não se importava o suficiente. — Difíceis de achar? Essas aí crescem igual o mato que tem volta. — Comentou, com certeza Sam não entende de flores. — Elas realmente estão abandonadas, eu não sei cuidar. — Confessou com naturalidade.
Parthe limpou as mãos nos jeans, ainda ligeiramente desconcertada por ter sido pega bem no ato (definitivamente ilícito). E com o dono da casa, ainda por cima. Que deus a perdoe! Ela tentou sorriu. "Ah, não... Elas dependem de condições muito específicas do solo e do ano, e os botânicos cobram uma fortuna..." Tentou se defender, mas a cada palavra, soava um pouco pior. Ela inclinou a cabeça. "Eu não diria abandonadas, mas definitivamente... Precisando de um trato." E Parthe sentia que era seu dever divino fazer algo pelas plantas. "Eu posso ajudá-lo com algumas dicas... Se quiser. Em troca de uma muda. O que acha?"
Eu não acho que seja bobo. Acredito que é um sentimento válido, considerando que a gente tá acompanhando os efeitos dessas mudanças. Serena afirmou, tomando um gole da própria bebida quentinha. "Na verdade não me incomoda tanto. Por conta do bar, é interessante, afinal são mais clientes chegando. A quantidade tem aumentado a cada dia e isso é ótimo!" Ela explica, levemente pensativa. Mas ao mesmo tempo, eu fico com um pouco de receio da cidade acabar perdendo a essência dela, sabe? "Não que eu seja extremamente ligada ao tradicionalismo, mas algumas coisas, pequenas... eu acho que poderiam ser preservadas. Por exemplo, colocar músicas locais lá no bar, manter alguns pratos de petiscos que são mais tradicionais de Monteluna... eu não abriria mão disso. É pouco, mas acredito que ajuda a manter a cultura local."
"Você tem um ponto. Fico feliz que as coisas no bar estejam indo bem," Parthe acenou com a cabeça. Nova clientela, até para ela mesma, com as reformas. Era objetivamente bom, para uma cidade tão envelhecida. "E se o dinheiro que está chegando em Monteluna está indo para as mãos dos produtores e comerciantes locais, acho que isso me deixa mais feliz que ciumenta. " Ponderou. Ao mesmo tempo, Parthe sentia-se um pouco invadida, como se seu esconderijo estivesse sendo exposto e ela, aos poucos, forçada para fora dele. "Mas é como você disse: não transformar a cidade numa caricatura dela mesma. O que me frustra mesmo são aqueles que chegam aqui com uma ideia de Itália de Hollywood." Ela riu e então deu de ombros. "Acho que toda essa gente fez com que muitos jovens escolhessem ficar, não é mesmo?"
Noora estava atóa em seu sofá quando ouviu o barulho da porta, logo que se aproximava sentia o cheiro fresco de massa, era Porthe, reconheceu pela voz, a agora novamente morena sorriu. "Você acha que eu iria recusar uma massa fresca do jeito que essa está cheirando." Deu espaço para Porthe passar. "Eu achei essa ideia brilhante. " Fechou a porta depois que a outra entrou. "Eu vou arrumar a mesa. "Disse indo em direção a copa, colocando dois pratos, dois talheres pra cada e duas taças, Noora era ágil. "Quando se fala em comida, eu não brinco em serviço.
Parthenope sorriu. Ainda tinha um pouco de farinha de trigo nas mangas, da mesma forma que durante o trabalho, às vezes tinha cal. "Acho bom mesmo. Passei a tarde nisso, você não imagina o caos na minha cozinha nesse momento." Massa fresca era uma atividade laboriosa, mas também terapêutica; talvez por isso as Nonnas fossem tão espiritualizadas. Parthe sovara a massa, cortara com as próprias mãos, colocara toda aquela energia na lasanha. "Talvez eu tenha exagerado no tamanho... Acho que é por isso que as Nonnas têm muitos netos --- elas nunca sabem a medida de nada, só cozinham com abundância." Riu, sentando-se na mesa. O vinho que trouxera debaixo do braço foi colocado no centro e a fumaça deliciosa abria o apetite, e a vontade que Parthe sentia por conexão. "Já que não tenho netos, sobram os amigos. Vou deixar você fazer as honras."
