PORCO DE BATOM
Disseram que beleza era uma porta.
Passei a vida inteira
tentando aprender
como girar a maçaneta
com um corpo
que nunca parecia ter a chave.
Talvez,
se minha barriga fosse lisa,
me amassem.
Talvez,
se minhas pernas não se tocassem,
me escolhessem.
Talvez,
se meus peitos desafiassem a gravidade,
se minha bunda ocupasse menos espaço,
se minhas unhas fossem longas,
se meu rosto escondesse sua pele
atrás de camadas de maquiagem,
eu finalmente coubesse
na fotografia
que esperavam de mim.
Mas nem minha mãe
soube me olhar
sem desejar outra filha.
E se quem primeiro deveria me amar
não conseguiu,
como acreditar
que o resto do mundo conseguiria?
Olho para o espelho
como quem encara uma desconhecida.
Conto poros.
Dobras.
Fios rebeldes.
Invento monstros
onde existe apenas um corpo.
Foi isso que me ensinaram
desde criança.
Que algumas pessoas
nascem para serem amadas.
E outras
apenas para serem consertadas.
É como colocar batom
em um porco,
diziam.
E eu acreditei.
Troquei cabelos.
Troquei roupas.
Troquei dentes.
Troquei o peso.
Troquei a fome
pela culpa.
Vomitei até restar bile,
porque o vazio do estômago
doía menos
que o vazio do peito.
Ainda assim,
continuava ouvindo
que não bastava.
Nunca bastava.
Os homens aprenderam
a desejar meu corpo
antes de aprender
a respeitar minha existência.
E eu aceitava migalhas,
porque migalhas
pareciam um banquete
para quem passou a vida inteira
convencida
de que não merecia lugar à mesa.
Tudo era validação.
Era preciso que alguém dissesse
"você existe"
para que eu acreditasse
por mais um dia.
Então encontrei alguém
que dizia me amar.
Mas o medo
já morava em mim.
"Ele vai encontrar alguém mais bonita."
"Mais leve."
"Mais fácil."
"Mais mulher."
E enquanto eu tentava
diminuir meu corpo
para caber no amor de alguém,
ele partiu.
Escolheu outra.
Mais jovem.
Menos complicada.
Alguém que não era apenas
um porco de batom.
E eu fiz o que sempre fiz.
Chorei.
Sangrei.
Quebrei a mim mesma.
Outra vez.
Outra vez.
Outra vez.
Porque pensei,
mais uma vez,
que a culpa era minha.
Passei a vida
ocupando o quase.
Quase bonita.
Quase inteligente.
Quase engraçada.
Quase escolhida.
Sempre havia um "mas"
esperando no fim da frase.
Você é incrível...
mas.
Você é linda...
mas.
Você é especial...
mas.
E cada "mas"
pesava mais
que todos os elogios.
Passei tantos anos
tentando deixar de ser quem sou,
que quase esqueci
como é existir
sem pedir desculpas.
E quando,
por um instante,
ouso mostrar meu verdadeiro rosto,
as pessoas vão embora.
Elas sempre vão embora.
Então a velha voz
volta a sussurrar:
"Está vendo?"
"Você continua sendo
um porco de batom."
Mas talvez
talvez o batom
nunca tenha sido o problema.
Talvez a crueldade
esteja nos olhos
de quem ensinou um espelho
a mentir.
E talvez,
um dia,
eu consiga olhar para meu reflexo
sem procurar um porco.
Apenas alguém
que passou a vida inteira
tentando ser suficiente
quando,
desde o começo,
só precisava
ter aprendido
que já era humana.
E não, um porco de batom.