Com o lado de um dos lados do fone tocando uma música pop genérica na orelha, Chiara batia suavemente a caneta rosa contra o caderno de anotações no ritmo; estava escrevendo as informações necessárias com a nova leva de livros no papel quando ouviu Thena a chamando. Pausou a música para a ouvir e abriu um sorriso ao afirmar com a cabeça em confirmação de sua pergunta "Hoje mais cedo, já separei eles." se abaixa atrás de uma das partes do balcão para pegar a pilha de livros com um post-it rosa colado nele com o nome da mulher, tira o papelzinho antes de empurrar a pilha para seu lado "Esse de tarot é lindo, dei uma olhada" finalmente levanta o olhar para a mais velha com sua pergunta e solta uma risadinha leve "O professor passou mal, parece que pegou a mulher traindo ou algo assim..." da de ombros, sem dar importância para o assunto "ouvi dizer que tem uma menina trabalhando com você agora, como tá sendo?"
Os olhos de Parthe brilharam quando a mais nova colocou os livros sob o balcão. "Que maravilha!" Exclamou. Rapidamente, folheou as páginas do livro de misticismos, com capa dura e detalhes floreados em dourado. Parthe amava livros bonitos. "É uma edição de luxo, e vem com um deque do tarot de Marselha." Abriu a caixa, onde estavam as lâminas coloridas. "Dizem que não se pode tocar o tarot de outra pessoa, mas eu não acredito nessas coisas," riu. "Uau, parece o tipo de coisa que eu perguntaria ao tarot. Adoro fofocas místicas, sabe?" Parthe deu de ombros. Ela estava num lugar muito curioso entre o não acreditar e o acreditar no sobrenatural. Em sua maior parte, se divertia com as tiragens do baralho, e usava quase como uma terapia involuntária. "Ah, tem sim. Beatriz. Uma brasileira. Muito querida. Já conheceu ela? Me parece o tipo de pessoa que você gostaria."
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Era engraçado como o sorriso bobo aparecia de forma automática na presença da arquiteta, sem nem mesmo fazer algum esforço, soltou um riso anasalado com o comentário da mesma, pensando no quanto ele não fazia sentido, pelo menos para si que conhecia as crianças para quem dava aulas. — Não atrapalharia, você ficaria surpresa em como eles gostam de plateia, a aula até rende mais quando tem um pai ou dois assistindo. — Afirmou boba, por um momento relembrando as situações onde todos se comportaram e foram dedicados por terem alguém assistindo, em sua maioria um pai ou mãe. Não foi à toa que Alessia pediu um design de banquinhos dentro da sala e não somente pelo lado de fora, foi uma estratégia muito bem pensada nos pequenos. Assistiu Parthe atravessar a sala em sua direção, paralisando por um momento, sem mesmo saber o que acontecia consigo, correspondendo ao beijo dado apenas em um reflexo, pois parecia uma adolescente novamente para quem assistia de fora, por sorte não existia plateia naquele momento. O comentário alheio lhe pegou de surpresa, costumava ter uma resposta na ponta da língua para muita coisa, mas com Parthenope ponderava antes, tentando não soltar a frase errada na hora errada. — Achei que quisesse ver o estúdio com vida que só as crianças conseguem trazer. — Respondeu sincera, não era num todo uma mentira, mas não poderia negar que o outro cenário - sem as crianças - também lhe agradava. — Mas você tá sempre convidada a vê-las. Gosto da ideia de hoje tua atenção estar em mim. — Rebateu com os olhos fixos na outra, distraindo-se por alguns segundos para mirar os lábios à sua frente, deixando implícito que gostou de estar solo com ela. — Só elogios, acredito que tudo que você toque, não tem reclamações. — Respondeu à pergunta alheia, ainda que não soubesse mais se estava falando da parte profissional ou deixando sua mente fértil vagar pelas cenas que seu corpo gostaria de vivenciar. — Antes de focar no estúdio, eu preciso tirar essa roupa. Você pode vir comigo. — Informou, voltando sua atenção ao que estava prestes a fazer antes da mulher chegar.
Parthenope sorriu, sentindo-se quase boba demais. O sorriso de Alessia alimentava o dela própria, quase uma reação involuntária. Exceto que era totalmente voluntário. "Eu quase me esqueço que estamos lidando com artistas mirins aqui. É claro que elas adoram atenção." falou, colocando uma mecha do cabelo atrás da orelha. Sim, faria muito mais sentido que Parthe tivesse vindo num horário comercial, mas pouca coisa fazia sentido dentro dela naquele momento, pra falar a verdade. As borboletas em seu estômago, por exemplo. "Posso voltar outro dia. Sempre, se não se importar."
Então Parthe não se enganara quanto as intenções dela. Ainda sentia o leve perfume dela de quando se aproximara para o beijo (não totalemnte) casto na bochecha. "Bom, eu toquei você. Espero que a afirmação ainda seja válida." E Alessia retribuía o flerte, quase como se estivessem dançando. E Parthe era bem flexível. Quando a outra mencionou gostar da ideia da atenção individual de Parthenope, um arrepio desceu por suas costas. Ela observou os lábios da bailarina, então voltou-se para seus olhos. Brilhantes demais. O ar quase ficou preso na garganta. "Então devo presumir que tenho direito a uma apresentação à parte? Posso ajudar com o figurino — ou com a falta dele."
Parthenope equilibrou a travessa entre as mãos, batendo de leve com o cotovelo na porta de Noora, antes de empurrá-la de leve com familiaridade ao ouvir a aquiescência da outra. “Espero que esteja com fome,” anunciou, o cheiro de massa fresca e ervas tomando conta do pequeno espaço conforme entrava, ainda com o lenço no cabelo e a pele levemente corada do calor da cozinha. Parthe pensou que parecia sua avó — não sua mãe. Nunca sua mãe. Mas Calista Della Torre, doce e amável e uma magnífica cozinheira. Depositou o prato sobre a mesa e virou-se com um sorriso cúmplice. “Resolvi que era noite de lasanha, e não ia ter graça comer sozinha. Trouxe vinho também, antes que pergunte.” Embora Parthe fosse reservada, e pouco propensa a intromissões como aquela, sentira hoje algo que a impelia a buscar companhia. Talvez uma melancolia mais profunda, uma espécie de saudade. "Eu me sinto meio minha avó quando cozinho. Uma Nonna Della Torre de verdade." Parthe riu. "Então? Vamos?"
não tinha noção de quanto tempo fazia que estava parada na mesma posição até se virar em direção a parthenope e sentir o corpo todo doer em protesto. a lupa, que usava para analisar milimetricamente a moldura de madeira à sua frente, foi posta de lado, assim como os óculos — os quais só usava quando estava no estúdio. “eu aceito ir a qualquer lugar. já faz tanto tempo que estou aqui que nem lembro que dia é hoje.” brincou, aceitando o raminho de lavanda. “se bem que acho que não deveria falar essas coisas pra você. pelo menos não enquanto ainda estou em horário de trabalho.” o comentário saiu de forma automática, enquanto levava o pedacinho da planta ao nariz, respirando o aroma que, diga-se de passagem, era o seu favorito. a menção da família fez um nó se formar na garganta de beatriz, que tratou logo de exibir o maior sorriso que pôde, enquanto se levantava. “ah, não, imagina. a única coisa que posso dizer de você é que você é um anjo. ainda não sei nem como agradecer por você ter me aceitado aqui.” desde que chegara em monteluna para trabalhar no della torre, beatriz tentava se dedicar ao máximo para provar para parthenope que não era uma completa maluca e que, apesar dos seus outros motivos, estava sim interessada em contribuir com o ateliê. “já estava convencida só com o vinho e a focaccia, mas agora que você prometeu curiosidades, virou obrigação moral aceitar.” pegou o casaco e a bolsa em cima de uma das bacanas, equilibrando os dois no antebraço enquanto removia as luvas. “aliás, faz quanto tempo que você está aqui na cidade?” perguntou de repente ao passar pela outra, com uma curiosidade genuína nos olhos.
Thena soltou uma risada. "Eu nunca me lembro de que dia é hoje. Semanas são um conceito tão ultrapassado," brincou ela com um aceno de mão. É verdade que Parthenope passava tempo demais misturando sua vida pessoal com seu trabalho, quase como se não tivessem divisórias ---e de fato não tinham, considerando que a única coisa que separa a cama dela e a área de trabalho é um cortinado de veludo. Apesar disso, morar no Atelier a deixava inspirada, e inspiração a deixava feliz. Estar feliz é o que importa, certo? "Bom, só por você aguentar as bizarrices desse local de trabalho completamente impróprio, eu diria que quem saiu ganhando fui eu." Ter funcionários no Atelier não foi algo que Parthenope previu quando começou com o empreendimento. Queria ela mesma fazer tudo, como fizera com a restauração da capela onde agora morava e trabalhava. A solidão não era tão ruim. Com o tempo, passou a desejar e precisar de companhia; alguém para lidar com os detalhes. Alguém habilidoso e agradável, como Bea. "Ninguém resiste ao vinho e focaccia," Thena concordou. Encaminhavam-se para a saída, pegando o próprio casaco, quando ouviu o questionamento. "Uns sete anos? Oito? É quase um borrão. Era setembro. Sinceramente, parece quase toda uma vida." Exceto que não era toda uma vida. "Eu cheguei meio que igual à você, sabe? Menos a proposta de emprego. Eu não tinha nada." Nem em Monteluna, nem em Nápoles, nem em qualquer lugar. Ela tentou chacoalhar os pensamentos melancólicos ao soltar os cabelos. Fechou a porta da capela atrás de si. "Monteluna requer um pouco de coragem, não acha?"
Numa cidade onde as entregadoras apareciam apenas algumas vezes por mês, onde o carteiro deixava suas encomendas com o vizinho do vizinho porque ele próprio era um vizinho, receber livros era uma tarefa difícil. Então talvez por isso a livraria da cidade ainda era muito bem frequentada, e seus pedidos feitos por ela eram muito mais propensos a de fato chegar. Parthenope caminhou até lá, apreciando a atmosfera do lugar, e encontrando Chiara atrás do balcão. Ela arrancou-lhe um sorriso. "Chiara mia Cara," ela falou. "Você sabe se meus livros chegaram?" Havia encomendado um guia arquitetônico de capitéis italianos do século XIX, além de algumas edições de tarot. "Você não deveria estar na faculdade hoje?"
Parthenope surgiu no canteiro de obras como se fosse parte da própria estrutura — roupas manchadas de poeira e cal sem o menor constrangimento, uma prancheta equilibrada debaixo do braço e um lápis preso no coque desalinhado. Seus olhos captaram Marvin, ajustando algo no telhado provisório, e ela, sem cerimônia, apontou com a prancheta: “Marvin, quando terminar aí, será que consegue me ajudar a subir? Preciso revisar aquele arco antes que sequem o rejunte.” Já largava a prancheta no primeiro degrau da escada quando lançou um sorriso enviesado. “E antes que venha com sermão sobre segurança, prometo não cair. Hoje não, pelo menos. E se você insistir muito, posso fingir que me importo com a cordinha anti-quedas.”
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Estar no ateliê fazia bem a Charlie, era quase como estar em casa, cercada por toda aquela arte, talvez fosse uma boa maneira de acabar com seu bloqueio criativo, tinha empacado em uma parte especifica do projeto da La Musa e parecia não conseguir encontrar o detalhe final. Olhou em volta por um momento, equilibrando as plantas em suas mãos, até que a amiga a notasse ali. " pois eu escolho o café, ando sem confissões para fazer no momento. " disse com certo humor, colocando as plantas de lado em um canto qualquer. " quem ainda usa MDF? e bom saber disso, caso venham atrás de mim já terei um ótimo argumento para recusa-los. Mas no caso não, na verdade deixaram essas plantas na porta da minha casa de um Euro, e bem, no momento não tenho um bom lugar ou muita utilidade para elas, pensei que pudesse ter alguma ideia pra elas. "
Parthenope deixou escapar uma risada baixa e genuína, aquela que vinha mais fácil quando Charlie estava por perto. Depositou a xícara na mesa com um tilintar suave e limpou as mãos num pano qualquer antes de se aproximar das plantas, arqueando o corpo com a curiosidade natural de quem estava sempre à caça de novas texturas, formas, qualquer detalhe que despertasse a mente. “Abandonadas à própria sorte, coitadas,” murmurou, passando os dedos pelas folhas com uma leveza quase reverente. “Monteluna tem dessas coisas, você já reparou? Às vezes é como se a cidade em si conspirasse para nos empurrar para novos projetos sem pedir permissão.”
Ela virou-se, um brilho divertido nos olhos enquanto alcançava a cafeteira. “Vou te dizer o que fazemos: colocamos essas plantas num canto de honra lá fora, para ver se atraem mais sorte do que poeira. E você me conta como anda seu progresso na La Musa." Falou em tom de conspiração, animada. "Quem sabe um café forte e umas ideias soltas não façam a criatividade fluir... Duas cabeças pensam melhor do que uma. Ou pioram tudo de vez, o que também tem sua graça.”
Um pouco antes da última aula iniciar, lembrou que a responsável por complementar boa parte da estrutura do estúdio, nunca esteve presente para vê-lo em uso, já que antes havia deixado a relação puramente profissional, ainda que houvessem sensações implícitas em suas interações. O contato no evento de Páscoa abriu uma curiosidade e acendeu uma luz na bailarina, fazendo-a pagar para ver no que daria. Não muito sútil, enviou uma mensagem para Parthenope convidando-a para assistir a aula, entretanto, o tempo passou, a aula acabou e Alessia se viu sozinha no espaço espelhado, como em muitas outras vezes.
Era amante do silêncio e da solitude, algumas vezes aproveitava do momento final para desenhar alguns passos frente ao espelho, para não perder a prática e muito menos o costume, mas naquele não seria um dia desses, então após ajeitar um pouco o espaço, fazendo algum tempo por ali, decidiu cobrir-se com um de seus roupões, quase como saídas de banho compridas, escondendo a peça típica e colada que vestia por baixo, seus fios de cabelos escuros decidiu soltar, deixando-os um tanto bagunçados e marcados pelos grampos de cabelo que usava anteriormente. Ficou um tanto surpresa ao ouvir o barulho que indicava presença na entrada e abriu um sorriso ao colocar seus olhos sobre Parthe. — Achei que você não viria mais, a aula com os pequenos já acabou, mas ainda posso te mostrar como ficou o projeto totalmente pronto, eu só tinha começado a me desmontar. — Declarou a observação de forma carinhosa, talvez terminaria o que começou antes de seguir em diante.
Parthenope deleitava-se em ver seus projetos em ação. Gostava de espaços movimentados, não mausoléus intocados; preferia a bagunça viva do dia a dia às imagens congeladas dos portifólios e revistas de arquitetura. A forma deve servir ao homem, não o homem à forma. Visitando seus projetos assim, podia ver o que errara, o que podia ainda melhorar. Será que o espaço para que as pequenas bailarinas guardassem suas bolsas estava adequado? Será que aqueles bancos de madeira que colocara na entrada tinham utilidade? Mas se seu objetivo fora ver o espaço em ação, com todas aquelas pequenas bailarinas andando por aí, Parthe enganara-se quanto ao horário.
Ou talvez ela apenas quisesse um momento à sós com Alessia.
Parthe entrou no estúdio, procurando por ela em uma das salas. É claro que estaria mentindo se dissesse que sua relação era estritamente profissional. Que não notara — e retribuira — os olhares da bailarina durante a confecção do projeto. Que não adorara o tom de provocação e flerte da Páscoa. Com o coração saltitando como as bailarinas, ela encontrou a outra na sala espelhada. Observou por um momento, sem que ela notasse sua presença, como o projeto era inteiramente adequado a Alessia, com seus cabelos soltos e ainda ligeiramente presos pelos grampos, e as roupas de bailarina que caiam-lhe tão bem. "Não pare por minha causa. Não quis atrapalhar a aula com os pequenos," Parthe falou, finalmente, cruzando o piso de linóleo para encontrar Alessia e dar-lhe um beijo da bochecha, de cumprimento. "Pensei que quisesse um momento mais solo para me mostrar como ficou o estúdio." Havia um tom levemente provocador em sua fala, como se testasse as águas. "Então? Reclamações, sugestões, feedbacks são bem vindos."
O sol já se despedira quando Parthenope se encostou na antiga porta de madeira do ateliê, tirando as luvas e sacudindo delicadamente a poeira dos dedos. O silêncio se espalhava pelos arcos da capela transformada em oficina, e ela chamou Beatriz com um sorriso suave, tirando do bolso um raminho de lavanda recém-colhido. “Bea, hoje tivemos pincéis, vernizes e tintas de séculos inteiros — e acho que merecemos algo diferente pra encerrar.” Ela empurrou a cadeira, fazendo o tilintar inesperado de metal ecoar pelo espaço. “Que tal um passeio pelo centro histórico?" Thena entregou o raminho à brasileira, os olhos brilhando de curiosidade contida. “Podemos tomar um vinho sob as arcadas com uma focaccia. Gosto de pensar que você vai contar pra sua família que eu sou legal, e não uma maluca workaholic.” Ela bateu com a palma da mão no batente da porta, como convidando a sair. “Vamos? Sei de algumas curiosidades sobre a cidade... e fofocas.”
Soltou uma risadinha da pergunta e seu olhar mudou para a cesta perto da mulher, apertando os lábios como se compadecesse pelo sofrimento alheio. "Na verdade eu desisti no primeiro, porque quando encontrei e fui pegar, chegou uma criança correndo dizendo que ela que achou e merecia mais já que ela era a criança." Contou o acontecimento, fazendo uma careta em desanimação. "E eu queria pelo menos esperar uns meses antes de fazer inimizades na cidade, já que a mãe da criança estava olhando com uma cara nada agradável." Deu de ombros por fim, voltando a sorrir. "Você está bem com um então."
Parthenope riu de verdade dessa vez, o som escapando leve, com gosto de quem já aceitou a derrota. “Você foi mais sábia que eu. Eu teria encarado a criança como se fosse uma negociação diplomática — até sair humilhada e com fama de vilã local.” Ela pegou o único ovo da cesta, girando-o entre os dedos como se examinasse uma obra de arte. “Será que estou aqui pelo espírito esportivo… ou talvez pelo drama?” Ou pela memória de ser criança, e de ter um irmão. Endireitando-se, olhou para a moça, os olhos acesos de humor. “Mas olha, um ovo solitário é esteticamente mais impactante, não acha? Tem algo de poético. A heroína trágica, enganada pelas flores e vencida por uma criança.” E, num tom mais baixo, como se conspirasse: “A gente devia propor uma categoria de consolação pro ano que vem. ‘Prêmio de derrota mais patética', talvez.”
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Havia algo de transcendental na forma com quem Parthenope trabalhava; reproduzia as plantas à mão, ajoelhada no chão sobre o qual o papel estava estendido, bem no centro da obra, atenta aos detalhes. Com prédios tão antigos, não podia se dar o luxo de fiscalizar a construção de longe --- haviam pormenores técnicos e artísticos da restauração, frutos do inabalável espírito humano, que pediam atenção constante. Se possível, ela dormiria bem ali para garantir que nenhum erro crasso (ou minúsculo) fosse cometido contra o patrimônio histórico de Monteluna.
Então estava coberta de poeira até os cotovelos, os cabelos presos, o macacão jeans coberto por tinta e pó. Estava em seu habitat natural, respirando o cheiro de madeira cortada e de cimento fresco. Ao perceber uma figura ali, hesitou um segundo, cansada. "Cuidado com o degrau solto. E com as perguntas." Ela fez um gesto vago com a mão em direção ao interior do edifício que reformava, onde luminárias antiquíssimas pendiam de fios soltos e as paredes ainda esperavam pelo reboco italiano do século dezenove que ela estava reproduzindo no atelier. "Este lugar ainda não sabe se quer ser ruína ou recomeço. Já consegue visualizar?" Ela colocou as mãos na cintura, finalmente se dirigindo ao homem. "Foi a prefeita que te mandou aqui, ou...?"
Parthe andava sempre com um canivete na bolsa, o que podia levantar algumas sobrancelhas caso alguém a revirasse, afinal, Monteluna era uma cidade pacífica. Não como Roma (ah, como odiava Roma), onde se devia andar com uma espada, se possível. Não. Os motivos dela iam além da proteção. E agora, enquanto sacava a ferramenta do bolso interno da bolsa desproporcionalmente grande, caminhando em direção ao jardim externo da residência de algum desconhecido, seu propósito ficava claro. Ela se ajoelhou ali, no chão mesmo, e se esticou em direção ao arbusto florido. É nesse momento que um estalo ao seu lado faz com que ela quase corte seu dedo fora em vez de uma muda da flor. "Oras... Eu..." Ela larga o canivete ali, na esperança de que o espectador não tenha visto muita coisa. "Estava apenas olhando. Como são lindas nessa época do ano, não acha? E tão difíceis de achar... Simplesmente abandonadas aqui, do lado de fora!"